David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Me vê um pedaço daquele cadáver ali”

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Vintage Poster – A Trip To The Butcher Shop

Um senhor, o primeiro da fila que se estendia por mais de 50 metros, se aproximou do açougueiro.

— Me vê um pedaço daquele cadáver ali.
— Como?
— Aquele pedaço de bicho morto pendurado no gancho. Gostei daquele – falou apontando para uma costela bovina bem visível sob a vitrine.
— Que absurdo! O senhor não tem a mínima educação com a comida – disse uma senhora.
— Que homem grosseiro! Nojento! – comentou uma moça.
— Quer aparecer, irmão? Amarre uma melancia no pescoço – criticou um rapaz.
— E o que vocês pensam que estamos comprando aqui? Nada mais do que bicho morto. Ou vocês acham que esses pedaços de carne brotaram da terra? São cadáveres, ora! Deliciosos, mas ainda assim cadáveres.

Durante a discussão, algumas pessoas se entreolharam chocadas e saíram da fila sem dizer palavra.

— Mas o senhor não precisa falar assim — reclamou outra mulher.
— Falo a realidade, minha senhora, só a realidade.
— Quanto o senhor quer? — perguntou o açougueiro.
— Não tenho certeza. Quanto custa o quilo dessa morte?

O açougueiro respondeu e o homem acenou com a cabeça.

— O senhor deseja mais alguma coisa?
— Verei.
— Assassinaram esse leitãozinho aqui fora de época, meu amigo. Esse aqui deve ter uns dez dias pelo que vejo. Deu tempo de desmamar? Acredite, não deu. Coitado! Vocês compraram de quem?
— Não posso fornecer essa informação, senhor. Teria que ver isso com a gerência.
— Ok…obrigado.

Enquanto o homem deslizava os dedos pela vitrine levemente embaçada, observando outros tipos de carne, uma criança começou a chorar.

— Mãe, aquela carne na bandeja é bicho morto, cadáver? O que aquele homem disse é verdade?
— Não, filhinha, não é não. Ele estava brincando.
— Como, senhora? Brincando? Pra que mentir para as crianças? Se comemos, temos que comer com consciência, sem mentiras. Se compro e como é porque alguém mata a bicharada por minha causa, por sua causa, por causa de todo mundo nesta fila. Não temos porque iludir os pequenos. Os matadouros vivem lotados graças a nós.
— Seu velho grosso e sem noção!

Depois de tapar brevemente os ouvidos da filha, a mulher a pegou pela mão e a levou para longe do açougue, em direção ao setor de hortifruti.

— O senhor vai afastar toda a freguesia — comentou um rapaz.
— Amigo, desde que cheguei neste açougue só falei verdades. Não fui rude nenhuma vez. Fui honesto apenas. Não é culpa minha se tem gente que rejeita a realidade.
— Mas não tem porque se referir à carne dessa forma tão sombria…
— Não tem nada sombrio aqui, meu jovem. Sombrio é o que acontece nos matadouros. Mas o que os olhos não veem o coração não sente, não é mesmo? Ou até sente, mas não se importa. Afinal, depende de quem falamos, concorda?
— Sei lá!

Quando o homem deixou o açougue, havia poucas pessoas na fila, e um silêncio desconfortável tomou conta do lugar. Sem olhar para trás, passou na padaria, pediu alguns pães e caminhou até o caixa. No estacionamento, um segurança chamou-lhe a atenção.

— O senhor pode me acompanhar, por favor?
— Tudo bem!

Após uma curta caminhada, entraram em um escritório, onde foram recebido pelo gerente.

— Boa tarde. Tudo bem?
— Sim e o senhor?
— Estou bem também. Obrigado por perguntar – respondeu o cliente.
— Quero pedir um favor ao senhor.
— Diga.
— O senhor causou um alvoroço no açougue. Seria possível não fazer mais isso?
— Como?
— O senhor falando em cadáveres, bicho morto, matadouro, assustando a freguesia. Não trabalhamos assim e não aceitamos isso.
— Como assim? É apenas a realidade, sem eufemismos.
— Sim, mas isso é inaceitável, não está dentro dos nossos padrões, e as pessoas não gostam disso.
— Mas não falo dessa forma para que as pessoas gostem de mim ou do que falo. Não busco aplausos. Respeito sua política de trabalho, mas não sigo padrões. Afinal, sou cliente, não funcionário. Entenda, não desrespeitei ninguém.
— O que o senhor ganha agindo assim?
— Ao ser consciente das minhas ações, e dividir isso com os outros? Não sei…talvez um pouco de honestidade e menos permissividade. Afinal, refugiar-se na ilusão também pode ser uma forma de abraçar a exclusão.

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