David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

As primeiras descobertas de um pré-adolescente

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Eu aos 11 anos, quando descobri a coleção de revistas de João (Foto: Acervo Familiar)

Eu aos 11 anos, quando descobri a coleção de revistas de João (Foto: Acervo Familiar)

Antes de falecer em 21 de setembro de 1997, meu pai, um bancário aposentado e ex-professor de latim, francês e matemática, tinha como hobby manter uma oficina mecânica na Avenida Rio Grande do Norte, próxima ao cruzamento com a Rua Guaporé, na região central de Paranavaí. Em meio a muita poeira e velharias, lá era um dos seus refúgios quando não estava trabalhando. Mecânico por diversão, não por profissão, mantinha aquele espaço para ajudar um amigo desempregado chamado João.

No mínimo uma vez por semana eu e meu irmão mais velho, Douglas, íamos até lá. Era um galpão enorme de madeira que atraía a atenção dos curiosos, principalmente pela profundidade que os olhos não permitiam acompanhar. Do alto de minha pequenez, assim eu pensava à época, quando me via absorto diante de uma porta de madeira de mais de três metros de altura que mais parecia a entrada de um celeiro saído do filme “Por um Punhado de Dólares”, do Sérgio Leone.

Meu pai gostava de carros antigos, inclusive tinha alguns. Então circular pela oficina era um presente com requinte de “viagem no tempo”. Afinal, nem toda criança tem o privilégio de brincar de dirigir um Fordinho Pé de Bode de 1929. A alegria era tão grande que eu até esquecia a rinite alérgica. Ignorava o fato do carro estar completamente empoeirado e sem dois pneus. Pra mim, ele era perfeito, mesmo com o motor danificado e as portas emperradas. Me contentava em acionar a buzina fanhosa e o para-brisas de palhetas irregulares e sofríveis. Era o suficiente para eu fingir que trafegava pela cidade em um dia chuvoso e bastante movimentado.

Quando não estava brincando no pé de bode, eu gostava de passar algum tempo no espaçoso interior da Querida, uma Mercedes-Benz 230 S, de 1966. Prateada, com todas as peças originais e em perfeito estado, era o xodó do meu pai. Ostentava um rabo de peixe que sempre recebia uma camada extra de cera antes de deixar a garagem. Mas enquanto continuava estacionada, eu deitava no banco traseiro, onde passava horas lendo gibis como Recruta Zero e O Pequeno Ninja ao som da única fita K7 que meu pai raramente tirava do tocador. Era uma coletânea original do maestro Ray Conniff com releituras de clássicos como “Aquellos Ojos Verdes”, “Brasil”, “Bésame Mucho” e “Tico-Tico no Fubá”.

Às vezes eu ia à oficina só para ficar no sótão fuçando em caixas, procurando algo diferente pra fazer. Foi assim que tive o meu primeiro contato com a pornografia, numa época recente em que tudo parecia uma grande novidade para quem estava começando a se distanciar da infância. Como não havia internet no Brasil até 1995, as coisas aconteciam sem pressa, naturalmente, ou melhor, como consequência do acaso. Eu tinha 11 anos no dia em que movi uma caixa do sótão e percebi que atrás dela havia uma revista do tamanho de um gibi. Fiquei surpreso e ao mesmo tempo empolgado com o conteúdo da capa. Nunca tinha visto nada parecido, só ouvia falar. Era uma fotonovela pornográfica. Quando a abri e vi as primeiras imagens, meus olhos se agigantaram, olhei ao redor e desci alguns degraus para me certificar de que ninguém estava me observando.

Subi novamente e continuei folheando a revista. Por um momento, num rompante de ingenuidade, me questionei: “O que esse cara tá fazendo com essa mulher? Vixi, uma mulher consegue fazer tudo isso com as pernas? Ah! Então era disso que falavam aquele dia na escola. Humm…” Logo entendi porque o Fábio foi suspenso da Escola São Vicente de Paulo quando acharam a tal da camisinha na sua carteira. Depois daquele dia nunca mais retornei à oficina sem me recordar da fotonovela. E curiosamente comecei a notar que o amigo do meu pai que trabalhava o dia todo na oficina tinha o hábito de deixar revistas espalhadas pelos mais diferentes lugares. Talvez a minha ausência de malícia antes do primeiro contato com aquilo que eu chamava de “gibi adulto” não me permitisse ser tão observador.

Todos os lugares onde eu costumava passar a maior parte do tempo serviam de esconderijo para algum tipo de pornografia. Havia dezenas de exemplares, de várias cores e tamanhos. Em alguns casos a poucos centímetros de onde eu recostava a cabeça para ler gibis. Lá estavam elas, amassadas, enroladas, dobradas, inteiras ou parciais. Parecia que se revezavam embaixo de bancos, tapetes, dentro do porta-malas, do capô e até mesmo presas ao chassi. À época eu não imaginava que alguém pudesse gostar tanto assim do assunto. Havia revistas dos anos 1970, 1980 e 1990.

Em síntese, um acervo de pornô que poderia ser organizado por perfis e ordem cronológica. Após algum tempo foi inevitável ver a oficina com outros olhos. Já não pensava nem lembrava tanto dos carros que eram a minha principal motivação naquele ambiente rústico e ruidoso com um característico cheiro de óleo lubrificante. Na pré-adolescência da década de 1990 procurar pornografia era como uma caça ao tesouro, um universo de possibilidades, no meu caso interrompida quando um dia cheguei à oficina e não encontrei mais nenhum dos “gibis adultos”. João tardiamente descobriu que eu sabia de sua coleção. Ainda assim continuei retornando à oficina, mas nunca tocamos no assunto.

Mais tarde, na sétima série do então primeiro grau, eu e alguns amigos estávamos decididos a assistir pela primeira vez um filme pornô. Enquanto o dia tão esperado não chegava, íamos até a locadora de vídeo, na tentativa de tentar descobrir o que nos aguardava. Na seção de lançamentos, fingíamos ler as sinopses das fitas em VHS esperando o atendente conversar com algum cliente. Em poucos segundos de distração, entrávamos na seção de filmes adultos com as mãos à boca para evitar que o funcionário ouvisse as nossas gargalhadas.

Lá dentro, o que minava nosso objetivo era que muitos dos filmes tinham tarjas e estrelas que velavam o conteúdo explícito. Apesar disso, a recompensa veio alguns meses depois quando um amigo conseguiu uma cópia pirata de um filme do John Stagliano, o rei do pornô, reproduzida por um camarada que era filho de um dono de locadora. Assim que soubemos da novidade, a apreensão só aumentou. Como estudávamos de manhã aos sábados, marcamos um encontro no início da tarde para assistir ao filme na casa do Bruno, aproveitando a ausência de seus pais. Especialmente naquele dia comentamos que as aulas pareciam que não chegariam ao fim nunca.

No horário marcado, eu, Alexandre e Thiago chegamos à casa do Bruno pontualmente. As risadas e as “caras de paisagem” foram inevitáveis quando estacionamos as bicicletas na garagem. Na sala, sentamos no sofá e Bruno ligou o vídeocassete. Após muitas risadas e olhares sardônicos, o silêncio tomou conta do ambiente quando subiram os créditos iniciais do filme acompanhado de uma música retumbante dos anos 1980. A primeira cena era de um homem com mullets em um salão de beleza dizendo que daria um tratamento especial a uma cliente. Assim que a mulher começou a se despir, Alexandre gritou: “É agora! É agora!” Então ouvi um ruído estranho saindo do aparelho e o filme desapareceu da TV. Entre chiados e uma tela preta, a fita se rompeu e ficou toda mastigada, assim como nossas esperanças de assistir pela primeira vez um filme pornô.

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Written by David Arioch

June 21, 2015 at 5:49 pm

2 Responses

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  1. Muito bom! kkkkkkk

    Katiele Faria Sanches

    July 10, 2015 at 4:32 pm

    • Katiele, muito obrigado!

      David Arioch

      July 10, 2015 at 4:34 pm


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