David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Quase uma ode ao feio

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Clássico de Scola se pauta na degradação humana

Brutti, sporchi e cattivi

Nino Manfredi interpreta o caolho Giacinto (Foto: Reprodução)

Lançado no Brasil como Feios, Sujos e Malvados, o filme Brutti, Sporti e Cattivi é uma anti-heroica e ácida comédia do cineasta italiano Ettore Scola sobre a degradação humana. No clássico de 1976, o protagonista é o caolho de meia-idade Giacinto (Nino Manfredi) que mora com a mulher, dez filhos e outros parentes em um cortiço romano.

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Filme mostra uma família de miseráveis ociosos e materialistas (Foto: Reprodução)

A trama se desenrola a partir do momento que o homem recebe um milhão de liras em moedas; dinheiro de uma indenização conquistada após sofrer um acidente de trabalho. Interessados na grana de Giacinto, todos tentam encontrar os meios mais sórdidos para enganá-lo.

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Em Feios, Sujos e Malvados tudo inspira a disformidade (Foto: Reprodução)

É difícil não se sentir desconfortável com a ausência de beleza dos personagens e do cenário. Tudo é intencional e inspira a disformidade. Scola explora o feio como um parâmetro neorrealista que flerta com o surrealismo. Exemplo é a cena em que o protagonista, em um ato gentio embora sincero, leva uma amante horrorosa para viver com ele e a enorme família, já estigmatizada pela feiura, num minúsculo barraco. Na obra, o feio é recorrente e ganha status de natural.

Aparentemente, são todos feios, sujos e malvados, mas ao mesmo tempo não há um discurso, mesmo lacônico, sobre a culpa de serem assim. É um filme sobre miseráveis ociosos e materialistas às raias do primitivismo que não se importam em arremessar lixo aos familiares ou fazer sexo na frente de parentes, amigos e conhecidos. Para os personagens, tudo é válido quando não há referência cultural de distinção entre certo e errado.

Estão todos juntos em uma lama social que os aglutina a um cenário de desconhecimento moral e privação de dignidade. Ainda assim, surpreende ver que apesar de tudo não há ódio indiscriminado entre eles, apenas vontade de viver da única forma que aprenderam. Em 1976, Feios, Sujos e Malvados garantiu a Ettore Scola o prêmio de melhor diretor no 29º Festival de Cannes.

Curiosidade

O filme Brutti, Sporti e Cattivi inspirou dezenas de filmes sobre famílias desajustadas.

One Response to 'Quase uma ode ao feio'

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  1. Feios, sujos e malvados, é um filme contemporâneo ao seu tempo, e mostra de maneira nua e crua as contradições históricas produzidas pelo processo capitalista, dentro da considerada “era de ouro” do desenvolvimento econômico do Ocidente (em especial na Europa Ocidental e nos Estados Unidos), que ocorre nas décadas de 50, 60 e 70, quando a Crise do Petróleo interrompe esse crescimento e exige que o sistema se reformule gerando a primeira grande crise econômica do pós-guerra.

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