David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O homem que quis devolver a noiva

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Marido descobriu que a mulher não era virgem e decidiu devolvê-la

Episódio aconteceu na antiga Igreja São Sebastião (Acervo: Fundação Cultural)

Nos anos 1950, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, não era incomum o noivo procurar o padre pedindo para anular o casamento quando descobria que a mulher não era mais virgem. O frei alemão Ulrico Goevert testemunhou tal situação na época em que era vigário da Igreja São Sebastião.

Crimes à honra eram tratados com extrema seriedade em Paranavaí há mais de cinquenta anos, provam relatos de pioneiros e registros históricos. Assim como um rapaz que desonrasse uma moça era obrigado a se casar sob pressão não apenas familiar, mas de toda uma sociedade, acontecia da moça ser devolvida pelo marido, caso tivesse mantido relações sexuais antes de receber o sacramento do matrimônio.

“Naquele tempo era muito importante se guardar cuidadosamente. Era preciso evitar se entregar”, relatou o padre alemão Ulrico Goevert no livro de sua autoria “Histórias e Memórias de Paranavaí”, publicado em 1992. No entanto, nem todo mundo resistia às tentações da carne.

Em uma ocasião, frei Ulrico recebeu a visita de um homem na Igreja São Sebastião. A primeira reação foi de estranheza ao reconhecer o rosto do rapaz de quem realizou o casamento no dia anterior. Extremamente encolerizado, o homem nem cumprimentou o padre e logo disparou: “Aqui o senhor tem novamente a mulher que me deu diante do altar. Ela não era digna de se casar.”

Frei Ulrico: “Como um mesquinho pecador pode exigir dos outros aquilo que ele mesmo não faz?” (Acervo: Ordem do Carmo)

Paciente, o padre tentou controlar a situação acalmando o homem. Em seguida, interpelou: “Como o senhor sabe que ela não é digna de se casar?” O marido disse que obrigou a mulher a confessar se era virgem ou não. Ao saber da negativa, o homem afirmou que a moça deveria casar com quem a desonrou.

Depois de ouvir as declarações, o padre perguntou se até o dia do casamento o rapaz não teve relações íntimas com mulheres. Em tom de orgulho, o marido revoltado respondeu que a situação era diferente, pois ele era homem. “Eu disse que ele não era homem coisa alguma, pois não dominou a sua paixão e entregou-se para as mulheres da vida. Como um mesquinho pecador pode exigir dos outros aquilo que ele mesmo não faz?”, questionou frei Ulrico, desvelando a hipocrisia do rapaz.

O padre sugeriu que o marido levasse a mulher para casa. O rapaz hesitou e coçou a barba enquanto os fiéis na igreja comentavam que o frei tinha razão. “Ele não olhou a mulher com afeto, mas logo a tomou pela mão e foi embora”, revelou Ulrico Goevert.

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2 Responses

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  1. 1953, Padre Pedro Plonka era o nosso vigário em Santa Isabel do Ivaí. Foi ele quem construiu a primeira igreja, de madeira, na então Praça Dona Isabel, depois Manoel Rodrigues da Silva (meu pai), depois Independencia e agora Dr. Otto. Fazia rifa do seu jeep todo mês e, gozado, sempre saia prá Igreja mesmo. Sitiante tinha horror de ver padre “Bronca” abrir a porteira do sítio. Lá se ia galinha, ovo, bezerro, ovelha, cabrito, o escambau, quando não grana viva. Do jeep tinha o maior ciúme. Só quem botava a mão nele, ero o Antonio Cearense, frentista do Posto Esso do Dionizio Vieira dos Reis. Antonio Cearense lavava o jeep e dele cuidava como seu. Mas, a confiança do padre, que me crismou, em Antonio Cearense foi pro espaço quando ele descobriu que o jeep ia toda noite prá zona de Loanda. Antonio Cearense, na boléia.

    Parreiras Rodrigues

    October 9, 2010 at 2:30 am

  2. Prezado Sr.
    Gostei muito de visitar seu site pois me trouxe lembranças de minha infância.
    Obrigado
    Prof. Renê Scholz
    Curitiba, Paraná

    Renê Scholz

    October 11, 2010 at 11:26 am


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