David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Literatura’ Category

Tolstói e Gandhi

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Na foto inferior, Gandhi aparece na Fazenda Tolstói (Acervo: Tolstoy Farm)

Pouco tempo antes de falecer, Tolstói disse que preferia mais ser celebrado por suas obras voltadas à sua filosofia de vida e filosofia moral, o que incluía a sua defesa do vegetarianismo, do que pelos seus romances. Claro que o alcance de seu trabalho como romancista o levou muito mais longe em popularidade, mas de alguma forma a sua filosofia teve um impacto muito significativo. Exemplos?

“O Primeiro Passo”, de 1892, que deu origem às bases do vegetarianismo ético russo e a sua obra “O Reino de Deus está em vós”, de 1894, que traz uma abordagem espiritual não dogmática e que teve grande influência sobre a juventude de Gandhi, tanto que depois ele fundou nas imediações de Joanesburgo, na África do Sul, a Fazenda Tolstói. Gandhi, que foi influenciado pelos ensaios de não violência de Tolstói, que incluía animais humanos e não humanos, se considerava um tolstoiano. Esse é um dos assuntos que faz parte do meu longo artigo sobre a história de Tolstói com o vegetarianismo.

 





 

Esses dias me perguntaram o que eu acho do Paulo Coelho

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Tratando-se de literatura, e o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim (Foto: Reprodução)

— Acho que o Paulo Coelho é um escritor que se propôs a fazer o trabalho que está fazendo e se tornou bem-sucedido nesse nicho. Não endosso nenhuma opinião ou posição ofensiva ou desdenhosa em relação a ele. Particularmente, tenho predileção por outro tipo de literatura, mas reconheço que ele tem os méritos dele.

Existe algo que chamam de “literatura comercial”, que é o que as pessoas mais consomem no mundo todo se tratando de literatura, e isso, claro, é encabeçado por best-sellers que podem ter sido ou não planejados pensando em vendagem e alcance de um grande público.

No entanto, não cabe a mim dizer se uma pessoa escreve algo estritamente para vender, porque acredito que dificilmente uma pessoa se dedicaria a produzir qualquer tipo de literatura se aquilo não despertasse nela nenhum tipo de gáudio, ou anseio de externalizar uma manifestação conscienciosa em algum nível, seja rasa ou profunda na interpretação subjetiva ou não de alguém.

Um autor que vende muitos livros pode até ter seu trabalho desconsiderado no que diz respeito ao enredo, estrutura, linguagem, etc. Mas se ele alcançou popularidade, no mínimo responde aos anseios culturais de um público bem diverso. Agora se isso acrescenta algo na vida do leitor, isso eu não sei dizer, porque sou apenas um leitor em meio a uma miríade, e minha opinião ou posição não é universal.

Por isso, sempre acho crítica literária algo perigoso quando o autor imprime pessoalidade em vez de avaliar uma obra ponderando sobre o meio, o contexto ao qual ela pertence. Se isso acontece, o que temos diante de nós não é exatamente uma crítica, mas um emaranhado de opiniões e impressões que passam uma ideia de “não gosto desse autor porque ele não corresponde ao meus anseios”, e isso não é muito profissional.

Ao longo da minha vida, li pouco ou quase nada de fantasia, principalmente da adolescência em diante. De terror, se você se refere a Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, sim, li consideravelmente. Talvez eu poderia citar também alguns autores clássicos como John Polidori, Mary Shelley e Bram Stoker; e alguns outros mais contemporâneos como Guy Endore, Stephen King, Clive Barker e Anne Rice, de quem não conheço profundamente o trabalho também. E se me perguntar sobre autores das novas gerações, simplesmente acho que eu não saberia citar nenhum nome.

Não nego que há muita coisa relacionada à literatura que não desperta a minha atenção, e está tudo bem. Ademais, isso não significa que o que não leio não tenha nenhum valor. Se uma obra do chamado “pior autor do mundo” proporciona algo de bom aos leitores, na minha opinião isso é relevante. Borges, por exemplo, passou boa parte de sua vida lendo os mesmos livros, ainda que diante de uma imensa biblioteca. Ele nem mesmo se considerava um grande leitor tratando-se de diversidade literária. Afirmava que pouco ou quase nada conhecia da literatura contemporânea. Nem por isso dedicava tempo falando mal de autores ou os desmerecendo.

U sintezi, o que quero dizer com isso tudo é que o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim. É basicamente o meu gosto, e ele fala essencialmente sobre mim, não sobre os autores que leio ou não leio.

 





 

Written by David Arioch

January 21st, 2018 at 2:03 pm

“A Sociedade Industrial e Seu Futuro”, de Ted Kaczynski

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Estou lendo pela primeira vez o livro Industrial Society and Its Future (A Sociedade Industrial e Seu Futuro), escrito pelo matemático e terrorista Ted Kaczynski, que ganhou fama internacional na década de 1990 como o “Unabomber”. Não simpatizo com as ações dele, já que suas bombas custaram a vida de pessoas, mas admito que o livro é intrigante e faz alguns apontamentos bem contundentes, que dialogam com a realidade atual, embora tenha sido lançado em 1995.

“Warriors” de Sol Yurick e “Anábase” de Xenofonte

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Se você gosta do livro “The Warriors”, do Sol Yurick, ou da adaptação cinematográfica do livro feita pelo Walter Hill, sugiro que leia “Anábase” porque tudo leva a crer que “The Warriors” foi inspirado nessa que é a obra mais famosa de Xenofonte.

Na obra grega, a história se passa antes da era cristã e é protagonizada por soldados, não por violentos membros de gangues. Porém, tanto os soldados de Xenofonte quanto os marginais de Yurick enfrentam uma série de obstáculos para retornarem para casa. Sem dúvida, se ler uma, vale a pena ler a outra.





Written by David Arioch

January 2nd, 2018 at 12:06 am

Kostolias e a história do jovem que foi preso por ser vegetariano

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“Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância” 

Lançado em 2016 pela Editora Jaguatirica, “O Exilado Político Vegetariano” é um romance de Alexandre Kostolias baseado em fatos reais. A obra conta a história de Hernán López, um rapaz de origem humilde, morador de um dos bairros mais pobres de Santa Fé, na Argentina, que é perseguido e preso em janeiro de 1970. O motivo? Hernán é vegetariano.

Uma das vítimas da ditadura argentina, ele é arrastado de dentro da própria casa e jogado dentro de uma cela, sem direito a advogado ou qualquer tipo de intervenção a seu favor – nem mesmo contato com qualquer pessoa que não seja o carrasco “La Bestia”. Para realçar a quimera da situação, somente depois de semanas, quando é interrogado pela primeira vez pelo “Comisario Supervisor”, é que a Polícia da Província de Santa Fé reconhece que não há outro motivo para o rapaz estar preso, a não ser por sua filosofia de vida vegetariana; já que ele não é “comunista” nem “maricón” – considerados crimes na Argentina da época.

Na cela, Hernán mal dorme, pois sabe que sempre às 6h o carrasco “La Bestia” os visita. “O que lhe aconteceria? Só para começar, levaria um choque elétrico com bastão, o mesmo usado para conduzir gado para o abate nos frigoríficos. O pavor de levar choque com bastão atingia Hernán visceralmente: um dos motivos de suas convicções vegetarianas era o horror que lhe causava só de pensar na forma como os animais são abatidos nos matadouros. Era impossível saber o que o aguardava”, relata Kostolias nas páginas 32 e 33.

A recusa de Hernán López em consumir carne é considerada execrável porque o regime político da Argentina de 1970 considerava a pecuária como o maior orgulho econômico do país. E o desprezo de Hernán por essa cultura baseada na morte de animais era vista como uma atitude antipatriótica, passível de punição.

“Todos tinham muito orgulho da carne de Santa Fé. Bem, quase todos. Hernán López detestava carne. Pertencia a uma categoria de gente sobre a qual, naquelas bandas, pesavam muitas suspeitas, mas poucas informações: os vegetarianos. Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância. Os bifes que o obrigavam a comer eram ingeridos com muita dificuldade, lhe causavam náuseas”, narra o autor na página 40.

Por ser vegetariano, os problemas de Hernán surgiram muito cedo. Os primeiros atritos foram com o pai Juan, um homem violento tanto dentro quanto fora de casa. Tendo trabalhado por muito tempo na “lida de gado”, atividade que associava à própria masculinidade, considerava uma afronta ter que tolerar um filho vegetariano sob o mesmo teto, ainda mais em um contexto onde carne era inclusive sinônimo de bem-estar. Associada às mulheres, trazia a equivocada ideia de saúde; e associada aos homens, a equivocada ideia da virilidade:

“Todo bife ancho e asado de costilla que trazia para casa, – com frequência cada vez menor – ganho em troca de serviços esporádicos prestados a algum rancheiro, era sagrado, e Hernán era forçado a comer a sua parte. Se necessário fosse, sob ameaça de chicote e pancada.”

Por isso, a convivência com o pai vaqueiro marcou uma das piores fases da vida do jovem protagonista. Mesmo sentindo profunda aversão, uma repulsa visceral por todos os tipos de carne, se viu obrigado a aprender a engolir sem mastigar – tentando não pensar em tudo que, para ele, estava evidentemente associado ao ato de consumir carne:

“Aprendeu a cortar pedaços no tamanho exato, grandes o suficiente para reduzir o número de vezes que tinha que cometer o sacrifício, pequenas o bastante para passar pela goela abaixo. E fazendo sempre um tremendo esforço para não vomitar. Não é de surpreender que quando seu pai faleceu de cirrose hepática aos 44 anos, Hernán não tenha ficado triste com a ocorrência. Respirou aliviado e nunca mais foi obrigado a comer carne.”

Já detido e encarcerado, em um dos interrogatórios com o “Comisario Supervisor”, Hernán pergunta se é crime ser vegetariano. Então o homem admite que nada consta no Código Penal, porém afirma que ser vegetariano pode se enquadrar como uma ofensa cultural, um delito social.

“Mas eu não considero um delito muito grave ser vegetariano. Eu mesmo, às vezes, prefiro um dourado do Rio Paraná na chapa, ao invés de um bife ancho”, declara o interrogador. Hernán, mesmo diante de uma situação difícil explica que um autêntico vegetariano não come peixe. Só grãos, legumes, verduras, raízes, frutas, coisas assim. Então o “Comisario” não reage bem à explicação do rapaz.

— Hmmm. Tem certeza? Um evidente radicalismo. Você tem certeza de que não é marxista-leninista?”, questiona.

“O Exilado Político Vegetariano”, de Alexandre Kostolias é uma obra sobre um jovem com identidade própria que tenta trilhar o seu próprio caminho em um mundo onde até mesmo a pretensa tolerância está coberta, implícita e explicitamente, de incomplacência. Enquanto as cortinas da vida caem, Hernán López deseja apenas viver à sua maneira, sem ser julgado e condenado por isso.

Em síntese, e na minha concepção, “O Exilado Político Vegetariano” é um livro sobre alguém que, até então imerso em um minúsculo universo de particular inocência e simplicidade, é lançado em um mundo de conflitos constantes entre individualidade, coletividade e alteridade que se diluem entre si. Por onde Hernán passa, há um desespero existencialista, se não o dele, o dos outros, que em face da liberdade de escolha não veem outro sentido na vida que não vivê-la, sofregamente ou não, independente de erros e acertos, e da angústia em um mundo em constante e célere transformação.

Para além do enredo, um dos pontos altos do livro é a leveza e irreverência da narrativa de Alexandre Kostolias, que intercala momentos de tensão com muito bom humor. Em alguns aspectos, a estrutura narrativa e a fluência textual de “O Exilado Político Vegetariano” me trazem lembranças do estilo individual despojado de Charles Bukowski.

Saiba Mais

“O Exilado Político Vegetariano” está à venda na Amazon, Cultura, Saraiva, Americanas e Submarino.





A obrigatoriedade e o prazer da leitura

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Tive amigos e colegas na minha infância e adolescência na escola que não apenas desgostavam da leitura como a desprezavam. A ideia da obrigatoriedade como as principais experiências com a leitura os levou a isso. Eles não viam a leitura para além do condicionamento. Não encaravam a leitura como uma escolha, uma opção.

Não tive esse problema porque fui estimulado a ler dentro de casa, e de forma bem natural. Quero dizer, ouvindo histórias, encontrando livros espalhados pela casa, convivendo com leitores, ganhando livros, fazendo minhas próprias escolhas; inclusive quando ficava de castigo no quarto dos meus pais e tinha o direito de ler e escolher o que ler.

Então, na escola, a ideia da leitura não me incomodava porque eu já havia sido estimulado nos primeiros anos de vida. Porém, aquelas crianças que não passaram por isso, com raras exceções, tinham dificuldade de aceitar o fato de que eram obrigadas a lerem algo. Afinal, a experiência com a leitura era condicionada, atrelada às obrigações escolares e vista como chata ou enfadonha.

Realmente há muitas crianças e adolescentes que não são capazes de pensarem em leitura sem logo associarem a notas, provas, trabalhos, Enem, vestibular. Logo, para muitos, por mais estranho que isso possa parecer, a ideia de ficar longe de livros é vista como prazerosa. O que, de fato, não deveria acontecer ou ser visto com normalidade. Porém, é uma consequência natural da maneira como se cria vínculo com os livros.

E quando o desinteresse pela leitura é crônico, a ideia da leitura vem embutida de más experiências que poderiam ter sido boas, se bem semeadas. Sendo assim, qual seria um bom caminho para evitar isso? A princípio, acredito ainda que estimular a leitura dentro de casa, mas de forma natural.

Creio que a oralidade, a contação de histórias, é o primeiro ponto de partida antes e durante o processo de alfabetização, porque aguça a imaginação e a criatividade da criança, despertando a vontade de conhecer mais histórias; e esse interesse aproxima as crianças dos livros. Logo não é difícil estimular uma criança a gostar de ler a partir da narração de histórias. Naturalmente, funciona como uma ponte que pode construir um vínculo de fruição perene e genuína.

Claro, conheci também crianças, adolescentes e adultos que desenvolveram o gosto pela leitura fora de casa, de forma independente, mas por fatores não tão recorrentes. Então, realmente sou da opinião de que os níveis de interesse pela leitura seriam muito maiores se houvesse de fato um incentivo doméstico.

Neste caso, que tal começar contando histórias ou lendo para as crianças próximas de nós? Com tantos projetos de democratização da leitura hoje em dia não é difícil doar ou presentear crianças com livros. Há inclusive bibliotecas, ONGs, institutos e instituições de ensino que fazem doações de obras literárias; distribuição de kits e coleções.

Ok, mas e no caso de jovens que não desenvolveram o gosto pela leitura? Neste caso, creio que vale a sugestão de abrir uma porta para a leitura baseando-se em predileções. Até mesmo uma biografia de alguém que um adolescente admire, ou um livro que deu origem a um filme ou jogo de videogame pode ser um bom princípio. Quando o interesse pela leitura é nulo, querer que uma pessoa leia uma obra que não a interessa sob uma perspectiva individual pode ser realmente contraproducente. Então por que não identificar interesses e usar isso como ponto de partida? Afinal, a leitura nos humaniza.





Written by David Arioch

December 28th, 2017 at 5:31 pm

A autoconsciência de Kafka

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Arte: Moonwild

Franz Kafka tinha uma autoconsciência tão poderosa, conhecia a si mesmo de maneira tão insólita, que antecipou em Gregor Samsa a sua própria morte. O seu personagem mais famoso amargou fome severa nos seus últimos dias, até ser encontrado morto e excepcionalmente magro.

Menos de dez anos depois da publicação de “A Metamorfose”, Kafka faleceu em decorrência de uma tuberculose laríngea que o impedia de se alimentar. E o que dizer ainda de “Um Artista da Fome”? Obra que transita da metáfora da sua própria marginalização para a inevitável literalidade do seu principiado fim.

 

Written by David Arioch

December 28th, 2017 at 5:25 pm

Knut Hamsun, o escritor norueguês que influenciou outros importantes nomes da literatura

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Håndkolorert dias. Forfatterene Knut Hamsun og Marie Hamsun står foran en stor høysåte sammen med en hund. *** Local Caption *** Hamsun, Knut, forfatter (1859-1952) Hamsun, Marie, forfatter (1881-1969)

Knut Hamsun foi um escritor norueguês que influenciou e inspirou Franz Kafka, Thomas Mann, Hermann Hesse, Isaac Bashevis Singer, Ernest Hemingway, H.G. Wells, Stefan Zweig e Charles Bukowski, entre outros escritores. Para quem não conhece o trabalho dele, sugiro que leiam “Fome”, “Pan” e “Um Vagabundo Toca em Surdina”. Hamsun era um autor bastante controverso, que nunca fez questão de velar a sua simpatia por um tipo telúrico de anti-civilização.

Onde você vai?

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Saindo do Teatro Municipal, passei em uma loja de conveniência. Na saída, observei uma coruja que me assistia. “A noite é sua”, disse a ela.

— Onde você vai? — perguntou uma moça dentro de um carro estacionado.
— Quê? — respondi.
— Onde você vai.
— Vou pra casa.
— Por quê?
— Porque sim.
— Quer carona?
— Não, obrigado. O meu carro está logo ali — expliquei.
— Venha aqui.
— Não entendi.
— Rapidinho, querido.
— Você me conhece?
— Claro.
— Como?
— Já ficamos juntos há algum tempo.
— Acho que não.
— Ficamos sim.
— Não creio, tenho boa memória.
Fiquei em silêncio.
A moça abriu a bolsa, tirou o celular e mostrou algumas fotos.
— Não entendi.
— Nós lá em casa.
— Quê?
— A nossa festinha.
— Tudo bem, mas não sou eu na foto.
— Isso não vem ao caso.
— Como não? Você disse que sou eu.
— Mas é você. Tenho mais uma coisa pra te mostrar.
— Hã?
— Que isso?
— É seu — afirmou segurando um pequeno tufo de barba que mais parecia um pedaço de Assolan envernizado.
— Isso não é minha barba.
— Claro que é, querido. Você está me chamando de mentirosa?
— Não, mas por que está guardando isso?
— Lembrança.
— Hum…
— Tá. Então, vamos tomar alguma coisa?
— Não posso. Tenho que acordar cedo.
— Nossa, você é chato, hein? Por acaso, você é antissocial?
— Sinceramente? Acho que não tenho como negar.
Silêncio.
— Você pareceu bem comunicativo e desinibido aquele dia em casa. Quando você dormiu, cortei um pedacinho da sua barba. Nem percebeu, né?
— Tenho certeza de que não sei onde você mora.
— Eu, você, Cláudia e Roberta. Tem certeza que não se lembra?
— Quê?
— Vai ficar de palhaçada? — insistiu a mulher.
— Não, mas preciso ir. Me desculpe, mas não sou quem você imagina.
— Tudo bem, querido. Mas vou continuar de olho em você.
— Você é muito gentil. Tenha uma boa noite.

Sem olhar para trás, entrei no carro e minutos depois me dei conta de que eu estava sendo seguido. Mantendo os vidros fechados, estacionei e observei a aproximação de um carro pelo retrovisor. Alguém cutucou o vidro com as pontas dos dedos.

— Boa noite, desculpe o incômodo. Você pode me dizer qual é o melhor caminho para o Jardim Oásis?





Written by David Arioch

November 19th, 2017 at 8:43 pm

“Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?”

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Versão da Companhia das Letras relançada no Brasil em 2016

Os dois carneirinhos passam o dia amarrados ao lado do estábulo em um pedaço de chão nu. Seus balidos, constantes e monótonos, começaram a incomodá-lo. Ele vai até Petrus, que está consertando a bicicleta, de rodas para o ar. “Esses carneiros”, diz, “não acha que podiam ficar amarrados em algum lugar onde possam pastar?”

“São para a festa”, Petrus diz. “Sábado vou matar os dois para a festa. Você e Lucy vêm também.” Ele limpa as mãos.

“Estou convidando você e Lucy para a festa.”

“Sábado?”

“É, vou dar uma festa no sábado. Festa grande.”

“Obrigado. Mas mesmo sendo para a festa, não acha que os carneiros podiam pastar?”

Uma hora depois, os carneiros ainda estão amarrados, ainda balindo dolorosamente. Petrus não está em parte alguma. Exasperado, ele desamarra os bichos e prende ao lado da represa, onde a relva é abundante.

Os carneiros bebem moderadamente, depois começam a pastar tranquilamente. São de raça persa, de cara preta, parecidos um com o outro no tamanho, nas cores, até nos movimentos. Gêmeos, com toda certeza, destinados desde o nascimento à faca do açougueiro. Bom, nada de mais nisso. Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?

Carneiros não são donos de si mesmos, donos da própria vida. Existem para ser usados, até a última gota, a carne comida, os ossos moídos e dados às galinhas. Não sobra nada, a não ser talvez a vesícula biliar, que ninguém come. Descartes devia ter pensado nisso. A alma, suspensa na bile escura, amarga, escondida.

Páginas 141 e 142 de “Desonra”, de J.M. Coetzee, publicado em 1999.

Written by David Arioch

November 11th, 2017 at 8:09 pm