David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O fim que não precisa parecer tão fim

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Pintura de Salvador Dali que retrata a velhice

Crepuscular Old Man, pintura de Salvador Dalí que retrata a velhice

Todos os dias observo um senhor alto, com mais de 70 anos, próximo à minha casa caminhando com um olhar melancólico e a cabeça desconfortavelmente afundada entre ombros largos e frágeis. Seu corpo é tão teimoso quanto uma criança travessa. Sei disso porque sempre o percebo titubeante ao se deparar com um meio-fio.

A ele parece um exercício doloroso o ato de se locomover. Sinto que se exaspera um pouco quando atravessa a rua em horário de grande movimento de veículos. Sei que ele não teria destreza para fugir caso um automóvel ameaçasse sua integridade física. E sempre me questiono:

“Ele um dia foi jovem, como terá sido sua juventude?” Não tenho como afirmar, mas suponho que não era um grande adepto de atividades físicas. Se o foi, desistiu muito cedo. Talvez não se preocupasse com a alimentação – o que não posso afirmar.

“Será que tinha vícios?” Também não sei, restando-me inferências, embora aquele senhor seja de uma época em que o consumo de álcool e tabaco simbolizava galhardia. Ademais, suponho que em algum momento da vida gozou de prazeres simples como subir em árvores e correr pelas ruas enquanto o vento lhe acariciava a face.

Penso que o fim da vida não precise parecer tão fim se não o desejarmos, se nos empenharmos para que a mente não se torne alheia ao corpo.

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Written by David Arioch

February 24th, 2016 at 10:40 pm

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