David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Como será a sua última noite?

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Será que está com fome ou sede? Amanhã seu coração vai deixar de bater

Fico imaginando como será a sua última noite. Se sua respiração está normal. Será que está com fome ou sede? Amanhã seu coração vai deixar de bater. Não sei a hora, só sei que será amanhã. Qual é o seu estado emocional? Não tenho a mínima ideia, mas não tenho dúvida de que é o de uma criatura senciente, consciente e inteligente.

Seus olhos fixos, uma pequena réplica do sol no final da tarde, não vão muito longe, provavelmente nunca foram, porque nunca permitiram. Seja observando entre fendas ou não, sua vida sempre valeu pouco. Sim. Não sabe que se alimentarão de seu corpo, um corpo desenvolvido apenas para atingir um objetivo bem específico – servir como produto.

Sei que seu coração bate muito mais do que o meu, mas só até amanhã. Triste. Mero aperitivo. Não há de restar nada nos próximos dias. Suas penas, seus pés, seus olhos. Um coração servido com sal e limão sobre a mesa. Nada, nada, nada. Sua morte é a reafirmação de uma existência curta, facciosa. A maioria não se importa. Talvez alguém esteja rindo do que escrevi. É assim. O condicionamento embruteceu o ser humano há muito tempo, mas é importante ter esperança. Não vale a pena desacreditar, porque é pior. Um caminho sem volta.

Está escuro aí? Frio? Calor? Existe aragem? Sente fome? sede? Já perguntei, me desculpe. Ciscou hoje? Que pergunta! Não deve haver espaço para isso, pelo menos não para a maioria. É, não creio que esteja confortável aí. Será que você tem algum tipo de intuição? Dizem que suas penas mudam sutilmente quando você pressente a morte. Será verdade?

Quem mata, provavelmente não observa seus olhos. É como se você não os tivesse. Não veem a luz que emana deles, um pedaço de sol se esforçando para não ser suplantado pela chegada da noite. A sua noite é diferente, porque você não renasce no dia seguinte. Turvação e libitina. Você simplesmente desvanece, como se nunca tivesse existido. Um frango dos 16 milhões que serão mortos amanhã.





Written by David Arioch

November 2nd, 2017 at 12:43 am

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