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Um retrato do jovem poeta maldito

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Arthur Rimbaud faleceu em decorrência de um câncer em 10 de novembro de 1891

Rimbaud deixou um legado que ultrapassa gêneros e estilos (Imagem: Reprodução)

Rimbaud deixou um legado que ultrapassa gêneros e estilos (Imagem: Reprodução)

O poeta francês Arthur Rimbaud tinha apenas seis anos quando foi abandonado pelo pai. Criado pela mãe, uma mulher extremamente conservadora, cresceu revoltado. Na adolescência, encontrou na arte uma forma de lidar com suas insatisfações, inclusive o desprezo pela religião ortodoxa.

Durante a guerra franco-prussiana, Rimbaud fugiu de casa e passou um ano vivendo nas ruas como  andarilho. Existencialmente conflituoso, apaixonado e angustiado, viu na poesia um meio de materializar seus anseios, aflições e visões. Aos 17 anos, escreveu Le Bateau ivre, inspirado no livro “Vinte Mil Léguas Submarinas”, do escritor francês Júlio Verne.

O poema anexado a uma carta foi a maneira encontrada por Rimbaud para se apresentar ao poeta parisiense Paul Verlaine em setembro de 1871. Na obra, o rapaz usa uma farta narrativa recheada de simbolismo e descrições imagéticas.

No mesmo ano, iniciou uma conturbada relação amorosa com o poeta. O relacionamento alimentado com poemas por correspondência o motivou a se mudar para Paris. Com Verlaine, Rimbaud viajou duas vezes para Londres. Foram justamente essas experiências que o motivaram a escrever a célebre obra Une Saison en Enfer (Uma Temporada no Inferno), referência do surrealismo e único trabalho publicado por iniciativa própria do autor.

Em 1872, durante um surto de desespero em Bruxelas, na Bélgica, Verlaine atirou no pulso de Rimbaud com uma pistola, principiando o fim do relacionamento. A ação custou a prisão do parisiense. Após dois anos na cadeia, Paul Verlaine se converteu ao catolicismo.

Com 20 anos, Rimbaud abandonou a poesia para tornar-se nômade na Europa e na África. Aceitava qualquer tipo de serviço que o permitisse sentir-se mais vivo. Foi comerciante, explorador e traficante de armas. Há quem diga que chegou a comprar e vender escravos.

Aos 37 anos, vítima de câncer, Arthur Rimbaud concordou em falar com dois padres pouco antes de morrer, mas até hoje não há prova alguma de que ele tenha se convertido ao catolicismo. “Por delicadeza, perdi a minha vida”, dizia o poeta que teve uma carreira meteórica com duração de três anos.

Rimbaud, com sua natureza contraventora, é até hoje apontado como um dos poucos poetas que conseguiram tornar-se referência não apenas em poesia, mas também em artes plásticas, música e cinema. E o mais interessante é que agrada até mesmo artistas de gêneros e estilos antagônicos.

Sua capacidade em unir o belo e o feio, transpassar o bem e o mal, dialogar com o bom e o mau e destrinchar a dualidade humana talvez seja a responsável por feito tão raro. Sem dúvida, Rimbaud se encaixava no conceito de espírito livre de que tanto falava o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

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Written by David Arioch

November 11th, 2014 at 2:24 pm

4 Responses to 'Um retrato do jovem poeta maldito'

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  1. “- Maria, levanta os olhos para o céu e regozíja-te no caminho, porque escutaste a
    Boa Nova do Reino e Deus te abençoa as alegrias! Acaso, poderias pensar que
    alguém no mundo estivesse condenado ao pecado eterno? Onde, então, o amor
    de Nosso Pai? Nunca viste a primavera dar flores sobre uma casa em ruínas? As
    ruínas são as criaturas humanas; porém, as flores são as esperanças em Deus.
    Sobre todas as falências e desventuras próprias do homem, as bênçãos paternais
    de Deus descem e chamam. Sentes hoje esse novo Sol a iluminar-te O destino!
    Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre a multidão dos pecados.”

    Antonio Neto

    20 May 15 at 2:55 am

  2. A vida é como duas setas que se cruzam: uma na vertical e outra na horizontal. A da vertical representa a superação:as ambições, os sonhos, os desejos, as conquistas, as vitórias desse mundo.A da horizontal representa a suportação: a resiliência, a suportação das mazelas próprias e das alheias e a difícil arte de sacrificar-se para que o melhor aconteça… Todos querem superar, mas poucos querem suportar…

    antoniopneto

    19 Aug 15 at 4:11 am

  3. O cotidiano, a rotina… Quantas almas nobres, intrépidas e portadoras de belos dons não sucumbiram ao pesado arrastar dos segundos, que geram os minutos, dos quais jorram as horas… Não são as extenuantes escaladas ou a força hérculea dispendida para arrastar entraves… O que mais mata é o peso incalculável de milhões de segundos que se acumulam sobre a cabeça… Sem o tônico da Esperança, ninguém pode suportar. Por isso, o rude homem de Tarso recomendou-a, ao lado do amor e da fé. Pintores, escritores, estadistas, milhões de pessoas anônimas do povo perderam suas vidas – literalmente – por não suportarem a miríade de segundos que compõem uma vida humana. Pudessem todos cobrir-se com o manto da Esperança, os manicômios seriam transformados em jardins e bibliotecas abertas ao público. Por consequência, a indústria farmacêutica sofreria um forte baque, pois Esperança cura uma gama variada de doenças de raiz psíquica.Esperança, para todos!!

    Antonio Neto

    22 Aug 15 at 4:54 pm

  4. Ao cativeiro do corpo, deu-se o nome de escravidão. Ao cativeiro da alma, ofereceu-se o eufemismo: “adicção”. Doces e tenebrosas teias que enredam multidões às funduras da amargura no tempo e no espaço. De onde nasce a adicção? Quem, por conta própria, atará algemas ao pensamento e ao sentimento, arrastando junto, todo o potencial de uma vida? Ah! Os que têm medo! O medo afugenta para os domínios da adicção.
    O medo do “depois”, do “amanhã”… Temores de diversas estirpes vão empurrando a vida para a cela da adicção. Não importa qual é a adicção, ela nasce do medo ou do misto de medo e revolta. Quase sempre a revolta aparece na composição da catástrofe existencial que está por vir.
    Quem ouvirá o pranto da solidão e os gemidos da desilusão?
    Adicção,
    Adicção…
    Mutila. Esteriliza o raciocínio. Cauteriza o sentimento. Arrasta para as cercanias da inconsciência…
    Intelecto desenvolvido não é antídoto.
    Fixação por regras e leis não é antídoto.
    Apego a rituais e disciplinas religiosas não são antídoto.
    Adicção,
    Adicção…
    Mão gélida que prende, arrasta, cava a cova e joga o adicto – sempre vivo e eternamente vivo – na prisão do próprio ser em convulsão…

    antoniopneto

    9 Dec 15 at 1:32 am

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