David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for March, 2018

Sentada em um banco de praça

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Written by David Arioch

March 30th, 2018 at 7:30 pm

Artistas se unem e lançam coleção de contos infantis veganos

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São seis livros em que os protagonistas são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos

Livros estão à venda na lojinha do projeto PAZ (Imagens: Divulgação)

Desde 2014, Marcya Harco, Paulo Roberto Drummond e Daniela Benite realizam ações de artivismo em defesa dos animais. E foi com essa motivação que recentemente publicaram a coleção de livros “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais”, que apresenta às crianças alguns contos com histórias de animais comumente explorados. De acordo com o trio que compõe o projeto PAZ, sediado em São Paulo e que dá nome à coleção, eles tiveram a preocupação em apresentar cada história de maneira delicada e lúdica. Nos seis livros, intitulados “Vera”, George”, “Márcia”, “Gary”, “Jill” e “Ismael”, os protagonistas, que são animais, almejam sempre a liberdade e uma vida justa.

Um diferencial da coleção, e que ajuda a fortalecer a mensagem de que os leitores têm bons motivos para incluir também os animais explorados para consumo em seu círculo moral, é que em cada conto há um ser humano com um olhar sensível em relação aos animais lutando para salvá-los de qualquer exploração. Para entender melhor a proposta do projeto, entrevistei Marcya, Paulo e Daniela sobre a coleção e a sua receptividade, além da importância da literatura infantil e projetos futuros, dentre outros assuntos. Confira:

Sei que os livros da coleção “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais” são voltados principalmente ao público infantil, mas há uma faixa etária específica a quem essas obras são direcionadas?

Todos os contos são ilustrados e sugeridos para crianças a partir dos 3 anos​, com leitura compartilhada. Depois de alfabetizadas, são indicados para até 10 anos ou mais, dependendo de como tocam cada pessoa. No entanto, pessoas de todas as faixas etárias têm se interessado e adquirido os livros.

Como foi a ideia de dar nomes únicos de personagens a cada um dos livros?

Cada título leva nome de um animal que é personagem principal e tem a sua história de vida retratada. Sempre acreditamos que o animal incluído na comunidade moral teria o seu espaço como pessoa respeitado, com todos os direitos. Então é assim que o vemos. Nós já o incluímos e assim o tratamos. O nome corresponde à sua identidade como pessoa. Essa questão do nome é muito significativa. Conhecemos há muitos anos um fazendeiro que criava algumas vacas. Ele se afeiçoou mais a uma delas e deu-lhe um nome como pessoa. Depois ele teve muita dificuldade em permitir que ela fosse assassinada para consumo. Era visível a crise de consciência diante da possibilidade de morte da nova amiga.

Cada livro traz um conto diferente, o que significa uma história singular. Porém, há algo que une todas essas histórias como partes de uma mesma unidade?

​Sim, os protagonistas de ​cada história são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos: Jiil, uma vaca; Ismael, um porco; Gary, um peixe; Márcia, uma galinha; George, um peru; e Vera, uma coelha. Nesse primeiro momento foi primordial considerar os animais criados e abatidos em grande escala. Outra questão é que há, em todos os contos, um ser humano, criança ou adulto, envolvido na salvação de cada animal herói do conto.

Há um caráter de importância em ler todos os livros para entender melhor cada história?

​ ​​O interessante em ler toda a coleção é possibilitar às crianças a construção de um olhar sensível para todos os animais. Ao leitor ou leitora com mais vivência, permite ampliar a percepção para a desconstrução de histórias de exploração animal consideradas “normais” em nossa sociedade. É importante esclarecer que a coleção PAZ tem um caráter lúdico e delicado, com uma linguagem extremamente acessível a todos e todas.

Como vocês veem a importância da literatura infantil contra a exploração animal?

​As obras literárias, as quais afastam a visão antropocêntrica do mundo, podem colaborar para a construção de conhecimento da criança, no sentido de sua formação, como pessoas críticas diante da atual condição dos animais e de todo o habitat de vida na Terra. O estímulo à empatia, ao afeto, à compaixão, e principalmente ao respeito e à consideração ética em relação aos animais não humanos são parâmetros para que a literatura infantil se torne uma ferramenta pedagógica primordial para o processo educativo de todas as crianças. Uma sociedade que maltrata animais, considerando-os como mercadoria e propriedade será sempre opressora e violenta, em facetas diversas, tanto com os animais não humanos quanto conosco, humanos.

Quais são os predicados de um bom livro para sensibilizar crianças em relação aos direitos animais?

​Primeiramente, afastar a perspectiva antropomórfica e zoomórfica sobre os animais não humanos​. Os personagens animais não estão para falarem das qualidades e dos defeitos humanos, mas retratarem suas próprias histórias e desejos, como sujeitos morais. Estimular a empatia, o respeito, a afetividade e a consideração pelos sentimentos dos animais. De preferência, livros de fácil manuseio e ilustrados.

Entre a idealização e a conclusão do livro foi preciso bastante tempo?

​A ideia surgiu em 2015. Em seguida, o Paulo Roberto Drummond iniciou a escrita dos contos, e em 2016 a Daniela Benite, começou o trabalho com as ilustrações. Em 2017, entramos com uma campanha de crowdfunding [financiamento coletivo] e ​ao final do ano enviamos o material para a gráfica.​

Houve alguma dificuldade nesse processo?

​Muita. Não tínhamos verba. Então foi uma luta insana, dia e noite, ​trabalhando na campanha de crowdfunding. A Marcya Harco teve um problema de saúde e precisou ser internada durante um mês, em razão de uma hérnia de disco extrusa. Nesse tempo, apesar da dificuldade em se locomover, ela levou o seu notebook e realizou a diagramação dos livros no hospital mesmo. Ao final, não arrecadamos o que pretendíamos, mas conseguimos produzir uma quantidade modesta da coleção.

Como tem sido a receptividade?

​Incrível! Modéstia à parte, as pessoas que adquiriram os livros têm elogiado muito as histórias, as ilustrações e o projeto em si. Comentam sobre a boa receptividade e o encantamento das crianças pelos contos. Estamos muito felizes por isso.

Os livros já têm sido utilizados em escolas?

Tivemos uma reunião em São Paulo com os dirigentes ​da primeira escola vegana do Brasil, a Nativa Escola, localizada em João Pessoa [Paraíba]. A escola vai adotar a coleção PAZ como material pedagógico ​para crianças do ensino infantil e fundamental I. Algumas professoras da rede pública, que apoiam o veganismo, adquiriram os livros para leitura em sala de aula.

Vocês têm maior predileção por algum dos contos em específico?

Não temos um livro predileto. São histórias lúdicas, às vezes poéticas, de aventuras, de personagens, animais e pessoas [crianças e adultos], que lutam para um mundo ético, sem violência, sem escravidão, com paz, compaixão e libertação para todos. Cada livro tem um valor intrínseco.

Consideram difícil a publicação de livros com temática vegana no Brasil?

​ ​​Olha, como fizemos um projeto autônomo, não pesquisamos muito essa questão. Mas imaginamos que não deva ser muito fácil ainda. A ideia da coleção surgiu dentro de um projeto que estávamos iniciando, que é o projeto PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais. Ela nasceu como primeira realização desse projeto, que tem o objetivo de fomentar e reverberar ações que difundam as inter-relações positivas, que já existem pelo mundo, entre pessoas humanas e pessoas animais. Isso no foco, principalmente, dos animais que são violentamente explorados. Queremos dizer: “Olha, você ainda come o porco, mas veja esse porco aqui. Ele tem um amigo humano que respeita a sua vida e o seu modo de ser.” Acreditamos que ações como essa também possam colaborar no convencimento, no esclarecimento, já que, se formos pensar em Kant, o veganismo não poderia ser uma espécie de adeus a menoridade do indivíduo? ​

Há previsão de novas parcerias e publicação de mais livros?

Estamos em busca de parceiros para uma nova edição da coleção atual. Também estamos planejando uma outra coleção de livros para mais adiante. Já nos sugeriram procurar editoras, mas aí a coleção, de cuja venda queremos gerar recurso para financiar outras atividades do projeto PAZ, deixará de oferecer essa oportunidade. Uma vez que só conseguiríamos receber 10% do que for arrecadado. Por isso, estamos pensando em uma forma de produzir, por exemplo, uma tiragem de mil exemplares da coleção. Dessas mil coleções, uma boa parte seria distribuída para as crianças, ONGs, instituições e escolas de baixa renda, e a outra parte fomentaria outras ações do PAZ.

Falem um pouco também do trabalho de vocês com a arte como instrumento de reflexão sobre o respeito à vida animal não humana. Sei que, para além da literatura, vocês também trabalham com teatro e intervenções artísticas voltadas para essa conscientização.

​A arte é uma expressão sensível e habilidosa de uma experiência estética, que por via sensorial, altera a percepção ao nosso redor, provocando a desautomatização do cotidiano. O ato artístico não deve ser apenas uma informação. É necessário que se proponha uma experiência ou vivência. A obra artística deve tocar as pessoas no campo da sensibilidade, estimulando-as a se colocarem diante da sociedade de forma mais ativa, consciente e crítica. Mas, como podemos fazer uma arte em que o espectador passe do papel de contemplador passivo para ativo? É preciso que a arte proporcione uma experiência. Sem experiência, não há sensibilização nem reflexão e​ muito menos​ incitará ​uma ​transformação.

Por isso, desde 2014 realizamos ações de artivismo em defesa dos animais. Trabalhamos com teatro e frequentemente realizamos atividades artísticas dirigidas às crianças, por meio de apresentações teatrais e oficinas pedagógicas​. Pensamos que uma educação consciente, a qual​ prioriza o respeito pela v​ida, seja​ a base para proporcionar um mundo de paz. Buscamos realizar ações de artivismo (arte + ativismo) por meio de linguagens diversas, como cenas teatrais, performances visuais, poesia, narração de histórias, literatura, entre outras. Nossas ações artísticas têm como objetivo propor experiências que possibilitem o despertar da empatia e da consciência afetiva das pessoas, com o intuito de impulsionar ações que modifiquem a​ ​atual ​realidade especista, violenta​​ e absurdamente injusta, as quais os animais não humanos são subjugados e agredidos​. Transformações no âmbito do veganismo, visto que este é o único caminho real em direção a libertação e reconhecimento dos animais não humanos como seres morais e de direitos. Para tanto, as experiências e fruições artísticas têm que ser significativas.

Os seis livros veganos que compõem a coleção estão à venda na lojinha do Projeto PAZ:

http://pazpessoaseanimais.com/#!lojinha

Você também pode acompanhá-los no Facebook:

https://www.facebook.com/pazpessoaseanimais/





“Sob a Pata do Boi”, novo documentário mostra o impacto da pecuária no desmatamento da Amazônia

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Documentário mostra como a Amazônia tem virado pasto em decorrência da pecuária (Arte: Divulgação)

Dirigido por Marcio Isensee e Sá, “Sob a Pata do Boi” é um documentário brasileiro de média-metragem que mostra o impacto da pecuária no desmatamento da Amazônia. De acordo com informações do filme que já entrou na programação de festivais na França e na Eslováquia, a Amazônia tem hoje 85 milhões de cabeças de gado, três para cada habitante humano. Entre alguns temas abordados pelo documentário estão “o boi clandestino”, “invasão biológica”, “indústria da carne” e “bancada ruralista”.

O documentário informa que na década de 1970 a floresta estava intacta e a quantidade de gado equivalia a um décimo do rebanho da atualidade. Hoje, encontramos uma área que pode ser comparada à extensão territorial da França desmatada. Desse total, 66% transformada em pasto.

“Sob a Pata do Boi” revela que essa transformação no cenário amazônico foi incentivada pelo próprio governo que motivou a chegada de milhares de fazendeiros de outras partes do país. “A pecuária tornou-se bandeira econômica e cultural da Amazônia, no processo, elegendo poderosos políticos para defender a atividade”, denuncia.

Mesmo com o Ministério Público “obrigando” os grandes frigoríficos da região a se tornarem responsáveis por monitorar as fazendas fornecedoras de gado, e não comprar daquelas que têm desmatamento ilegal, isso não significa que hoje a realidade seja auspiciosa.

O documentário é resultado de um trabalho de jornalismo investigado que completou dois anos, e que tem como eixo norteador as reportagens: “O procurador que laçou o desmatamento”, “Guerra e paz por trás de um bife”, “Os portões do desmatamento”, “Boi clandestino não morre de velho”, “O drible do gado: a parte invisível da cadeia da pecuária” e “Origem desconhecida”. “

Sob a Pata do Boi” tem 49 minutos e foi produzido pelo site ((o))eco, de jornalismo ambiental, e pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).





A Páscoa e o dilema do consumo de carne

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Mas se o “jejum de carne” representa algo em tão alta estima pelos cristãos, sendo apontado como uma grande virtude moral, por que não se abster completamente desse consumo, e não somente no período de Páscoa?

Para os cristãos, a Páscoa é uma data de extrema importância que celebra a ressurreição de Cristo três dias após a sua morte por crucificação. A Páscoa também é definida por teólogos do mundo todo como uma “esperança viva” atribuída por Deus. Ou seja, uma data propícia para a restauração da fé em um mundo mais auspicioso, justo e misericordioso.

É exatamente no período que antecede a Páscoa que os cristãos católicos se abstêm de “carne” – na realidade, quase sempre carne vermelha, e jejuam principalmente na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. No entanto, é usual o consumo de peixes. Mas não seria o peixe um ser carnoso? Assim como o boi, o porco, o frango?

De fato, e inclusive com níveis de senciência e consciência equiparáveis aos dos mamíferos, segundo o artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition em janeiro de 2015. Mas, claro, não precisamos de pesquisa alguma para concluir que um peixe sofre antes de morrer – basta testemunhá-lo se debatendo fora d’água enquanto é violentamente vitimado por asfixia.

Porém, é importante ressaltar tal fato porque exemplifica o equívoco da ideia de um “jejum de carne” nesse período – algo tão propalado por tanta gente que ignora o fato de que o peixe também é essencialmente um ser carnoso repleto de vida e interesse em não sofrer e morrer precocemente.

De acordo com o padre Paulo Ricardo, o jejum no período de Páscoa é uma prática plurissecular que mostra aos cristãos católicos a importância de uma vida de ascese. Ou seja, o jejum do consumo de animais, desconsiderando o peixe, é uma forma de se alcançar à virtude da temperança, “uma virtude moral que modera a atração pelos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade.”

Mas se o “jejum de carne” representa algo em tão alta estima pelos cristãos, sendo apontado como uma grande virtude moral, por que não se abster completamente desse consumo, e não somente no período de Páscoa? Por que não incluir os peixes nessa abstenção fundamentada na virtude moral, já que eles também são animais? E como são sencientes, será que não inspiram a misericórdia da renovação da fé cristã? O exercício da violência contra outras espécies não é inclemente, em oposição ao desejo de um mundo justo e misericordioso?

Francisco de Assis, uma referência para milhões de católicos do mundo todo que se alimentam de animais, dizia que “todas as criaturas são nossos irmãos e irmãs”, e que eles não são seres com menos direito à vida do que os humanos – tanto que ele compartilhava suas pregações com pessoas e animais. Discursava que o seu amor por Deus se manifestava por meio de seu amor e respeito por criaturas humanas e não humanas.

Independente de seus hábitos alimentares, não seria uma mensagem de que não devemos endossar a violência contra outras espécies? Animais que domesticamos e tornamos vulneráveis para atender aos prazeres que não controlamos? À volúpia do paladar? Embora símbolo inquestionável do antropocentrismo no seio da civilização cristã ocidental, Tomás de Aquino escreveu na “Suma Teológica” que “o jejum [de ‘carne’] foi estabelecido pela Igreja para reprimir as concupiscências da carne, cujo objeto são os prazeres sensíveis da mesa.”

Mas não é isso que a maioria dos cristãos faz o ano todo, quando se alimentam desnecessariamente de animais? E, claro, para além da questão da virtude moral vaticinada pela Igreja Católica, sabemos que o consumo de carne não é essencial à vida; basta considerarmos a existência de veganos e vegetarianos saudáveis. Sendo assim, resta-nos uma conclusão – não há nada de nobre e equânime em comer animais, porque representa basicamente a primazia do paladar, ou seja, os “prazeres sensíveis da mesa”, que normalmente as pessoas não controlam por condicionamento, hábito e conveniência.





Alguns motivos para repensar o consumo de laticínios

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O que acontece com as vacas quando cai a produção leiteira? Elas são enviadas para o matadouro (Foto: Reprodução)

Em qualquer vídeo publicado na internet sobre a exploração de vacas na indústria leiteira, mostrando as consequências para a saúde do animal, aparecem pessoas que vivem dessa exploração tentando desqualificar o que foi mostrado.

Tudo bem, e o que acontece com as vacas quando cai a produção leiteira? Elas são enviadas para o matadouro. Ou seja, são mortas, e reduzidas à carne assim como o boi. Não é à toa que o Gary Francione diz que vê mais sofrimento em um copo de leite do que em um pedaço de carne. Afinal, elas passam por dois tipos de exploração.

Não creio que seja coerente usar o discurso da Mimosa, do gibi do Chico Bento. Afinal, a indústria trabalha com prazos, e esses prazos não levam em conta as necessidades do animal que estão além da produção, como específicos fatores emocionais e psicológicos que costumam ser voláteis.

É intrigante notar que depois de ser explorada diariamente para a extração de leite (o que inclusive gera um desgaste à saúde do animal), o “produtor” ainda retribui a cortesia enviando a vaca para a morte. Estou errado? Me mostre uma vaca leiteira que “morreu de velhice” ou quando deixou de produzir passou a ser tratada como um “membro da família”.

Vamos dizer que hipoteticamente a vaca seja bem tratada. E o que é feito com o bezerro macho, considerado descartável pela indústria leiteira? Não conheço produtores de leite que criam bezerros machos, até porque não têm utilidade para eles. Então o destino comum é a morte. E claro, a vaca fica extremamente estressada quando é separada do filho, que na maioria das vezes não volta a reencontrar. Não seria esta uma reação natural de mãe? Que direito temos de intervir nisso? E olhe que nem discorri sobre os nose flaps, usados para forçar o desmame dos bezerros.

Ademais, as doenças modernas desenvolvidas em vacas leiteiras estão intrinsecamente ligadas ao sistema de produção, ou seja, de exploração. Logo na minha opinião isso prova que não existe nada de natural nessa prática. Condiciona-se um animal a viver como se fosse isento de vontades e anseios básicos e complexos, ou seja, como uma máquina de produção.





Será que o bacalhau sofre antes de morrer? Com certeza!

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Foto: The New York Times

Um animal que costuma ser consumido no feriado da Sexta-Feira Santa e na Páscoa é o bacalhau, que por ser um peixe é subestimado enquanto ser senciente. Afinal, será que ele sofre antes de morrer? Com certeza! Assim como outros peixes, o bacalhau agoniza fora da água e morre asfixiado. E claro, ele não se entrega de bom gosto. O peixe luta pela vida o máximo que pode, assim como qualquer um de nós faríamos na iminência da morte.

A espécie mais tradicional de bacalhau, o bacalhau-do-atlântico ou gadus morhua, tem uma expectativa de vida de 25 anos. Porém, devido à intervenção humana, dificilmente ele passa dos primeiros anos de vida. Depois de capturado, se estiver dentro do peso almejado, o bacalhau é degolado e tem sua barriga aberta. Após a retirada das vísceras e guelras, o animal é decapitado.

Então o abrem ao meio, retiram parte da espinha dorsal, o lavam e o cobrem com sal antes de expô-lo ao sol. Depois de passar por uma desidratação de mais de 50%, o peixe é comercializado e consumido. Embora cientistas não possam dar uma resposta definitiva sobre os níveis de consciência dos peixes, tudo indica que, além da senciência semelhante a dos mamíferos, o bacalhau tem uma singular sofisticação comportamental e cognitiva.

Mas, claro, são fatores pouco divulgados e costumeiramente ignorados. O bacalhau costuma ser visto apenas como uma “iguaria” a ser servida frita, assada, cozida ou grelhada, e sempre em pedaços, sem qualquer enfática associação com um animal. A maior prova disso é que a maioria das pessoas que consome o bacalhau não sabe citar quais espécies marinhas que deram-lhe origem.

A maioria também desconhece o fato de que o gadus morhua, o melanogrammus, o micromesistius e o pollachius, espécies identificadas como “bacalhau” estão na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Ou seja, consumir bacalhau é também uma forma de aproximar essas espécies da extinção.

Isso não é fato recente. Segundo a revista científica The Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences, as populações de bacalhau começaram a entrar em colapso na década de 1990. Outro ponto crítico é que há muito tempo o bacalhau é capturado e condicionado a viver em cativeiro por até dois anos, ou seja, distante do seu habitat, simplesmente engordando até o momento do abate.

No artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sidney, na Austrália, escreveu que peixes como o bacalhau têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros.

“O nível de complexidade mental deles está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou. Será que não deveríamos incluí-lo no nosso círculo moral? Ou seja, não faltam motivos para reconhecer que o bacalhau, assim como outros peixes, também deveria ter direito à vida e não merece ser reduzido a alimento.





 

Os perigos do projeto de lei do deputado Valdir Colatto que quer liberar a caça e o comércio de animais silvestres no Brasil

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Desconsiderando o impacto na vida selvagem, Valdir Colatto quer transformar a caça em um negócio lucrativo (Fotos: Reprodução)

Em 2016, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), também conhecida como bancada ruralista, apresentou o projeto de lei nº 6.268, que dispõe sobre a política nacional de fauna. Em síntese, o projeto, que já foi rejeitado pelo relator e presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS), deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), ainda busca relaxamento das leis ambientais brasileiras.

Sem dúvida, a tentativa de flexibilização representa um claro retrocesso se considerarmos que prevê até mesmo a alteração no Código de Caça brasileiro, editado em 1967, proibindo a caça em todo o território nacional por entender que a realidade brasileira não perpassa pela necessidade de caça de animais silvestres. Porém, Colatto alega que hoje em dia a proximidade de animais silvestres com o meio rural coloca em risco pessoas, propriedades e rebanhos, o que na sua perspectiva justifica a liberação da caça.

Talvez seja válido perguntar, como em 2018 os animais silvestres podem ser vistos como uma ameaça que já não representavam em 1967? Principalmente se considerarmos que da década de 1960 até a atualidade houve uma redução, não um aumento da fauna brasileira.  Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Brasil conta com 1051 espécies da fauna avaliadas como ameaçadas de extinção.

Outro fato a se ponderar é que animais silvestres, apontados como uma ameaça pelo deputado federal Valdir Colatto, normalmente só invadem propriedades por dois fatores – perda de habitat e fome, e tanto a perda de habitat quanto a fome estão associadas ao desmatamento. Afinal, nenhum animal deixa a natureza selvagem por espontânea vontade. Logo se os animais silvestres se tornam uma ameaça, isto acontece simplesmente em decorrência da má intervenção humana visando a lucratividade.

Um exemplo dessa má intervenção foi denunciado pelo vídeo “Eu Sou Mudança – Consumo Consciente”, lançado pelo Google em julho do ano passado, revelando que mais de 750 mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos somente na Amazônia e, desse total, dois terços transformados em pasto, o equivalente ao tamanho da Espanha.

Mas então Colatto e seus asseclas podem alegar que a liberação da caça atende aos interesses ambientais de conservacionismo, ou seja, manutenção da vida selvagem. Tudo bem. Vamos considerar que a proposta realmente seja essa. Em um país como o Brasil, onde a fiscalização da fauna e da flora sempre foi crítica, limitada e excludente, como isso funcionaria na prática? Quais os instrumentos que seriam usados para coibir, por exemplo, o tráfico de animais silvestres em um país com a caça liberada e marcado por corrupção e flexibilização legal baseada no pagamento de propinas? O projeto, que já é inconsistente em essência, não apresenta nenhum tipo de solução para questões como essa.

No tocante ao chamado “plano de manejo”, o PL é permissivo em relação à comercialização de animais caçados e capturados na natureza. Também abre um precedente para que animais selvagens sejam mortos em unidades de conservação de proteção integral, mas remanejados para outras áreas e comercializados com documentações que omitem informações sobre a verdadeira origem dos animais – assim não se enquadrando como crime, já que animais poderão ser mortos livremente dependendo da declaração de origem. Afinal, qual órgão será capaz de coibir isso em tempo hábil? Com quais recursos? Já que o projeto tem abrangência nacional.

O biólogo João de Deus Medeiros, doutor em botânica, professor e chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Cantarina (UFSC), aponta que o projeto de lei de Colatto concede licença para utilização, perseguição, aprisionamento, manutenção, caça, abate, pesca, captura, coleta, exposição, transporte e comércio de animais da fauna silvestre, além de permitir modificar, danificar ou destruir ninhos, abrigos ou criadouros naturais, ou realizar qualquer atividade que impeça a reprodução de animais da fauna silvestre. Além disso, propõe o uso de cães para caçar em Unidades de Conservação (UCs). Ou seja, locais que por excelência deveriam garantir a segurança e o bem-estar desses animais.

Para muito além da questão “conservacionista”, e de “proteção à vida e à propriedade”, Colatto também defende que a caça pode se tornar uma fonte de renda, o que coloca os animais silvestres em uma situação ainda mais crítica de vulnerabilidade e incentivo à violência contra outras espécies de animais. O IBGE condena tal prática, informando que a diversidade da fauna brasileira tem levado à falsa ideia de abundância, o que costuma levar à destruição. O órgão argumenta que entre as principais causas da redução da fauna brasileira estão a perseguição de espécies de animais para fins comerciais (ornamento, lazer e consumo); destruição do habitat provocado pelo crescimento desordenado do país; poluição do ar e dos rios pelo uso de defensivos agrícolas e outras substâncias químicas; e, claro, o desmatamento.

Para quem não conhece o projeto de lei nº 6.268/2016, é importante saber que o texto discorre sobre a implantação de criadouros comerciais, áreas dotadas de instalações para o manejo e a criação de espécies da fauna silvestre com fins econômicos e industriais. De acordo com o IBGE, diariamente o Brasil mata mais de 16 milhões de frangos, mais de 118 mil porcos e mais de 84 mil bovinos. Será que já não matamos animais demais? E isso apenas citando três espécies de animais domesticados e criados com fins comerciais. O projeto ainda permite a instalação de criadouros científicos, ou seja, a exploração de animais silvestres em pesquisas científicas em universidades e centros de pesquisa. Essa é outra medida que é vista como um retrocesso, levando em conta que hoje em dia discute-se no mundo todo o banimento do uso de animais em pesquisas, já que além de ser uma prática desnecessária, considerando outros meios de obter inclusive melhores resultados sem usar animais, é evidentemente cruel.

Em síntese, o PL defende que a caça de animais silvestres pode ser colocada em prática com diversas finalidades, como alimentação, entretenimento, defesa e fins comercias. Também visa autorizar importação e exportação de animais, e permite que zoológicos possam comercializá-los. Ademais, o projeto defende a anulação do agravamento de até o triplo da pena de detenção de seis meses a um ano para quem matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animais sem licença, o que impacta diretamente na lei 9.605/98, que versa sobre crimes ambientais.

Autor do projeto que pode acarretar graves e trágicas consequências para os animais silvestres, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), é autor de oito projetos contra os direitos indígenas, segundo a República dos Ruralistas, além de apoiar pautas de outros parlamentares que convergem para a redução desses direitos. “É um dos autores da PLP 227/2012 [demarcação de terras indígenas], membro da comissão especial da PEC 215/2000 [demarcação de terras indígenas] e votou a favor da alteração do Código Florestal [favorecendo o desmatamento]”, informa a República dos Ruralistas. No ano passado, Colatto ganhou os holofotes por cobrar do presidente Michel Temer a liberação de plantio em terras indígenas.

O biólogo João de Deus Medeiros, doutor em botânica, professor e chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Cantarina (UFSC), critica que Valdir Colatto, que é técnico agrícola, engenheiro agrônomo e coordenador da Comissão de Direitos de Propriedade, se intitula um defensor da natureza, mas sempre coloca os interesses do homem em primeiro lugar; e uma prova disso é esse projeto que impacta negativamente na vida selvagem.

Em 2015, três etnias indígenas de Santa Catarina, os Xokleng Laklãnõ, Kaigang e Guarani, repudiaram as declarações de Colatto afirmando que os índios catarinenses eram favoráveis à PEC 215. “Isso é uma mentira! Esse senhor não representa a nenhum de nós”, registraram os índios em uma carta aberta publicada no site da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  Mesmo com a contrariedade, o projeto de demarcação de terras indígenas defendido por Colatto e pela bancada ruralista foi aprovado.

Em relação à vulnerabilidade de animais silvestres diante de um projeto que visa ampliar a objetificação ou a coisificação animal, talvez seja válida uma reflexão compartilhada pelo professor de história israelense Yuval Noah Harari no artigo “Industrial farming is one of the worst crimes in history” no jornal britânico The Guardian. Harari é autor do best-seller “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, lançado oficialmente em 2014:

“A marcha do progresso humano está repleta de animais mortos. Há dezenas de milhares de anos, nossos antepassados da idade da pedra já eram responsáveis por uma série de desastres ecológicos. Quando os primeiros humanos chegaram à Austrália há cerca de 45 mil anos, eles rapidamente promoveram a extinção de 90% dos grandes animais. Esse foi o primeiro impacto significativo que o Homo sapiens teve no ecossistema do planeta. E não foi o último. Cerca de 15 mil anos atrás os humanos colonizaram a América, eliminando cerca de 75% dos mamíferos. Numerosas outras espécies desapareceram da África, da Eurásia e das miríades de ilhas ao redor de suas costas.”





 

Sobre o sofrimento de animais selvagens em armadilhas II

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Foto: Reprodução

Na primeira hora em que um animal selvagem é preso em uma armadilha, não raramente o desespero faz com que ele comece a mastigar os seus próprios membros na tentativa de se livrar da situação. Isto porque a dor é tão visceral que ele é capaz de qualquer coisa para tentar sobreviver, mesmo que os ferimentos posteriores também possam causar-lhe a morte caso ele não receba nenhum tipo de ajuda.

Referência

Animal Ethics in Animal Research, livro de autoria de Helena Röcklinsberg e publicado em outubro de 2017 pela Editora da Universidade de Cambridge.





 

Invista em suas próprias batalhas, mas respeite as dos outros

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Invista em suas próprias batalhas, mas respeite as dos outros. Lutar neste mundo já não é fácil, mas lidar com pessoas criticando suas lutas realmente não é legal. Por isso sou da seguinte opinião: se uma pessoa luta por algo em prol de um mundo mais justo, será que realmente tenho motivos para criticá-la?

E se critico, será que faço isso de forma construtiva ou destrutiva? Será que minha crítica é baseada em um bem maior do que a minha vontade de ter razão ou de fazer oposição? Opiniões contrárias não são um problema; podem acrescentar muito. Mas opiniões que visam a desmotivação infelizmente podem ser lesivas dependendo da forma como as absorvemos.





 

Written by David Arioch

March 27th, 2018 at 7:10 pm

Sobre o sofrimento de animais selvagens em armadilhas

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Written by David Arioch

March 27th, 2018 at 7:04 pm