David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A maldade também envelhece

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Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados

(c) The Ashmolean Museum of Art and Archaeology; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho caminhando sozinho (Arte: The Ashmolean Museum of Art and Archaeology)

Andando pelas ruas, sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho arciforme ou maltrapilho caminhando sozinho. Mesmo sem interagir com o personagem, dizem à distância segura: “Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” Claro, uma reação natural e previsível, até porque temos tendência a sentir comiseração pelos desamparados.

Curioso, um dia decidi me aprofundar na história de um idoso que vaga pelo centro da cidade e pelos bairros centrais recolhendo materiais recicláveis. Para preservar sua identidade, vou chamá-lo de Adamantino, não por acaso, mas sim por uma questão criteriosa de significação. Adamantino tem o perfil ideal para despertar inclusive a maviosidade dos mais empedernidos.

O protagonista da minha história tem baixa estatura, mais de 80 anos, cabelos brancos como algodão descaroçado, olhos graves e pele pintalgada pela frequente exposição ao sol. Também é corcovado – suas costas se elevam quase à altura do topo da cabeça. Ao longe, criam a ilusão de que ele transporta algo sobre a própria cordilheira.

Meu primeiro contato com Adamantino foi por acaso, quase em frente de casa. Ele estava revirando o lixo do vizinho e me aproximei com dois sacos cheios de latinhas. “O senhor quer essas latinhas?”, perguntei, observando suas costas disformes viradas para mim. Eram tão alterosas que só não encafurnavam sua nuca e suas orelhas por causa da sua baixa estatura. Me compadeci de vê-lo naquela difícil situação. Imaginei que talvez minha atitude lhe poupasse um pouco de tempo e quilômetros de infecundas pernadas.

Mesmo após ouvir minha voz, o idoso não mudou de posição. Manteve as mãos trigueiras, finas, calejadas, enrugadas e afoitas mergulhadas num lixo onde ele disputava espaço com tresloucadas moscas-varejeiras. O aroma pestilento em nada o incomodava. Talvez estivesse tão acostumado com a podridão que seu olfato fosse capaz de extrair perfume de chorume.

Enquanto eu segurava os sacos, ele olhou para mim rapidamente e disse: “Tá! Passa pra cá! O que mais você tem lá na sua casa?”, interpelou, agarrando os sacos com tanta firmeza que chegou a espremer com violência as latinhas. Respondi que iria ver. Sem dizer mais nada, mirou o outro lado da rua, ajeitou as latinhas dentro de um velho carrinho amadeirado e arrastou os chinelos até a próxima casa. Retornei em menos de três minutos para lhe entregar uma caixa com garrafas pet e questionei se ele também aceitava papelão.

“Quero papelão não! Isso aí não vale nada!”, respondeu com o cenho franzido – um olhar naturalmente agreste combinando com a boca árida que me lembrou chão sequioso em tempo de estiagem. O crispado das mãos e dos braços mirrados formavam caminhos que não se encontravam, traços que se perdiam na inexatidão, na sinuosidade descalabrada da sua própria vida, imaginei, incerto de coisa alguma.

Me despedi e, sem que ele dissesse nada, continuei o espiando de casa. Apesar de tudo, ainda me parecia uma figura miúda e triste. Fiquei pensando em como seus olhos castanhos e opacos eram enigmáticos. Em profundidade, eram como reféns da vacuidade. E logo percebi que ele não gostava que lhe olhassem diretamente nos olhos – desviava e se apoiava no carrinho com tanta força que as unhas riscavam o madeirite.

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“Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” (Arte: David Simons)

A barba por fazer, a roupa esfarrapada, saburrenta e encardida, os cabelos desgrenhados, o andar remansoso e a ausência de dois botões da camisa, que revelavam um peito ossudo e abissalmente avermelhado – coberto por micoses, são predicados que fizeram de Adamantino um querido desconhecido. “Oi! O senhor precisa de ajuda?”, perguntou uma moça encostando o carro ao lado do idoso. Ele levantou os olhos bruscamente e respondeu algo que não consegui entender. Ela fez um comentário e partiu. A cena se repetiu mais duas vezes com outros personagens.

Depois daquele dia, não resisti em investigar a vida de Adamantino antes de se tornar aquele velhinho por quem tantos se compadeciam. Descobri que ele viveu em Paranavaí nos tempos da colonização. Então se mudou e retornou somente quando virou um andrajoso. Chegou a Paranavaí em 1950. Era jovem e cheio de sonhos, e o mais importante deles envolvia maquinação.

Com falsa escritura, envelhecida com excremento de grilo, se apropriou de um sítio a 20 quilômetros da área urbana. Em menos de cinco anos, comprou três fazendas. Conseguiu ampliar rapidamente o patrimônio. Fez amizade com cafeicultores e contratou um “quebra-milho” para assaltá-los, deixando os produtores à própria sorte, correndo risco de falência. Se postulando como amigo e salvador, aparecia nos momentos mais críticos emprestando dinheiro a juros baixos para que os beneficiados não precisassem abandonar a produção de café.

Assim que a soma era investida maciçamente no plantio, ele aguardava a maturação dos cafeeiros. Antes do início da colheita, pagava para que os “quebra-milho” invadissem os cafezais de madrugada esparramando estrategicamente centenas de brocas-do-café pelas plantações. Em pouco tempo, a praga dizimava os cafezais. Com o prejuízo, as vítimas não conseguiam honrar os empréstimos e eram obrigadas a liquidar a dívida repassando as propriedades a Adamantino.

Tirânico, um dia ele expulsou a filha de casa porque descobriu que ela namorava às escondidas o filho de um colono nordestino. “Que diabos um desgraçado desse pode trazer de benefício pra nossa família? Que suma daqui ela e esse crápula sem eira nem beira!”, justificou depois de arrastar a jovem pelos cabelos, a lançando contra um espigão de coroa-de-cristo que ornamentava as rebarbas do descampado em frente ao casarão. A moça nunca mais voltou para casa, nem o pai autorizou a esposa ou um dos outros três filhos a procurá-la. Mais tarde, soube que a jovem passava por dificuldades financeiras, mas deixou claro que quem tentasse ajudá-la teria o mesmo destino.

Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados. “Não quero perdição. Antes comer pouco e render no serviço do que inchar o bucho e ficar de ‘gracice’ por aí, ‘amendoando as orelhas’ [dormindo escondido]. A fome motiva o infeliz a trabalhar mais pra poder comer outra vez”, justificava. Embora gozasse de grande fortuna, às vezes, quando precisava que alguém resolvesse algum problema na cidade, obrigava um dos filhos a percorrer o trajeto a pé para não gastar dinheiro com combustível, alegando que não seria difícil arrumar carona para voltar para casa, nem que fosse dividindo o espaço da carroceria com porcos e galinhas.

Cobiçoso e insatisfeito, Adamantino preparou um plano para se apropriar da fazenda do amigo que o trouxe a Paranavaí. Chovia muito no dia em que mandou um empregado bater na porta da casa de Rui. O som do aguaceiro era tão intenso que era impossível ouvir quem chegava e quem saía da fazenda. Reconhecendo o visitante, o homem permitiu que ele entrasse. Quando Rui se posicionou para guardar a pardacenta capa de chuva, Matraca tirou uma pistola da algibeira e atirou contra o anfitrião.

Os dois balaços nas costas, à queima-roupa, deixaram o homem agonizando no chão, com olhos perdidos, sem entender a motivação do crime. Ladeado por uma poça de sangue, e ciente de que a morte logo lhe surrupiaria a vida, Rui se esforçou para agarrar a perna do criminoso com a mão direita e balbuciar com muita dificuldade: “Sei que foi Adamantino que te mandou. Diga a ele que, ao contrário da minha, a vida dele vai ser longa, tão longa que ele vai desejar ter morrido primeiro.”

Em menos de minuto, dois rapazes desceram pelas escadas e não tiveram tempo de reagir. Dois tiros depois, rolaram, caindo mortos aos pés do quebra-milho. A sangue frio, chutou as vítimas para ver se reagiam e partiu satisfeito com o desfecho da empreitada. Pelo trabalho, Matraca ganhou a escritura de uma fazenda no Mato Grosso, para onde fugiu na mesma noite. Antes passou na delegacia assumindo a autoria do crime. Após a confissão, o liberaram. Matraca nunca mais foi visto.

Na madrugada do crime, Adamantino foi até a fazenda de Rui com a polícia. Havia um nevoeiro tão denso que pouco se via no horizonte, onde os cafeeiros pareciam imersos num vazio sempiterno. No interior da casa, o homem conteve o sorriso quando viu Rui caído e sem vida. A alegria se transformou em tristeza ao se deparar com um dos jovens caído aos pés da escada. Lá estava Nestorzinho, ferido mortalmente com um tiro no peito. Matraca, que não conhecia o filho mais novo de Adamantino, matou o rapaz por engano, crente de que era filho de Rui.

Quando a família do grileiro descobriu a verdade sobre o crime, não fizeram alarde nem ameaçaram denunciá-lo. Simplesmente o abandonaram, deixando para trás toda a riqueza e os privilégios conquistados em um período de dez anos. Em 15 dias, a casa enorme da fazenda já não abrigava mais ninguém, a não ser Adamantino e seu próprio dinheiro, estocado até dentro de buracos no quintal. Alguns empregados também se afastaram do homem, com receio de que ele atraísse algum tipo de danação eterna.

Sem saber o que fazer com o capital, Adamantino redescobriu o seu propósito quando uma sequência de geadas o levou à falência. O que restou de sua fortuna, gastou procurando a família em vão. Há quem acredite que sua família partiu para Portugal, onde viviam os pais de sua ex-mulher. A última vez que vi Adamantino em Paranavaí foi no ano passado. Ele saía de uma casa abandonada, acompanhado de um adolescente que arrastava longos e lustrosos fios de cobre.

Entre o portão e a calçada, o velho tirou um bolo de dinheiro do bolso sujo da calça surrada, separou duas notas e entregou ao garoto que partiu irritado, como se não tivesse recebido o combinado. Adamantino sorriu, foi a primeira e única vez que o vi mostrar os dentes. Enfiou muitos metros de fio de cobre dentro de um saco escuro, armazenou tudo no carrinho e o empurrou por uma curva tranquila, ladeado por uma calçada de mosaico português. Mais adiante, os paus-d’arco lançavam flores em seu caminho. E logo uma senhora parou o carro ao seu lado e perguntou: “Parece que o dia está muito difícil pro senhor. Precisa de alguma coisa?”

Seguindo em direção oposta, lembrei da minha passagem preferida de Eugenia Grandet, de Balzac: “Quando o cura da paróquia veio ministrar-lhe a extrema-unção, seus olhos, mortos na aparência desde algumas horas, reanimaram-se à vista da cruz, dos candelabros, do repositório de água benta, de prata, os quais ele mirou fixamente, mexendo pela última vez a narina. Quando o padre aproximou-lhe dos lábios o crucifixo de prata dourada para fazê-lo beijar a imagem de Cristo, Grandet fez um gesto medonho para agarrá-lo, e esse último esforço custou-lhe a vida.”

Curiosidades

Quebra-milho significa pistoleiro, jagunço, capanga.

O personagem que me inspirou foi embora de Paranavaí anos antes de eu pensar em escrever a crônica “A maldade também envelhece”.

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