David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Colonizadoras compravam terras a “preço de banana”

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Era possível comprar centenas de alqueires pelo preço de um hectare

Entre os anos 1920 e 1950, inúmeras colonizadoras compraram milhares de alqueires de terras a “preço de banana” na região de Paranavaí. Naquele tempo, a prática já era considerada como “negociação de valor simbólico”.

Colonizadores ganharam “rios de dinheiro” na região (Acervo: Casa da Cultura de Paranavaí)

O dinheiro usado hoje na compra de um hectare de terra na região de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, era o suficiente para a aquisição de uma área de centenas de alqueires de mata virgem nos tempos da colonização. “A única exigência do governo era que o colonizador se comprometesse em fundar uma colônia”, relatou o pioneiro e padre alemão Ulrico Goevert em texto publicado na revista alemã Karmelstimmen nos anos 1950.

O primeiro passo era enviar centenas de homens com traçadores e outras ferramentas para desmatarem a área tendo o suporte de caminhões e tratores. Segundo Goevert, a mata era derrubada e queimada, dando lugar a loteamentos e estradas. “A queimada era uma das piores partes, pois era demorada e atingia tudo em um raio de até quilômetros”, comentou o pioneiro cearense João Mariano.

Rancho construído em Paranavaí na época da colonização (Acervo: Casa da Cultura de Paranavaí)

As colonizadoras mal começavam a investir na divulgação da venda de terras e logo estavam lucrando. “Se ganhava rios de dinheiro assim”, afirmou o padre, acrescentando que as pessoas que mais compravam lotes eram comerciantes e outros trabalhadores urbanos. Porém, com o tempo, a comercialização de terrenos estagnava, então os investidores autorizavam a doação de até 500 lotes.

Quem ganhava um imóvel assinava um documento se comprometendo a construir uma residência em um prazo médio de três meses, do contrário, perdia o direito de posse. “Esse tipo de especulação atraía muita gente. Entretanto, com o tempo, mais de 30% das casas foram abandonadas”, revelou Ulrico Goevert. Isso acontecia quando muitos não acreditavam na evolução da colônia, principalmente em função da má qualidade de vida.  As primeiras residências criadas pelos colonizadores se resumiam a ranchos, eram cobertas com tabuinhas.

Na região, as colonizadoras enviavam primeiro uma família de bom nível cultural e bem comunicativa, como estratégia para atrair novos moradores. Era uma prática bastante eficaz na região de Paranavaí e que serviu para conquistar o interesse de milhares de pessoas. “Essa família também se responsabilizava pelo desbravamento e pelas queimadas”, disse o padre.

Com o tempo, mais de 30% das casas foram abandonadas (Acervo: Casa da Cultura de Paranavaí)

Quando a colônia já reunia centenas de famílias era deliberada a fixação de uma grande cruz em área que os moradores definiam como a ideal para a futura construção de uma igreja. Normalmente, a bênção da cruz e a celebração da primeira missa marcavam o início das atividades religiosas no povoado. “Tudo era feito com a presença do padre da paróquia ao qual o lugarejo pertencia. Era sob a sombra da grande cruz que a colônia se desenvolvia”, frisou Goevert. Segundo pioneiros, para a população, a cruz não era apenas um símbolo religioso, mas também de paz, confiança comunitária e cumplicidade.

As serrarias quase sempre surgiam após a fixação da cruz. Onde tal símbolo religioso se erguia havia uma legião de moradores crentes no desenvolvimento do povoado. De acordo com Ulrico Goevert, a serraria representava um marco para a colônia, pois logo desapareciam os primitivos ranchos que cediam espaço às belas casas de madeira. Semanas após a criação da marcenaria, o pároco retornava, reunia a comunidade e pedia para formarem uma comissão eclesial para a construção de uma capela ou igreja. “Era normal todos ajudarem nessa empreitada”, enfatizou o alemão.

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