David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O Xogum dos Cachorros

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Tsunayoshi ficou famoso por sua compaixão por cães e pela criação de leis beneficiando os animais

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Tsunayoshi instituiu “Os Éditos Sobre a Compaixão pelas Coisas Vivas” (Arte: Japan This)

Nascido em 23 de fevereiro de 1646, o supremo líder militar Tokugawa Tsunayoshi é uma das figuras mais intrigantes da história do Japão. Além de ter garantido ao país um crescimento sem precedentes na Era Genroku, e que só seria novamente alcançado no início do século 20, o quinto xogum ficou conhecido como O Xogum dos Cachorros ou O Xogum Cão, pela sua compaixão pelos animais, mas principalmente por cães.

De acordo com a escritora alemã Beatrice Bodart-Bailey, autora do livro “The Dog Shogun: The Personality and Policies of Tokugawa Tsunayoshi”, publicado em 2006, foi sob o xogunato de Tsunayoshi, iniciado em 1680, que os cidadãos comuns do Japão tiveram pela primeira vez acesso à boa educação e condição financeira para desfrutar de formas de entretenimento que até então eram relegadas à elite governante.

Suas políticas pouco ortodoxas e seu amor pelos animais fizeram com que muita gente o visse como uma ameaça e o qualificasse como tirano. Um dos motivos foi a criação de uma série de leis intitulada “Shorui-Awaremi-no-rei”, ou “Os Éditos Sobre a Compaixão pelas Coisas Vivas”, inspirado nos ideais budistas de clemência. Quando ascendeu ao poder, Tsunayoshi exigiu que todos os cães fossem registrados, assim como mulheres grávidas e crianças, com o objetivo de prevenir o infanticídio.

Os mais místicos atribuíam o amor de Tsunayoshi pelos animais ao fato de que ele nasceu no ano do cachorro. Considerado generoso demais com os seres vivos não humanos, ele incomodou muita gente ao criar uma lei em que punia crimes contra animais com penas proporcionais ao tipo de violência praticada. Em 1685, ao divulgar “Os Éditos Sobre a Compaixão pelas Coisas Vivas”, sua intenção era garantir que cães, animais que povoavam as ruas em maior número, não fossem incomodados por pessoas mal-intencionadas.

Para resolver o problema do grande número de animais abandonados, ele construiu muitos canis, chegando a abrigar 48.748 cães só nos subúrbios de Edo, antiga Tóquio. E todos as despesas com manutenção eram custeadas pelo governo do xogum. Como as leis garantiam cuidados aos animais doentes ou feridos, a profissão de médico veterinário se tornou muito popular no Japão. Havia inclusive uma superintendência com funcionários que passavam o dia fazendo rondas em busca de animais abandonados ou maltratados.

Em seu livro, Bodart-Bailey conta que Tokugawa Lemitsu, o pai de Tsunayoshi, o deixou aos cuidados de sua mãe, uma verdureira, e que sob influência dela, que levava uma vida bem simples, o Xogum dos Cachorros cresceu rejeitando os valores da elite japonesa, e reconhecendo que cada ser vivo tem direito a um lugar ao sol.

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Um dos documentos envolvendo cães emitidos pelo Xogum dos Cachorros (Acervo: Arquivo Nacional dos Países Baixos)

Uma obra revisionista da história política do Japão, e que discorre sobre aspectos do desenvolvimento social, intelectual e econômico daquele país, “The Dog Shogun: The Personality and Policies of Tokugawa Tsunayoshi”, narra que o Xogum dos Cachorros criou cargos e nomeou funcionários para que cuidassem de viajantes doentes e procurassem um lar para crianças abandonadas. Mesmo que essas ações custassem caro, ele jamais cogitou parar de oferecer tais serviços.

Amado e odiado, Tsunayoshi tinha inimigos que diziam que sua postura intelectual baseada no budismo e no confucionismo era apenas uma distração, e que na realidade ele não levava a sério nada do que fazia em relação a isso. Porém, a escritora Bodart-Bailey apresenta provas consistentes que refutam essa afirmação. Um exemplo era o seu relacionamento com o filósofo confucionista Ogyû Sorai, o intelectual mais importante do Período Edo.

Segundo a escritora alemã, Sorai não apenas elogiou o trabalho do Xogum dos Cachorros, como também trabalhou com ele na definição e criação de muitas políticas públicas. Embora seu nome esteja sempre envolvido em controvérsias, Tsunayoshi conseguiu evitar fome e miséria em tempos conturbados da história do Japão, como quando houve a erupção mais violenta do Monte Fuji, além de desastres naturais como terremotos, tsunamis e tufões.

Sensível, o Xogum dos Cachorros foi criado como um erudito, não um guerreiro. Durante muitos anos, ele promoveu o neoconfucionismo, enfatizando principalmente a importância da lealdade e da paz. Outro episódio ou lenda associada ao seu nome foi o Ataque dos 47 Ronin, história que deu origem ao bushidō, código de honra samurai.

Além de ser mais espiritualizado que seus irmãos, Tsunayoshi preferia ouvir os conselhos de sua mãe do que os de generais e regentes, indo na contramão de seus antecessores e sucessores. Seu governo chegou ao fim em 19 de fevereiro de 1709, quatro dias antes de completar 63 anos, quando sua esposa, a filha do imperador, o matou envenenado.

Ela o assassinou porque Tsunayoshi, que também mantinha um relacionamento homossexual, queria que o seu amante fosse o seu sucessor. Sua esposa tentou dissuadi-lo em vão e, considerando a situação insustentável, o matou e depois cometeu suicídio. Quando o seu sobrinho Tokugawa Ienobu o substituiu, as leis de proteção aos animais foram revogadas.

Saiba Mais

O governo de Tokugawa Tsunayoshi começou em 1680 e terminou em 1709.

Os samurais criavam muitos cães durante o período do xogunato.

Referência

Bodart-Bailey, Beatrice. The Dog Shogun: The Personality and Policies of Tokugawa Tsunayoshi.  University of Hawaii Press (2006).

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