David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Uma lição sobre vida e morte em dia de chuva

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Encontrei o céu mais esbraseado do que nunca, como se estivesse prestes a sangrar sobre nossas cabeças

Ignoravam a veemência da chuva e aceleravam pelas vacilantes rodovias estaduais (Arte: Elizabeth Patterson)

Ignoravam a veemência da chuva e aceleravam pela vacilante rodovia estadual (Arte: Elizabeth Patterson)

Presenciar um grave acidente de trânsito era uma das experiências mais chocantes na vida de uma criança, pelo menos até a metade da década de 1990. Mas que poderia muito bem ser transformada em uma grande lição de vida. Falo por experiência ao me recordar de um episódio que vivenciei em abril de 1994, quando ainda não existia internet no Brasil.

Era um final de manhã ameno, marcado por uma borrasca que lavou completamente a Rua Sílvio Meira e Sá Bezerra, no Jardim Progresso, arrastando um restolho de areia grossa abandonado em uma construção perto de casa. Aproveitando o declive da água, crianças corriam e sentavam rente ao meio-fio, posicionando barquinhos de papel e plástico, além de pilotos acrobatas com os braços colados nos guidões dos jet skis. As embarcações à base de folha de caderno venciam a disputa facilmente. Desciam com tanta celeridade que pareciam movidas à vela. Um momento de glória dos brinquedos mais rudimentares e seus módicos donos que após a brincadeira depositavam os intactos campeões dentro de sacolas de mercado.

Na tarde daquele dia comentei com meu irmão Douglas que eu não via a hora de lançarem o álbum de figurinhas da Copa do Mundo, uma apreensão que fazia divagar incansavelmente, a ponto de nos reunirmos com quatro amigos para tentarmos adivinhar quais seriam as escalações. Além do Brasil, nossa atenção se voltava para as seleções da Bélgica, Romênia, Bulgária, Suécia, Irlanda e Noruega, países sobre os quais pouco sabíamos. “A Transilvânia fica na Romênia e a Romênia é um país pequeno. Será que o Gheorghe Hagi é parente do Drácula?”, perguntei num tom sincero e pascácio. A resposta veio em forma de nenhuma palavra e muitas gargalhadas.

Horas depois, quando estávamos sentados na calçada conversando sobre a construção de uma tirolesa que nos permitisse atravessar a rua por meio das árvores, meus pais chamaram eu e meu irmão para irmos a Campo Mourão. Saímos de Paranavaí no final da tarde, com o testemunho altaneiro de um céu índigo transmutado em escarlate, principiando o adormecer do sol. Na BR-376, perto da entrada de Alto Paraná, abri a janela do carro e senti uma brisa fugaz massageando meu pescoço com a canícula de um bafejo. O que me pareceu muito atípico num dia com temperatura média de 20 graus.

Julguei por precipitação que talvez fosse culpa do escapamento de um fenemê azul com rodas desalinhadas que transportava uma carga fedegosa de lixo orgânico. Trafegando com malemolência, o caminhoneiro seguia sua jornada, ignorando buzinas, faróis altos, palavrões e gestos obscenos. Na carroceria trazia um adesivo luminescente aos desavisados: “Quem em caminho leva pressa, em caminho chão tropeça.” Ao ultrapassar o caminhão que se lançou ao acostamento para permitir a nossa passagem, meu pai acionou a buzina rapidamente e disse: “A paciência é amarga, mas seu fruto é doce.” Achei a frase curiosa, engraçada e divertida. Anos mais tarde, descobri que o autor era o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau.

Antes da escuridão selar o horizonte, tentei localizar o sol. Encontrei o céu mais esbraseado do que nunca, como se estivesse prestes a sangrar sobre nossas cabeças. Com a compleição de uma série de asfaltos bifurcados em lugar algum e uma sequência de rotundas da PR-317, o limiar da noite trouxe também a cerração, a insolência e a perdição dos incautos. Veículos dos mais diversos tamanhos e com placas de cidades do Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais entranhavam-se no desconhecido sem poltronaria.

Minha mãe, sempre inimiga da pressa nas estradas, combinava muito bem com meu pai. Ele desprezava fervorosamente o ímpeto juvenil dos motoristas que independente de idade serpenteavam como se não existissem faixas ou qualquer tipo de limite. Que tresloucados! Não reconheciam a fealdade de suas ações porque eram vilões travestidos de heróis por falhas de semântica e paroxismo. Ignoravam a veemência da chuva e aceleravam pela vacilante rodovia estadual como se estivessem numa Autobahn. Com o rosto perto da janela, monologuei: “1…2…3…4…5…6…7…8…9…10…11…12…13…carros ultrapassando a gente em 30 segundos. Que loucura!”

Dois patinaram na pista e por pouco não se chocaram contra um caminhão-tanque. Pelo vidro embaçado, onde as gotas se arrastavam até as canaletas, senti a fúria dos pneus que ricocheteavam água sobre o para-brisas do nosso carro. E para piorar, vez ou outra meu pai tinha de recuar para dar espaço a algum motorista que não conseguia concluir a ultrapassagem. Raramente alguém agradecia. O beneficiado só aguardava uma nova oportunidade de se despedir jogando água suja sobre o nosso capô. Assim a ansiedade velada dinamitava meu corpo com a mesma ferocidade da água que envergava galhos e arrastava as ramas com a cumplicidade da aragem.

Campo Mourão me parecia cada vez mais distante e eu cada vez mais inquieto. Não conseguia evitar de pensar que dentro de tantos veículos não havia somente seres humanos. “Só pessoas ali? Acho que não! Deve ter algo bem além disso!”, refleti. Então imaginava monstros empertigados, com a tez cinza e macilenta. Na minha divagação quimérica, seus corpos se inclinavam ao volante sem qualquer indício natural de lucidez. Os olhos parcialmente opacos reluziam o temor de ser ultrapassado por alguém mais lesto e astuto.

O som vertiginoso dos pneus em atrito com a água da chuva, se intensificando como se quisesse descobrir do que eram capazes aqueles seres, fazia o coração dos mais obcecados trepidarem. A proximidade de alguns veículos era ameaçada por oscilações subversivas dos roncos dos motores. A verdade é que se rendiam sem ressalvas a um capcioso senso de invencibilidade. Como se sentiam imortais! No banco do motorista, eu só enxergava bocas abertas, dentes afilados e verdolengos, que serviam de porta de saída para gosmas espessas e ácidas que caíam diretamente sobre os pedais dos aceleradores. Ao mesmo tempo magnetizavam os pés, impelindo-os a correrem mais e mais, numa sanha infindável e espinoteada. Aquilo me arrepiava sobremaneira. Meus olhos intumesciam, trazendo lembranças fortuitas de filmes como Christine, The Hearse e Maximum Overdrive.

Quase chegando ao nosso destino, fomos surpreendidos por uma torrente que percorreu um paredão de pedras com tanta violência que quem estivesse absorto ou distraído seria facilmente arrastado para fora da rodovia. Por sorte ou pelo acaso, não testemunhei nenhum acidente. Em Campo Mourão deixamos minha mãe em um hotel no centro, onde ela ficaria uma semana para resolver pendências profissionais. Nos despedimos por volta das 21h e retornamos para a estrada. A chuva tinha se dissipado e os motoristas pareciam mais cordatos. Notei uma tranquilidade tão sublime que ao descer dois dedos do vidro da janela percebi pela primeira vez naquele dia o sortido frescor das árvores conduzido pelo vento. Conseguia ouvir até o ramalhar das mais seivosas.

A quietude não durou muito tempo. Perto de Peabiru, um automóvel em alta velocidade passou sibilando e quase rasurando o nosso carro. Mais adiante o motorista perdeu o controle da direção na pista escorregadia e invadiu a contramão. Ciente da iminente tragédia, um caminhoneiro tentou desviar. Tarde demais. O impacto foi tão grande que até o ônibus que vinha logo atrás foi jogado para fora da pista. Meu pai parou o carro no acostamento e desceu para oferecer ajuda. Havia muito sangue no asfalto. Pessoas agonizavam, choravam e gritavam. Alguns estendiam os braços pelas janelas do ônibus e balbuciavam os próprios nomes e os de seus familiares. Antes de falecer, um passageiro preso entre as ferragens do ônibus suplicou para que salvassem seu filho desacordado ao seu lado: “Pelo amor de Deus, me deixem aqui! Tô condenado já. Nem sinto direito meu corpo. Não liguem pra mim. Peguem meu filho. Ele tem só cinco anos! Por favor, eu imploro!”

Em poucos minutos, tive dificuldade em associar a experiência com a realidade. Me vi em um pesadelo, tormento kafkiano, principalmente quando os voluntários e os bombeiros enfileiraram alguns corpos no acostamento. Eram pessoas que, assim como tantos viajantes, estavam rindo, sonhando e fazendo planos há poucos minutos. De repente, não tinham mais vida. Seus pés descalços me pareciam tão frágeis encostados nos feixes de gramíneas. Seus olhos miravam o céu sem vê-lo, incapazes de sentir a sua plenitude.

Uma moça com cerca de 20 anos usava maquiagem que deve ter exigido muito tempo de dedicação. Restou-lhe a metade, ocultando algumas imperfeições superficiais nas formosas maçãs do rosto, tão comum e natural na juventude. Seus lábios ainda preservavam o vermelho do batom que se confundia com um filete de sangue quase seco no canto da boca. Um idoso também falecido teve de ser retirado do ônibus junto com a esposa. Os dois mantinham as mãos entrelaçadas. Em respeito ao casal, ninguém ousou separá-los. Será que alguém imagina que um dia há de deitar no acostamento de uma rodovia? Sobre um chão áspero e pedregoso…esperando a hora de ser enterrado. Quantos passageiros e motoristas não passaram por aquele lugar sorrindo e cantando?

Como havia só uma ambulância no local e muitas pessoas estavam em estado grave, correndo risco de morte, meu pai se dispôs em transportar um rapaz ensanguentado com severos ferimentos na cabeça e algumas vértebras quebradas. Apesar da dor, o homem me observava com olhos amiudados e um sorriso fraterno. Não dizia nada, não gemia nem se desesperava, mesmo com o rosto coberto pelo sangue que ele ocasionalmente observava no retrovisor. O acerejado no entorno de seus olhos contrastava com a lividez da pele. Também ajudamos uma moça. Com cortes em várias partes do corpo, inclusive um grande ferimento na perna direita e uma larga mancha púrpura no rosto fino que se escondia entre os cabelos longos, ondulados e escuros, ela se mostrava mais agitada e feria a si mesma com as unhas da mão esquerda. Seria um ato de desvario? Não. Era o temor de perder a sensibilidade da mão direita.

Na Santa Casa de Campo Mourão os dois foram recebidos prontamente. O rapaz que usava uma jaqueta preta me olhava ao longe conforme a enfermeira o empurrava em uma cadeira de rodas. A moça sorria pra mim com ternura enquanto apoiava um braço sobre a muleta e o outro em um enfermeiro. Ficamos no hospital até receber as primeiras informações sobre o estado de saúde dos dois. O rapaz não corria risco de morrer, mas sim de nunca mais andar. A moça também estava em situação delicada. Tinha poucas chances de recuperar os movimentos da mão direita.

Nunca soube seus nomes, de onde eram, o que faziam. Jamais nos despedimos. Sei apenas que quando a chuva se lança sobejamente sobre as rodovias, orvalhando todas as formas de vida e enternecendo os prazeres da existência, ela muitas vezes prenuncia o destempero e a soberba de quem não se importa em ver a venusta translucidez da água substituída pela consternação do vermelho. E assim como ponderava o caminhoneiro, segue-se a sina de quem em caminho leva pressa, em caminho chão tropeça.

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