David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Sonya

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Tudo nela transparecia veraz, uma antítese da artificialidade do mundo de concreto que nos envolvia

Lada, a deusa da beleza e do amor de quem Sonya me falou (Arte: Igor Ozhiganov)

Lada, a deusa do amor e da beleza que conheci através de Sonya (Arte: Igor Ozhiganov)

Sempre achei intrigante conhecer pessoas ao acaso, sem planejamento ou intenção. Parece que tudo flui com mais naturalidade, já que não há preocupação em surpreender alguém. Você se vê em um lugar e começa a conversar sem esperar nada da outra pessoa, nem ela de você. Sem tensão, sem ansiedade, existe apenas o momento que pode ser efêmero ou duradouro – e pode ou não se transformar em outra coisa.
Existe beleza no acaso e talvez ela subsista na ausência de expectativas, no fato de que às vezes você pode estar em um lugar simplesmente por estar, para não se perder nem mesmo se encontrar. Clarificando a introdução, vou relatar uma história a ser levada em consideração.

Um dia, na faculdade, assim que terminei um trabalho, me ausentei da sala de aula. Desci a escadaria do terceiro bloco, passei por um grupo de jovens que conversavam tão alto que o papo ecoava pelo prédio e sentei em um banco em frente ao primeiro bloco. Fiquei em silêncio prestando atenção em tudo à minha volta. Havia pouco movimento no pátio, o que era bem previsível, levando em conta que o intervalo tinha terminado.

Ocasionalmente algumas pessoas passavam por mim, indo em direção a outros blocos. As conversas iam desde maledicências até preocupações acadêmicas. Achei inusitado ver moças tão sobejamente bem vestidas que cheguei a inferir quanto tempo não levaram para se arrumar. Roupas caras, postura altiva, nariz hirto, cabelos perfilados quase que geometricamente endossavam no meu ideário a existência de um mundo fátuo em demasia, que aspira a mais tangível das frágeis perfeições. Era belo e triste. Mas eu não estava ali para avaliar ou julgar, a mim isso não significava muito.

“Que me interessava a forma como as pessoas se vestiam?” Eu que ia praticamente uniformizado para a faculdade, quase sempre de calça jeans, camiseta de banda de heavy metal ou algum subgênero e tênis ou coturno. Enxergava o mundo por entre os cabelos de azeviche que deitavam por minha testa e se aplainavam sobre meus olhos escuros como a noite.

No início do segundo milênio, eu já usava um grande labret spike, um piercing alongado e pontudo que fulgurava entre os lábios e o queixo. Até no escuro ele cintilava e atraía olhares curiosos e antevieiros. Perdi as contas de quantas pessoas se aproximaram de mim ao longo de seis anos para fazer perguntas sobre o dito cujo.

Mesmo depois de tantas abordagens, eu continuava explicando que não machucava, que não era difícil de higienizar, que não doía na hora de colocar. “Mas como você beija com isso? Não é desconfortável?”, questionavam. À época, não era comum encontrar pessoas com tal adorno. E foi justamente por causa desse labret spike que conheci uma italianinha de ascendência russa.

Naquela noite, em frente ao Bloco 1, fazia mais de dez minutos que eu estava sentado no mesmo banco. Saí da sala de aula porque não me sentia bem. Então fiquei lá aspirando um pouco da brisa álgida que a noite homiziava e lançava fortuitamente sobre mim. Junto, trazia um punhado de folhas que se juntavam ao redor de meus pés, formando um tapete mesclado de verde e castanho. O tempo passava, e o verdoengo bálsamo da chuva que só ameaçava se intensificava.

“Hoje ela não vem”, prognostiquei, observando o céu parcialmente límpido que há vários dias confundia os meteorologistas. No momento em que decidi me levantar para ir ao banheiro, uma moça se aproximou. Sua voz soava dulcificada e maviosa, carregada de um forte e desconhecido sotaque: “Isso deve doer, não?”, ironizou sorrindo, mostrando o seu labret de bolinha. Respondi que só dói quando caio de queixo no chão – e sorri com brevidade. Depois indagou se poderia se sentar. “Claro, sem problema…”, falei. Seu nome era Sonya e, para minha surpresa, com ela chegou um subitâneo calor outonal que aplacou o frio noturno em velocidade abismal.

Embora fosse estrangeira, falava português com fluência espantosa. Conversamos sobre música e cinema e, sem demora, o papo se transformou numa flama filosófica e existencialista – recheada de sátiras, aforismos improvisados e comentários bifurcados e sem sentido. O comportamento humano, o sentido da vida e nosso papel no mundo figuravam caricatamente entre os tópicos, assim como a essência do inexistente. “As coisas podem fazer sentido, mas nem sempre precisam, certo?”, “O nada não tem necessariamente que ser somente nada nem mesmo mais do que nada.” “Poder não significa dever, senão a liberdade intelectual morre, e com ela a nossa capacidade de fascinar, não é mesmo?”

“Como alguém pode saber que gosto tem a noite se não for capaz de sorver o seu sabor a olhos fechados, reconhecê-la a partir do seu perfume?” “Não quero ter uma existência mecânica, que não me permita ter tempo para pensar e questionar. Se me render completamente ao trabalho, temo que posso deixar de existir. Talvez em alguns anos não veja mais nada diante do espelho. Terei de amargar o desaparecimento do meu próprio reflexo.” “Ni ni ni ni ni.”

Olhando ao nosso redor, parecíamos dois estranhos, dispersos entre a comédia e o drama de um universo matizado, como aqueles que misturam pessoas e personagens de desenho animado. Éramos nós mesmos – desvelados, sem necessidade de simulação – e aquilo alimentava a nossa humanidade ruidosa em abstração. Tive a mesma sensação de quando se é criança e sai para brincar e fazer o primeiro amiguinho. Em poucos minutos, seus olhos não veem mais estranheza e você percebe a leveza de um contato que no limiar da vida é tão essencial e substancial quanto segurar a mão maternal, sentir o excelso e doméstico calor humano.

Depois daquele dia, continuamos nos encontrando. E meu fascínio e deferência por Sonya evoluía até na proporção de tudo que não dizíamos embora entendíamos. Falar, tão necessário quanto silenciar. A vi como uma dessas raras pessoas capazes de fazer alguém mergulhar dentro de si mesmo para se redescobrir maior, mais vivo, mais leve, mais diáfano, mais livre e outros tantos mais.

Ela irradiava alegria; não do tipo postiça, arrebatadora, efusiva ou imponderada, mas plácida, lídima e mélica como seus cabalísticos olhos castanhos-esverdeados; por si só luzes que iluminavam mais do que qualquer lâmpada em nosso entorno. Seus cabelos triguenhos e longos chispavam como fios de ouro contornando seus traços finos e graciosos, realçando ainda mais sua venustidade.

Mesmo sem batom, seus lábios coravam como morangos frescos e silvestres. Quando sorria, exibindo primorosos dentes níveos, suas covinhas brotavam com doçura, mais bela que a mais portentosa iluminura. Tudo nela transparecia veraz, como uma antítese da artificialidade do mundo de concreto que nos envolvia. Aprendíamos mais sobre a vida e a natureza humana nas entrelinhas de nossos olhos. Não era difícil, se nos enxergávamos um no outro, na completude da espontaneidade.

Numa noite em que não tive aula, nos encontramos em seu apartamento. Fomos à cozinha e a ajudei a preparar piroshki, um pãozinho assado que ela recheava com legumes e vegetais. Comemos e sentamos no sofá para assistir “Ladri di Biciclette”, do magistral neorrealista Vittorio de Sica. Na cena em que roubam a bicicleta do miserável colador de cartazes Antonio Ricci, notei meu ombro direito úmido. Quando olhei para o lado, vi Sonya chorando, com os olhos inflamados e a pele ebúrnea tornada vermelha. Sorri, a cutuquei e com inocência fiz troça de sua sensibilidade à flor da pele. Ela escondeu o rosto entre as mãos miúdas, mudou o cenho e retribuiu me dando dois beliscões.

Ao final do filme, me contou a história de Lada, a deusa do amor e da beleza na mitologia eslava. “Ela possuía atributos parecidos com Freya, Isis e Afrodite. Tinha cabelos longos e dourados. Preferia eles em tranças, com uma grinalda de grãos, o que simbolizava abundância. Mas também podia mudar algo na sua aparência, caso não quisesse ser reconhecida. Lada foi muito popular entre os antigos eslavos porque ela era capaz de substituir o abraço frio do inverno por um calor morno, aprazível”, narrou.

Mais tarde, com a chegada de uma moça com quem Sonya dividia o apartamento, caminhamos até a entrada do elevador, onde nos despedimos com um abraço que durou quase cinco minutos. Moradores passaram por nós se queixando do frio que não sentíamos. Se surpreendiam ao me ver de camiseta, com a jaqueta apoiada no braço direito, despreocupado com o que me aguardava nas ruas. Eu sorria e fechava os olhos, absorvendo o bálsamo orgânico de seus cabelos e os predicados que a vida emanava de seu corpo.

Lá fora, a garoa caía e desaparecia antes de tocar minha pele. Muitos caminhavam rapidamente segurando uma bolsa ou uma pasta sobre a cabeça, com receio das gotículas de água suspensa. A mim, pouco importava. Atravessei alguns quarteirões a pé, com o corpo tão aquecido que nem as rajadas de vento que torciam os galhos mais finos das árvores me atingiam. Sentia os braços calorosos de Sonya em torno de mim, mais macios que lençóis de cetim. Na metade do caminho, o sereno se dissipou e o céu turvo por um instante clareou. Alguns passantes apontaram para o firmamento, onde um rosto feminino em movimento sorria enquanto em primazia se desfazia.

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Written by David Arioch

February 23, 2016 at 7:22 pm

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