Archive for October, 2026
Augusto Cury apoiar Flávio Bolsonaro deveria surpreender alguém?
Augusto Cury apoiar Flávio Bolsonaro deveria surpreender alguém? O cara é autor de autoajuda, defende que os problemas não são estruturais e sim individuais. Ou seja, uma questão de vontade e mentalidade.
Ele é a personificação da negação de que devemos mudar estruturas e sim atribuir falhas e problemas a uma questão individual. “Se você não venceu, a culpa é sua. Falta mentalidade, falta foco, falta disciplina, falta ‘gestão da emoção’.” O mundo é apresentado como um terreno neutro onde cada um colhe o que planta.
Nessa lógica distorcida e falsa, não há estruturas, não há desigualdade, não há privilégio. Há apenas indivíduos e suas escolhas. A literatura de autoajuda, assim como a posterior cultura coach, vieram para validar o neoliberalismo, que é o que a direita bolsonarista abraçou desde sempre para ter poder econômico também para fazer sua guerra cultural e falsear narrativas.
É no neoliberalismo que Cury e o bolsonarismo se encontram – porque os dois são dependentes dele e não querem deixar de alimentá-lo e promovê-lo, porque eles não apenas prosperam, como só podem existir a partir dele. Afinal, se as pessoas tiverem mais consciência social, questionarem mais as desigualdades e entenderem como tudo isso envolve olhar para os problemas estruturais, e não isoladamente para os indivíduos, nem Cury nem os Bolsonaro prosperam.
A autoajuda e o bolsonarismo compartilham o solo da individualização dos problemas estruturais, da responsabilização do indivíduo pela própria situação; e no caso, do bolsonarismo, que é um emaranhado de contradições, também da invenção do inimigo, de um bode expiatório – de colocar oprimido contra oprimido; mas sem que um deles se veja como oprimido porque reivindica também, e até sem perceber, o lugar de oprimir.
Flávio Bolsonaro teve esmagadora maioria de votos em cidade de SC com má fama associada ao neonazismo
Timbó (SC), uma das cidades onde Flávio Bolsonaro teve proporcionalmente mais votos (76,5%), possui registros históricos e ocorrências policiais recentes relacionados ao neonazismo. Estudos históricos também apontam que a primeira seção oficial do Partido Nazista no Brasil foi fundada na região de Timbó, em 1928, chegando a contar com centenas de membros filiados nas décadas de 1920 e 1930.
Em setembro de 2021, a Polícia Civil de Santa Catarina encontrou uma fábrica clandestina de símbolos nazistas em Timbó. O local funcionava em dois contêineres e produzia bustos de Adolf Hitler, bandeiras, insígnias, canecas e peças com a suástica. Na mesma operação policial de 2021, foi localizado um bar na cidade decorado com imagens e forte simbologia ligada ao regime nazista e ao supremacismo.
As investigações da Justiça de SC apontaram que os objetos produzidos na cidade abasteciam um site de comércio eletrônico focado em militaria e materiais de extrema direita. Esses episódios colocaram o município de forma recorrente nos relatórios de monitoramento de células extremistas e neonazistas no Sul do Brasil realizado por forças de segurança e pesquisadores.
É preciso parar de eleger quem legisla para os mais ricos
Lula e Haddad têm falado a cada ano sobre o esforço para tributar os ricos. Daí o governo envia para o Congresso uma pauta que só pode avançar passando pelo Congresso. O ponto é que as pessoas elegem exatamente para o Legislativo uma maioria que atua em favor da elite econômica porque é dela que recebe financiamento, apoio e privilégios. E por isso, jamais atuará contra os interesses dela. Então o governo fica de mãos atadas, e não consegue desonerar impostos sobre as classes baixas e médias.
Daí os políticos que antagonizam o governo fazem o jogo da falsidade, tão comum a eles. Culpam o governo por algo que eles mesmos fazem de tudo para impedir que avance. E desta vez elegeram um Congresso muito pior em matéria de trabalhismo e economia. Não por acaso, os ricos pagam menos da metade de impostos que a classe média, e a diferença é ainda maior em relação às classes mais baixas. Continuem votando na direita e no neoliberalismo.
E o mais bizarro é que, enquanto isso, muita gente está ignorando projetos reais de transformação (políticas que melhorariam a vida da população) para se engajar em pautas de costumes fabricadas para distorcer o debate. E não percebem o quanto isso é conveniente para ofuscar os assuntos que deveriam ser a verdadeira prioridade: salário digno, alimentação de qualidade, saúde, moradia, educação, etc. A guerra cultural da direita não é um acidente. É uma cortina de fumaça. E quem lucra com ela é quem não quer que a população olhe para o andar de cima.
O Bolsa Família sobrecarrega os trabalhadores?
Uma mulher compartilhou que o Bolsa Família sobrecarrega os trabalhadores – uma narrativa que tem sido muito explorada pela direita bolsonarista nas redes sociais.
Enquanto o Bolsa Família deve movimentar R$ 158 bilhões em 2026 (destinados a cerca de 19,9 milhões de famílias), os ricos no Brasil, por meio do forte lobby no Congresso, terão uma renúncia fiscal de R$ 903 bilhões.
Desse total, a Unafisco classifica pelo menos R$ 618 bilhões como “privilégios tributários” – benefícios sem contrapartida econômica ou social comprovada. A diferença entre os valores é brutal.
Enquanto o Bolsa Família passa por supervisão e fiscalização, a renúncia que beneficia os ricos carece muito mais de transparência, operando como um “orçamento paralelo” sem a mesma vigilância.
A mulher que compartilhou a mensagem atacando o Bolsa Família não é rica. Ela é da classe trabalhadora. E ela está defendendo, sem saber, os interesses de quem realmente tira dinheiro dela: os bancos, os rentistas, os grandes empresários e ruralistas que pagam menos impostos que ela – e que, quando confrontados, repetem o clichê de que “geram empregos”.
Como se emprego não fosse gerado por demanda, por consumo, por renda na mão do trabalhador. Como se isenção fiscal para rico fosse sinônimo de prosperidade. Não é. Quando a desproporção é grande, como a realidade escancara, não é estímulo, é privilégio.
O Bolsa Família não é o problema. O problema é um sistema tributário que faz o pobre pagar mais e um sistema de propaganda que convence o pobre a culpar outro pobre pela sua própria miséria. A “lógica” que eles criam é falsa, mas é funcional para quem está no topo. E é por isso que ela continua sendo repetida.
Ademais, você não vai encontrar a direita defendendo uma proporcionalidade de impostos mais justa, porque historicamente isso nunca foi uma bandeira da direita, que no Brasil é economicamente neoliberal e faz lobby no Congresso tanto pela manutenção quanto pelo aumento dessa distorção.
Basta olhar para quem está defendendo que os mais ricos paguem mais impostos, visando corrigir essa disparidade que é também uma grande forma de injustiça. Com certeza, não é a direita nem os neoliberais.



