David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Eu, a musculação e o preconceito

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“Os músculos sempre vão demandar menos do que o cérebro. O seu corpo agradece se você dedicar uma hora do seu dia. Já o cérebro não se satisfaz com tão pouco”

"As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra" (Foto: Arquivo Pessoal)

“As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra” (Foto: Arquivo Pessoal)

Sou jornalista e já enfrentei inúmeras situações de preconceito por gostar de musculação, por gostar de me alimentar bem. Já ouvi várias vezes pessoas dizendo que jornalista é o sujeito sedentário que tem uma rotina baseada em junk food, cigarro, álcool, litros de café e muita insônia.

Nunca me enquadrei nesse obsoleto estereótipo e sei que há muitos outros jornalistas que também não. As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra, é uma pessoa à toa, que fica mais tempo na academia do que em casa ou no trabalho. Não, isso não é verdade e eu posso afirmar por experiência própria, já que passo a maior parte do dia produzindo, pensando, lendo e ouvindo pessoas, o que tem tudo a ver com a minha atividade profissional.

“Cuidado pra não ficar brocha!”, dizem alguns num tom de brincadeira que vela um anseio pela ofensa. A verdade é que o preconceito é sempre recorrente. Há aproximadamente dois anos, me encontrei com um camarada em um conselho de discussões sociais. Quando me viu, ele disse: “Nossa, Arioch! Tá bem maior, hein? Pelo jeito está dando mais prioridade para os músculos do que para o cérebro. Então comentei: “Não, pode ficar tranquilo. Os músculos sempre vão demandar menos do que o cérebro. O seu corpo agradece se você dedicar uma hora do seu dia. Já o cérebro não se satisfaz com tão pouco.”

Passei por outras situações parecidas, até piores. Tem gente que até se afasta de você por causa disso. Há quem ache estranho você gostar tanto de musculação sendo que profissionalmente atua numa área que não tem nada a ver com atividade física. Claro que não há o menor sentido em pensarem assim, mas é o que acontece. Inclusive há alguns anos fui ofendido por postar fotos da minha evolução no Facebook, o que revela um nível excruciante de intolerância.

Muita gente tem dificuldade em entender que isso é uma forma até de estimular quem não pratica atividades físicas ou de incentivar amigos que estão começando. Todos os dias percebo como as pessoas são capazes de odiar ou desprezar alguém por gostar de alimentação saudável e atividades físicas. Sei que há pessoas que exageram nesse aspecto, só que não é justo fazer generalizações. Eu, por exemplo, nunca tive o hábito de criticar ninguém por suas preferências alimentares ou desinteresse por musculação.

Na realidade, não vejo sentido em tocar no assunto com quem não gosta de nada disso. As pessoas merecem a liberdade de escolher o que querem fazer. Mas claro que sempre tentei ajudar ou recomendar profissionais para todos que vieram até hoje conversar comigo sobre o assunto, até porque me recordo como eu era desinformado quando ingressei numa academia há mais de oito anos.

Ainda assim, me identifiquei tanto que frequento o mesmo ambiente até hoje. De segunda à sexta, dedico pelo menos uma hora do meu dia à musculação, o que não é muito se levarmos em conta que o dia tem 24 horas. A nossa condição física exige isso, já que fomos feitos para o movimento.

Mudei de horário algumas vezes por necessidade. Já treinei 5h30 da manhã. Naquela época o instrutor me entregava as chaves para eu abrir a academia. Foi assim durante pelo menos três anos. Hoje treino no final da tarde, horário que sempre que posso sigo liturgicamente há cinco anos. Quando necessário, também dou um jeito de ir em outro horário. Com o tempo, comprei algumas anilhas, barras e halteres para quebrar o galho de vez em quando.

Musculação pra mim nunca foi tortura ou sacrifício. Um dia ouvi uma instrutora ao meu lado na academia falando para um rapaz que odiar musculação é normal, já que ninguém gosta, apenas faz porque precisa. Não, isso também não é verdade. Amo me movimentar e levantar pesos, por mais que isso possa parecer estranho para muita gente. É muito prazeroso.

Há pessoas que apenas são assim, gostam do que fazem e se sentem bem. Muitas outras não. Ouço muitas reclamações à minha volta o tempo todo na academia. Muita gente impõe limites a si mesmo. Quando os obstáculos não existem, as pessoas o criam, como forma de fuga. Respeito o direito de cada um de não gostar de musculação, até porque se você não se identificar com ela, ela também não vai se identificar com você.

Quando decidi praticar musculação, a primeira coisa que fiz foi não encará-la como algo distante da minha realidade. Para exemplificar, cito o fato de que fui diagnosticado com hérnia de disco antes de me matricular numa academia. Um ortopedista recomendou que eu não fizesse musculação. Contrariei suas indicações e comecei a treinar. Eu fazia todos os exercícios que qualquer pessoa completamente saudável faria. Com o tempo, minha coluna lombar se fortaleceu e até hoje tenho uma rotina baseada nos exercícios que mais exigem da lombar. Resumindo, meu treino é extremamente intenso, já que estou sempre me forçando ao limite, e me sinto mais saudável do que nunca.

Atividades físicas fazem uma grande diferença na minha vida, assim como uma boa alimentação. Eu não como bem porque preciso. Bom, na verdade eu preciso sim, mas não vejo como obrigação. É algo natural pra mim. Comecei a me interessar por nutrição há uns bons anos, quando me consultei com uma nutricionista que elaborou pra mim uma dieta ruim voltada para pessoas sedentárias. Ou seja, ela não entendia de nutrição esportiva. A partir daí, comecei a pesquisar sobre o assunto. Ingressei em fóruns de musculação e nutrição, fiz amizades com pessoas da área, comprei livros sobre o tema. Enfim, tentei adquirir conhecimento e me manter atualizado.

Após alguns anos, aprendi a conhecer minhas necessidades, por isso hoje minha dieta não é baseada em contagem de calorias. Levo em conta apenas quantidades e distribuição de macronutrientes, ou seja, carboidratos, proteínas e gorduras, sempre tendo como referencial meu peso corporal. Realmente não costumo comer bobagens. Pra mim, não é privação. Faz tanto tempo que tenho esse estilo de vida que não costumo sentir falta de consumir alimentos baseados em calorias vazias. E como meu foco nunca foi competir como fisiculturista, treino naturalmente, ou seja, sem o uso de esteroides anabolizantes.

Apesar disso, meu ano é dividido em duas fases. Uma de ganho de massa muscular e outra de queima de gordura. Só que evito deixar meu percentual de gordura passar de 10% (como mostra a foto), o que é razoável. Também acho viável dizer que não vejo suplemento como necessidade primária, mas gosto de whey protein, até porque é uma excelente proteína em pó, inclusive para quem gosta de cozinhar, o que é o meu caso como mostra o meu blog Cooking For Muscle (cookingformuscle.wordpress.com). Embora eu não use atualmente, também acho interessante o consumo de um multivitamínico, um suplemento de omega-3 com concentração de pelo menos 180 mg de EPA por dose e um suplemento de vitamina D3 com concentração de no mínimo 5000 UI, produtos que já me ajudaram muito.

Além de tudo que falei até agora, afirmo ainda que vejo a musculação como uma atividade terapêutica, uma boa forma de escape ou extravasamento para quem tem uma rotina com grande desgaste psicológico e emocional.

Written by David Arioch

June 7, 2015 at 5:39 pm

Posted in Autoral

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