David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Imagine ser um iraniano…

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Imagine ser um iraniano, sentado em sua casa em Teerã, Isfahan ou Shiraz. Ao seu redor, há ruínas de 2,5 mil anos ao lado de arranha-céus modernos. Você cresceu ouvindo histórias de Ciro o Grande, o persa que libertou os judeus do cativeiro na Babilônia e declarou o que muitos consideram a primeira carta de direitos humanos. Você estuda a poesia de Hafez e Rumi, que são amados em diferentes lugares do mundo. Você sabe que, enquanto os ancestrais de Trump ainda viviam em tribos na Europa, os seus já construíam impérios e desenvolviam matemática, astronomia e filosofia.

E de repente, um magnata do setor imobiliário de Nova York, que ficou famoso por demitir pessoas em um programa de TV e que provavelmente nunca leu um livro de história na vida, aparece na televisão e diz que vai “destruir completamente” seu país. A reação não é medo. É um misto de espanto, desdém e, para muitos, uma risada amarga. É como ver uma criança fazendo caretas para um ancião. A arrogância é tão desproporcional, tão ignorante do contexto, que se torna quase cômica.

Para um iraniano com senso de história, Trump é um acidente de percurso; apenas mais um presidente dos EUA em uma longa lista. Eles já viram presidentes “da grande potência” irem e virem. Eisenhower (golpe de 53), Carter (revolução), Reagan (apoio a Saddam), Bush (guerra no Iraque), Obama (aproximação), Trump (hostilidade), Biden (tentativa de volta ao acordo). Cada um com sua política, cada um passageiro. O Irã continua.

Trump, que não duvido que ache que iranianos são árabes, age como se a história começasse quando ele entrou na política (o mal do presenteísmo absoluto). Fala em “fazer o Irã se curvar” sem saber que tentaram isso antes e falharam. Muitos iranianos veem a arrogância de Trump não como força, mas como sintoma de fraqueza. Um país confiante em seu poder não precisa gritar tanto. Quem grita “sou o maior” o tempo todo geralmente está tentando convencer a si mesmo.

Para Trump, o mundo é feito de indivíduos e transações. Países são como empresas. Se você pressionar o suficiente, o CEO (líder) vai ceder para salvar seus ativos (economia, poder). Tudo é negociável. Na visão iraniana, o mundo é feito de comunidades e história. A nação é um organismo vivo que existe antes de você e continuará depois.

A honra coletiva vale mais do que o conforto individual. Algumas coisas não são negociáveis, porque estão ligadas à identidade. Ademais, o que pode ser mais antiético do que matar 153 crianças em uma escola e ainda negar autoria criando uma narrativa sem sentido de que o ataque foi iraniano? Não há base lógica para isso.

Trump ignora que o Irã é a antiga Pérsia. Achar que se trata de um país qualquer, só porque é um país que não figura como uma das maiores potências capitalistas do mundo é um cálculo muito tosco e ingênuo. Muito do que conhecemos como ocidental já existia na Pérsia. O Irã não é apenas um país antigo, é uma das civilizações fundadoras do mundo como o conhecemos.

Os gregos, que deram origem ao que chamam discutivelmente de “civilização ocidental”, aprenderam muito com os persas, inclusive quando estavam em guerra com eles. Alexandre o Grande, ao conquistar a Pérsia, ficou tão impressionado que adotou costumes persas. É um grande equívoco avaliar um país apenas pela sua posição no capitalismo global. O Irã não é uma nação jovem tentando se afirmar; é uma civilização com memória milenar que já viu impérios virem e irem.

Quando um iraniano resiste a pressões dos EUA, não é apenas “nacionalismo”. É a memória de pertencer a uma civilização que ensinou o mundo a administrar impérios enquanto os ancestrais de muitos de seus atuais adversários viviam em tribos. Esse orgulho é mais profundo e mais resiliente do que qualquer lealdade a um regime específico.

Lembre-se que a Pérsia sobreviveu a Alexandre o Grande; invasões árabes (que mudaram a religião, mas a cultura persa absorveu e transformou o Islã); invasões mongóis (que destruíram Bagdá, mas Teerã resistiu); o imperialismo britânico e russo no século XIX; o golpe da CIA em 1953 e oito anos de guerra com o Iraque com apoio ocidental a Saddam Hussein.

Essa história ensina aos iranianos algo que charts de poderio militar não medem, ou seja, paciência estratégica. Eles sabem que impérios caem, que potências se cansam, que eleições mudam governos. Eles podem esperar, já que se trata de uma civilização com 2,5 mil anos de história registrada.

Enfim, os persas nos deram a primeira declaração de direitos humanos. Nos deram estradas, correios, moeda e padronização de pesos e medidas. Nos deram poesia muito antes do Ocidente. Nos deram ciência que iluminou a Idade Média – incluindo astronomia, álgebra, algoritmos, geometria e trigonometria. Nos deram contribuições fundamentais à arquitetura. Também nos deram palavras que são usadas sem que se saiba ou reconheça sua origem.

E o persa Avicena foi a referência em medicina no Oriente e no Ocidente por cerca de 600 anos – graças ao seu “Cânone da Medicina”. Também nos deram azulejos e mosaicos, tapeçaria e instrumentos musicais (foram precursores de instrumentos de cordas como o violão); e a ponte que salvou o conhecimento grego para que pudesse renascer na Europa, além do primeiro império multicultural da história. A própria filosofia ocidental tem raízes persas, assim como o que podemos chamar de conceitos éticos (Ciro).

Ademais, irônico é que a eleição de Trump, que ataca o Irã, usando inclusive o pretexto de “ilegitimidade” e “defesa da democracia”, algo que ele tem mudado recentemente, ao dizer que o que importa já não é democracia, “mas alinhamento aos EUA”, é considerada questionável. Imagine se algum país o considerasse ilegítimo e decidisse bombardear os EUA… E Khamenei morreu e os bombardeios continuam…Enfim, é sobre definir os rumos de um país dentro da agenda trumpista – ou tentar destruí-lo se não aceitar isso; algo que Trump nem esconde mais, ao contrário de meses atrás.

E mais, por que ele não leva “democracia” para a Arábia Saudita (monarquia absoluta sem eleições, execuções em massa, assassinato de jornalistas no consulado) ou para os Emirados Árabes (monarquia sem eleições, trabalho análogo ao escravo, bombardeio de vizinhos no Iêmen)? Porque são grandes compradores de armas produzidas nos EUA.

Só a Arábia Saudita assinou acordos militares recordes (superiores a US$ 140 bilhões). Já os Emirados Árabes são o terceiro maior importador de armas do mundo – comprando dos EUA caças F-35, drones MQ-9 Reaper, mísseis Patriot, sistemas THAAD…Enfim, o Irã para Trump não é uma questão de direitos humanos e sim de subjugação econômica – por ser um país incapaz de controlar e de não se submeter aos seus interesses como outros.

A ira ocidental contra o Irã tem um tempo bem determinado no século passado, que em 1951 ficou conhecida como “O Pecado de Mossadegh”. O então primeiro-ministro democraticamente eleito no Irã nacionalizou o petróleo iraniano. Até então, o petróleo era controlado pela Oil Company (atual BP – antes British Petroleum e hoje uma gigante britânica transnacional de energia), que pagava migalhas ao Irã (só 16% dos lucros) e levava quase tudo para a Grã-Bretanha.

Mossadegh virou herói popular no século passado, mas cometeu “o pecado imperdoável” de tirar o petróleo do controle ocidental. Trump quer retomar esse controle, só que para os EUA. Por fim, se os EUA acreditassem que o Irã tem armamento nuclear, por que se arriscariam em atacá-lo? A lógica de dissuasão nuclear é clara há 80 anos. Quero dizer, você não ataca uma potência nuclear a não ser que esteja disposto a sofrer um golpe devastador em retaliação.

O Irã é punido por insistir em existir fora do controle dos EUA, que sempre se coloca em posição de “excepcionalismo determinante da hegemonia global”; por buscar desdolarização (negociar petróleo em outras moedas); aliar-se à China e Rússia (BRICS) e servir de exemplo de independência para outros países.