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Negar às pessoas uma vida digna é um autoritarismo social difuso
Quando as pessoas sofrem porque não têm acesso a serviços que deveriam ser universais, há um autoritarismo social difuso. Não nos termos tradicionais do fascismo, mas nos termos de uma configuração econômica que determina quem terá ou não acesso a uma vida digna.
Quando se defende que esses serviços não devem ser universais, há uma operação de autoritarismo social difuso. Quando uma pessoa precisa trabalhar demais apenas para sobreviver ou se alimenta mal porque não tem condições de se alimentar melhor, também.
Não é exagero chamar de autoritarismo social difuso a imposição de uma ordem que nega às pessoas a vida digna sem que elas tenham possibilidade real de contestar essa ordem. É por isso que a privação material imposta por um arranjo econômico é autoritária. Não porque alguém decidiu, individualmente, excluir esta ou aquela pessoa, mas porque a ordem se impõe sem alternativa acessível a quem a sofre.
Se olhamos à nossa volta, as pessoas sofrem autoritarismos sociais difusos o tempo todo, mas muitos podem não ver dessa forma porque o capitalismo e o neoliberalismo são uma hegemonia cultural tornada uma “gramática do viver”, que faz as pessoas concluírem apenas que a vida é assim. Não veem saídas, não veem alternativas.
E isso ocorre de forma tão naturalizada que a opressão já não vem somente de fora. Você mesmo passa a se oprimir, porque passa a se culpar e a se cobrar mais. A ideia de individualizar a responsabilidade, de assimilar fracasso e irrealização nos termos capitalistas, é um dos mecanismos mais eficazes de aceitação do autoritarismo social difuso dentro dessa gramática do viver.
A normalização disso está na percepção de que muitas pessoas não têm uma vida digna “porque não se esforçam”. Essa responsabilização do indivíduo é um exemplo do que mantém a lógica capitalista-neoliberal viva.
O problema não é o esforço em si, mas o uso do esforço como justificativa da desigualdade. Quando se diz que quem não tem vida digna “não lutou o suficiente”, o que se faz é converter estrutura em mérito. E é essa conversão que hierarquiza e legitima a desigualdade. A ideia de esforço, operada nos termos capitalistas, atribui mais valor a uns do que a outros e mantém sempre viva uma ideia de legitimidade na desigualdade.
Acredito que todo ser humano merece uma vida digna, independentemente do que outros possam qualificar como esforço. Humanos compartilham interesses, vontades, desejos, mesmo quando são separados por classes sociais, por privilégios. Portanto, nada deveria legitimar a desigualdade como normalidade se consideramos empatia, solidariedade.
