David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Literatura’ Category

Livro de poesia, música e HQ em defesa dos direitos animais vai ser lançado no sábado

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Livro “Os Animais Declamam e Cantam” vai ser vendido por R$ 35

Coordenado pelo jornalista Maurício Kanno, o livro “Os Animais Declamam e Cantam” vai ser lançado no sábado às 15h30 no Lar Vegetariano Vegan, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. A obra reúne colaborações literárias e visuais de artistas do Brasil, Peru, Chile, Equador, Colômbia, Argentina, Alemanha e Espanha.

“É um livro que reúne 87 poemas e músicas de 47 autores. O trabalho de compilação, ordenação, estímulo à produção e revisão crítica começou em 2013”, conta Maurício Kanno que coordenou outra antologia literária coletiva publicada em julho de 2016, reunindo 36 contos de 21 autores.

Os subcapítulos dos poemas brasileiros em “Os Animais Declamam e Cantam” foram intitulados como Irmãos Terráqueos, Humanos, Liberdade e Escravidão, e Festa, Dor e Humanos de Esperança. “E Ar, Terra e Água, no caso da poesia hispano-americana”, informa.

As músicas em defesa dos animais incluem rock, pop, samba, rap, paródias de Carnaval e de Natal, além de outros tipos de paródia. “Tivemos a contribuição de 10 artistas gráficos com 16 ilustrações e uma história em quadrinhos poética de sete páginas”, diz Kanno.

“Os Animais Declamam e Cantam” vai ser vendido por R$ 35. Quem não puder participar do evento, pode entrar em contato pelo e-mail mauricio.kanno@gmail.com para checar a disponibilidade de exemplares do livro. “Durante o lançamento, teremos declamações e apresentações das músicas que integram o livro. Além disso, o público e os autores podem debater sobre as obras publicadas”, enfatiza.

Localização

O Lar Vegetariano Vegan fica na Rua Clélia, 278, em Perdizes – a três pontos de ônibus a partir da estação de metrô da Barra Funda. Depois é só descer no ponto do Sesc Pompeia, já que o restaurante fica na mesma rua do Sesc. Chegando ao endereço, suba para o andar superior.

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“Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos”

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“A Inglaterra deve ser a terra dos gatos”

“O que me surpreendeu tanto quanto qualquer coisa eram os gatos gordos que dormiam pacificamente na entrada das lojas em Londres, enquanto as pessoas passavam por eles com cuidado. A Inglaterra deve ser a terra dos gatos, eles permanecem pacificamente por toda parte nas imediações de St John’s Wood.

Em Tânger [Marrocos] ou na Cidade do México, você quase não vê gatos tarde da noite, porque muitas vezes os pobres os pegam e os comem. Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos. Se Paris é uma mulher que foi violada pela invasão nazista, Londres é um homem que apenas fuma o seu cachimbo, bebe a sua stout e abençoa o gato tocando sua cabeça ronronante.”

Excerto de “Desolation Angels”, de Jack Kerouac, publicado em 1965.





Written by David Arioch

June 24, 2017 at 5:49 pm

A ficção pode ser mais real do que a “realidade”

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Guimarães Rosa, que reproduzia magistralmente a realidade por meio da ficção (Foto: Reprodução)

A ficção pode ser mais real do que aquilo que as pessoas muitas vezes entendem como realidade. Pensemos na história dos estados e das cidades brasileiras. Não raramente há mais romantismo nas chamadas “histórias oficiais” do que nas versões qualificadas como ficcionais das histórias dos povos deste país.

Há muitos casos em que um escritor de ficção regionalista tem mais a dizer sobre a realidade do que um livro de história de viés unilateral e ultrarromântico. Além disso, a ficção é uma forma de transcrever a realidade sem o risco de ter que responder a processos impetrados por quem se dispõe a fazer o possível para que certas histórias não venham à tona.

Quando há muitos impedimentos em relação à narrativa fiel dos fatos, a ficção pode ser um belo caminho de reproduzir a realidade, seja ela alegórica ou fidedigna.

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June 24, 2017 at 5:41 pm

“O gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira”

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“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída”

“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”

Excerto de “A Disciplina do Amor”, de Lygia Fagundes Telles, publicado em 1980.





Written by David Arioch

June 24, 2017 at 5:36 pm

Machado de Assis X Balzac

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Balzac influenciou Machado de Assis

Acho injusto quando vejo sites de notícias e de literatura dizendo que um escritor foi ou é melhor do que o outro. Há alguns meses, li um artigo em que alguns especialistas falaram que Machado de Assis foi muito maior do que Balzac, tratando-se de qualidade literária e retrato crítico da realidade.

Considero isso equivocado, até porque o estilo de Machado de Assis, por exemplo, foi influenciado por Balzac, e ele mesmo admitia isso; e nunca buscou tal comparação. Augusto dos Anjos, por vezes considerado por brasileiros como maior que Rimbaud, também admitiu influência daquele que foi um dos nomes mais enigmáticos e controversos do simbolismo. Sou contra esse ufanismo literário.

Não vejo razão em dizer quem é melhor que quem. São rivalidades desnecessárias, até porque os critérios são imprecisos, e nesse sentido pouco se leva em conta as particularidades de cada um, o ritmo de produção e o zeitgeist, que é o espírito de uma época. E não acredito que bons escritores escrevem para serem considerados melhores do que os outros. Creio que a intenção da maioria é sempre tocar o leitor, ser entendido pelo leitor, simplesmente isso.

A rivalidade na literatura surgiu com os críticos, e a crítica infelizmente não contribui em nada nesse tipo de debate, já que pouco interessa ao leitor quem foi maior que quem. O mais importante era e é o que cada escritor tem a oferecer.

 

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Written by David Arioch

June 21, 2017 at 11:31 pm

Feliz em encontrar tantas referências literárias

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Herman Melville em Moby-Dick: “Não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino”

Fico feliz em encontrar tantas referências para abordar vegetarianismo, veganismo e direitos animais a partir da literatura ficcional. A lista é imensa. E muitas dessas obras passaram e continuam passando despercebidas sob essa ótica. Mas tenho orgulho de ter a oportunidade de me empenhar para tentar ajudar, mesmo que parcamente, a trazer isso à tona. Existe muita consciência vegetariana e vegana na literatura que merece ascender à superfície.

 

 





Written by David Arioch

April 29, 2017 at 5:10 pm

Editora Escala e Penguin Classics

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Penguin Classics oferece livros baratos e boa diversidade (Foto: Reprodução)

No Brasil, quem fez um trabalho muito bom de publicação de livros com material de baixo custo foi a Editora Escala. Mas não sei se ainda publicam novos títulos nesse padrão. Comprei muitos livros da Escala na época da faculdade, e pagava-se de R$ 5 a R$ 7 por título. Hoje em dia, sou fã da Penguin Classics, livros baratos e impressos em papel reciclado e sem ácido. Isso é democratização da leitura.





Written by David Arioch

April 29, 2017 at 2:22 pm

Robert Louis Stevenson: “Consumimos as carcaças de criaturas de apetites, paixões e órgãos como nós mesmos”

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“Cortar a carne de um homem depois de morto é menos odiável do que oprimi-lo enquanto ele vive”

Stevenson: “No entanto, temos [por consumir carne] a mesma aparência [dos canibais] aos olhos do budista e do vegetariano”

O escritor escocês Robert Louis Stevenson é mais conhecido como autor de clássicos como “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”, ou “O Estranho Caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde”, lançado em 1886, e “The Treasure Island”, ou “A Ilha do Tesouro”, de 1883, obras que se tornaram mundialmente populares, ganhando inclusive adaptações para a TV e para o cinema.

No entanto, há um livro de Stevenson, “In The South Seas” ou “Nos Mares do Sul”, publicado em 1896, quase dois anos após sua morte, que merece atenção especial, embora não esteja entre os seus escritos mais famosos. Isto porque a obra reúne uma coleção de ensaios com registros reveladores sobre as viagens do escritor pelo Oceano Pacífico.

Entre os quais, é destacável “Long-Pig – A Cannibal High Place”, que integra o capítulo 9. No ensaio, que ganhou fama de maldito em alguns círculos sociais por desnudar a hipocrisia da sociedade europeia, o escritor narra, com certa ironia, e levando em conta o contexto cultural ocidental, que nada desperta tão fortemente o nosso desgosto quanto o canibalismo, que transparece como a desfiguração da própria sociedade.

“Nada, poderíamos argumentar plausivelmente, irá degradar tão duramente as mentes daqueles que o praticam [quanto o canibalismo]. No entanto, temos [por consumir carne] a mesma aparência [dos canibais] aos olhos do budista e do vegetariano. Consumimos as carcaças de criaturas de apetites, paixões e órgãos como nós mesmos. Nos alimentamos de bebês, embora não os nossos; e o matadouro ressoa diariamente gritos de horror e medo”, registrou na página 99.

Em referência ao especismo, Stevenson diz que a recusa de muitas nações em se alimentar de um cão, um animal com quem se tem uma relação de intimidade, mostra como essa distinção entre animais que devem ou não ser reduzidos a pedaços de carne é precariamente fundamentada; deixando subentendido que relegamos a morte todos aqueles que não vemos como amigos ou companheiros de conveniência.

O escritor escocês revelou em “In The South Seas”, que a realidade partilhada com os insulares do Pacífico, entre eles os povos canibais, fez com que tivesse um novo senso de percepção da realidade, da vida e do mundo; e tudo isso a partir da observação de seus personagens e eventualmente da forma como morriam.

“Muitos insulares vivem com seus porcos como fazemos com nossos cães. Ambos se aglomeram ao redor da lareira com igual liberdade; e o porco da ilha é um companheiro de atividades, iniciativas e sentidos”, informa. Acrescenta ainda que os porcos das Ilhas Marquesas eram tão espertos que empurravam os cocos em direção ao sol para que estourassem e eles pudessem comê-los.

Por outro lado, Robert Louis Stevenson cita o tratamento que os “civilizados” já davam aos porcos nos matadouros. E satiricamente comenta que, apesar de tudo, os europeus ainda são considerados um dos povos menos cruéis, deixando patente a sua discordância. Em relação ao abate do gado e de outros animais consumidos pelos seres humanos, ele declara que a parafernália do assassinato, as brutalidades preparatórias de sua prática, estão todas escondidas. Nessa passagem, há uma referência à dissimulação da crueldade por parte de quem explora os animais, e ao mesmo tempo a conivência de quem os consome como se fossem produtos. “Uma extrema sensibilidade reina sobre a superfície”, diz o autor, possivelmente debochando.

Stevenson critica e satiriza as damas que provavelmente ficarão chocadas ao lerem seu relato. Na obra, ele prevê desmaios diante da franca descrição de uma crueldade que nada mais é do que aquilo que elas esperam diariamente de seus açougueiros. “Alguns vão se queixar de mim, do fundo de seus corações, pela grosseria desse parágrafo”, prevê ironicamente.

No ensaio, o escritor também faz a defesa dos canibais do Pacífico ao argumentar que eles não eram cruéis, como os europeus gostavam de descrevê-los em uma pretensa autoafirmação de falsa superioridade. “Eles [os canibais] não eram cruéis. Para além desse costume, são uma raça das mais gentis; corretamente falando, cortar a carne de um homem depois de morto é menos odiável do que oprimi-lo enquanto ele vive”, justificou, fazendo menção aos animais criados para servirem como comida aos seres humanos.

Saiba Mais

Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 13 de novembro de 1850. Ele faleceu em 3 de dezembro de 1894 em Vailima, nas Ilhas Samoa, em decorrência de hemorragia cerebral.

Alguns pesquisadores acreditam que a sensibilidade de Robert Louis Stevenson em relação aos animais foi estimulada pela sua esposa Frances (Fanny) Matilda Van de Grift Osbourne Stevenson, que era uma amante dos animais.

Referências

Stevenson, Robert Louis. Páginas 99-101. In The South Seas. Arc Manor. (2006).

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Moby-Dick: “Não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino”

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“Vá ao mercado de carnes e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos”

Melville foi influenciado por Thoreau e Emerson, escritores e filósofos que defendiam o respeito à natureza

Publicado em 1851, o romance “Moby-Dick; or, The Whale”, de Herman Melville, que se tornou um dos livros mais importantes da literatura dos Estados Unidos, conta a história de vingança de Ahab, o obsessivo capitão do baleeiro Pequod que, depois de ter a sua perna arrancada pela lendária baleia branca Moby-Dick, decide dedicar sua vida a persegui-la e destruí-la, ignorando o fato de que ele invadiu o habitat do animal e tentou matá-lo.

Quando escreveu a obra, Melville já havia sido influenciado pelas ideias e obras de Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson, escritores e filósofos estadunidenses que defendiam o respeito à natureza, e que, por vezes, são classificados por alguns autores como vegetarianos, embora não haja registros tão precisos sobre seus hábitos alimentares, assim como os de Melville.

A inspiração para produzir “Moby-Dick” veio de aventuras fantásticas que o escritor vivenciou a partir de 1841, quando passou 18 meses no baleeiro Acushnet, um dos mais de 700 navios baleeiros dos Estados Unidos, de um total de 900 atuando na pesca comercial naquele ano.

Embora a experiência tenha sido muito rica, Herman Melville a qualificou como extremamente infeliz, porque a vida no mar era absolutamente miserável. E ele, assim como outros marinheiros, eram tratados como escravos e tinham que se submeter a todos os tipos de ordens de “homens vulgares e brutais”.

Até certo ponto, Melville compartilhou suas aventuras com o seu amigo Richard Tobias Green, com quem desembarcou em Nuku Hiva, a maior das Ilhas Marquesas da Polinésia Francesa. Um dia, Green desapareceu quando saiu para procurar ajuda para Melville que estava com uma séria lesão em uma das pernas.

Sozinho, o escritor foi capturado pelos typees, uma tribo canibal que em nenhum momento ameaçou sua vida. Muito pelo contrário, Herman Melville foi alimentado com refeições vegetarianas e saudáveis, baseadas em coco e fruta-pão, de acordo com o escritor R.L. Fisher, que assina a apresentação do livro “Moby-Dick; or, The Whale”, publicado pela editora Tor em 1996. O relato também é endossado por Hershel Parker em “Herman Melville: 1818-1851” e Steven Olsen-Smith em “Melville in His Own Time: A Biographical Chronicle of His Life, Drawn from…”.

Melville se sentiu tão bem entre os nativos, que tinham fama de bárbaros e hediondos, que definiu aqueles chamados canibais como muito superior aos civilizados americanos e europeus. Considerado transcendentalista por influência de Waldo Emerson, a natureza sempre foi um dos temas centrais na literatura de Melville, que jamais hesitou em deixar claro que quando o homem fere a natureza, ele deve se preparar para as consequências; e a maior prova disso é a entrega a uma forma odiosa de passionalidade do capitão Ahab, na sua sana por matar a baleia Moby-Dick a qualquer preço.

Na Polinésia, Herman Melville foi alimentado pelos nativos com refeições vegetarianas e saudáveis

“Seus três botes afundavam à sua volta, e os remos e os homens giravam em redemoinhos; um capitão arrancou uma faca das cordas da proa arrebentada e arremessou-se contra a baleia – como um duelista do Arkansas contra seu adversário, tentando atingir às cegas, com uma lâmina de seis polegadas, a vida profunda da baleia. Esse capitão era Ahab. E foi então que, subitamente, passando por baixo dele com a foice de sua mandíbula inferior, Moby-Dick cortou a perna de Ahab, como faria uma ceifadeira com a grama no campo.

Nenhum turco de turbante, nenhum veneziano ou malaio mercenário o teria atingido com tamanha malícia. Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais”, escreveu nas páginas 178 e 179.

Na página 209, Melville discorre sobre a natureza humana, partindo, a princípio, da perspectiva de um homem duro, embrutecido pelo meio e pela própria ignorância: “A condição permanente do homem tal como é fabricado, pensava Ahab, é a sordidez. Pressupondo que a Baleia Branca incite os corações dessa minha feroz tripulação, e imaginando que sua ferocidade até produza neles uma espécie de brio generoso, todavia, enquanto dão caça a Moby-Dick por prazer, é necessário alimentar também seus apetites comuns e rotineiros.”

Ele prossegue a narrativa declarando que mesmo os enlevados e cavalheirescos Cruzados de outrora não se contentavam em atravessar duas mil milhas de terra para lutar por seu Santo Sepulcro sem pilhar, roubar e obter outras pias vantagens pelo caminho: “Tivessem eles se limitado a seu único objetivo último e romântico – daquele objetivo último e romântico, muitos teriam desistido por desgosto. Não tirarei desses homens, pensou Ahab, a esperança do dinheiro – sim, dinheiro. Poderiam menosprezar o pagamento agora; mas deixasse passar alguns meses, sem nenhuma promessa em perspectiva de paga, e então esse mesmo capital se amotinaria todo de uma vez dentro deles e decapitaria Ahab.”

Melville faz referência a um fato já comum à época – de que o homem do mar, que tinha como principal fonte de renda a frequente morte de seres vivos não humanos, poderia se transformar, chegando a não pensar duas vezes se tivesse que matar um semelhante para lucrar ou mesmo se vingar.

Na página 289 de “Moby-Dick”, Ishmael, alter ego de Herman Melville, narra que não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino; talvez tenha sido enforcado; e, se o tivessem levado a julgamento por causa disso, certamente teria merecido a sua sentença. E naturalmente, são os compradores e consumidores que perpetuaram tal negócio que ainda nos dias de hoje parece distante do fim.

“Moby-Dick” também é um livro que desvela a ferocidade do antropocentrismo

“Num sábado à noite, vá ao mercado de carnes e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos. Esse espetáculo não tira um dos dentes do maxilar dos canibais? Canibais? Quem não é um canibal? Garanto a você que o Juízo Final será mais tolerante com um providente Fijiano que salgou um missionário magro em sua adega para se prevenir contra a fome do que contigo, gourmand civilizado e esclarecido, que prendes os gansos no chão e te refestelas com seus fígados dilatados em teu patê de foie gras”, criticou.

Melville era um autor muito à frente do seu tempo, e a maior prova disso é que o seu romance mais famoso – “Moby-Dick; or, The Whale”, dedicado a Nathaniel Hawthorne, não obteve qualquer prestígio após o lançamento. Quando faleceu em 28 de setembro de 1891, seu livro já não era mais encontrado à venda em lugar algum.

A rejeição ao seu trabalho pode ter sido facilitada pelas críticas que fez ao comportamento dos ocidentais de seu tempo, imersos em hipocrisia, egolatria, preconceitos, superficialidades e pouco respeito à natureza. Em suma, “Moby-Dick” também é um livro que desvela a ferocidade do antropocentrismo, embora, por vezes, também transpareça, mesmo que minimamente, antropocêntrico; provavelmente por influência da época.

O escritor estadunidense William Faulkner, um dos mais importantes dos Estados Unidos do século 20, declarou que gostaria de ter escrito “Moby-Dick”. O inglês D.H. Lawrence, outro autor igualmente relevante, definiu o romance da baleia branca como um dos mais estranhos e maravilhosos livros do mundo.

“Mas Stubb, ele come a baleia à luz de seu próprio óleo, não? E isso é somar insulto à injúria, não é? Olhe para o cabo de sua faca, meu caro gourmand civilizado e esclarecido a comer um rosbife, do que é feito o cabo? – do quê, senão dos ossos do irmão do mesmo boi que você está comendo? E com o que você palita os dentes, depois de devorar aquele ganso gordo? Com uma pena da mesma ave. E com que pena o Secretário da Sociedade de Supressão de Crueldade aos Gansos escreve suas circulares? Há apenas um ou dois meses essa sociedade tomou a decisão de patrocinar somente penas de aço”, escreveu Herman Melville na página 289 de “Moby-Dick; or, The Whale”, romance publicado em 1851.

Saiba Mais

Herman Melville nasceu em Nova York em 1º de agosto de 1859 e faleceu na obscuridade e na pobreza. Seu túmulo pode ser visitado no Cemitério de Woodlawn.

Outra obra de grande prestígio de Melville é “Billy Budd”, publicada pela primeira vez em 1924, editada por Raymond M. Weaver, da Universidade Columbia.

Referências

Melville, Herman. Moby-Dick or The Wale (1851). Tor Classics (1996).

Melville, Herman. Moby Dick. Cosac Naify (2008).

Parker, Hershel. Herman Melville: 1818-1851.  Johns Hopkins University Press; First edition (2005).

Olsen-Smith, Steven. Melville in His Own Time: A Biographical Chronicle of His Life, Drawn from… University Of Iowa Press; 1st edition (2015).

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As Pontes de Madison: “Algo que nunca consegui entender é como eles podem dispensar tanto amor e cuidado aos animais e, em seguida, vê-los vendidos para o abate”

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“Nenhuma violência envolvida na cadeia alimentar, exceto, talvez, por arrancar os legumes da terra”

Livro foi publicado pela primeira vez em 1992 (Foto: Reprodução)

Falecido no dia 10 de março de 2017, o escritor estadunidense Robert James Waller ficou famoso pela autoria do best-seller “The Bridges of Madison County”, ou “As Pontes de Madison”, publicado pela primeira vez em 1992, e que é ambientado no Condado de Madison, em Iowa. Em 1995, o livro foi adaptado para o cinema sob direção de Clint Eastwood, que protagoniza a obra ao lado de Meryl Streep.

O livro conta a história de uma mulher casada e solitária que tem um relacionamento de quatro dias com um fotógrafo da revista National Geographic em 1965. Ele viaja para registrar imagens das famosas pontes cobertas do condado.

Durante esse período, além de uma curta e intensa história de amor que vem à tona somente após a morte de Francesca, é interessante perceber como o estilo de vida do fotógrafo, que não come carne de animais, é visto com estranheza, e até mesmo como uma afronta, em um cenário onde muitos têm como principal fonte de renda a criação de animais enviados para o abate.

Logo abaixo, selecionei alguns trechos das páginas 11, 14, 24, 27, 32 e 64 que abordam a sintonia de Kincaid com os animais, e a natureza em geral, além da curiosidade de Francesca com o seu estilo de vida incomum e intrigante se comparado aos moradores de Madison:

Ele desejou pela milésima vez em sua vida ter um cão, um golden retriever, talvez, para viagens como essa e também para ter alguma companhia em casa. Mas frequentemente ele se ausentava, passando a maior parte do tempo no exterior, e isso não seria justo com o animal. Ainda assim, ele pensou a respeito. Em poucos anos, ele estaria velho demais para o trabalho de campo. “Eu poderia ter um cão até lá”, disse ao conífero que via passar através de sua janela.

Ao contrário da população, que se alimentava de molho madeira, purê de batatas e carne vermelha, alguns, três vezes por dia, Robert Kincaid parecia não comer nada além de frutas, nozes e legumes. Rijo, ela pensou. Ele parece rijo, fisicamente.

— Só legumes estaria ótimo, para mim. Eu não como carne. Já faz anos. Nada de mais, só me sinto melhor assim. Francesca sorriu, de novo.

— Por aqui, esse ponto de vista não seria muito popular. Richard e seus amigos diriam que você está tentando destruir o sustento deles. Eu também não como muita, não sei por quê. Apenas não ligo muito. Mas toda vez que tento servir um jantar sem carne, com minha família, há uivos de rebelião. Aí acho que desisti de tentar. Será divertido fazer algo diferente, para variar um pouco.

O sol branco tinha ficado vermelho e imenso, logo acima dos campos de milho. Pela janela da cozinha, ela viu um falcão que voava nas correntes de vento do começo da noite. O noticiário das sete começava no rádio. E Francesca olhou para o outro lado da mesa amarela de fórmica, para Robert Kincaid, que tinha vindo por um caminho tão longo, até sua cozinha. Um longo caminho, atravessando mais que milhas.

— Já está um cheiro bom — disse ele, apontando o fogão.

— Está com um cheiro… tranquilo. — Ele olhou para ela.

Tranquilo? Alguma coisa pode ter cheiro tranquilo? Ela pensava na frase e se questionava. Ele estava certo. Depois das costeletas de porco, bifes e assados que fazia para a família, aquela era, sim, uma culinária tranquila. Nenhuma violência envolvida na cadeia alimentar, exceto, talvez, por arrancar os legumes da terra. O ensopado cozinhava de um modo tranquilo e tinha um cheiro tranquilo. Estava tranquilo ali na cozinha.

Algo que nunca consegui entender é como eles podem dispensar tal amor e cuidado aos animais e, em seguida, vê-los vendidos para o abate. No entanto, não me atrevo a dizer nada sobre isso. Richard e seus amigos viriam para cima de mim em um segundo. Mas há algum tipo de contradição fria e insensível nesse negócio.

Saiba Mais

Robert James Waller, que também era fotógrafo e músico, nasceu em Charles City, Iowa, em 1º de agosto de 1939 e faleceu em Fredericksburg, Texas, em 10 de março de 2017.

“Puerto Vallarta Squeeze”, romance de Waller publicado em 1995 foi adaptado para o cinema em 2004.

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