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Jornalismo Cultural

O dia em que Maria Norinha desafiou o patrão

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Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha tinha 13 anos quando morava em uma colônia a pouco mais de 20 quilômetros da área urbana de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Na época, trabalhava nos cafezais de um dos fazendeiros mais ricos da região. “Comecei na roça com sete anos. Com o tempo percebi que ganhavam muito dinheiro explorando a gente”, relata.

Em um dia de 1969, a jovem foi ao centro de Paranavaí e se apaixonou por um sofá que viu em uma loja. A viagem de retorno para casa foi percorrida a pé, mas com satisfação. “Coloquei na minha cabeça que iria comprar aquele sofá”, conta sorrindo. Quando chegou em casa, um ambiente simples com chão de terra batida, e que nunca acomodou um sofá, explicou ao pai que iria comprar o móvel, mas o homem não concordou e afirmou que o patrão também não concordaria.

Maria Norinha conversou com o fazendeiro e pediu que ele fosse o avalista da compra, justificando que se dedicava à sua roça de café há seis anos. Ainda assim, o sujeito recusou. Obstinada, Norinha foi até o Centro de Paranavaí a pé e comprou o sofá. Na hora da negociação, o gerente da loja disse: “Mas você precisa que o seu patrão seja o avalista. Será que ele vai fazer isso?”

A jovem respondeu: “Ele vai ter que concordar. A gente trabalha pra ele há muito tempo e até hoje não temos sofá em casa.” No dia, os moradores da colônia assistiram a chegada do caminhãozinho que trazia sobre a carroceria um sofá marrom de quatro lugares, cuidadosamente embalado.

Em meio aos olhares curiosos, Norinha pediu que o motorista fosse direto para a casa principal da fazenda, onde vivia o patrão. Chegando lá, mostrou ao fazendeiro que a compra já tinha sido feita e pediu que ele assinasse um documento, assumindo o compromisso como avalista. “Ele hesitou, fez cara feia, mas acabou cedendo”, lembra.

Maria Norinha ficou feliz com a compra. O problema depois foi lidar com a incompreensão do pai e a retaliação do patrão. Por causa do sofá, o fazendeiro a tratou mal por pouco mais de dois meses. “Como nossa casa não tinha piso, eu forrava a base do sofá com plástico e todos os dias o limpava com um pano molhado”, comenta, acrescentando que pagou sozinha pelo produto. O pagamento foi parcelado em 24 meses.

Naquele tempo, sofá era considerado um artigo de luxo na colônia, tanto que muita gente fez questão de ir até a casa de Maria Norinha para checar de perto o conforto do móvel. “Isso era normal numa época em que se ganhava mal e os colonos se endividavam com facilidade, principalmente nos armazéns mantidos pelos próprios patrões. O pagamento era tão ruim que meu irmão teve de trabalhar um ano pra comprar o sapato que ele tanto queria”, revela.

As famílias de colonos costumavam trabalhar de segunda a sexta para custear despesas básicas. Já o final de semana era dedicado aos “bicos” em outras lavouras. “A gente trabalhava sábado e domingo pra juntar um dinheirinho e comprar alguma roupa”, destaca.

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Written by David Arioch

November 4, 2014 at 12:44 pm

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