David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Meu amigo Chico

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Ele se despedia, piscava e partia segurando os sacos e correndo de costas

Altura da Rua Pernambuco, onde corri para alcançar o meu amigo Chico (Foto: David Arioch)

Altura da Rua Pernambuco, onde corri para alcançar o meu amigo Chico (Foto: David Arioch)

Na fase mais tenra da minha infância, eu tinha amizade com personagens improváveis para alguém da minha idade. Idosos e vendedores ambulantes sempre atraíam minha atenção. Os mais velhos pelas copiosas e esmiuçadas histórias que gostavam de relatar. E os ambulantes pelas altissonantes experiências que faziam questão de compartilhar. Mas hoje quero falar em específico sobre o meu amigo Chico.

Em 1990, Chico passava todos os dias em frente de casa, na Rua Pernambuco, ao final do entardecer. De longe eu via sua roupa lucilando com a incidência vulcânica do sol. Ele corria de um lado para o outro com um par de galochas. Sorria, gesticulava, apontava, ziguezagueava e saltava sobre os meios-fios, arbustos ou qualquer tipo de obstáculo que aparecesse à sua frente.

Chico não tinha mais do que 30 anos, a pele bronzeada, cabelos castanhos ondulados e afogueados na altura da orelha. Seus olhos miúdos e escuros pareciam marias-pretinhas. Sempre que se aproximava de mim, retirava o seu surrado par de luvas, o colocava debaixo do braço esquerdo, segurava minha mão direita com as suas duas mãos, sorria efusivamente e dizia: “Boa tarde, David! Muito bom te ver de novo. O que temos pra hoje, meu amigo?”

Eu retribuía a atenção com um sorriso frugal que destacava boa parte dos dentes, inclusive uma janelinha alinhada ao meu nariz. “Oi, Chico! Tá aqui ó”, respondia com parcimônia. Ele abria um ou dois sacos grandes acinzentados sobre a lixeira, fazia algumas micagens ou trejeitos cômicos e comentava: “Ora, ora, David, quanta coisa boa você comeu esta semana, hein? Continue nesse ritmo e vai se tornar um rapaz mais forte que eu!”

Ele se despedia, piscava e partia segurando os sacos e correndo de costas. A menos de um metro do caminhão, girava o corpo, arremessava cuidadosamente os sacos de lixo e saltava, se apoiando em uma barra lateral esquerda. Acenava pra mim e desaparecia junto com o veículo na curva da Rua Amazonas.

Meu encontro com Chico era no mínimo semanal. De vez em quando, brincando com meus amigos em algum lugar distante de casa, logo que a lua despontava com o poente, eu lembrava do meu compromisso voluntário. “Vixi, o Chico! Ele precisa de mim pra entregar o lixo!” Então eu corria para casa desviando das pessoas nas calçadas, saltando sobre buracos e me esquivando de cães que se sentiam provocados pela minha debandada.

Foi assim que um dia encontrei o caminhão de lixo subindo a Rua Pernambuco, a duas quadras de casa. Quando me viu, Chico pediu que o motorista parasse. Esfregou o punho da mão direita na testa, me chamou e saltou. Como era alto, arqueou ligeiramente as pernas para ficar mais próximo de mim. Frente a frente com ele, me senti um pouco pejoso pela situação. Vendo meu sorriso amarelo e meus olhos retraídos, Chico me deu um tapinha no ombro e falou: “Uau, David! Que demais! Não vai me dizer que você correu tudo isso pra me alcançar? Cara, você é um atleta! O que acha de um passeio rápido de caminhão? Será que seus pais vão brigar?”

A verdade é que eu não tinha a mínima ideia do que eles achariam, mas respondi instantaneamente com a cabeça que não enquanto sentia um comichão de alegria percorrer todo o meu corpo. Meus dedos miúdos se entrelaçavam dentro da botinha camuflada do Rambo. Era impossível desfazer o sorriso. Fiquei tão emocionado e banzado que percebi o maxilar acalorado. Chico e seus dois companheiros de labuta se divertiam com a minha reação. Notei pelo riso fácil e espalhafatoso. Em poucos segundos, me vi sobre uma enorme barra de apoio frisada com uma largura que garantia segurança para pés até quatro vezes maiores que os meus.

Chico pediu que eu apoiasse as mãos miúdas com firmeza numa barra lateral tão longa e maciça para a minha pequenez que era impossível fazer as pontas dos meus dedos encostarem na minha palma. Ao mesmo tempo, ele me segurava com uma das mãos que cobriam minhas costas quase que completamente. Eu me sentia imponente sobre a traseira do caminhão de lixo. Era como se aquela máquina de ferro fosse uma extensão da força que eu sonhara em ter.

Lembrei do Bumblebee da primeira geração de Transformers lançada na década de 1980, meu robozinho já velho que assim como o caminhão também era amarelo. “Sou o Bumbleblee! Sou o Bumblebee! Sou o Bumblebee!”, gritava euforicamente dentro da minha própria consciência. Queria mesmo era ficar pulando, só que não podia correr riscos nem preocupar ninguém. Naqueles menos de 200 metros até chegar em casa, nem o mau cheiro exalado por alimentos orgânicos podres, principalmente restos de ovos, legumes e tubérculos, me incomodou. Tudo parecia portentoso demais para que eu me preocupasse com algo tão liliputiano.

Em frente de casa, Chico me desceu, pegou um saco grande sobre a lixeira, sorriu e seguiu sua jornada, acenando com uma luva puída e toldada. Ocasionalmente, Chico me trazia presentes. Não esqueço de um caminhãozinho de lixo e um tratorzinho que me deu, meus brinquedos preferidos ao longo de alguns meses. Minha mãe retribuía seu carinho com alimentos e roupas. Também destinava algo aos colegas de trabalho dele.

Um dia me vesti de Change Dragon, do Esquadrão Relâmpago Changeman, uma das minhas séries preferidas de tokusatsu, e sentei no meio-fio segurando a change fogo, minha pistola de plástico. Ao me ver, a feição de Chico mudou. Espavorido, se aproximou e colocou as palmas das mãos para a frente, na tentativa de se proteger. Se escondeu ao lado do caminhão duas vezes, mudando de posição, arqueando o corpo e abugalhando os olhos.

“Agora vou me aproximar… Por favor, não atire, David! Aqui é seu amigo Chico. Olhe, tenho balas 7 Belo. Vamos fazer uma troca. Você fica com as balas e eu com a minha vida, ok? Não vamos nos precipitar. Não sou nenhum Gyodai da vida”, argumentou, já de joelhos, numa interpretação inesquecível. Quando comecei a gargalhar, a direcionar a cabeça ao céu azul e límpido e encostar as duas mãos na barriga, deitando as costas na calçada, Chico riu junto e me entregou algumas balas.

Em seguida, sugeriu que eu jamais aguardasse o inimigo sentado, porque poderia ser surpreendido. “Tem que se manter em estado de vigília, meu amigão!”, recomendou. Com o tempo, meu sonho de curto prazo passou a ser galochas como as do Chico. Insisti tanto que minha mãe me deu um par. Eu as calçava e me sentia indômito ao me ver no espelho – mais selvagem que os animais dos cartões dos chocolates Surpresa, da Nestlé. No meu universo diminuto, uma galocha não era apenas uma galocha. Era a projeção de um mundo de fantasias, onde eu me via mais alto, mais forte, mais matreiro, mais inteligente e mais rápido. Nunca que eu a consideraria somente como um calçado de borracha. Seria uma blasfêmia.

A primeira vez que me viu de galochas, Chico assobiou para os dois colegas em cima do caminhão, apontou pra mim e gritou: “Olhem, pessoal! O David agora faz parte do nosso clube. Tá preparado pra ser um herói na selva urbana de Paranavaí!” A frase me marcou tanto que eu não queria mais tirar as galochas dos pés. Pedia até para ir com elas à Casa Moreira, na Rua Manoel Ribas, fazer compras com minha mãe. Ela deixava, claro que não sempre, e eu acreditava, com o respaldo do meu candor, que mostrava ao mundo que eu era um grande aventureiro. Afinal, no meu ideário meninil, eu fazia parte da casta dos heróis que usavam a força para livrar a cidade dos monstros que eu idealizava a partir do lixo.

Porém, num dia de 1991, eu estava sentado em uma mureta. O caminhão passou e Chico não saltou. Ele não estava lá. O vácuo da sua ausência parecia alargado por uma corrente de ar que agitava o vazio de um espaço inabitado na traseira do caminhão amarelo. Passou mais um mês e Chico não apareceu. Então comecei a aceitar o fato de que talvez eu nunca mais o visse.

Numa manhã de outono, eu estava na cozinha comendo um pão francês quando ouvi alguém batendo palmas. Caminhei até o portão e levei um susto ao ver Chico mais magro e sem o seu tradicional uniforme de herói urbano. “Bom dia, David. Desculpe interromper o seu café da manhã. Um colega me falou que você ainda me espera em frente à sua casa. Perdão por não ter avisado antes, meu querido amigo. Me colocaram para trabalhar longe da sua casa, em outra cidade. Mas veja que legal! Agora tenho meu próprio caminhão e posso ajudar muito mais pessoas”, justificou.

Fiquei feliz em vê-lo e o abracei. Seus olhos, assim como os meus, ficaram úmidos e lustrosos como uma bola de bilhar. Antes de nos despedirmos, ainda disse: “David, deixa eu te contar uma coisa talvez interessante. Sabe por que recolhi lixo por tanto tempo? Porque era o que meu pai fazia e o pai dele também. O lixo nunca foi ou vai ser apenas lixo. Nele encontro sonhos, desejos, desilusões, vazios e esperanças de tanta gente. Em cada saco há pedacinhos de vida, amores, escolhas, preocupações, bem-querença, alegria, tristeza e insegurança. No lixo vejo a fragilidade e a força dos seres. É a minha escola, meu amigo. Nunca deixe de ver coração naquilo que nos toma pela razão, porque uma vida que não irradia emoção é o gatilho da solidão.”

Depois daquele dia, nunca mais vi Chico. Fiquei sabendo meses depois que ele se mudou para Curitiba. Motivado por boa intenção, mentiu sobre a história do caminhão. Segundo a empresa, foi demitido porque suas brincadeiras atrasavam o serviço, custavam tempo. A verdade é que Chico perdeu o emprego porque era humano, demasiado humano.

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