David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O universo de Mateus

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Inocência e fantasia na praça da Igreja São Sebastião

Foi na praça da Igreja São Sebastião que conheci o universo de Mateus (Foto: Amauri Martineli)

Local onde conheci Mateus e o seu mundo de candura (Foto: Amauri Martineli)

Em uma terça-feira, às 9h50, eu estava na praça em frente à Igreja São Sebastião aguardando a chegada de uma equipe de uma emissora de TV para dar uma entrevista sobre a história e o trabalho do artista plástico húngaro Bálint Fehérkúti. Enquanto eu esperava, uma criança de três anos se aproximou e segurou minha mão.

Quando olhei para o lado, o garotinho de cabelos castanhos emitiu alguns sons com a boca, mas não o entendi. Então perguntei a moça, sua tia que o acompanhava, se ela sabia o que ele queria. Surpresa, me explicou que nunca o viu se aproximar de um estranho, mas que de alguma forma o menino simpatizou comigo, gostou de mim.

Com um olhar fixo e um sorriso largo e fácil, o garotinho apontou para uma construção do outro lado da rua Getúlio Vargas. Sua atenção foi atiçada por sons graves e agudos emanados de trás de um paredão enorme de tapumes. Conforme o barulho aumentava, a sua excitação também. Vez ou outra apertava minha mão com força, puxava meu braço e levantava o seu dedo indicador da mão direita num gesto reflexivo digno de Arquimedes de Siracusa.

Descobri que Mateus fala poucas palavras, mas com ajuda profissional está aprendendo a formular as primeiras frases. Tem grandes chances de conseguir falar perfeitamente antes de ingressar no ensino fundamental. Por enquanto, quando fica muito ansioso, os sons se tornam indecifráveis para quem não o conhece bem. Ainda assim, pelo menos durante o período em que esteve próximo de mim o vi sorrindo quase toda hora. Cheio de energia, andava de um lado para o outro, batia palmas e sempre que ouvia um novo som chamava minha atenção querendo saber se eu também partilhava a mesma sensibilidade e audição apurada.

Me recordo que Mateus me pediu 13 ou 14 vezes para levá-lo até a obra do outro lado da rua. Com o tempo a sua curiosidade só aumentava. A cada pedido me vi obrigado a pensar rápido e encontrar uma forma de convencê-lo que ele poderia se distrair com outras coisas. Com palavras diferentes, expliquei várias vezes que não permitem a entrada de crianças em áreas de construção, nem mesmo de adultos, já que os tapumes também servem para coibir a presença de desconhecidos. Além disso, ele poderia se machucar.

Depois de observar atentamente tudo que eu dizia, Mateus ficava em silêncio e aceitava a explicação por alguns minutos. O que ajudava a minimizar sua ânsia era o barulho que ocasionalmente cedia ao silêncio e permitia que os cantos dos pássaros e os galhos balançados pelo vento fossem notados. No entanto, estava tão atento e curioso que logo um som diminuto e esparso vindo das ferramentas dos pedreiros fazia com que ignorasse até o barulho intempestivo de motos, carros e caminhões.

Parecia que não havia mais nada ao seu redor, a não ser a própria inocência cativada pela curiosidade. Para a maioria das pessoas uma obra costuma ser apenas uma obra, ou seja, um evento ordinário. Mateus via muito mais do que isso. Foi o que eu percebi quando vi seus olhos amendoados se agigantarem. Talvez imaginasse até batalhas por trás dos tapumes, pedreiros voadores, martelos e marretas que trabalham sozinhos, buracos que funcionam como portais para outros mundos, máquinas falantes e um universo multicolorido digno do desenho animado “Bob, o Construtor”. Afinal, a imaginação e a criatividade de uma criança é inestimável.

Por um momento consegui redirecionar o seu foco de atenção quando mostrei quatro homens instalando corrimãos na escadaria da Igreja São Sebastião. Rapidamente descrevi para ele o que estavam fazendo. Ao perceber que dois homens usavam ferramentas elétricas a pouco mais de 30 metros de distância, deu um grito abafado e ao mesmo tempo extasiado, seguido por um sorriso e um aperto de duas mãos na minha mão direita.

Mais uma vez não tenho dúvida de que aquela cena, para mim trivial, representava no universo de Mateus muito mais do que eu possa imaginar. Mostrei a ele mais algumas situações comuns do cotidiano que estavam ao nosso redor. Para cada descrição, aquele garotinho tinha uma nova reação de satisfação. É o tipo de experiência que surge com o acaso e faz qualquer adulto se questionar sobre a forma como encara a vida e o mundo.

Antes de eu me despedir, Mateus levantou os dois braços para que eu o pegasse no colo. Ficou o tempo todo sorrindo e olhando fixamente para mim. Quando o desci, segurei na sua mão mais uma vez, me despedi e caminhei em direção ao interior da igreja. Mateus me acompanhou, com os olhos.

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