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O médico bolsonarista enterrado no próprio umbigo
Li uma publicação de um médico que diz que trabalha 14 horas por dia em sua clínica. Ele trata isso como exemplar e depois diz que vota em Flávio Bolsonaro porque não consegue “gente” para trabalhar por causa do Bolsa Família. Bom, se ele trabalha 14 horas por dia é porque internalizou a mesma lógica neoliberal criticada pelo filósofo Byung-Chul Han no livro “Sociedade do Cansaço”.
Ao internalizar essa lógica, o tal médico transforma sua experiência privilegiada de mundo em uma tosca retórica para atacar outras pessoas. E ainda justifica seu voto não como uma questão de empatia, solidariedade, e sim de autoritarismo, arbitrariedade, algo que reflete o bolsonarismo.
Afinal, o tal médico enxerga o mundo à medida de seu umbigo. A principal motivação dele é a crença de que o bolsonarismo como política de governo “precisa tirar todos os benefícios sociais porque isso resolveria o problema de as pessoas não aceitarem qualquer trabalho”.
Ele próprio admite sua mesquinhez. Ele quer o Estado empurrando as pessoas para qualquer tipo de trabalho, não permitindo que possam escolher onde trabalhar e em quais condições. E ele conta com Flávio Bolsonaro para que isso seja uma realidade.
Se o Bolsa Família tem contribuído para que as pessoas não se submetam mais à exploração, esse é outro ponto positivo do benefício. Porque, considerando o valor baixo do Bolsa Família, só podemos concluir que a oferta de trabalho rejeitada é péssima.
Outra refutação que posso fazer é que esse médico ignora que há um número crescente de pessoas recusando a precariedade nas relações de trabalho; e isso não depende do Bolsa Família. É uma consciência imparável em andamento.
Ser privilegiado e trabalhar 14 horas porque quer, não porque precisa, é algo completamente diferente de ser empregado e saber que o seu salário não garantirá conforto, e sim mera sobrevivência.
Esse médico, portanto, vota em Flávio Bolsonaro (que nunca foi um trabalhador) porque sua visão de mundo é a do Estado como intervencionista no “viver de quem não quer trabalhar para mim”. Porque não é novidade que Flávio objetiva suprimir direitos, conquistas trabalhistas e pretende eliminar programas sociais.
