David Arioch – Jornalismo Cultural

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Laranja Mecânica, o filho preterido de Anthony Burgess

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A obra perdeu o sentido quando uma editora americana suprimiu o último capítulo do livro

Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição (Foto: Marvin Lichtner/Time & Life Pictures/Getty Image)

Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição (Foto: Marvin Lichtner/Time & Life Pictures/Getty Image)

Embora o livro A Clockwork Orange (Laranja Mecânica), do escritor britânico Anthony Burgess, não figure entre os seus melhores romances, a obra distópica de 1962 foi responsável por torná-lo famoso no mundo todo, principalmente após o lançamento do controverso filme de Stanley Kubrick em 1971.

Se por um lado, alguns críticos qualificaram o livro como uma profecia do colapso social hipermoderno, outros foram além, defendendo que a obra em si já o incentivava. A verdade é que à época pouca gente entendeu o sincretismo de sadismo, cultura teddy boy e uma apocalíptica filosofia urbana e social reforçada por uma mixórdia do idioma russo e do jive talk, uma linguagem popular que surgiu entre músicos de jazz do Harlem, em Nova York.

Ainda assim, mesmo com tanta repercussão e sucesso a partir da década de 1970, Burgess fazia questão de dizer em cada entrevista que, de todos os seus livros, “Laranja Mecânica” era o que menos o agradava, e não por causa da estrutura, linguagem e conteúdo, mas sim porque o cinema e as editoras dos Estados Unidos o descaracterizaram.

A Clockwork Orange

Pessimismo de Stanley Kubrick fez o escritor britânico odiar a adaptação para o cinema (Foto: Reprodução)

A obra, segundo Burgess, perdeu o sentido a partir do momento em que uma editora americana suprimiu o último capítulo do livro, um fato que se repete até a atualidade, já que a primeira edição estadunidense foi uma das mais reproduzidas. Quando o escritor britânico teve a oportunidade de lançar uma nova versão restaurada em 1986, ele fez questão de escrever uma introdução explicando como o seu trabalho foi arruinado.

No original, o jovem Alex, protagonista cruel e vicioso, evolui no capítulo 21 porque Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição. Porém as editoras dos Estados Unidos foram na contramão. E com elas o pessimismo do cineasta Stanley Kubrick que fez o escritor britânico odiar a adaptação do seu livro, com um final que leva o cinismo às raias do surrealismo.

A partir da obra de Burgess, não é difícil entender a escolha do título Laranja Mecânica. Ele faz uma analogia do ser humano com uma laranja, um belo organismo recheado de suco e que pode ser espremido por Deus, pelo diabo ou até por si mesmo quando substitui os dois. Em síntese, um ser humano que rendido às próprias armadilhas do maniqueísmo se torna incapaz de entender a primazia do livre-arbítrio.

Burgess ficou tão chateado com a desvirtuação do livro que chegou a admitir que desde então só escrevia embriagado. O autor frequentemente encontrava pessoas comentando que o seu livro era uma ode à violência e à misantropia, quando na realidade a sua intenção era alertar sobre a nefasta mecanização da humanidade.

Saiba Mais

Pouco conhecido no Brasil, Earthly Powers (Poderes Terrenos), de 1980, é considerado o melhor livro de Anthony Burgess.

Referência

http://www.todayinliterature.com

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