David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A dura realidade de Nelson

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Entregue ao vício, pedreiro sonha em se livrar do álcool e do crack

" Preciso me curar. Tenho cinco filhos. Três são casados e dois são pequenos” (Foto: David Arioch)

” Preciso me curar. Tenho cinco filhos. Três são casados e dois são pequenos” (Foto: David Arioch)

Nelson Ferreira Filho tinha dez anos quando viu a mãe ir embora para nunca mais voltar. Inconformado, seu pai começou a beber pinga todos os dias. “Ele comprava pra tomar no fim da tarde. Só que não percebeu que eu também me sentia abandonado. Então quando ele ia trabalhar eu bebia o litro de pinga inteiro sozinho. Meu pai ficava bravo comigo e eu com ele porque minha mãe sumiu”, narra.

Mais tarde, Nelson conseguiu se afastar do alcoolismo. Porém, retornou ao antigo vício quando a esposa deixou claro que queria a separação. “É a mãe de um de meus filhos. Quando a perdi há 15 anos, mergulhei no álcool de uma maneira que você nem imagina”, admite. Quem o conhece de longa data, relata com pesar a degradação de Ferreira Filho.

No auge da profissão, acostumado a circular pelas ruas da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, com motocicletas caras, o pedreiro Nelson chegou a ter quatro casas, dois terrenos e uma boa grana na poupança. “Sou pedreiro bom, tenho tanta ferramenta que a maioria nem sabe para que serve. Trabalhei no ramo por quase 25 anos. Eu era o cara da Vila Alta, o pessoal me via como exemplo de sucesso. Tinha vida boa e gostava de ajudar todo mundo”, garante enquanto chora.

Há sete anos, quando perdeu outra esposa, Nelson encontrou na rua um garoto oferecendo “um negócio de fumar”. “Era crack. Me acostumei com a droga e vendi dois terrenos. Gastei tudo comprando pedra. Rapaz, já fumei até mil reais numa noite. Depois vendi minhas ferramentas de trabalho pra comprar droga”, revela.

Chegou a não se importar mais em ser flagrado fumando crack. Às vezes o desespero de Nelson era tão grande que ele invadia terrenos baldios e matagais para fumar pedra. “Eu fumava muito com um colega. Um cara levava todo dia 50 gramas na casa dele e a gente alucinava. Graças a Deus, ele se livrou da droga. Fico feliz por aquele cara. Ele não vem mais pra cá. Não gosta nem de lembrar. Só o encontro lá pra cima da Vila Operária”, assegura chorando.

A situação de Nelson piorou nos últimos cinco anos, quando se entregou completamente ao alcoolismo. Hoje em dia, o pedreiro acorda às 5h para beber. “A minha vida é essa. Bebo o dia todo se deixar. Tomo fácil dois litros de pinga, então quando quero cortar os efeitos do álcool eu fumo uma pedra de crack. Esta semana fumei quatro, mas o lance é que só fumo quando bebo. Se eu não bebo, eu não uso droga”, confidencia.

Por mês, Ferreira Filho gasta em média R$ 400 em dois bares onde compra pinga. Como a garrafa custa R$ 10, o acesso é fácil. “Muitas vezes o cara ‘tomba’ antes de terminar a garrafa, por isso não é difícil virar alcoólatra. Agora pra quem usa droga, R$ 10 não é nada. Outra facilidade é que toda hora tem gente te oferecendo bebida de graça. O povo bate até na porta de casa pra acordar pra beber. E se não tiver dinheiro, é só vender as coisas pra comprar o ‘goró’”, informa.

As muitas lembranças de Nelson na casa onde viveu com a família o motivou a sair de lá para morar em uma residência alugada. No local, há apenas duas camas, um fogão e uma geladeira. “Lembro de tudo que fiz de errado na minha vida. Seis mulheres que tive moraram lá, além dos meus filhos. E como eu já vivia sozinho, eu quis sair. Hoje fico por aí, pelas ruas. Quando caio bêbado em algum lugar, sempre tem alguém que me puxa pelos braços, me arrasta e me deixa em casa”, destaca.

"Fiquei com medo de não acordar mais. Passa muita coisa pela minha cabeça. Quero ver meus netos crescendo" (Fotos: David Arioch)

“Fiquei com medo de não acordar mais. Passa muita coisa pela minha cabeça. Quero ver meus netos crescendo” (Fotos: David Arioch)

O estado do pedreiro é tão grave que ele não consegue dormir quando não bebe. O consumo constante de álcool o obrigou a interromper o uso do sedativo Diazepam porque a combinação poderia ser desastrosa. “Já bebi e tomei remédio ao mesmo tempo e me deu um branco daqueles. Fiquei com medo de não acordar mais. Passa muita coisa pela minha cabeça. Quero ver meus netos crescendo. Esses dias uma nora trouxe um pra eu ver. Eu estava sentado em frente ao portão. Amo todos eles”, afirma.

Nelson diz que se sente mal pelo sofrimento que causou à família, sonha em se livrar do vício e em viver novamente com a esposa. “É muito amor. Preciso me curar. Tenho cinco filhos. Três são casados e dois são pequenos”, enfatiza sorrindo e enxugando as lágrimas do rosto.

Ouvia gente cochichando no quintal e corria com foice ou facão

Morador da Vila Alta desde 1986, Nelson Ferreira Filho se orgulha da profissão de pedreiro e também de ter trabalhado como segurança de prefeito. No entanto, quando fala do presente reconhece que a única solução para se livrar do alcoolismo, vício que inclusive o motiva a usar drogas, é o internamento em uma clínica de reabilitação. “Preciso de uma psicóloga pra trabalhar na minha cabeça. Sou explosivo e não quero mais essa vida. Fico perigoso e violento quando bebo demais”, confessa.

Sofrendo de ansiedade e depressão há anos, não se esquece do dia em que subiu na moto e foi a Alto Paraná [a 20 quilômetros de Paranavaí] à toa quatro vezes consecutivas. “Fiz isso na ‘noia’, na ‘pira’. Achei que se ficasse parado iria enlouquecer. Já fiz coisa mais estranha ainda. O crack me dá alucinação, coisa do diabo. Direto eu ouvia gente cochichando no quintal, daí eu corria em volta da casa com foice ou facão e via que não tinha ninguém. Quando decidi parar com a droga, a minha mulher já tinha ido embora. Há pouco tempo mesmo tive alucinação e fiquei três dias sem dormir”, conta Nelson que é aposentado por invalidez.

Apesar dos problemas com o alcoolismo, Ferreira Filho deixa claro que não tem coragem de ir atrás da família porque tem vergonha da própria situação. “Você tem poucos amigos quando bebe e usa droga. Quase todo mundo se afasta de você. Não me considero mais dependente químico porque chego a ficar até meses sem usar crack”, argumenta e lembra que está devendo R$ 40 reais em uma boca de fumo.

Dois encontros com a morte

Há 20 anos, antes de ser demitido de uma construtora, o pedreiro Nelson Ferreira Filho trabalhou até a noite em uma obra. No dia seguinte, discutiu com o patrão por causa da demissão. Bastante irritado, foi até um bar, comprou uma garrafa de pinga e bebeu tudo sozinho. Depois subiu na moto e dirigiu até as imediações da Serpavi, atual Secretaria Municipal de Infraestrutura, onde foi atropelado por um caminhão da prefeitura que atravessou a preferencial.

“O motorista sumiu de Paranavaí com medo de mim. Não vi nada depois da pancada. Tive uma fratura exposta tão grave que o médico queria amputar minha perna. Aí implorei pra ele não cortar. Fizeram uma gambiarra lá e não perdi a perna, só que ela não levanta mais. Ando mancando, puxando a perna”, relata e exibe uma grande cicatriz que começa no pé e termina quase no joelho. Além disso, perdeu os movimentos de um braço.

O que também afetou muito o estado psicológico e emocional de Ferreira Filho foi a declaração do juiz durante uma audiência para conseguir a aposentadoria por invalidez. “Ele disse que eu não tinha como provar que era inválido. Eu nem andava na época, pra você ter uma ideia. E mesmo assim o juiz falou isso. Quando chove, não consigo caminhar. A outra perna tá boa”, pontua.

O acidente foi o segundo encontro do pedreiro com a morte. O primeiro aconteceu quando ele tinha 20 anos e estava trabalhando como lenhador. Nelson era um dos sete passageiros de um caminhão que retornava de Nova Olímpia, na região de Umuarama, também no Noroeste do Paraná. Antes que o motorista percebesse, o veículo ficou sem freio no trevo perto de Cianorte. “Até uma criança, filho do motorista, estava com a gente. O caminhão foi parar no canavial. Ainda bem que ninguém morreu. Quando saí do hospital, falaram que não sobrou nada do caminhão. Aquele dia foi Deus que abençoou”, comenta.

Frase de Nelson Ferreira Filho

“Tive uma esposa que foi morta na mesa de cirurgia por um médico daqui de Paranavaí. Hoje ele continua trabalhando como se nada tivesse acontecido.”

Written by David Arioch

February 10, 2016 at 12:08 pm

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