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Não faço nada pelos outros esperando recompensa

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Arte: Karna Dura/Kathmandu

Dependendo do que faço, é muito comum as pessoas dizerem algo como: “Que Deus te dê tudo em dobro”, “Você vai ser abençoado por tudo que fez” ou “Você ainda vai receber uma grande recompensa por isso”. Não sou religioso, mas fico honrado pelas pessoas me desejarem o melhor.

Porém, não faço nada pelos outros esperando recompensa. Realmente, não espero nada. Se faço algo é porque acho que posso e devo fazer, e quase sempre de forma independente. Não tenho nenhuma aspiração nesse sentido. Sou apenas um ser humano, e como tal, me sinto na obrigação de viver não apenas me pautando nas minhas próprias necessidades.

Sem dúvida, o ser humano nasce e morre sozinho. Mas nesse ínterim não custa abrir os braços, mesmo que ocasionalmente, para realidades tão diversas, para pessoas ou criaturas à mercê da própria sorte ou azar.

 





Written by David Arioch

June 15th, 2017 at 1:15 am

Posted in Reflexões

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Lola precisa correr

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No filme Lola Rennt, protagonista tem três oportunidades de salvar o namorado em 20 minutos

Lola precisa recuperar cem mil francos para evitar que Manni seja assassinado (Foto: Reprodução)

Lola precisa recuperar cem mil francos para evitar que Manni seja assassinado (Foto: Reprodução)

Lançado em 1998, Lola Rennt, que chegou ao Brasil como Corra, Lola, Corra, é um filme do cineasta alemão Tom Tykwer com uma estrutura tão importante e reveladora quanto a história. Na obra, Lola (Franka Potente) vivencia três tentativas de salvar a vida do namorado em vinte minutos. Manni (Moritz Bleibtreu) entra em um metrô e quando sai esquece uma bolsa com cem mil francos. A quantia pertence a um grupo criminoso do qual o rapaz tenta fazer parte. Desesperado pela perda do dinheiro que lhe custará a vida, Manni liga para a namorada Lola relatando o acontecido e informando que ele tem apenas vinte minutos para recuperar a grana. Sensibilizada com a situação, Lola inicia uma batalha contra o relógio.

Em Lola Rennt, a protagonista vive o mesmo dilema três vezes, com a história se repetindo consecutivamente. A grande diferença é que em cada uma as casualidades, encontros e desencontros, interferem nos atos da personagem e também nas ações de outras pessoas, alterando sempre a sequência e o desfecho do episódio. Por exemplo, um atraso de poucos segundos pode evitar que alguém seja atropelado.

Lola Rennt parece um jogo eletrônico em que o cineasta brinca com as cores (Foto: Reprodução)

Lola Rennt parece um jogo eletrônico em que o cineasta brinca com sons e cores (Foto: Reprodução)

Sem dúvida, o maior atrativo do filme é a criatividade do diretor Tom Tykwer que mistura vídeo, música, desenho animado e fotografia como elementos intrínsecos de um mesmo universo. Por meio de sons eletrônicos, o cineasta transmite a tenacidade da eletrizante correria de Lola pelas ruas de Berlim, na Alemanha. No contexto, o gênero techno pode ser interpretado como uma conexão dialética, um desdobramento musical das tantas repetições e intervalos ao longo da história, dando mais dinâmica à lógica espaço-temporal da obra. Já o desenho animado, que dá um caráter virtual e surreal a algumas cenas, remete aos jogos de videogame.

O filme parece um jogo eletrônico em que Tykwer brinca com sons e cores. A cada episódio, Lola encontra uma maneira curiosa de recuperar a grana. No primeiro, ela pratica um roubo e deposita tudo dentro de bolsas vermelhas, uma simbologia do amor, embora a atitude seja desesperada e irrefletida. Na segunda tentativa, a protagonista pega o dinheiro do banco do próprio pai, então tudo é armazenado em uma bolsa verde que representa positividade pelo fato da figura paterna ser uma pessoa de caráter duvidoso. Ao mesmo tempo, a cor remete à imaturidade e intemperança da jovem.

Na última história, Lola consegue a grana sem lesar ninguém ao participar de uma jogatina em um cassino. Ao final, o dinheiro é colocado em uma bolsa amarela que curiosamente se traduz na reflexão e ponderação da personagem. Reunindo as cores de cada história, temos a composição de um semáforo, em uma implícita e brilhante alusão aos momentos em que Lola pôde parar, prestar atenção e seguir em frente.

A trilha sonora da obra foi concebida por Tom Tykwer, Johnny Klimek e Reinhold Heil, mas conta com excertos de The Unanswered Question, de 1906, do compositor estadunidense Charles Ives, que traduz musicalmente o conceito do silêncio dos druidas. Em síntese, Lola Rennt é um filme veloz que rompe as amarras com o cinema convencional e faz referências ao clássico Przypadek, de 1987, do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski.