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Bolsonarismo não é antissistema
Uma afirmação sem sentido é que o bolsonarismo é “antissistema”. Isso já foi afirmado desde Jair Bolsonaro até Jair Renan. Isso não tem base alguma na realidade. O bolsonarismo como a versão mais autoritária da direita é o sistema elevado ao seu pior. É a exacerbação do neoliberalismo em ultraliberalismo (privatizações, arrocho fiscal [que pune a população e absolve a elite econômica], desregulamentação, precarização do trabalho, desmonte do Estado). E ele não faz isso por acaso. O bolsonarismo só consegue crescer e ter poder porque é respaldado pelas elites econômicas.
Tudo é baseado no uso de narrativas e ferramentas hegemônicas que visam fortalecer o poder da direita em um país que sequer já conseguiu se livrar desse poder, já que pela maior parte de sua história política ele foi governado e legislado pela direita. Lula ser reeleito, mas saber que teremos em 2027 um Congresso com mais bolsonaristas reflete essa realidade. Qualquer alegação do bolsonarismo como antissistema é contraditória não apenas discursivamente, mas existencialmente.
Saudosismo da ditadura militar, supressão de direitos, patrimonialismo, classismo, redução das desigualdades sociais a problemas individuais, alcance e impacto à base de investimentos de elites econômicas, e até mesmo apoio de big techs (que são inimigas da mesma regulamentação de que o bolsonarismo depende para proliferar suas mentiras), tudo isso é a perpetuação do “sistema”, do que já existe, mas elevado ao seu pior.
O bolsonarismo é apoiado por mandatórios do “agro” (por meio da bancada ruralista, grandes latifundiários) e pelo mercado financeiro. O que existe de antissistema nisso? Nada. É a continuidade da mesma visão hegemônica que existe no Brasil desde os tempos da República Velha, do coronelismo. Nada é mais “sistema” do que ser majoritariamente respaldado pelas elites econômicas.
O sistema sempre diz respeito ao que estrutura uma sociedade e quais poderes de influência a determinam. E o econômico é indissociável disso. Se você é apoiado por quem depende do status quo, você não é antissistema. Isso não resiste nem a uma análise sociológica superficial, já que o sistema é a estrutura que organiza a sociedade em torno da propriedade, do lucro e da hierarquia de classes.
Defender hierarquias não tem nada a ver com antissistema, se já vivemos em uma sociedade hierarquizada, onde papéis são vistos como fixos (ainda que se fale hipocritamente em mobilidade social) e crê-se que devem ser mantidos assim. O classismo sempre defendido pela direita, mas piorado no bolsonarismo, é tratado como dado natural. E sendo, é algo visceralmente não antissistema. Quando o sistema político é totalmente condicionado ao sistema econômico, é claro que só podemos mudar isso com hegemonia cultural.
Nada agrada mais o sistema do que o bolsonarismo. Ele cria uma narrativa de antissistema sendo a versão mais visceral de defesa de tudo que constitui o que podemos chamar de sistema. E mais, o enriquecimento de quem ingressa na política, que é o caso da família Bolsonaro, é outro desdobramento do quanto é ridículo chamá-los de antissistema. Se fossem antissistema, não teriam adquirido e negociado mais de 100 imóveis enquanto viviam e vivem do dinheiro público.
