David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Brasil: Nunca Mais”, um livro que não deve ser esquecido

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O livro “Brasil: Nunca Mais” foi lançado em 1985 por dom Paulo Evaristo Arns, quinto arcebispo de São Paulo, e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. A obra é baseada em informações coletadas em mais de um milhão de páginas de 707 processos do Superior Tribunal Militar. E a partir daí, dom Paulo Evaristo, o reverendo Wright e mais 30 pesquisadores mostram a dimensão da repressão política no Brasil dos tempos da ditadura militar.

No livro, é apresentado como funcionavam as agências de investigação, quem eram os principais perseguidos, como eram feitas as prisões e expõe as técnicas de tortura contra presos políticos. Há dados reveladores sobre violência física e psicológica aplicada contra crianças e gestantes. “Brasil: Nunca Mais” foi a primeira obra a denunciar essas práticas.

Entre os principais colaboradores do projeto estavam os advogados Eny Raimundo Moreira, Luiz Eduardo Greenhalgh, Luís Carlos Sigmaringa Seixas e Mário Simas, os jornalistas Paulo Vannuchi e Ricardo Kotscho, além de Frei Betto, a socióloga Vânya Santana e a historiadora Ana Maria de Almeida Camargo. Durante o processo de produção do livro, a equipe teve de mudar de local várias vezes por medidas de segurança. A obra informa que a tortura no Brasil durante o período da ditadura militar foi colocada em prática por 444 torturadores.

No prefácio do livro, dom Paulo Evaristo diz que a tortura é o meio mais inadequado para levar-nos a descobrir a verdade e chegar à paz: “É com penitências, pois, que encaramos este livro. Ele não pretende ser meramente uma acusação, mas sim um convite para que todos nós reconheçamos nossa verdadeira identidade através das faces desfiguradas dos torturados e dos torturadores.”

Artistas se unem e lançam coleção de contos infantis veganos

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São seis livros em que os protagonistas são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos

Livros estão à venda na lojinha do projeto PAZ (Imagens: Divulgação)

Desde 2014, Marcya Harco, Paulo Roberto Drummond e Daniela Benite realizam ações de artivismo em defesa dos animais. E foi com essa motivação que recentemente publicaram a coleção de livros “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais”, que apresenta às crianças alguns contos com histórias de animais comumente explorados. De acordo com o trio que compõe o projeto PAZ, sediado em São Paulo e que dá nome à coleção, eles tiveram a preocupação em apresentar cada história de maneira delicada e lúdica. Nos seis livros, intitulados “Vera”, George”, “Márcia”, “Gary”, “Jill” e “Ismael”, os protagonistas, que são animais, almejam sempre a liberdade e uma vida justa.

Um diferencial da coleção, e que ajuda a fortalecer a mensagem de que os leitores têm bons motivos para incluir também os animais explorados para consumo em seu círculo moral, é que em cada conto há um ser humano com um olhar sensível em relação aos animais lutando para salvá-los de qualquer exploração. Para entender melhor a proposta do projeto, entrevistei Marcya, Paulo e Daniela sobre a coleção e a sua receptividade, além da importância da literatura infantil e projetos futuros, dentre outros assuntos. Confira:

Sei que os livros da coleção “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais” são voltados principalmente ao público infantil, mas há uma faixa etária específica a quem essas obras são direcionadas?

Todos os contos são ilustrados e sugeridos para crianças a partir dos 3 anos​, com leitura compartilhada. Depois de alfabetizadas, são indicados para até 10 anos ou mais, dependendo de como tocam cada pessoa. No entanto, pessoas de todas as faixas etárias têm se interessado e adquirido os livros.

Como foi a ideia de dar nomes únicos de personagens a cada um dos livros?

Cada título leva nome de um animal que é personagem principal e tem a sua história de vida retratada. Sempre acreditamos que o animal incluído na comunidade moral teria o seu espaço como pessoa respeitado, com todos os direitos. Então é assim que o vemos. Nós já o incluímos e assim o tratamos. O nome corresponde à sua identidade como pessoa. Essa questão do nome é muito significativa. Conhecemos há muitos anos um fazendeiro que criava algumas vacas. Ele se afeiçoou mais a uma delas e deu-lhe um nome como pessoa. Depois ele teve muita dificuldade em permitir que ela fosse assassinada para consumo. Era visível a crise de consciência diante da possibilidade de morte da nova amiga.

Cada livro traz um conto diferente, o que significa uma história singular. Porém, há algo que une todas essas histórias como partes de uma mesma unidade?

​Sim, os protagonistas de ​cada história são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos: Jiil, uma vaca; Ismael, um porco; Gary, um peixe; Márcia, uma galinha; George, um peru; e Vera, uma coelha. Nesse primeiro momento foi primordial considerar os animais criados e abatidos em grande escala. Outra questão é que há, em todos os contos, um ser humano, criança ou adulto, envolvido na salvação de cada animal herói do conto.

Há um caráter de importância em ler todos os livros para entender melhor cada história?

​ ​​O interessante em ler toda a coleção é possibilitar às crianças a construção de um olhar sensível para todos os animais. Ao leitor ou leitora com mais vivência, permite ampliar a percepção para a desconstrução de histórias de exploração animal consideradas “normais” em nossa sociedade. É importante esclarecer que a coleção PAZ tem um caráter lúdico e delicado, com uma linguagem extremamente acessível a todos e todas.

Como vocês veem a importância da literatura infantil contra a exploração animal?

​As obras literárias, as quais afastam a visão antropocêntrica do mundo, podem colaborar para a construção de conhecimento da criança, no sentido de sua formação, como pessoas críticas diante da atual condição dos animais e de todo o habitat de vida na Terra. O estímulo à empatia, ao afeto, à compaixão, e principalmente ao respeito e à consideração ética em relação aos animais não humanos são parâmetros para que a literatura infantil se torne uma ferramenta pedagógica primordial para o processo educativo de todas as crianças. Uma sociedade que maltrata animais, considerando-os como mercadoria e propriedade será sempre opressora e violenta, em facetas diversas, tanto com os animais não humanos quanto conosco, humanos.

Quais são os predicados de um bom livro para sensibilizar crianças em relação aos direitos animais?

​Primeiramente, afastar a perspectiva antropomórfica e zoomórfica sobre os animais não humanos​. Os personagens animais não estão para falarem das qualidades e dos defeitos humanos, mas retratarem suas próprias histórias e desejos, como sujeitos morais. Estimular a empatia, o respeito, a afetividade e a consideração pelos sentimentos dos animais. De preferência, livros de fácil manuseio e ilustrados.

Entre a idealização e a conclusão do livro foi preciso bastante tempo?

​A ideia surgiu em 2015. Em seguida, o Paulo Roberto Drummond iniciou a escrita dos contos, e em 2016 a Daniela Benite, começou o trabalho com as ilustrações. Em 2017, entramos com uma campanha de crowdfunding [financiamento coletivo] e ​ao final do ano enviamos o material para a gráfica.​

Houve alguma dificuldade nesse processo?

​Muita. Não tínhamos verba. Então foi uma luta insana, dia e noite, ​trabalhando na campanha de crowdfunding. A Marcya Harco teve um problema de saúde e precisou ser internada durante um mês, em razão de uma hérnia de disco extrusa. Nesse tempo, apesar da dificuldade em se locomover, ela levou o seu notebook e realizou a diagramação dos livros no hospital mesmo. Ao final, não arrecadamos o que pretendíamos, mas conseguimos produzir uma quantidade modesta da coleção.

Como tem sido a receptividade?

​Incrível! Modéstia à parte, as pessoas que adquiriram os livros têm elogiado muito as histórias, as ilustrações e o projeto em si. Comentam sobre a boa receptividade e o encantamento das crianças pelos contos. Estamos muito felizes por isso.

Os livros já têm sido utilizados em escolas?

Tivemos uma reunião em São Paulo com os dirigentes ​da primeira escola vegana do Brasil, a Nativa Escola, localizada em João Pessoa [Paraíba]. A escola vai adotar a coleção PAZ como material pedagógico ​para crianças do ensino infantil e fundamental I. Algumas professoras da rede pública, que apoiam o veganismo, adquiriram os livros para leitura em sala de aula.

Vocês têm maior predileção por algum dos contos em específico?

Não temos um livro predileto. São histórias lúdicas, às vezes poéticas, de aventuras, de personagens, animais e pessoas [crianças e adultos], que lutam para um mundo ético, sem violência, sem escravidão, com paz, compaixão e libertação para todos. Cada livro tem um valor intrínseco.

Consideram difícil a publicação de livros com temática vegana no Brasil?

​ ​​Olha, como fizemos um projeto autônomo, não pesquisamos muito essa questão. Mas imaginamos que não deva ser muito fácil ainda. A ideia da coleção surgiu dentro de um projeto que estávamos iniciando, que é o projeto PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais. Ela nasceu como primeira realização desse projeto, que tem o objetivo de fomentar e reverberar ações que difundam as inter-relações positivas, que já existem pelo mundo, entre pessoas humanas e pessoas animais. Isso no foco, principalmente, dos animais que são violentamente explorados. Queremos dizer: “Olha, você ainda come o porco, mas veja esse porco aqui. Ele tem um amigo humano que respeita a sua vida e o seu modo de ser.” Acreditamos que ações como essa também possam colaborar no convencimento, no esclarecimento, já que, se formos pensar em Kant, o veganismo não poderia ser uma espécie de adeus a menoridade do indivíduo? ​

Há previsão de novas parcerias e publicação de mais livros?

Estamos em busca de parceiros para uma nova edição da coleção atual. Também estamos planejando uma outra coleção de livros para mais adiante. Já nos sugeriram procurar editoras, mas aí a coleção, de cuja venda queremos gerar recurso para financiar outras atividades do projeto PAZ, deixará de oferecer essa oportunidade. Uma vez que só conseguiríamos receber 10% do que for arrecadado. Por isso, estamos pensando em uma forma de produzir, por exemplo, uma tiragem de mil exemplares da coleção. Dessas mil coleções, uma boa parte seria distribuída para as crianças, ONGs, instituições e escolas de baixa renda, e a outra parte fomentaria outras ações do PAZ.

Falem um pouco também do trabalho de vocês com a arte como instrumento de reflexão sobre o respeito à vida animal não humana. Sei que, para além da literatura, vocês também trabalham com teatro e intervenções artísticas voltadas para essa conscientização.

​A arte é uma expressão sensível e habilidosa de uma experiência estética, que por via sensorial, altera a percepção ao nosso redor, provocando a desautomatização do cotidiano. O ato artístico não deve ser apenas uma informação. É necessário que se proponha uma experiência ou vivência. A obra artística deve tocar as pessoas no campo da sensibilidade, estimulando-as a se colocarem diante da sociedade de forma mais ativa, consciente e crítica. Mas, como podemos fazer uma arte em que o espectador passe do papel de contemplador passivo para ativo? É preciso que a arte proporcione uma experiência. Sem experiência, não há sensibilização nem reflexão e​ muito menos​ incitará ​uma ​transformação.

Por isso, desde 2014 realizamos ações de artivismo em defesa dos animais. Trabalhamos com teatro e frequentemente realizamos atividades artísticas dirigidas às crianças, por meio de apresentações teatrais e oficinas pedagógicas​. Pensamos que uma educação consciente, a qual​ prioriza o respeito pela v​ida, seja​ a base para proporcionar um mundo de paz. Buscamos realizar ações de artivismo (arte + ativismo) por meio de linguagens diversas, como cenas teatrais, performances visuais, poesia, narração de histórias, literatura, entre outras. Nossas ações artísticas têm como objetivo propor experiências que possibilitem o despertar da empatia e da consciência afetiva das pessoas, com o intuito de impulsionar ações que modifiquem a​ ​atual ​realidade especista, violenta​​ e absurdamente injusta, as quais os animais não humanos são subjugados e agredidos​. Transformações no âmbito do veganismo, visto que este é o único caminho real em direção a libertação e reconhecimento dos animais não humanos como seres morais e de direitos. Para tanto, as experiências e fruições artísticas têm que ser significativas.

Os seis livros veganos que compõem a coleção estão à venda na lojinha do Projeto PAZ:

http://pazpessoaseanimais.com/#!lojinha

Você também pode acompanhá-los no Facebook:

https://www.facebook.com/pazpessoaseanimais/





Tolstói e Gandhi

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Na foto inferior, Gandhi aparece na Fazenda Tolstói (Acervo: Tolstoy Farm)

Pouco tempo antes de falecer, Tolstói disse que preferia mais ser celebrado por suas obras voltadas à sua filosofia de vida e filosofia moral, o que incluía a sua defesa do vegetarianismo, do que pelos seus romances. Claro que o alcance de seu trabalho como romancista o levou muito mais longe em popularidade, mas de alguma forma a sua filosofia teve um impacto muito significativo. Exemplos?

“O Primeiro Passo”, de 1892, que deu origem às bases do vegetarianismo ético russo e a sua obra “O Reino de Deus está em vós”, de 1894, que traz uma abordagem espiritual não dogmática e que teve grande influência sobre a juventude de Gandhi, tanto que depois ele fundou nas imediações de Joanesburgo, na África do Sul, a Fazenda Tolstói. Gandhi, que foi influenciado pelos ensaios de não violência de Tolstói, que incluía animais humanos e não humanos, se considerava um tolstoiano. Esse é um dos assuntos que faz parte do meu longo artigo sobre a história de Tolstói com o vegetarianismo.

 





 

Esses dias me perguntaram o que eu acho do Paulo Coelho

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Tratando-se de literatura, e o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim (Foto: Reprodução)

— Acho que o Paulo Coelho é um escritor que se propôs a fazer o trabalho que está fazendo e se tornou bem-sucedido nesse nicho. Não endosso nenhuma opinião ou posição ofensiva ou desdenhosa em relação a ele. Particularmente, tenho predileção por outro tipo de literatura, mas reconheço que ele tem os méritos dele.

Existe algo que chamam de “literatura comercial”, que é o que as pessoas mais consomem no mundo todo se tratando de literatura, e isso, claro, é encabeçado por best-sellers que podem ter sido ou não planejados pensando em vendagem e alcance de um grande público.

No entanto, não cabe a mim dizer se uma pessoa escreve algo estritamente para vender, porque acredito que dificilmente uma pessoa se dedicaria a produzir qualquer tipo de literatura se aquilo não despertasse nela nenhum tipo de gáudio, ou anseio de externalizar uma manifestação conscienciosa em algum nível, seja rasa ou profunda na interpretação subjetiva ou não de alguém.

Um autor que vende muitos livros pode até ter seu trabalho desconsiderado no que diz respeito ao enredo, estrutura, linguagem, etc. Mas se ele alcançou popularidade, no mínimo responde aos anseios culturais de um público bem diverso. Agora se isso acrescenta algo na vida do leitor, isso eu não sei dizer, porque sou apenas um leitor em meio a uma miríade, e minha opinião ou posição não é universal.

Por isso, sempre acho crítica literária algo perigoso quando o autor imprime pessoalidade em vez de avaliar uma obra ponderando sobre o meio, o contexto ao qual ela pertence. Se isso acontece, o que temos diante de nós não é exatamente uma crítica, mas um emaranhado de opiniões e impressões que passam uma ideia de “não gosto desse autor porque ele não corresponde ao meus anseios”, e isso não é muito profissional.

Ao longo da minha vida, li pouco ou quase nada de fantasia, principalmente da adolescência em diante. De terror, se você se refere a Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, sim, li consideravelmente. Talvez eu poderia citar também alguns autores clássicos como John Polidori, Mary Shelley e Bram Stoker; e alguns outros mais contemporâneos como Guy Endore, Stephen King, Clive Barker e Anne Rice, de quem não conheço profundamente o trabalho também. E se me perguntar sobre autores das novas gerações, simplesmente acho que eu não saberia citar nenhum nome.

Não nego que há muita coisa relacionada à literatura que não desperta a minha atenção, e está tudo bem. Ademais, isso não significa que o que não leio não tenha nenhum valor. Se uma obra do chamado “pior autor do mundo” proporciona algo de bom aos leitores, na minha opinião isso é relevante. Borges, por exemplo, passou boa parte de sua vida lendo os mesmos livros, ainda que diante de uma imensa biblioteca. Ele nem mesmo se considerava um grande leitor tratando-se de diversidade literária. Afirmava que pouco ou quase nada conhecia da literatura contemporânea. Nem por isso dedicava tempo falando mal de autores ou os desmerecendo.

U sintezi, o que quero dizer com isso tudo é que o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim. É basicamente o meu gosto, e ele fala essencialmente sobre mim, não sobre os autores que leio ou não leio.

 





 

Written by David Arioch

January 21st, 2018 at 2:03 pm

“A Sociedade Industrial e Seu Futuro”, de Ted Kaczynski

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Estou lendo pela primeira vez o livro Industrial Society and Its Future (A Sociedade Industrial e Seu Futuro), escrito pelo matemático e terrorista Ted Kaczynski, que ganhou fama internacional na década de 1990 como o “Unabomber”. Não simpatizo com as ações dele, já que suas bombas custaram a vida de pessoas, mas admito que o livro é intrigante e faz alguns apontamentos bem contundentes, que dialogam com a realidade atual, embora tenha sido lançado em 1995.

“Warriors” de Sol Yurick e “Anábase” de Xenofonte

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Se você gosta do livro “The Warriors”, do Sol Yurick, ou da adaptação cinematográfica do livro feita pelo Walter Hill, sugiro que leia “Anábase” porque tudo leva a crer que “The Warriors” foi inspirado nessa que é a obra mais famosa de Xenofonte.

Na obra grega, a história se passa antes da era cristã e é protagonizada por soldados, não por violentos membros de gangues. Porém, tanto os soldados de Xenofonte quanto os marginais de Yurick enfrentam uma série de obstáculos para retornarem para casa. Sem dúvida, se ler uma, vale a pena ler a outra.





Written by David Arioch

January 2nd, 2018 at 12:06 am

Kostolias e a história do jovem que foi preso por ser vegetariano

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“Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância” 

Lançado em 2016 pela Editora Jaguatirica, “O Exilado Político Vegetariano” é um romance de Alexandre Kostolias baseado em fatos reais. A obra conta a história de Hernán López, um rapaz de origem humilde, morador de um dos bairros mais pobres de Santa Fé, na Argentina, que é perseguido e preso em janeiro de 1970. O motivo? Hernán é vegetariano.

Uma das vítimas da ditadura argentina, ele é arrastado de dentro da própria casa e jogado dentro de uma cela, sem direito a advogado ou qualquer tipo de intervenção a seu favor – nem mesmo contato com qualquer pessoa que não seja o carrasco “La Bestia”. Para realçar a quimera da situação, somente depois de semanas, quando é interrogado pela primeira vez pelo “Comisario Supervisor”, é que a Polícia da Província de Santa Fé reconhece que não há outro motivo para o rapaz estar preso, a não ser por sua filosofia de vida vegetariana; já que ele não é “comunista” nem “maricón” – considerados crimes na Argentina da época.

Na cela, Hernán mal dorme, pois sabe que sempre às 6h o carrasco “La Bestia” os visita. “O que lhe aconteceria? Só para começar, levaria um choque elétrico com bastão, o mesmo usado para conduzir gado para o abate nos frigoríficos. O pavor de levar choque com bastão atingia Hernán visceralmente: um dos motivos de suas convicções vegetarianas era o horror que lhe causava só de pensar na forma como os animais são abatidos nos matadouros. Era impossível saber o que o aguardava”, relata Kostolias nas páginas 32 e 33.

A recusa de Hernán López em consumir carne é considerada execrável porque o regime político da Argentina de 1970 considerava a pecuária como o maior orgulho econômico do país. E o desprezo de Hernán por essa cultura baseada na morte de animais era vista como uma atitude antipatriótica, passível de punição.

“Todos tinham muito orgulho da carne de Santa Fé. Bem, quase todos. Hernán López detestava carne. Pertencia a uma categoria de gente sobre a qual, naquelas bandas, pesavam muitas suspeitas, mas poucas informações: os vegetarianos. Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância. Os bifes que o obrigavam a comer eram ingeridos com muita dificuldade, lhe causavam náuseas”, narra o autor na página 40.

Por ser vegetariano, os problemas de Hernán surgiram muito cedo. Os primeiros atritos foram com o pai Juan, um homem violento tanto dentro quanto fora de casa. Tendo trabalhado por muito tempo na “lida de gado”, atividade que associava à própria masculinidade, considerava uma afronta ter que tolerar um filho vegetariano sob o mesmo teto, ainda mais em um contexto onde carne era inclusive sinônimo de bem-estar. Associada às mulheres, trazia a equivocada ideia de saúde; e associada aos homens, a equivocada ideia da virilidade:

“Todo bife ancho e asado de costilla que trazia para casa, – com frequência cada vez menor – ganho em troca de serviços esporádicos prestados a algum rancheiro, era sagrado, e Hernán era forçado a comer a sua parte. Se necessário fosse, sob ameaça de chicote e pancada.”

Por isso, a convivência com o pai vaqueiro marcou uma das piores fases da vida do jovem protagonista. Mesmo sentindo profunda aversão, uma repulsa visceral por todos os tipos de carne, se viu obrigado a aprender a engolir sem mastigar – tentando não pensar em tudo que, para ele, estava evidentemente associado ao ato de consumir carne:

“Aprendeu a cortar pedaços no tamanho exato, grandes o suficiente para reduzir o número de vezes que tinha que cometer o sacrifício, pequenas o bastante para passar pela goela abaixo. E fazendo sempre um tremendo esforço para não vomitar. Não é de surpreender que quando seu pai faleceu de cirrose hepática aos 44 anos, Hernán não tenha ficado triste com a ocorrência. Respirou aliviado e nunca mais foi obrigado a comer carne.”

Já detido e encarcerado, em um dos interrogatórios com o “Comisario Supervisor”, Hernán pergunta se é crime ser vegetariano. Então o homem admite que nada consta no Código Penal, porém afirma que ser vegetariano pode se enquadrar como uma ofensa cultural, um delito social.

“Mas eu não considero um delito muito grave ser vegetariano. Eu mesmo, às vezes, prefiro um dourado do Rio Paraná na chapa, ao invés de um bife ancho”, declara o interrogador. Hernán, mesmo diante de uma situação difícil explica que um autêntico vegetariano não come peixe. Só grãos, legumes, verduras, raízes, frutas, coisas assim. Então o “Comisario” não reage bem à explicação do rapaz.

— Hmmm. Tem certeza? Um evidente radicalismo. Você tem certeza de que não é marxista-leninista?”, questiona.

“O Exilado Político Vegetariano”, de Alexandre Kostolias é uma obra sobre um jovem com identidade própria que tenta trilhar o seu próprio caminho em um mundo onde até mesmo a pretensa tolerância está coberta, implícita e explicitamente, de incomplacência. Enquanto as cortinas da vida caem, Hernán López deseja apenas viver à sua maneira, sem ser julgado e condenado por isso.

Em síntese, e na minha concepção, “O Exilado Político Vegetariano” é um livro sobre alguém que, até então imerso em um minúsculo universo de particular inocência e simplicidade, é lançado em um mundo de conflitos constantes entre individualidade, coletividade e alteridade que se diluem entre si. Por onde Hernán passa, há um desespero existencialista, se não o dele, o dos outros, que em face da liberdade de escolha não veem outro sentido na vida que não vivê-la, sofregamente ou não, independente de erros e acertos, e da angústia em um mundo em constante e célere transformação.

Para além do enredo, um dos pontos altos do livro é a leveza e irreverência da narrativa de Alexandre Kostolias, que intercala momentos de tensão com muito bom humor. Em alguns aspectos, a estrutura narrativa e a fluência textual de “O Exilado Político Vegetariano” me trazem lembranças do estilo individual despojado de Charles Bukowski.

Saiba Mais

“O Exilado Político Vegetariano” está à venda na Amazon, Cultura, Saraiva, Americanas e Submarino.





A obrigatoriedade e o prazer da leitura

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Tive amigos e colegas na minha infância e adolescência na escola que não apenas desgostavam da leitura como a desprezavam. A ideia da obrigatoriedade como as principais experiências com a leitura os levou a isso. Eles não viam a leitura para além do condicionamento. Não encaravam a leitura como uma escolha, uma opção.

Não tive esse problema porque fui estimulado a ler dentro de casa, e de forma bem natural. Quero dizer, ouvindo histórias, encontrando livros espalhados pela casa, convivendo com leitores, ganhando livros, fazendo minhas próprias escolhas; inclusive quando ficava de castigo no quarto dos meus pais e tinha o direito de ler e escolher o que ler.

Então, na escola, a ideia da leitura não me incomodava porque eu já havia sido estimulado nos primeiros anos de vida. Porém, aquelas crianças que não passaram por isso, com raras exceções, tinham dificuldade de aceitar o fato de que eram obrigadas a lerem algo. Afinal, a experiência com a leitura era condicionada, atrelada às obrigações escolares e vista como chata ou enfadonha.

Realmente há muitas crianças e adolescentes que não são capazes de pensarem em leitura sem logo associarem a notas, provas, trabalhos, Enem, vestibular. Logo, para muitos, por mais estranho que isso possa parecer, a ideia de ficar longe de livros é vista como prazerosa. O que, de fato, não deveria acontecer ou ser visto com normalidade. Porém, é uma consequência natural da maneira como se cria vínculo com os livros.

E quando o desinteresse pela leitura é crônico, a ideia da leitura vem embutida de más experiências que poderiam ter sido boas, se bem semeadas. Sendo assim, qual seria um bom caminho para evitar isso? A princípio, acredito ainda que estimular a leitura dentro de casa, mas de forma natural.

Creio que a oralidade, a contação de histórias, é o primeiro ponto de partida antes e durante o processo de alfabetização, porque aguça a imaginação e a criatividade da criança, despertando a vontade de conhecer mais histórias; e esse interesse aproxima as crianças dos livros. Logo não é difícil estimular uma criança a gostar de ler a partir da narração de histórias. Naturalmente, funciona como uma ponte que pode construir um vínculo de fruição perene e genuína.

Claro, conheci também crianças, adolescentes e adultos que desenvolveram o gosto pela leitura fora de casa, de forma independente, mas por fatores não tão recorrentes. Então, realmente sou da opinião de que os níveis de interesse pela leitura seriam muito maiores se houvesse de fato um incentivo doméstico.

Neste caso, que tal começar contando histórias ou lendo para as crianças próximas de nós? Com tantos projetos de democratização da leitura hoje em dia não é difícil doar ou presentear crianças com livros. Há inclusive bibliotecas, ONGs, institutos e instituições de ensino que fazem doações de obras literárias; distribuição de kits e coleções.

Ok, mas e no caso de jovens que não desenvolveram o gosto pela leitura? Neste caso, creio que vale a sugestão de abrir uma porta para a leitura baseando-se em predileções. Até mesmo uma biografia de alguém que um adolescente admire, ou um livro que deu origem a um filme ou jogo de videogame pode ser um bom princípio. Quando o interesse pela leitura é nulo, querer que uma pessoa leia uma obra que não a interessa sob uma perspectiva individual pode ser realmente contraproducente. Então por que não identificar interesses e usar isso como ponto de partida? Afinal, a leitura nos humaniza.





Written by David Arioch

December 28th, 2017 at 5:31 pm

A autoconsciência de Kafka

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Arte: Moonwild

Franz Kafka tinha uma autoconsciência tão poderosa, conhecia a si mesmo de maneira tão insólita, que antecipou em Gregor Samsa a sua própria morte. O seu personagem mais famoso amargou fome severa nos seus últimos dias, até ser encontrado morto e excepcionalmente magro.

Menos de dez anos depois da publicação de “A Metamorfose”, Kafka faleceu em decorrência de uma tuberculose laríngea que o impedia de se alimentar. E o que dizer ainda de “Um Artista da Fome”? Obra que transita da metáfora da sua própria marginalização para a inevitável literalidade do seu principiado fim.

 

Written by David Arioch

December 28th, 2017 at 5:25 pm

Knut Hamsun, o escritor norueguês que influenciou outros importantes nomes da literatura

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Håndkolorert dias. Forfatterene Knut Hamsun og Marie Hamsun står foran en stor høysåte sammen med en hund. *** Local Caption *** Hamsun, Knut, forfatter (1859-1952) Hamsun, Marie, forfatter (1881-1969)

Knut Hamsun foi um escritor norueguês que influenciou e inspirou Franz Kafka, Thomas Mann, Hermann Hesse, Isaac Bashevis Singer, Ernest Hemingway, H.G. Wells, Stefan Zweig e Charles Bukowski, entre outros escritores. Para quem não conhece o trabalho dele, sugiro que leiam “Fome”, “Pan” e “Um Vagabundo Toca em Surdina”. Hamsun era um autor bastante controverso, que nunca fez questão de velar a sua simpatia por um tipo telúrico de anti-civilização.