David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Literatura’ Category

Feliz em encontrar tantas referências literárias

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Herman Melville em Moby-Dick: “Não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino”

Fico feliz em encontrar tantas referências para abordar vegetarianismo, veganismo e direitos animais a partir da literatura ficcional. A lista é imensa. E muitas dessas obras passaram e continuam passando despercebidas sob essa ótica. Mas tenho orgulho de ter a oportunidade de me empenhar para tentar ajudar, mesmo que parcamente, a trazer isso à tona. Existe muita consciência vegetariana e vegana na literatura que merece ascender à superfície.

 

 





Written by David Arioch

April 29, 2017 at 5:10 pm

Editora Escala e Penguin Classics

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Penguin Classics oferece livros baratos e boa diversidade (Foto: Reprodução)

No Brasil, quem fez um trabalho muito bom de publicação de livros com material de baixo custo foi a Editora Escala. Mas não sei se ainda publicam novos títulos nesse padrão. Comprei muitos livros da Escala na época da faculdade, e pagava-se de R$ 5 a R$ 7 por título. Hoje em dia, sou fã da Penguin Classics, livros baratos e impressos em papel reciclado e sem ácido. Isso é democratização da leitura.





Written by David Arioch

April 29, 2017 at 2:22 pm

Robert Louis Stevenson: “Consumimos as carcaças de criaturas de apetites, paixões e órgãos como nós mesmos”

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“Cortar a carne de um homem depois de morto é menos odiável do que oprimi-lo enquanto ele vive”

Stevenson: “No entanto, temos [por consumir carne] a mesma aparência [dos canibais] aos olhos do budista e do vegetariano”

O escritor escocês Robert Louis Stevenson é mais conhecido como autor de clássicos como “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”, ou “O Estranho Caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde”, lançado em 1886, e “The Treasure Island”, ou “A Ilha do Tesouro”, de 1883, obras que se tornaram mundialmente populares, ganhando inclusive adaptações para a TV e para o cinema.

No entanto, há um livro de Stevenson, “In The South Seas” ou “Nos Mares do Sul”, publicado em 1896, quase dois anos após sua morte, que merece atenção especial, embora não esteja entre os seus escritos mais famosos. Isto porque a obra reúne uma coleção de ensaios com registros reveladores sobre as viagens do escritor pelo Oceano Pacífico.

Entre os quais, é destacável “Long-Pig – A Cannibal High Place”, que integra o capítulo 9. No ensaio, que ganhou fama de maldito em alguns círculos sociais por desnudar a hipocrisia da sociedade europeia, o escritor narra, com certa ironia, e levando em conta o contexto cultural ocidental, que nada desperta tão fortemente o nosso desgosto quanto o canibalismo, que transparece como a desfiguração da própria sociedade.

“Nada, poderíamos argumentar plausivelmente, irá degradar tão duramente as mentes daqueles que o praticam [quanto o canibalismo]. No entanto, temos [por consumir carne] a mesma aparência [dos canibais] aos olhos do budista e do vegetariano. Consumimos as carcaças de criaturas de apetites, paixões e órgãos como nós mesmos. Nos alimentamos de bebês, embora não os nossos; e o matadouro ressoa diariamente gritos de horror e medo”, registrou na página 99.

Em referência ao especismo, Stevenson diz que a recusa de muitas nações em se alimentar de um cão, um animal com quem se tem uma relação de intimidade, mostra como essa distinção entre animais que devem ou não ser reduzidos a pedaços de carne é precariamente fundamentada; deixando subentendido que relegamos a morte todos aqueles que não vemos como amigos ou companheiros de conveniência.

O escritor escocês revelou em “In The South Seas”, que a realidade partilhada com os insulares do Pacífico, entre eles os povos canibais, fez com que tivesse um novo senso de percepção da realidade, da vida e do mundo; e tudo isso a partir da observação de seus personagens e eventualmente da forma como morriam.

“Muitos insulares vivem com seus porcos como fazemos com nossos cães. Ambos se aglomeram ao redor da lareira com igual liberdade; e o porco da ilha é um companheiro de atividades, iniciativas e sentidos”, informa. Acrescenta ainda que os porcos das Ilhas Marquesas eram tão espertos que empurravam os cocos em direção ao sol para que estourassem e eles pudessem comê-los.

Por outro lado, Robert Louis Stevenson cita o tratamento que os “civilizados” já davam aos porcos nos matadouros. E satiricamente comenta que, apesar de tudo, os europeus ainda são considerados um dos povos menos cruéis, deixando patente a sua discordância. Em relação ao abate do gado e de outros animais consumidos pelos seres humanos, ele declara que a parafernália do assassinato, as brutalidades preparatórias de sua prática, estão todas escondidas. Nessa passagem, há uma referência à dissimulação da crueldade por parte de quem explora os animais, e ao mesmo tempo a conivência de quem os consome como se fossem produtos. “Uma extrema sensibilidade reina sobre a superfície”, diz o autor, possivelmente debochando.

Stevenson critica e satiriza as damas que provavelmente ficarão chocadas ao lerem seu relato. Na obra, ele prevê desmaios diante da franca descrição de uma crueldade que nada mais é do que aquilo que elas esperam diariamente de seus açougueiros. “Alguns vão se queixar de mim, do fundo de seus corações, pela grosseria desse parágrafo”, prevê ironicamente.

No ensaio, o escritor também faz a defesa dos canibais do Pacífico ao argumentar que eles não eram cruéis, como os europeus gostavam de descrevê-los em uma pretensa autoafirmação de falsa superioridade. “Eles [os canibais] não eram cruéis. Para além desse costume, são uma raça das mais gentis; corretamente falando, cortar a carne de um homem depois de morto é menos odiável do que oprimi-lo enquanto ele vive”, justificou, fazendo menção aos animais criados para servirem como comida aos seres humanos.

Saiba Mais

Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 13 de novembro de 1850. Ele faleceu em 3 de dezembro de 1894 em Vailima, nas Ilhas Samoa, em decorrência de hemorragia cerebral.

Alguns pesquisadores acreditam que a sensibilidade de Robert Louis Stevenson em relação aos animais foi estimulada pela sua esposa Frances (Fanny) Matilda Van de Grift Osbourne Stevenson, que era uma amante dos animais.

Referências

Stevenson, Robert Louis. Páginas 99-101. In The South Seas. Arc Manor. (2006).

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Moby-Dick: “Não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino”

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“Vá ao mercado de carnes e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos”

Melville foi influenciado por Thoreau e Emerson, escritores e filósofos que defendiam o respeito à natureza

Publicado em 1851, o romance “Moby-Dick; or, The Whale”, de Herman Melville, que se tornou um dos livros mais importantes da literatura dos Estados Unidos, conta a história de vingança de Ahab, o obsessivo capitão do baleeiro Pequod que, depois de ter a sua perna arrancada pela lendária baleia branca Moby-Dick, decide dedicar sua vida a persegui-la e destruí-la, ignorando o fato de que ele invadiu o habitat do animal e tentou matá-lo.

Quando escreveu a obra, Melville já havia sido influenciado pelas ideias e obras de Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson, escritores e filósofos estadunidenses que defendiam o respeito à natureza, e que, por vezes, são classificados por alguns autores como vegetarianos, embora não haja registros tão precisos sobre seus hábitos alimentares, assim como os de Melville.

A inspiração para produzir “Moby-Dick” veio de aventuras fantásticas que o escritor vivenciou a partir de 1841, quando passou 18 meses no baleeiro Acushnet, um dos mais de 700 navios baleeiros dos Estados Unidos, de um total de 900 atuando na pesca comercial naquele ano.

Embora a experiência tenha sido muito rica, Herman Melville a qualificou como extremamente infeliz, porque a vida no mar era absolutamente miserável. E ele, assim como outros marinheiros, eram tratados como escravos e tinham que se submeter a todos os tipos de ordens de “homens vulgares e brutais”.

Até certo ponto, Melville compartilhou suas aventuras com o seu amigo Richard Tobias Green, com quem desembarcou em Nuku Hiva, a maior das Ilhas Marquesas da Polinésia Francesa. Um dia, Green desapareceu quando saiu para procurar ajuda para Melville que estava com uma séria lesão em uma das pernas.

Sozinho, o escritor foi capturado pelos typees, uma tribo canibal que em nenhum momento ameaçou sua vida. Muito pelo contrário, Herman Melville foi alimentado com refeições vegetarianas e saudáveis, baseadas em coco e fruta-pão, de acordo com o escritor R.L. Fisher, que assina a apresentação do livro “Moby-Dick; or, The Whale”, publicado pela editora Tor em 1996. O relato também é endossado por Hershel Parker em “Herman Melville: 1818-1851” e Steven Olsen-Smith em “Melville in His Own Time: A Biographical Chronicle of His Life, Drawn from…”.

Melville se sentiu tão bem entre os nativos, que tinham fama de bárbaros e hediondos, que definiu aqueles chamados canibais como muito superior aos civilizados americanos e europeus. Considerado transcendentalista por influência de Waldo Emerson, a natureza sempre foi um dos temas centrais na literatura de Melville, que jamais hesitou em deixar claro que quando o homem fere a natureza, ele deve se preparar para as consequências; e a maior prova disso é a entrega a uma forma odiosa de passionalidade do capitão Ahab, na sua sana por matar a baleia Moby-Dick a qualquer preço.

Na Polinésia, Herman Melville foi alimentado pelos nativos com refeições vegetarianas e saudáveis

“Seus três botes afundavam à sua volta, e os remos e os homens giravam em redemoinhos; um capitão arrancou uma faca das cordas da proa arrebentada e arremessou-se contra a baleia – como um duelista do Arkansas contra seu adversário, tentando atingir às cegas, com uma lâmina de seis polegadas, a vida profunda da baleia. Esse capitão era Ahab. E foi então que, subitamente, passando por baixo dele com a foice de sua mandíbula inferior, Moby-Dick cortou a perna de Ahab, como faria uma ceifadeira com a grama no campo.

Nenhum turco de turbante, nenhum veneziano ou malaio mercenário o teria atingido com tamanha malícia. Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais”, escreveu nas páginas 178 e 179.

Na página 209, Melville discorre sobre a natureza humana, partindo, a princípio, da perspectiva de um homem duro, embrutecido pelo meio e pela própria ignorância: “A condição permanente do homem tal como é fabricado, pensava Ahab, é a sordidez. Pressupondo que a Baleia Branca incite os corações dessa minha feroz tripulação, e imaginando que sua ferocidade até produza neles uma espécie de brio generoso, todavia, enquanto dão caça a Moby-Dick por prazer, é necessário alimentar também seus apetites comuns e rotineiros.”

Ele prossegue a narrativa declarando que mesmo os enlevados e cavalheirescos Cruzados de outrora não se contentavam em atravessar duas mil milhas de terra para lutar por seu Santo Sepulcro sem pilhar, roubar e obter outras pias vantagens pelo caminho: “Tivessem eles se limitado a seu único objetivo último e romântico – daquele objetivo último e romântico, muitos teriam desistido por desgosto. Não tirarei desses homens, pensou Ahab, a esperança do dinheiro – sim, dinheiro. Poderiam menosprezar o pagamento agora; mas deixasse passar alguns meses, sem nenhuma promessa em perspectiva de paga, e então esse mesmo capital se amotinaria todo de uma vez dentro deles e decapitaria Ahab.”

Melville faz referência a um fato já comum à época – de que o homem do mar, que tinha como principal fonte de renda a frequente morte de seres vivos não humanos, poderia se transformar, chegando a não pensar duas vezes se tivesse que matar um semelhante para lucrar ou mesmo se vingar.

Na página 289 de “Moby-Dick”, Ishmael, alter ego de Herman Melville, narra que não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino; talvez tenha sido enforcado; e, se o tivessem levado a julgamento por causa disso, certamente teria merecido a sua sentença. E naturalmente, são os compradores e consumidores que perpetuaram tal negócio que ainda nos dias de hoje parece distante do fim.

“Moby-Dick” também é um livro que desvela a ferocidade do antropocentrismo

“Num sábado à noite, vá ao mercado de carnes e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos. Esse espetáculo não tira um dos dentes do maxilar dos canibais? Canibais? Quem não é um canibal? Garanto a você que o Juízo Final será mais tolerante com um providente Fijiano que salgou um missionário magro em sua adega para se prevenir contra a fome do que contigo, gourmand civilizado e esclarecido, que prendes os gansos no chão e te refestelas com seus fígados dilatados em teu patê de foie gras”, criticou.

Melville era um autor muito à frente do seu tempo, e a maior prova disso é que o seu romance mais famoso – “Moby-Dick; or, The Whale”, dedicado a Nathaniel Hawthorne, não obteve qualquer prestígio após o lançamento. Quando faleceu em 28 de setembro de 1891, seu livro já não era mais encontrado à venda em lugar algum.

A rejeição ao seu trabalho pode ter sido facilitada pelas críticas que fez ao comportamento dos ocidentais de seu tempo, imersos em hipocrisia, egolatria, preconceitos, superficialidades e pouco respeito à natureza. Em suma, “Moby-Dick” também é um livro que desvela a ferocidade do antropocentrismo, embora, por vezes, também transpareça, mesmo que minimamente, antropocêntrico; provavelmente por influência da época.

O escritor estadunidense William Faulkner, um dos mais importantes dos Estados Unidos do século 20, declarou que gostaria de ter escrito “Moby-Dick”. O inglês D.H. Lawrence, outro autor igualmente relevante, definiu o romance da baleia branca como um dos mais estranhos e maravilhosos livros do mundo.

“Mas Stubb, ele come a baleia à luz de seu próprio óleo, não? E isso é somar insulto à injúria, não é? Olhe para o cabo de sua faca, meu caro gourmand civilizado e esclarecido a comer um rosbife, do que é feito o cabo? – do quê, senão dos ossos do irmão do mesmo boi que você está comendo? E com o que você palita os dentes, depois de devorar aquele ganso gordo? Com uma pena da mesma ave. E com que pena o Secretário da Sociedade de Supressão de Crueldade aos Gansos escreve suas circulares? Há apenas um ou dois meses essa sociedade tomou a decisão de patrocinar somente penas de aço”, escreveu Herman Melville na página 289 de “Moby-Dick; or, The Whale”, romance publicado em 1851.

Saiba Mais

Herman Melville nasceu em Nova York em 1º de agosto de 1859 e faleceu na obscuridade e na pobreza. Seu túmulo pode ser visitado no Cemitério de Woodlawn.

Outra obra de grande prestígio de Melville é “Billy Budd”, publicada pela primeira vez em 1924, editada por Raymond M. Weaver, da Universidade Columbia.

Referências

Melville, Herman. Moby-Dick or The Wale (1851). Tor Classics (1996).

Melville, Herman. Moby Dick. Cosac Naify (2008).

Parker, Hershel. Herman Melville: 1818-1851.  Johns Hopkins University Press; First edition (2005).

Olsen-Smith, Steven. Melville in His Own Time: A Biographical Chronicle of His Life, Drawn from… University Of Iowa Press; 1st edition (2015).

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As Pontes de Madison: “Algo que nunca consegui entender é como eles podem dispensar tanto amor e cuidado aos animais e, em seguida, vê-los vendidos para o abate”

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“Nenhuma violência envolvida na cadeia alimentar, exceto, talvez, por arrancar os legumes da terra”

Livro foi publicado pela primeira vez em 1992 (Foto: Reprodução)

Falecido no dia 10 de março de 2017, o escritor estadunidense Robert James Waller ficou famoso pela autoria do best-seller “The Bridges of Madison County”, ou “As Pontes de Madison”, publicado pela primeira vez em 1992, e que é ambientado no Condado de Madison, em Iowa. Em 1995, o livro foi adaptado para o cinema sob direção de Clint Eastwood, que protagoniza a obra ao lado de Meryl Streep.

O livro conta a história de uma mulher casada e solitária que tem um relacionamento de quatro dias com um fotógrafo da revista National Geographic em 1965. Ele viaja para registrar imagens das famosas pontes cobertas do condado.

Durante esse período, além de uma curta e intensa história de amor que vem à tona somente após a morte de Francesca, é interessante perceber como o estilo de vida do fotógrafo, que não come carne de animais, é visto com estranheza, e até mesmo como uma afronta, em um cenário onde muitos têm como principal fonte de renda a criação de animais enviados para o abate.

Logo abaixo, selecionei alguns trechos das páginas 11, 14, 24, 27, 32 e 64 que abordam a sintonia de Kincaid com os animais, e a natureza em geral, além da curiosidade de Francesca com o seu estilo de vida incomum e intrigante se comparado aos moradores de Madison:

Ele desejou pela milésima vez em sua vida ter um cão, um golden retriever, talvez, para viagens como essa e também para ter alguma companhia em casa. Mas frequentemente ele se ausentava, passando a maior parte do tempo no exterior, e isso não seria justo com o animal. Ainda assim, ele pensou a respeito. Em poucos anos, ele estaria velho demais para o trabalho de campo. “Eu poderia ter um cão até lá”, disse ao conífero que via passar através de sua janela.

Ao contrário da população, que se alimentava de molho madeira, purê de batatas e carne vermelha, alguns, três vezes por dia, Robert Kincaid parecia não comer nada além de frutas, nozes e legumes. Rijo, ela pensou. Ele parece rijo, fisicamente.

— Só legumes estaria ótimo, para mim. Eu não como carne. Já faz anos. Nada de mais, só me sinto melhor assim. Francesca sorriu, de novo.

— Por aqui, esse ponto de vista não seria muito popular. Richard e seus amigos diriam que você está tentando destruir o sustento deles. Eu também não como muita, não sei por quê. Apenas não ligo muito. Mas toda vez que tento servir um jantar sem carne, com minha família, há uivos de rebelião. Aí acho que desisti de tentar. Será divertido fazer algo diferente, para variar um pouco.

O sol branco tinha ficado vermelho e imenso, logo acima dos campos de milho. Pela janela da cozinha, ela viu um falcão que voava nas correntes de vento do começo da noite. O noticiário das sete começava no rádio. E Francesca olhou para o outro lado da mesa amarela de fórmica, para Robert Kincaid, que tinha vindo por um caminho tão longo, até sua cozinha. Um longo caminho, atravessando mais que milhas.

— Já está um cheiro bom — disse ele, apontando o fogão.

— Está com um cheiro… tranquilo. — Ele olhou para ela.

Tranquilo? Alguma coisa pode ter cheiro tranquilo? Ela pensava na frase e se questionava. Ele estava certo. Depois das costeletas de porco, bifes e assados que fazia para a família, aquela era, sim, uma culinária tranquila. Nenhuma violência envolvida na cadeia alimentar, exceto, talvez, por arrancar os legumes da terra. O ensopado cozinhava de um modo tranquilo e tinha um cheiro tranquilo. Estava tranquilo ali na cozinha.

Algo que nunca consegui entender é como eles podem dispensar tal amor e cuidado aos animais e, em seguida, vê-los vendidos para o abate. No entanto, não me atrevo a dizer nada sobre isso. Richard e seus amigos viriam para cima de mim em um segundo. Mas há algum tipo de contradição fria e insensível nesse negócio.

Saiba Mais

Robert James Waller, que também era fotógrafo e músico, nasceu em Charles City, Iowa, em 1º de agosto de 1939 e faleceu em Fredericksburg, Texas, em 10 de março de 2017.

“Puerto Vallarta Squeeze”, romance de Waller publicado em 1995 foi adaptado para o cinema em 2004.

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Goethe seria “crucificado” no mundo de hoje

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Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (Arte: Reprodução)

No mundo de hoje, creio que Goethe seria “crucificado” por publicar um romance como “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Diriam, com mais paroxismo do que no século 18, que ele romantizou o suicídio às raias da apologia e, assim como no passado, também seria responsabilizado pela morte de jovens, principalmente – mas creio que numa proporção bem maior. Quem sabe, fosse até perseguido.

Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (tendo como referência inclusive uma experiência pessoal) e transformou isso em uma obra que penso que talvez até tenha salvado a sua vida, já que ele morreu na obra, mas sobreviveu fora dela. Goethe a escreveu em poucos dias – num prazo tão curto que deixa claro como o escritor estava imerso nesse universo romanesco e conflituoso.

Há autores que escrevem sobre o suicídio até mesmo como uma forma de manifestação da incomunicabilidade, tentativa de compreensão de algo que parece maior do que si mesmo, escapismo, libertação e redenção – mas não pensam em cometê-lo. Pode parecer sombrio para muita gente, porém, isso também é uma forma de autoconhecimento. Tenho uma crônica em que falo sobre o suicídio, e eu não estava nem triste quando a escrevi.

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Written by David Arioch

April 16, 2017 at 3:30 pm

A morte de João Gilberto Noll, uma triste surpresa

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Mediei um bate-papo com João Gilberto Noll e Luís Henrique Pellanda em setembro de 2012 (Foto: Sesc)

Fiquei sabendo agora do falecimento do escritor gaúcho João Gilberto Noll, vencedor de cinco Jabutis. Me recordo que em setembro de 2012, quando eu ainda estava na casa dos 20, logo mais inseguro do que hoje em dia, tive a oportunidade de mediar um bate-papo com ele e com o Luís Henrique Pellanda, de Curitiba, durante a Semana Literária do Sesc.

Foi uma noite inesquecível; um bate-papo que se estendeu por quase duas horas, e depois continuou na mesa de uma pizzaria em frente ao Grande Hotel, onde ele pediu uma latinha de Coca Zero. Reservado, sua conversa era pausada, reflexiva e bastante ponderada. Por outro lado, como autor era um libertador, arrebatador; sempre semeando um espírito com ânsia pela liberdade. Penso que sua força literária era a sua coragem existencial. Quem sabe, até como reação de uma severa formação religiosa que lhe impôs tantos limites.

Ainda me recordo de sua voz morna durante a leitura ao público. Persistia uma serenidade que se misturava à ansiedade de seus personagens imersos em anseios e situações que escapavam à imaginação do público. Acredito que ainda tenho o áudio do nosso bate-papo. Se eu encontrar, e espero encontrar, vou tentar transformar em alguma coisa que compense a leitura.

 





Written by David Arioch

March 30, 2017 at 2:20 am

Hemingway, entre o céu e o inferno

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Hemingway sorrindo ao final de uma de suas caçadas (Foto: Reprodução)

A literatura de Hemingway fez parte da minha vida. Por ora, me recordo principalmente de suas descrições em que revelava entusiasmo e surpresa com a crueldade humana no tratamento dispensado a seres não humanos.

Exemplo são suas narrativas das touradas – entre o céu e o inferno; de quando os gregos quebraram as pernas de seus burros e os empurraram ao mar para morrerem afogados durante a evacuação de Smyrna em 1922. Ademais, esse mesmo homem em conflito incessante, que amargaria depressão, paranoia e se suicidaria, foi um caçador e matou dezenas de animais.

Talvez haja até mesmo uma triste e trágica correlação nisso tudo. É possível que seus hábitos tenham destruído tanto os outros quanto ele mesmo, que falecia antes mesmo de se dar conta.

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Written by David Arioch

March 28, 2017 at 7:37 pm

Harper Lee e “O Sol é Para Todos”

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16830823_1342851275806264_1364202372851685136_nComprei hoje o livro “O Sol é Para Todos”, que nunca li, embora sempre tenha ouvido falar bem a respeito. É um dos maiores clássicos da literatura dos Estados Unidos, que garantiu a escritora Harper Lee o Prêmio Pulitzer.

A obra narra a história de um advogado que se torna alvo de uma comunidade racista ao defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. Eu já conhecia o filme, também um clássico eternizado por Robert Mulligan e Gregory Peck em 1962. Harper Lee é a mulher que ajudou a alavancar a carreira daquele que é considerado um dos nomes mais importantes do jornalismo literário norte-americano – Truman Capote.

Ele é mais conhecido pelo clássico A Sangue Frio, obra que conta a história do bárbaro massacre de uma família do Meio-Oeste, e que Capote só conseguiu escrever graças ao suporte de Harper, que foi quem o assessorou e garantiu contato com as mais importantes fontes e referências. Uma pena que Capote não deu a ela qualquer crédito, inclusive mais tarde sendo apontado como um sujeito que embora talentoso, também era invejoso e mesquinho.

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Written by David Arioch

February 19, 2017 at 12:01 am

Ransom Riggs e o conto do filho vegetariano de um fazendeiro

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“Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo”

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O livro “Contos Peculiares”, do escritor estadunidense Ransom Riggs, é considerado um livro dentro dos livros, já que ele surgiu a partir da série “O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”. Como pesquiso sobre direitos animais, vegetarianismo e veganismo na literatura, dos dez contos que fluem com facilidade e fazem o leitor mergulhar em um universo quimérico de possibilidades e impossibilidades, um me chamou mais a atenção. É a história de um jovem bastante sensível que reconhece o direito à vida de todas as criaturas. E por isso, se recusa a comê-las, explorá-las ou puni-las, mesmo sendo filho de um fazendeiro.

Intitulado “O Gafanhoto”, o conto começa narrando a história de Edvard, um homem que deixou a Noruega em busca de prosperidade nos Estados Unidos. Ele passou por tantas dificuldades no passado que decidiu dedicar-se completamente a uma fazenda que comprou no Território de Dakota, na região setentrional da Luisiana.

Recordando-se da experiência vivida por um amigo que se apaixonou, casou, teve filhos e vivia na pobreza, Edvard evitava relacionamentos. Porém, como sentimentos independem de razão ou mesmo querer, o norueguês se apaixonou, casou e mais tarde teve um filho. A criança nasceu com um coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.

Mas a felicidade gerada pelo nascimento do filho, que trouxe muitas expectativas a Edvard, chegou ao fim quando a esposa fragilizada acabou falecendo após o parto. Tendo de criar o menino sozinho, o fazendeiro sentiu raiva da criança por ela ser especial – estranha e delicada.

Mesmo ciente de que o menino não tinha culpa da morte da esposa, todo o amor de Edvard se transfigurou em amargura. Nem as semelhanças físicas dos dois sensibilizaram o homem, que se sentia incomodado por ter um filho com coração tão imenso que se apaixonava facilmente:

“Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.”

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Quando o menino tinha 14 anos, uma nuvem de gafanhotos que se estendia por quilômetros devorou o capim, o milho e o trigo da localidade. Os insetos arrancaram até a lã dos carneiros. Encarados como a maior ameaça dos últimos tempos, os colonos iniciaram uma guerra contra os gafanhotos, e assim cada cidadão foi obrigado a entregar quinze quilos de gafanhotos mortos por semana. Quem não fizesse isso, seria multado.

Enquanto Edvard cumpria o seu papel, Ollie recusou-se a matar qualquer inseto. O menino via valor na vida de todas as criaturas, inclusive dos gafanhotos, e saía de casa arrastando os pés para não matar nenhum deles. Irritado com o comportamento do filho que lhe custou uma multa, Edvard virou as costas para ele.

Ninguém na cidade conversava mais com o menino, e sentindo-se muito solitário, Ollie fez amizade com um gafanhoto, tornado seu confidente. O inseto, alimentado às escondidas, era mantido embaixo da cama para que Edvard não o visse. “Não é sua culpa que todos o odeiem. Você só está fazendo o que foi criado para fazer”, disse ao gafanhoto que recebeu o nome de Thor. Em resposta, ouviu somente um “Crii-criiic”.

Quando Edvard descobriu que havia um gafanhoto morando sob o seu teto, ele o arremessou na lareira e Ollie chorou depois de ouvir o lamento agudo do seu grande amigo não humano. Expulso de casa, o menino passou a noite no campo até ser encontrado pelo pai. O homem ficou chocado ao reconhecer que o filho se tornou um gafanhoto gigante. Sem saber o que fazer, buscou a ajuda de um velho sábio que possuía um livro justificando a metamorfose:

“Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.”

Edvard então foi informado de que o filho só voltaria a forma normal se fosse realmente amado por alguém. Incapaz de demonstrar o seu amor, e sentindo repulsa por Ollie ter se tornado um dos seres que ele mais desprezava, o homem alardeou por toda a cidade que ele daria a sua fazenda a quem amasse seu filho e o fizesse retornar à forma humana.

O menino em forma de gafanhoto acabou capturado por filhos de colonos. Eles o aprisionaram, mas não conseguiram alcançar o objetivo, pois nenhum deles o amava, nem mesmo o respeitava. Vendido para um velho caçador, o gafanhoto começou a conviver com cães de caça, até que assumiu a forma de um cão. Durante uma caçada, ele soube que sua função era recolher os gansos abatidos pelo caçador.

No dia seguinte, reprovando a atitude do homem, ele fugiu pelo campo com os gansos. Sem saber do paradeiro do filho, Edvard sentiu-se muito mal pela perda de Ollie. Mais tarde, o fazendeiro casou-se novamente e teve uma filha a quem deu o nome de Asgard. A menina, que de tão bondosa era muito semelhante a Ollie, não enfrentou a mesma intransigência por parte do pai, provavelmente porque o homem temia cometer os mesmos erros.

Um dia, tendo somente nabos para comer, o fazendeiro comemorou quando encontrou um ganso no campo, disperso de seu bando. Edvard capturou o animal e o levou para casa, feliz com a possibilidade de um jantar à base de carne de ganso. “Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo!”, insistiu a menina que desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.

Lembrando-se do filho, Edvard concordou em poupá-lo. Em pouco tempo, o animal tornou-se o melhor amigo de Asgard. E todos respeitavam o seu desejo de não querer vê-lo morto nem ferido. A convivência dos dois e o amor que ela dedicava ao ganso fez com que ele, numa manhã, retornasse à sua forma humana.

Acompanhado de Asgard, o pai ficou extremamente emocionado e perguntou a Ollie se ele poderia perdoá-lo. “Eu o perdoei há anos. Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa”, declarou o rapaz de bom coração.

Ransom Riggs

De acordo com a Editora Intrínseca, Ransom Riggs cresceu na Flórida, mas reside na terra das crianças peculiares, Los Angeles. Formou-se no Kenyon College e na Escola de Cinema e TV da Universidade do Sul da Califórnia, além de fazer alguns curtas-metragens premiados. Nas horas vagas é blogueiro e repórter especializado em viagens, e sua série de ensaios de viagem, Strange Geographies, seu primeiro romance, pode ser lida em ransomriggs.com.

Saiba Mais

“Contos Peculiares”, de Ransom Riggs, foi lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca.

“O Gafanhoto” é o oitavo conto da obra.