David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Briga de rua

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Em meio a socos, chutes de peito de pé e hadaka jime, um dia um senhor alto apartou eu e Fabiano

Meu irmão à frente, Fabiano à esquerda e eu à direita quando brincávamos de lutinha (Foto: Arquivo Familiar)

Meu irmão Douglas à frente, Fabiano à esquerda e eu à direita quando brincávamos de lutinha (Foto: Arquivo Familiar)

Eu tinha nove anos, meus punhos estavam cerrados e levantados à altura do meu queixo enquanto meus pés descalços raleavam a terra arenosa do quintal da nossa casa branca na Rua Artur Bernardes. Os movimentos rasteiros faziam a poeira castanha emergir do chão, polvilhando meus tornozelos. Ao redor das jabuticabeiras que neutralizavam a invasão do sol por vários pontos, Mussum latia ocasionalmente, saracoteando de um lado para o outro e tentando retesar o próprio rabo em forma de biscoito.

Preto que chegava a azular, o cãozinho ranheta, com uma barriguinha desnuda em pelos e temido pelos vizinhos, era naquele momento o nosso juiz. À minha frente, Douglas, meu irmão mais velho, também mantinha os punhos firmes e os olhos fixos em minha direção, esperando qualquer investida inesperada. Fabiano, Henrique e Thiaguinho assistiam tudo e faziam provocações, arremessando jabuticabas podres no centro da nossa arena demarcada com gravetos. Rindo, meu irmão me golpeou de leve no peito e eu retribui dando-lhe um soco canhestro na barriga. A cada murro a arena ficava menor. Íamos nos aproximando, arrastando os pés encardidos, até que a luz do sol, mais forte a certa hora, atravessava as jabuticabeiras e queimava nossos ombros nus, deixando marcas disformes que pareciam tatuagens adâmicas dos Homens do Sol.

Em seu esplendor, avisava sem fazer barulho que era hora de findar a distância. Então nos lançávamos um sobre o outro e caíamos na terra, rolando com destemor. Às vezes íamos tão longe que batíamos as costas na base da jabuticabeira, sentindo suas raízes ocultas pela relva nos impulsionando para cima. Cada choque violento na parte mais baixa do tronco chegava à minha mente em forma de frases curtas: “Levante-se, levante-se agora!”, “Você é tonto?” “Quer sair daqui com as costas raladas?” “Depois não adianta resmungar quando deitar na cama com as costas queimando”, “Vamos, moleque!”, me imaginava sendo advertido pelo pé de jabuticaba balouçando seus galhos como as mãos de um sujeito escalafobético.

Os golpes nos causavam pouco ou quase nada, mas as polpas das jabuticabas podres roxeavam nossos corpos depois de esmagadas, criando uma ilusão de ringue sangrento. Parecendo sapos-arlequins da Costa Rica, nos levantávamos rindo, exibindo os dentes brancos de forma caricata. Afinal, era a única parte não colorida pelo intenso violáceo da fruta. E assim a brincadeira continuava. No nosso ritual pós-luta, nos aproximávamos e tirávamos as cascas de jabuticaba que se fixavam nas partes que nossos braços curtos não alcançavam. Um ajudava o outro e apontava os desenhos que surgiam a partir dos diferentes matizes de roxo. Éramos duas telas que a natureza se encarregava de pincelar de acordo com nossas ações, previsíveis ou não.

Através do sol, das árvores e do solo firme como nossa crença de que nada era mais importante que o tempo presente, a natureza enchia meus olhos, apresentando um universo de infinitas possibilidades. O mundo era limitado para quem o via arestado, inclinado sobre um flanco debilitado. Arteiros, subíamos nas jabuticabeiras e esfregávamos o nariz púrpuro entre as flores brancas, pequenas e perfumadas. Sentia minhas narinas tingidas nas bordas como se fossem o botão do floreado.

No alto, com os pés nus escorados em suas curvas finas e medianas, comíamos jabuticaba até alguns galhos ficarem lisos. Mussum, que não aceitava o fato de não saber subir em árvores, girava até estontear e deitava na relva com os olhos já amansados. Era o apoteótico desespero do curvilhão. Vencido, movia a cauda argolada com sutileza contra um punhado de frutas que se esfacelavam no chão, protegidas pelo silêncio da leveza. Seu prêmio de consolação era o rabo roxeado que ele usava como bastonete de tira-gosto. Esfregava a cauda sobre as jabuticabas e a lambia com cuidado e atenção. Só parava quando recobrava o seu negrume natural.

Ocasionalmente, as lutinhas eram realizadas ao ar livre. Ninguém se machucava de verdade, e a encenação proporcionava mais realismo à brincadeira, tanto que passantes paravam e nos observavam, talvez refletindo se deveriam ou não intervir no que estava acontecendo. Em meio a socos, chutes de peito de pé e hadaka jime, um dia um senhor alto e corpulento de pouco mais de 40 anos, recém-chegado ao bairro, apartou eu e Fabiano. Descalço e concentrado sobre a calçada de casa, vi apenas uma grande sombra me cobrindo e bloqueando o sol. Pequeno, me senti diante de um eclipse. “Por que vocês tão brigando?”, disse o vozeirão retumbante que parecia emanado dos céus. Estremeci e pensei até que pudesse ser Deus me repreendendo pelas minhas traquinagens.

“Vocês já sentiram a espora de um galo de combate no calcanhar? Acho que eu não seria capaz de suportar isso, ou a perda de um olho, ou dos dois olhos, e continuar a lutar como os galos de combate. O homem não é tão forte quanto os outros animais”, defendeu, citando Hemingway em “O Velho e o Mar”. “E mesmo que fosse, de que valeria isso se as palavras são sempre mais vigorosas que os braços? O corpo cansa justamente quando a mente descansa. Não se enganem, meus amigos”, advertiu o homem de origem ucraniana que tinha apelido de Polaco. O nariz de Fabiano sangrava e provavelmente aquele homenzarrão pensou que eu fosse o culpado. A verdade era que nosso amigo sofria de epistaxe, um sangramento nasal que o impedia de se expor ao sol nos dias mais quentes. “O forasteiro que ali chegasse, mesmo para breve visita, era praticamente obrigado a tomar logo partido”, escreveu Érico Veríssimo em “Incidente em Antares”, que anos depois me fez rememorar o episódio.

Ex-atleta de levantamento de peso básico, Polaco nos convidou para sentar em um banco de madeira da casa vizinha e relatou com voz pausada como seu irmão caçula morreu em 1991. Conhecido como Mão de Tijolo, Ivan Ferdoska caminhava sozinho pelo centro de Paranavaí quando viu um casal discutindo perto do Restaurante Chapelão, na Rua Manoel Ribas. Em menos de minuto, o homem se lançou sobre a própria namorada e deu-lhe dois murros na cabeça e três chutes nas pernas. Assistindo a cena, Mão de Tijolo não se conteve e acertou um soco em cheio na boca do agressor que caiu no chão desnorteado, ladeado por lascas e pedaços de dentes que voaram sobre a calçada. A mão de Ivan era tão grande e a cabeça do agredido tão pequena que era impossível encontrar uma parte do rosto do rapaz que não estivesse roxa.

Sem dizer palavra, Mão de Tijolo ajeitou a camiseta regata preta e seguiu andando, como se nada tivesse acontecido. Nesse ínterim, o homem deitado no chão e com um olho tão caído quanto o do Quasímodo, de Victor Hugo, sacou uma pistola pequena escondida na botina e disparou, com uma arma mais carregada de cólera do que de balas, três tiros contra Ivan que tombou no chão apoiando-se contra os braços flexionados na calçada de petit-pavé. Entre as pedras brancas e pretas, escorria seu sangue, formando um mapa famigerado do acaso, da poltronaria e da torpeza.

O rapaz morreu três horas depois. Polaco ficou ao lado do irmão na Santa Casa de Paranavaí até o suspiro final, observando-lhe os olhos acinzentados e ternos, a boca levemente entreaberta, a tez pálida e o aspecto sorumbático de quem reconhecia o próprio fim aos 28 anos. Apesar dos olhos marejados, evitou que as lágrimas escorressem pelas maçãs descoradas. Nos últimos minutos de vida, abraçou o irmão e jurou que não estava triste. Mão de Tijolo pediu que Polaco tirasse de seu bolso um bilhete premiado de loteria e revelou:

“Saí pra caminhar e pensar no que fazer com o dinheiro. Eu realmente não sabia, agora já sei. Fique com ele e não lamente por mim. No fim, talvez a vida não seja justa, mas é coerente e equilibrada. Poderia ser aquela moça em meu lugar e isso eu não poderia admitir. Se pra cada morte há um nascimento, acho que não devemos reclamar tanto, somente agradecer pela oportunidade de que mais pessoas tenham a experiência de viver. Pouco ou muito ela sempre vai valer a pena. Ah! Amanhã eu iria buscar minha CBX 750 na oficina depois de tanto tempo sem dinheiro. Tudo bem, que assim seja. Meu irmão, só peço a você que não se vingue pelo acontecido. Se quiser fazer algo por mim, espalhe compreensão por onde for, lute contra a violência. Combata o ódio e qualquer outro sentimento que amargue no coração a morte precoce. Acho que não adianta ser aparentemente pacífico se dentro de você habita a violência. A paz também é aquilo que fazemos dela quando estamos sozinhos.”

Após a morte de Ivan, o solitário Polaco continuou morando perto de mim por mais alguns anos, até que vendeu a própria casa e doou todo o dinheiro. Numa véspera de Natal, visitou alguns bairros pobres de Paranavaí e empurrou por baixo das portas envelopes recheados de dinheiro. Sem se despedir e sem chamar a atenção para si, desapareceu. Não sei até que ponto Polaco me influenciou, mas cresci avesso às brigas, como um Alex De Large, de Burgess, naturalmente reformado.

Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável.

Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas, fazendo ecoar na minha mente um pequeno fragmento de “Só vim telefonar”, de García Márquez. “Dançou, cantou com os mariachis, abusou da bebida, e num terrível estado de remorsos tardios foi procurar Saturno à meia-noite.”

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