David Arioch – Jornalismo Cultural

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A donzela de Bergman

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Jungfrukällan e o embate entre paganismo e cristianismo

A inocente Karin personifica a pureza (Foto: Reprodução)

Lançado no Brasil como A Fonte da Donzela, Jungfrukällan, de 1960, é um clássico do cineasta existencialista sueco Ingmar Bergman. A partir da trágica morte de uma virgem cristã, o filme apresenta uma perspectiva sobre o embate entre paganismo e cristianismo na Suécia do Século XIV.

Logo no início, a selvagem e expressiva Ingeri (Gunnel Lindblom) surge como uma representação do pecado ao tentar invocar o deus pagão Odin. Em outro cômodo da casa, a imagem de Jesus Cristo crucificado mostra que aquele é um lar cristão. Tais cenas evocam a ideia de uma recente civilização cristã, que ainda convive e até mesmo flerta com o paganismo.

Ingeri

A selvagem Ingeri representa o pecado (Foto: Reprodução)

Enquanto a grávida Ingeri personifica o primitivismo e as falhas da natureza humana, o contraponto é a virgem cristã Karin (Birgitta Pettersson), a quem Bergman realça a beleza, transformando-a em um ícone de perfeição, pureza e inocência. Venerada pelos pais Töre (Max von Sydow) e Märeta (Birgitta Valberg), Karin consegue, inconscientemente, fazer com que a mãe odeie o pai. A justificativa é a identificação da filha com a figura paterna.

Os atos dos personagens parecem determinados por uma cortina de fé absoluta, às raias do fanatismo. Mas tudo começa a mudar quando Töre pede a Karin para levar velas para a missa. Ao longo da viagem, a frágil donzela é ludibriada por um grupo de pastores pagãos que a contagia com boa música campesina. Mais tarde, se revelam criminosos e a moça é estuprada e assassinada de forma impiedosa.

O crime acontece na primavera, que marca o fim de um período de trevas, segundo o folclore escandinavo. Conforme a estação do ano ilumina a natureza, transformando tudo em um paraíso multicolorido, o sacrifício de Karin joga luz sobre os maiores defeitos de uma família cristã. A antológica cena em que o pastor pagão esmaga as velas da jovem virgem é uma metáfora sobre a rejeição do cristianismo por uma parcela da população sueca.

Jungfrukällan é um filme que impressiona pela expressividade do elenco e por propor dúvidas de ordem metafísica. Bergman aborda fé, morte e redenção em um contexto onde há momentos em que os personagens mesmo calados e imóveis transmitem sentimentos. Em contrariedade, também os apresenta frios e protegidos por uma formalidade que visa manter as aparências e velar as imperfeições.

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