David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Veganismo’ tag

Breve reflexão sobre testes em animais

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Acervo: Getty Images

Há empresas que não realizam testes em animais no Brasil, mas realizam em países que exigem a realização de testes para que um fabricante atue no mercado externo. Aceitar isso para lucrar é correto? Há empresas que também não realizam testes em animais, mas terceirizam. Isso é correto? Os dois casos me parecem antiéticos.

Written by David Arioch

September 21st, 2017 at 5:11 pm

Como é possível e necessário ser vegano

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Não há como fugir da exploração no mundo em que vivemos. Então como é possível ser vegano nesse contexto?

Só o veganismo pode minimizar a privação e o sofrimento imposto aos animais

Às vezes, algumas pessoas falam em ser ou não ser 100% vegano, e essa confusão e descrença é algo que agrada a indústria da exploração animal, porque ninguém mais do que ela deseja que as pessoas vejam o veganismo como inviável em suas vidas, ou que questionem o seu papel como veganos. Não raramente, alguém diz: “Não me sinto como se fosse realmente vegano. ” Minha pergunta é: “Você faz o que está ao seu alcance?” Se sim, está tudo bem.

O veganismo foi gestado em âmbito urbano, dentro de uma realidade pós-revolução industrial. Não há motivo para o complicarmos. Claro que dúvidas são importantes, e se elas nos levam adiante, isso é positivo. Porém, nada do que é dito a respeito do que é ser ou não ser vegano, apresentando prováveis impossibilidades e contradições, deveria nos incomodar tanto. Há dúvidas e questionamentos que sem dúvida são pertinentes, mas há outros, como por exemplo, que compõem o que podemos chamar de literatura anti-vegana, que podem ser capciosos ou condutores de ideias equivocadas. Normalmente, muitas críticas ao veganismo esbarram em um ponto que considero importante –  entender o veganismo sob a ótica vegana. Mas obviamente que sou bem consciente de minhas limitações, e nenhuma delas me leva a desacreditar no veganismo, e simplesmente porque realmente acredito que não há motivo.

Mesmo quando o veganismo surgiu na Inglaterra em 1944, ninguém disse que veganos seriam pessoas perfeitas, que nunca tomarão parte na exploração animal em suas vidas. Não se trata disso. Se alguém aponta o dedo pra mim e diz: “Ah, cara, você não tem como evitar exploração o tempo todo. Como pode ser vegano?” Sim, eu não tenho como evitar tomar parte na exploração o tempo todo, porque naturalmente existe um sistema que é maior do que todos nós, mas é justamente por isso que sou vegano, porque é uma luta constante.

Se eu não precisasse questionar nada, isso significaria que o mundo já é vegano (também não usaríamos tal termo mais), e ninguém que é contra a exploração animal teria do que se queixar. Mas se reclamamos e até encontramos dificuldades nessa jornada, é porque ainda temos muito o que fazer. Acima de tudo, é a insatisfação e a exigência de novas alternativas que levem às mudanças, não à aceitação, rótulos ou apego ideológico. Veganismo é sobre redução de impactos.

É preciso fazer tudo que está ao nosso alcance para não tomarmos parte na exploração animal, simplesmente. Ou seja, é sobre dedicação, força de vontade, empatia. Evita-se comer tudo de origem animal, assim como usar qualquer produto de origem animal. Porém, há situações que fogem do nosso conhecimento e do nosso controle por vivermos em uma realidade baseada em um sistema que usa os animais até para as finalidades mais desnecessárias.

A maioria da população não tem a mínima ideia de como os animais não estão apenas em seus pratos, mas praticamente em tudo que elas usam, tudo mesmo. Quando um animal explorado pela indústria morre, muitas vezes não há o que enterrar, porque tudo que um dia fez parte de uma vida é transformado em algum produto. Isso não é estranho? Tem gente que qualifica isso como consequência e aproveitamento. Mas ignora-se que quanto mais um animal é qualificado como produto, mais ele se distancia de ser visto como vida para ser definido como objeto. E isso é extremamente absurdo.

A Primeira Revolução Industrial ocorreu entre 1760 e 1840 e a Segunda Revolução Industrial entre 1850 e 1945, e com elas surgiu toda uma cultura que intensificou o uso de animais como produtos, e a níveis inimagináveis. E isso não teve impacto somente para os animais não humanos, como podemos perceber em obras como “The Jungle”, de Upton Sinclair, que relaciona as duas formas de exploração, humana e não humana, por entender que são vilmente análogas em muitos aspectos.

Claro, o uso de animais como produtos também é um infeliz fator cultural, já que se trata de prática socialmente legitimada, mas é exatamente esse fator da depreciação da vida que nos leva à banalização de tantas coisas. Se um vegano é, por uma eventualidade, obrigado a usar algo que seja proveniente da exploração animal, por não haver alternativas, isso não significa que ele não é vegano, mas sim que há muito a ser feito e cobrado. Sendo assim, ser vegano neste mundo não é apenas possível como necessário.

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Written by David Arioch

September 21st, 2017 at 11:25 am

Não adianta ser vegano no mundo em que vivemos? Adianta sim!

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Os animais merecem a nossa consideração e respeito

— Cara, não adianta ser vegano neste mundo em que vivemos. Há muita exploração, não tem como fugir disso. Você acha que está fazendo uma grande diferença, mas na realidade isso é uma ilusão.

— Bom, eu não acho que estou fazendo uma grande diferença, eu acredito que estou fazendo a minha diferença. Quero dizer, faço o que faço porque acredito que é certo. Se serve para motivar outras pessoas, que bom. Mas mesmo que não servisse, eu não teria motivo para não seguir esse caminho. Mesmo que todas as pessoas à minha volta me contrariassem, eu continuaria. Afinal, minhas escolhas não são baseadas no que a maioria pensa. Até porque, se fosse, provavelmente não teríamos essa conversa.

Sim, a exploração está por todos os lados, mas é interessante notar que a cada dia cresce o número de pessoas que já não querem se limitar a viver ignorando essas mazelas, mazelas que muitos dizem que são secundárias, justificando que nesse caso evidencia-se o sofrimento animal em detrimento do humano, o que, sobretudo, não é verdade. Porém, essa leitura é esperada e normalmente surge em um contexto que pode ter duas explicações ou associações – desconhecimento ou interesse (que pode ser fundamentado ou não na falácia).

O desconhecimento é aceitável, porque não é malicioso, é mais facilmente mutável a partir de uma abertura conscienciosa. Já o interesse, nem tanto, porque subsiste na defesa do indefensável, que é o argumento capcioso usado por quem defende um status quo, ou seja, que tem algum interesse individual, pessoal, profissional ou coletivo na perpetuação de uma prática evidentemente perniciosa que é a exploração animal.

Sobre o veganismo ser uma ilusão, enquanto uma filosofia que preconiza justiça para seres vivos não humanos, devo discordar, evidentemente. Creio que ilusão é não rejeitar a exploração animal quando temos recursos para mudar pelo menos nossos hábitos. Quero dizer, no mínimo partir de algum lugar e aperfeiçoar a rejeição de acordo com nossas possibilidades e força de vontade.

Sem dúvida, é um equívoco encarar a exploração de animais como parte de um processo natural, quando, natural, de fato, é permitir que outros seres vivos vivam o seu pleno potencial sem a má intervenção humana. Há poucas coisas naturais no mundo quando falamos de nossas relações com os animais, começando pelo processo de domesticação forçada de outras espécies. A maioria dos animais que as pessoas comem e exploram hoje em dia, não surgiram assim na natureza. Podemos dizer que são criações humanas.

Outro ponto a se considerar é que nos iludimos diariamente com a ideia de que os animais criados para consumo, ou qualquer outra finalidade exploratória, são felizes em nos servir, quando eles não manifestam prazer nisso. Afinal, qual animal nasce com o anseio de tornar-se vítima de outra espécie? Nenhum. Todos querem viver sem sofrer, sem passar por privação. Inclusive vítimas de ações inevitavelmente predatórias.

Usamos a nosso favor o fato de que animais não humanos explorados exaustivamente são incapazes de verbalizar qualquer insatisfação. Podemos inclusive mentir sobre como eles se sentem, levando em conta seus movimentos e expressões incertas ou dúbias na nossa perspectiva. É mais fácil ainda quando estamos diante de alguém que não se importa muito com vidas não humanas, que já está imerso na legitimação e aceitação da objetificação.

Sabemos que há muitos casos, cotidianos ou não, envolvendo condicionamento animal que podem nos levar à reflexão sobre a dissimulação que impomos a outras criaturas. Coloque uma criança diante de um animal adestrado para proporcionar-lhe algum tipo de divertimento, seja uma criatura há muito domesticada ou não.

Provavelmente, o animal fará algo que, aos olhos ingênuos de uma criança que desconhece a natureza daquela vida não humana, pareça divertido, alegre ou bonito. Mas não é, pelo menos não para o animal, isto porque forjamos e falseamos até mesmo impressões de satisfação, júbilo e prazer. Naturalmente porque o animal não pode nos contrariar.

Esse fato costuma ser explorado de forma artificiosa ou sofística por quem lucra a partir da exploração de outras espécies. Já que as queixas não humanas, mesmo que existam, e sejam expressas de algum modo, permitem o surgimento de controvérsias e o levantamento de dúvidas por parte daqueles mais céticos e insensíveis ao sofrimento animal. Sendo assim também um terreno fértil para a desinformação.

Não é incomum nos depararmos com exemplos de criaturas “brincando” sem querer brincar, ou tendo uma atitude que inspire artificialmente algo de positivo, porque assim foram condicionadas. “Que lindo o que ele faz! Deve ter gostado muito de mim”, comentaria alguma criança, diante de uma ação bela, mas não natural de um animal. E nisso ignora-se o fato de que o que foi testemunhado não foi uma ação espontânea, mas condicionada, assim como muitas que endossam a crença de que somos superiores, logo temos o direito de fazermos o que quisermos com outras espécies, não importando se elas estão sendo obrigadas a tomarem parte em algo não natural.

Em síntese, a naturalização da exploração permite às pessoas olharem o condicionamento, a privação, o sofrimento e a morte de seres não humanos como consequência aceitável de um pretenso bem maior. A dissimulação quando é alicerçada em uma construção histórica e cultural faz da ilusão não apenas verossimilhante, mas uma própria expressão da realidade aos olhos de tanta gente, que partindo do pressuposto de que animais não são “explorados em vão”, mas sim para beneficiar a humanidade, tudo parece válido, principalmente porque é permitido não tomar conhecimento de como isso acontece.

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Written by David Arioch

September 20th, 2017 at 8:54 pm

300 mil animais são usados por ano nos testes do Botox

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De acordo com a European Coalition To End Animal Experiments, todos os anos cerca de 300 mil animais são usados em testes para avaliar reações adversas ao Botox. A maioria morre durante os testes. Aqueles que sobrevivem são mortos através de intoxicação por dióxido de carbono ou têm seus pescoços quebrados.





Written by David Arioch

September 20th, 2017 at 1:25 pm

Saiba quais são as marcas e grifes que continuam usando peles de animais

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Animais estão sendo modificados geneticamente para atender a demanda da indústria da moda

Algumas marcas e grifes que continuam usando peles de animais (proveniente das breeding farms, ou seja, fazendas onde animais silvestres são obrigados a procriarem para fornecerem matéria-prima para a indústria da moda):

Burberry, Christian Dior, Saint Laurent, Marc Jacobs, Diane von Fustenberg, Giorgio Armani, Dolce & Gabbana, Michael Kors, Gucci, Prada, Alexander McQueen, Louis Vuitton, Fendi, Tom Ford, Chanel e Karl Lagerfeld.

Alguma dessas grifes, como Michael Kors e Gucci, estão envolvidas no escândalo de criação de animais geneticamente modificados para produzirem muito mais pele em um curto período de tempo, segundo informações da ONG One Green Planet.

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Como alguém consegue dedicar anos de sua vida a infligir dor a outros seres vivos?

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Acervo: Peta

É difícil entender como uma pessoa, que provavelmente tem família e convive harmoniosamente com animais de estimação, consegue dedicar anos e anos de sua vida a infligir dor a outros seres vivos. Há quem defenda que mais de 50% das experiências realizadas com animais não chegam a lugar algum. Ou seja, quando algo dá muito errado (e aqui volto a reafirmar um mínimo de 50%), não são publicados nem artigos sobre o assunto. Quando digo dar errado significa que não há nem mesmo registros consistentes do que aconteceu com os animais usados nessas experiências. Ou seja, nessas situações, tudo é abafado.

E aqueles estudos que são conclusivos, muitas vezes são desconsiderados quando se trata de comparativos com seres humanos. Hoje de manhã, por exemplo, eu estava lendo sobre uma experiência envolvendo indução à amnésia. Animais recebiam até 300 choques diários. Imagine você falando sobre o seu trabalho e dizendo: “Ah, sou pesquisador. Meu trabalho é dar choque em animais, privá-los de comida e água, entre outras coisas.”

Em testes realizados em animais, sejam de vivissecção ou não, o animal dificilmente é sedado ou recebe anestesia. Afinal, por que iriam fazer isso se o objetivo é exatamente avaliar a reação a dor e a capacidade ou incapacidade de superá-la? Não é à toa que as taxas de mortalidade nesses experimentos são extremamente altas.

 

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Sobre a exploração de ovelhas e carneiros

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Ovelhas e carneiros são tosquiados ao longo de toda a vida, assim servindo como matéria-prima para a indústria de lã. Porém, é importante considerar que há um mercado consumidor para o cordeiro, que é o carneiro ainda filhote. A carne de cordeiro é bastante valorizada quando o animal tem entre cinco e seis meses. No caso de animais da raça Dorper o abate é feito a partir de três meses.

Porém, o que determina o envio para o abate é a qualidade da carne e se o produtor tem interesse em usá-lo ou não como reprodutor. Caso contrário, mata-se nos primeiros meses um animal com expectativa de vida de 12 anos. No mais tardar, carneiros com dois anos e ovelhas com seis anos são enviados ao matadouro. Isto porque como os níveis de reprodução de ovelhas e carneiros caem nessa faixa etária, eles são considerados velhos e financeiramente inviáveis pelos produtores.

Como não são mais vistos como “boa matriz”, o destino desses animais, que muita gente pensa que são simplesmente tosquiados e têm uma vida feliz até os seus últimos dias, é o matadouro. Em qualquer parte do mundo, carneiros e ovelhas explorados pela indústria morrem precocemente, independente da finalidade da criação. Não é difícil chegar a essa conclusão se considerarmos que eles são mortos nos primeiros anos de vida, mesmo tendo uma expectativa de vida de 12 anos que pode ser estendida a 20 anos caso haja boa qualidade de vida.

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Boi Velho

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Quando eu era criança, meu avô me contou a história do Boi Velho, um bovino que viveu por 31 anos em um sítio perto do Povoado de Cristo Rei. Quando jovem, seu nome era Bolgar, mas passou mais da metade de sua vida sendo chamado de Boi Velho. Por causa desse nome, muita gente acreditava que ele nasceu velho.

Bolgar era manso, tão manso que as crianças que viviam na região saíam até uma hora mais cedo de casa para brincar com ele antes de partirem para a escola. Mesmo com a idade avançada, o Boi Velho deitava no pasto e rolava como uma criança sobre o descampado. Às vezes, os garotos tinham que ajudá-lo a tirar o capim que invadia suas narinas.

Seus olhos eram cristalinos; uns dizem que pela idade, outros pela bondade. Um dia, Toninho, uma das crianças que visitava o Boi Velho todos os dias, massageou o pelo do boi, chorou e disse: “Não como mais seus irmãos, Boi Velho. E meus irmãos também vão parar. Prometo pra você!” Uma das crianças entendeu o que Toninho falou para o boi. Outras, não.

— Vocês abraçam o Boi Velho e depois vão comer carne na janta. Vocês tão errado — insistia o menino.
— Errado? Por que errado? — perguntaram.
— Olhe só. O Boi Velho é da mesma carne que vocês comem, que vocês gostam de comer. Vocês já pensaram em fazer churrasco do Boi Velho?
— Claro que não, né? Você é doido? Isso é horrível! Quero não.
— Ué, então não come os outros.
— Humm…

Alguns dos garotos se recordavam das palavras de Toninho, mas logo que chegavam em casa e sentiam o cheiro de carne cozida ou assada, esqueciam completamente. Sempre vencia o paladar, mas Toninho não desistia. Num final de tarde, conversou com Seu Boni e pediu autorização para fazer uma surpresa para os amigos. O velho que cuidou a vida inteira de Bolgar concordou.

— Tá certo. Vá lá — respondeu o velho húngaro.

Toninho chamou o seu tio Magrão para encontrá-los no sábado à tarde no sítio do Seu Boni. Quando os garotos chegaram ao local, Magrão estava afiando uma faca longa com cabo de madeira. Movia a lâmina de um lado para o outro, e de ponta a ponta com destreza.

— Que isso? O que o seu tio tá fazendo, Toninho?
— Não sei. Deixe ele.
— Mas cadê o Boi Velho?
— Sei lá.

Magrão chamou a atenção dos sete garotos que o rodeavam e caminhou até um barracão.

— Vocês fiquem aqui que eu vou preparar a carne pra vocês, tá bom? Sei que vocês gostam muito de carne.
— Quê? Que carne? — questionou Laurinho.

Seguiram Magrão, mas foram impedidos de entrar no barracão. Não era possível ver nada. Só ouvir. Quanta agitação. Havia algo de errado na ausência do Boi Velho.
Golpes. Mugidos. Gemidos. Cascos se batendo contra o chão. Violência. Violência. As crianças começaram a gritar e a chorar.

— O que você tá fazendo com o Boi Velho, tio? Pelo amor de Deus! Não mata ele. Pelo amor de Deus! — suplicavam.
— Por que você não faz nada, Toninho?

Toninho se afastou sem dizer palavra.

— Tá bom! Tá bom! A gente não quer carne. A gente não quer mais saber de carne. Nunca mais vou comer carne. Prometo! Prometo mesmo!
— É verdade, juro!
— É sim, tio! Solta ele!
— Ele é nosso melhor amigo. Faz isso não, tio!
— Tô pegando raiva e nojo de carne. É sério!

Tarde demais. O que tá feito tá feito — gritou Magrão lá de dentro, fazendo sua voz grave e fúnebre ecoar.

Choro. Choro. Choro. Berro. Berro. Berro. Lágrimas. Quando Magrão abriu a porta do barracão, não havia mais ninguém lá dentro. O Boi Velho, que repousava ao lado da mangueira, se levantou e caminhou até as crianças. Lágrimas e risos. Risos e lágrimas. O boi assistiu tudo, imerso na sua mansidão. Correram e o abraçaram. Bolgar caiu no chão feito criança. Nenhum dos garotos comeu carne novamente.

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Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos

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Viver é um paradoxo, existir e resistir para não cair em contradição o tempo todo. É não explorar explorando, como um eterno espetáculo que denuncia a exploração, mas é financiado por quem a edifica e a avulta. Tartufismo, mendacidade, jacobice. Vivo imerso nessas palavras que não reconheço.

Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos. É isso. É alentador não cair em armadilhas por alguns instantes. Minutos, talvez horas do dia em que não me torno refém de incongruências, degenerescências legitimadas. Amanhã vai ser diferente. Ou não. Farisaísmo. Arataca. Estratagema.

Não sou tão ruim. Não. Sou muito bom. Fecho os olhos. Me entorpeço com a minha ablepsia, inculpabilidade, condescendência, torpor. Sou ineludivelmente bom. Compro sorrindo o que alguém chorou produzindo. Não sei se quero reconhecer que morreu para ser transformado num algo ausente de i-den-ti-da-de.

Dissociado da verdade. É bonito. Não, é lindo. Mais lindo ainda se acredito que nasceu como produto final, sem gênese. Não tenho do que me queixar se enxergo apenas o que anseio vislumbrar. É só mais um dia, da bonomia à hipocrisia.

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Written by David Arioch

September 14th, 2017 at 12:37 am

Promoção no açougue

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“Será que vou conseguir levar alguma coisa?”

Promoção no açougue. Fila imensa. Pessoas sorrindo. Pessoas apreensivas. Medo de não sobrar nada. “Será que vou conseguir levar alguma coisa?”, se perguntavam.

Alguém se acotovelou? Sim, sutilmente e bruscamente. O cheiro da câmara fria amenizava o calor de mais de 30 graus. Trazia um cheiro glacial de osso, de carne. Cheiro de morte? Sim, mas isso não sei se alguém considerou. Menos ainda se a fome dominou.

Faca que corre pelo corpo despedaçado. Serra, serra que não para. E não para mesmo. Vamos ensacar. Sorriso, churrasco, gargalhada. Gargalhada, churrasco e sorriso. Era o assunto do momento. Sem traços de vida. “Não saio daqui com menos de 30 quilos”, comentou um homem de meia-idade. Respirava com dificuldade. Fôlego fraco. Hipertensão? Doença coronariana? Pode ser.

— Com licença, posso lhe mostrar algo rapidamente? Preciso apenas de uma breve opinião.
— Sim, sem problema.
— Que merda é essa? Você é louco? Mostrar isso pra mim na fila do açougue.

Agradeci e caminhei até o próximo da fila. Mais um pedido.

— Que isso, menino! Me respeite que eu poderia ser sua mãe.
— Ok.

Mais um.

— Ah, piá sem noção! Tá maluco? — disse uma moça.

Outro.

— Respeite minha família. Estou com minha esposa e filhos aqui.

Mais.

— Acabou com o meu apetite. Tá satisfeito agora, seu infeliz?
— De modo algum, senhor.

Continuei.

— Ô açougueiro, faça alguma coisa aqui. Chame a gerência, sei lá. Esse cara aqui tá perturbando todo mundo na fila.
— Não, senhor. Pedi licença todas as vezes, e vocês concederam. Bom, acho que já cumpri o meu papel.
— Papel? Isso aí deve ser tudo mentira, coisa encenada. Ou se for verdade, coisa rara que acontece só nos piores lugares.
— Ok.
— Só isso que você tem a dizer?
— Sim. Agradeço a atenção de todos. Não tenho do me que queixar.
— É? Mas nós temos, de você sendo inconveniente.
— Obrigado. Tenham uma boa tarde.

Guardei o celular no bolso, mas antes li uma última mensagem que encerra o vídeo: “A consciência clama pelo que já não descansa.” Cinco pessoas abandonaram a fila.

— Já é alguma coisa — monologuei em direção à saída.

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