David Arioch – Jornalismo Cultural

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Assista “Terráqueos” no YouTube

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Vale a pena assistir o documentário “Terráqueos” para entender um pouquinho a realidade da exploração animal em todas as áreas. Você pode não virar vegetariano nem vegano, mas ao final terá outra percepção em relação à exploração animal. Se possível, dedique um tempinho.

 

 

 

Cartas que recebi de estudantes sobre a exploração animal

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Foto: David Arioch

Na foto, algumas das cartas que recebi de mais de 20 estudantes da área rural de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. Fui escolhido como ativista para me corresponder com eles sobre a realidade da exploração animal. Ainda não li todas, mas já me surpreendi com a sensibilidade e inocência deles. É uma honra participar desse projeto a convite do professor e escritor Antonio Neto. No decorrer da semana vou produzir e publicar um texto sobre isso em meu blog.





Matt Skiba: “Foi uma reação instintiva não querer carne [de animais] em meu corpo”

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Skiba é fundador da banda de punk rock Alkaline Trio, além de guitarrista e vocalista da banda Blink 182

““Imaginei-me comendo meu gato e, de repente, não pareceu tão bom para mim” (Foto: Reprodução)

Fundador da banda de punk rock Alkaline Trio, além de guitarrista e vocalista da banda Blink 182 desde 2016, Matt Skiba se tornou vegetariano aos 19 anos, assim que deixou a casa dos pais. Um dia, ele estava comendo um pedaço de carne e notou os olhos do seu companheiro felino em sua direção.

“Imaginei-me comendo meu gato e, de repente, não pareceu tão bom para mim. Foi uma reação instintiva não querer carne [de animais] em meu corpo. Isso é parte de quem sou. Foi uma decisão pessoal e natural”, informou em entrevista concedida a Liz Miller, do Veg News, e publicada em 22 de fevereiro de 2010.

Skiba não teve trabalho em levar muitos amigos para o vegetarianismo. Na realidade, ele não precisou dizer nada para convencê-los a não consumir mais alimentos de origem animal. Sua tática sempre foi levá-los para comer em restaurantes vegetarianos e veganos, mostrando que opções que não custem a exploração animal não faltam.

“Se eu não tivesse dito a eles que o sanduíche de ‘frango’ que eles estavam comendo era na realidade vegetariano, eles nunca saberiam, e tinha o gosto mais fresco e melhor do que o de qualquer frango. Há muita comida de boa qualidade lá fora e isso fala por si mesmo”, exemplificou o guitarrista e vocalista.

Matt Skiba acredita que a maioria das pessoas amam os animais, e que não é porque elas comem carne que elas são más ou desgostam deles. Para o músico, o problema é a ausência do reconhecimento de uma conexão entre as coisas, de reconhecer as implicações da exploração animal. “Acho que ignorância é uma bênção para muitas pessoas”, declarou.

Ele também disse que muita gente come comida vegetariana sem saber, sem vê-las como comida vegetariana; e que isso é a maior prova de que o vegetarianismo e o veganismo não estão realmente distantes de ninguém.

“Perdi o gosto pela carne. Não como carne há 17 anos. Lembro que olhei para o meu gato e pensei: ‘Cara, não posso comê-lo. Que diferença faria se fosse um gato pequeno ou uma vaca?’ E ocorreu-me que tudo está conectado e que eu não poderia mais contribuir com isso [a exploração animal]”, enfatizou em entrevista ao Cool Try, da Austrália.

Saiba Mais

Matt Skiba nasceu em McHenry, Illinois, em 24 de fevereiro de 1976. Ele fundou o Alkaline Trio em 1996.

Entre os anos de 1998 e 2013, Skiba lançou os álbuns “Goddamnit”, “Maybe I’ll Catch Fire”, “From Here to Infirmary”, “Good Morning”, “Crimson”, “Agony & Irony”, “This Addiction” e “My Shame Is True” com o Alkaline Trio.

Com o Blink 182, ele gravou o álbum “California” em 2016.

Referências

http://vegnews.com/articles/page.do?pageId=1716&catId=5

Interview: Matt Skiba (Alkaline Trio, Matt Skiba and The Sekerets)

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Breve conversa entre um vegano e um não vegano

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Two Men Talking, de Mike Jones

Um vegano encontrou um não vegano.

— Você sabia que as plantas sentem dor, né?

— Não, elas não sentem. Elas respondem a estímulos sonoros, o que ainda está longe de significar dor.

— Elas sentem sim. Tenho certeza disso. E estão no mesmo nível evolutivo dos animais. Você não tem dó das plantas?

— Tenho dó sim, tanto que eu arranco-as gentilmente da terra para não vê-las sangrar.

— Engraçadão.

— Mas e se um dia for comprovado que todas as plantas sentem dor?

— Eu me adaptaria. Pararia de comê-las. Há sempre uma solução para coisas assim. Mas por que essa preocupação vindo de alguém que se alimenta de tudo que caminha sobre a terra? Quando você vai parar com essa demagogia e deixar de comer seres vivos que sangram como nós e apodrecem como nós? Não há sentido em defender a senciência das plantas enquanto ignora a dor daqueles que agonizam diante de seus olhos. Reflita.

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Carl Sagan contra a exploração animal

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 “É indecente de nossa parte afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer”

“Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida” (Foto: Cosmos)

O astrofísico Carl Sagan, também conhecido como o “astrônomo do povo”, se tornou um dos cientistas mais respeitados do século 20. Com centenas de publicações científicas e mais de 20 livros lançados, Sagan conquistou popularidade mundial após o lançamento da série “Cosmos”, escrita por ele em parceria com a esposa Ann Druyan e Steven Soter. O programa baseado em 13 episódios ajudou a ampliar o interesse pela ciência e pela espiritualidade sem viés religioso.

E foi exatamente por causa da preocupação com o lugar do ser humano no universo, e o reconhecimento da nossa pequenez, que Sagan se tornou um crítico das ações humanas em detrimento de outros seres vivos. Uma de suas célebres frases foi eternizada no episódio “Blues for a Red Planet”, que foi ao ar em 26 de outubro de 1980. “Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida. Marte então, pertence aos marcianos, mesmo que eles sejam apenas micróbios”, recomendou.

Carl Sagan também condenava os experimentos feitos com animais. Provas dessa sua postura podem ser encontradas no livro “Shadows of Forgotten Ancestors”, publicado em parceria com a esposa Ann Druyan em 1992. Na obra, ele relata a triste realidade dos primatas explorados em prol da ciência”. Cita como exemplo um experimento em que macacos foram obrigados a puxar uma corrente para serem alimentados em um laboratório.

O problema é que essa mesma corrente eletrocutava outro macaco cuja agonia estava à vista, por intermédio de um espelho unidirecional. Se eles não a puxassem, ficariam com fome. Depois de aprender a usar as correntes, os macacos recusaram-se a fazer isso. No experimento, somente 13% dos animais a puxaram. Os outros 87% optaram pela fome.

Um macaco ficou sem comida por quase duas semanas para não ter que ferir o seu companheiro. Aqueles que tinham sido vítimas de choque elétrico em experiências anteriores estavam ainda menos dispostos a puxar a corrente. Carl Sagan e Ann Druyan então se perguntaram quantos seres humanos na mesma situação seriam tão altruístas.

Sagan apontou que os macacos usados no experimento, e que ainda assim se recusaram a provocar dor em outros seres vivos, nunca foram à escola dominical, nunca ouviram falar nos Dez Mandamentos, nunca se contorceram por causa de uma mera lição de educação cívica. Ainda assim, são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal. “Entre esses macacos, pelo menos nesse caso, o heroísmo é a norma”, frisou.

Sagan: “[Os macacos] são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal” (Foto:

Segundo o astrofísico, muitos de nós temos uma perturbadora predisposição a causar dor, e por uma recompensa muito menor do que a comida destinada a um macaco faminto submetido à privação durante um experimento. Para entender melhor o assunto, ele sugere que os leitores leiam o livro “Obedience to Authority: An Experimental Overview”, publicado por Stanley Milgram em 1974. “Na história humana há um número preciso de poucos cuja memória veneramos porque conscientemente se sacrificaram pelos outros. Para cada um deles, há multidões que nunca fizeram nada”, critica.

Em “Shadows of Forgotten Ancestors”, Sagan aponta que a humanidade se tornou cada vez mais insensível em relação aos animais, e não somente no campo da pesquisa científica, mas em todas as esferas, inclusive reduzindo-os à comida, vestuário e outros tipos de produtos:

“Os seres humanos – que escravizam, castram, fazem experimentos e retalham outros animais – têm uma tendência compreensível de fingir que os animais não sentem dor. Uma distinção entre seres humanos e animais é essencial se quisermos subjugá-los à nossa vontade, usá-lo, comê-los – sem qualquer inquietação no que tange à culpa ou arrependimento. É indecente de nossa parte, que muitas vezes nos comportamos de forma tão insensível em relação a outros animais, afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer. O comportamento de outros animais torna essas pretensões enganosas. Eles são muito parecidos com nós.”

Carl Sagan dizia também que nossas simpatias morais não se encontram com os cientistas, mas com os não humanos, que enquanto vítimas de experimentos demonstram uma santa vontade de fazer sacrifícios para salvar os outros – em referência aos animais que se recusam a toma parte em experiências que causem dor aos seus semelhantes.

Saiba Mais

Carl Sagan nasceu em 9 de novembro de 1934 em Nova York e faleceu em Seattle em 20 de dezembro de 1996 em decorrência de pneumonia.

Sagan era defensor do ceticismo e promoveu a busca por inteligência extraterrestre. Foi pioneiro nos estudos do efeito estufa e da exobiologia. Fez carreira como professor da Universidade Cornell e em 1978 ganhou um Prêmio Pulitzer pela autoria de “The Dragons of Eden”. O seu romance “Contact” foi adaptado paro o cinema em 1997, sob direção de Robert Zemeckis.

Referências

Cosmos: A Personal Voyage: Blues For a Red Planet (PBS). Carl Sagan, Ann Druyan e Steven Soter. Gregory Andorfer Rob McCain. Veiculado originalmente em 26 de outubro de 1980.

Sagan, Carl; Druyan, Ann. Shadows of Forgotten Ancestors. Ballantine Books. Edição: Reprint (1993).

http://www.carlsagan.com

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Henry Salt, um pioneiro dos direitos animais

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“Devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade”

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel (Foto: Reprodução)

O escritor inglês, humanitarista e reformador social Henry Salt foi um dos pioneiros da discussão sobre os direitos animais. Sua contribuição foi tão significativa que em 1975, quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Animal Liberation”, o seu livro mais famoso, mais tarde considerado uma das bases filosóficas do movimento de libertação animal, ele fez questão de dizer que uma nova geração descobriu tudo que tinha sido dito antes – em referência às obras deixadas por Salt, que faleceu cinco anos antes da criação do veganismo pela Vegan Society.

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel como parte de uma dieta que eles consideravam a mais adequada aos “vegetarianos”. Salt sabia que o abandono do consumo de outros alimentos de origem animal era o único e verdadeiro caminho do vegetarianismo ético. Até porque consumi-los significa reconhecer que são alimentos de consumo humano.  No ensaio “A Plea for Vegetarianism”, publicado em 1885, ele declarou que mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural.

No ano seguinte, esse trecho foi suprimido na nova versão que reuniu outros ensaios sob o título “A Plea for Vegetarianism, And Other Essays”, e porque a própria sociedade vegetariana inglesa deixou subentendido que caso Salt criticasse os hábitos dos vegetarianos da época, ele ficaria sem leitores, já que a maioria se enquadrava no que posteriormente foi definido como ovolactovegetarianismo. Por outro lado, a versão de 1885 é uma das provas da boa vontade de Henry Salt na luta pela consolidação do vegetarianismo ético que daria origem ao veganismo.

Também há que se ponderar que à época os vegetarianos da Vegetarian Society, que em sua maioria eram ovolactovegetarianos, não tinham um entendimento profundo das implicações morais e éticas do consumo de outros alimentos de origem animal. Muitos acreditavam que sem morte não havia violência ou privação, e essa linha de pensamento se baseava em um escasso entendimento das proposições da revolução industrial no que dizia respeito ao “destino comum” dos animais explorados para consumo humano.

Muitos ignoravam ou não percebiam que se alimentar de animais em qualquer nível significava legitimar a exploração sobre outras espécies. Exemplo disso foi o choque do escritor irlandês George Bernard Shaw, que abdicou do consumo de ovos e laticínios quando soube que simplesmente deixar de comer carne não contribuía tanto com o vegetarianismo ético quanto ele imaginava.

Analisando o contexto do vegetarianismo na Inglaterra do século 19, e levando em conta que Henry Salt teve de aceitar o fato de que ser “vegetariano demais” poderia gerar desconforto e antipatia por parte de outros “vegetarianos”, talvez seja justo dizer que os defensores do ovolactovegetarianismo da época se dividiam em dois grupos: os ingênuos ou menos informados, que acreditavam que simplesmente não consumir carne era o suficiente para endossar o vegetarianismo ético, e os acomodados – praticantes do vegetarianismo de conveniência, ou seja, que acreditavam que abdicar do consumo de laticínios e ovos seria um erro, já que significaria uma posição “radical” demais que poderia gerar conflitos no contexto das convenções sociais da época.

“Mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural” (Foto: Reprodução)

Em 1906, quando Henry Salt publicou “The Logic of Vegetarianism”, mais uma vez ele evitou fazer críticas ao consumo de outros produtos de origem animal, e mais uma vez para não despertar a inimizade dos membros da Vegetarian Society. Porém, quando foi vice-presidente dessa mesma entidade, não raramente ele argumentava que jamais entendeu porque a palavra vegetariano trazia, enquanto conceito de uma época em que o vegetarianismo era quase sinônimo do não consumo de carne, alimentos que nunca foram de origem vegetal.

Nesse aspecto, a natureza espirituosa, humanitarista, modesta e tranquila de Henry Salt falava mais alto, e ele acabava por não ir tão longe em seus discursos mais críticos. Porém, mesmo sem precisar conquistar desafetos, as suas obras por si só já traziam a transparência de seu caráter e desejo de ver os animais livres do jugo humano.

Prova disso é que em 1890, quando Gandhi estudava direito em Londres, e já não seguia os preceitos do vegetarianismo indiano, até pelo fato de encará-lo mais como uma obrigação, ele leu um dos livros de Henry Salt, o que transformou sua vida e abriu seus olhos para o vegetarianismo ético. “Li o livro de Salt, de capa a capa, e fiquei muito impressionado. A partir do dia em que li este livro, me tornei vegetariano por escolha”, declarou.

Salt tinha uma forma não agressiva de chamar a atenção para os direitos animais, e isso também fez e faz dele um grande exemplo de transformação e divulgação positiva do vegetarianismo ético. Há quem o considere a figura mais importante do movimento vegetariano do final do século 19 para o século 20. E um dos livros que contribuiu para isso foi “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, publicado originalmente em 1892, e qualificado pelo filósofo Peter Singer como uma das obras essenciais em defesa dos direitos animais.

O livro é dividido em temas como o caso dos animais domésticos, o caso dos animais selvagens, a matança de animais para produção de comida, tortura experimental e linhas de reforma, entre outros tópicos. No livro, Salt diz que o sofrimento imposto aos animais é consequência da ausência de direitos, e vale-se dos absurdos que ouvia de tanta gente, inclusive do meio intelectual, na tentativa de legitimar a exploração animal, considerando-a como parte natural do ciclo da vida.

Ele apresenta argumentos refutando todas as justificativas especistas que ouviu ao longo de anos, e destaca a importância de uma cruzada intelectual, literária e social contra a opressão animal. No entendimento do escritor inglês o que os animais vivem hoje é a mesma realidade vivida anteriormente pelos escravos, e os discursos contra os direitos animais são tão falaciosos quanto os dos detratores do abolicionismo.

Henry Salt vivia com a esposa em uma casa de campo, onde plantavam a própria comida. Em 1891, o escritor fundou a Liga Humanitária, que se manteve na ativa até 1920. Como secretário geral e editor, ele fez campanha tanto em favor dos direitos dos desprivilegiados quanto dos animais não humanos. Na página 2 de “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, ele escreveu que a noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade.

“A noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade”

“É uma suposição puramente arbitrária, em desacordo com os nossos melhores instintos, em desacordo com a nossa melhor ciência, e absolutamente fatal (se o assunto for claramente pensado) para qualquer realização plena dos direitos animais. Se quisermos fazer justiça às raças inferiores, devemos nos livrar do “grande abismo” fixado entre elas e a humanidade; e devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade universal”, escreveu.

Em 1914, aos 63 anos, Henry Salt conseguiu ampliar a discussão em torno do uso de produtos animais. Após a Primeira Guerra Mundial, ainda publicou muitos livros, que só não tiveram maior repercussão porque o clima tenso da guerra ofuscou o debate sobre o vegetarianismo ético. Em 1931, quando Gandhi ministrou uma palestra intitulada “A Base Moral do Vegetarianismo” na Vegetarian Society, em Londres, ele teve o auxílio de Henry Salt, que à época estava com 80 anos. Gandhi então fez o que poucos fizeram até então, e provavelmente influenciado pela base filosófica de Salt – qualificou o uso de leite por vegetarianos como uma tragédia.

Não foi somente em relação a isso que Salt influenciou Gandhi. As biografias que o defensor dos direitos animais escreveu sobre Percy Bysshe Shelley e Henry David Thoreau também chamaram a atenção do líder indiano. Influenciado por Henry Salt, Gandhi leu o ensaio “A Desobediência Civil”, publicado por Thoreau em 1849, o que teve grande impacto em seu ativismo político.

O poeta Percy Shelley, que era vegetariano e protovegano, foi uma importante influência para Henry Salt. O reformador social o considerava um exemplo de ser humano empenhado na luta pelos direitos humanos, animais e da verdadeira liberdade de pensamento e ação. Salt se identificou muito com Shelley porque, assim como ele, era alguém que lutava contra aqueles que se opunham ao progresso.

“Quando digo que vou morrer, como tenho vivido, racionalista, socialista, pacifista e humanitarista, devo deixar claro o meu propósito. Não acredito na religião presentemente estabelecida. Mas tenho uma fé religiosa muito firme – um credo de parentesco que eu chamo; uma crença de que nos próximos anos haverá um reconhecimento da fraternidade entre homem e homem, nação e nação, humano e sub-humano, o que vai transformar um estado de semi-selvageria, como o temos em nossa civilização, em um estado onde não  haverá tal barbaridade como a guerra, o roubo dos pobres pelos ricos, ou o uso de animais inferiores pela humanidade”, registrou Henry Salt em um papel deixado sobre sua mesa antes de falecer.

Saiba Mais

Henry Salt nasceu na Índia Britânica em 20 de setembro de 1851 e faleceu em Surrey, na Inglaterra, em 19 de abril de 1939.

Ele lutou muito contra a vivissecção.

Referências

Salt, Henry. Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress. Cornell University Library (1894).

Singer, Peter. Animal Liberation: The Definitive Classic of the Animal Movement. Harper Perennial; Edição: Updated ed (2009).

Salt, Henry. The Logic of Vegetarianism: Essays and Dialogues. G. Bell and sons (1906).

Henry, Salt. A plea for vegetarianism and other essays Vol: 1886 1886. Facsimile Publisher (2015).

http://www.henrysalt.co.uk/

 

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C. David Coats e a ilusão dos animais felizes por “darem” carne, leite e ovos à humanidade

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Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm” é um livro bastante atual sobre a realidade da exploração animal

A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro

Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm”, do defensor dos direitos animais C. David Coats traz uma capa bonitinha, bem colorida. Quem o julga a partir da imagem principal se engana ao pensar que se trata de mais uma obra que romantiza a exploração animal. Muito pelo contrário. A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro que propõe um debate bem atual; que dialoga com a realidade no que diz respeito à dura vida dos animais criados, principalmente nos moldes industriais, para serem reduzidos à comida e outros produtos.

No prefácio da obra, já são levantadas pertinentes reflexões que destacam como o ser humano consegue ser contraditório e destrutivo:

O ser humano não é um animal maravilhoso? Ele mata animais selvagens – pássaros, todos os tipos de felinos, coiotes, castores, marmotas, camundongos, raposas e dingos – aos milhões com a intenção de proteger os animais de criação e seus alimentos.”
Então ele mata os animais de criação aos bilhões e os come. Este hábito, por sua vez, mata milhões de seres humanos; porque comer todos esses animais leva a condições degenerativas de saúde que são fatais, como doenças cardíacas, doenças renais e câncer. Na sequência, o ser humano tortura e mata milhões de animais para encontrar a cura para essas doenças.

Em outros lugares, milhões de seres humanos estão morrendo em decorrência da fome e da desnutrição; isto porque os alimentos que eles poderiam comer estão sendo usados na engorda de animais de criação. Enquanto isso, algumas pessoas estão tristemente morrendo de rir desse absurdo da humanidade, que mata tão facilmente e violentamente, e uma vez por ano envia cartões orando pela paz na Terra.

Em “Old MacDonald’s Factory Farm”, C. David Coats aponta que nos anos 1980 já era difícil encontrar animais brincando nas fazendas, simplesmente porque as técnicas de produção em massa e os programas de eficiência no agronegócio já se voltavam para os volumes excessivos de produção com custos cada vez menores. Ou seja, a banalização da vida acentuou-se e os animais passaram a amargar ainda mais privação e sofrimento com o surgimento das chamadas fazendas industriais.

Afastados da vida natural, os animais reduzidos a produtos não passam de matéria-prima. Em crítica a essa normalização da crueldade, Coats narra o que há de mais sombrio na natureza humana na sua relação com as outras espécies, quando motivado pela ambição e ganância. Ele cita como exemplo a realidade de animais confinados em espaços onde a movimentação é quase impossível. Também discorre sobre suas pesquisas na indústria da suinocultura, onde testemunhou animais vivendo acorrentados.

O escritor informa que a maioria dos animais explorados pela indústria não vivem mais do que 1/3 do que viveriam se não fossem explorados e mortos. Porcos em caixas, gado com o chifre arrancado sem anestesia, vacas leiteiras mortas e reduzidas à carne de hambúrguer quando já não atingem a meta na produção de leite; bezerros mantidos anêmicos no escuro até serem abatidos para que as pessoas possam comer bifes de vitela; aves com bicos cortados com lâmina quente e confinadas a vida toda; tudo isso endossa um cenário macabro que faz parte da realidade cotidiana da maioria dos animais de criação.

No livro, o cenário da produção de alimentos de origem animal é descrito com uma crueza fiel à realidade, se distanciando visceralmente da propaganda que faz os animais parecerem felizes em morrer para saciar supostas necessidades humanas. É um retrato de uma realidade que só pode ser compreendida dessa forma se o leitor analisá-la de forma sensível. Na perspectiva de “Old MacDonald’s Factory Farm”, é preciso se colocar no lugar do animal ou pelo menos reconhecer que não são apenas os seres humanos e os outros animais com quem convivemos no cotidiano que têm direito à vida.

Fazendas onde os animais se divertem “doando” leite, ovos e carne? Não no mundo real, deixa claro C. David Coats que também aborda temas como impacto ambiental, engenharia genética e consequências dos produtos de origem animal para a saúde humana. Ele discute ainda a expansão da agropecuária e a absurda quantidade de área destinada à produção de alimentos usados na nutrição animal. Outro ponto de destaque do livro é o debate sobre a aplicação excessiva de antibióticos nos animais de criação, o que já era visto nos anos 1980 como um perigo para a saúde humana.

Além disso, Coats não se limita a criticar a exploração animal. Como o livro é resultado de anos de pesquisa, ele também apresenta ações e ideias de projetos de transição da agropecuária para produções sustentáveis e que não gerem privação e sofrimento animal – como a de alimentos orgânicos, entre outras sugestões que poderiam ser colocadas em prática para substituir produtos de origem animal.

Mesmo lançado em 1989, o livro discorre sobre problemas que ainda compõem a nossa realidade. Em uma rápida pesquisa em outras fontes, encontramos provas de que ainda hoje os animais estão longe de ter uma vida justa. Tal conclusão, até mesmo excetuando a questão de tortura ou outros tipos de violência, parte do princípio de que são seres sem direito à vida, já que existem simplesmente para atender nossas pretensas necessidades e morrer, cumprindo um papel que é vantajoso ao ser humano, mas nocivo às espécies que têm sua expectativa de vida extremamente reduzida.

Tantos anos após o lançamento do livro de C. David Coats, vimos poucas mudanças positivas em relação a isso, até porque a demanda por produtos de origem animal, acompanhando o crescimento populacional, aumentou muito desde o final da década de 1980.

Segundo Osler Desouzart, membro da diretoria consultiva do World Agricultural Forum e diretor da OD Consulting, em 1980 o consumo de carnes per capita era de 30,6 quilos ao ano, e em 2013 chegou a 43,1 quilos. Em um mundo onde a demanda é muito grande, naturalmente abre-se bastante espaço para a omissão no que diz respeito à violência contra animais de criação, já que há uma naturalização e legitimação da violência em prol de um pretenso bem maior – a produção de carne, leite, ovos e outros produtos que custem a privação e a vida de seres não humanos.

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Fogo no matadouro

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O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim

Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria (Arte: G.D.St. John)

Escuto a chuva. Não é violenta, até que é calma. Começou a esfriar ontem. Não faz diferença. Aqui dentro poucas coisas importam. Minha mente continua lá fora; dizem que com o tempo você se acostuma. Será? Não sei, vou vivendo como dá. Eu poderia morrer agora, mas por eles prefiro viver, não vou dar esse prazer. Falaram que vou apodrecer aqui, que jamais vou ganhar a liberdade. Faz sentido, só que é estranho porque lá fora também é uma prisão.

Louco, psicopata, doente, terrorista, perturbado; me chamam assim agora. O dinheiro tem o poder de garantir esses nomes pra você na mídia. Falsos diagnósticos médicos sempre ajudam. Pagando bem que mal tem, não é mesmo? Inventaram um histórico de instabilidade psicológica e emocional que nunca tive. Sempre fui um cara pacífico, e muita gente virou as costas pelo que fiz. Não me arrependo.

Ah! Sou um risco para a sociedade. Isso é engraçado de se reconhecer quando a sociedade é um risco para si mesma. Autofagia! A sociedade come a si mesma. Ontem, um sujeito mal-encarado veio me visitar. Ajeitou o chapéu de couro de boi sobre a cabeça, cuspiu um naco de fumo em minha direção, levantou os olhos, mostrou os dentes amarelecidos e disse: “A gente tem juiz no bolso e força no Congresso. Você já era, filho da puta! Você não é ninguém!” Mostrei o polegar pra ele, sorri e comentei que se eu tivesse mais tempo teria feito muito mais.

Ficou puto e vi nos seus olhos a vontade de me matar. “Não, cara! Não aqui e agora.” Sugeri que parasse de mascar fumo se não quisesse ficar com os dentes iguais aos do Beetle Juice. Ele não entendeu. Recebi visitas de outros tipos estranhos. Outro dia, mandaram um engravatado me oferecer uma boa grana para entregar meus amigos. Se fosse por dinheiro, eu não teria feito o que fiz.

O dinheiro é a raiz de toda essa desgraça. Não que eu seja contra ganhar dinheiro; sou contra a escravidão que ele gera. Talvez você esteja se perguntando o que fiz para estar neste buraco. Tem gente me apoiando aqui, e acho que se a coisa ficar feia pode ser que eu não esteja sozinho. Neste momento, registro minha história neste papel higiênico.

Tudo começou em 2015, quando eu participava de um fórum na darknet. Havia pessoas de vários estados do Brasil. Era um grupo de ativistas pelos direitos animais. Nosso lance era ciberativismo mesmo. A gente se articulava por lá e produzia textos e vídeos para rebater falácias especistas e conscientizar as pessoas sobre a indústria da exploração animal. Era legal, mas chegou um momento em que tudo aquilo começou a parecer pouco, muito pouco.

Afinal, qual é o propósito de dedicar tanto tempo a algo que proporcione poucos resultados? A gente queria mais, muito mais. Lembrei da lei de Thelema, do Aleister Crowley dizendo “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei.” Não demoraria; a gente faria. “Porra, vamos colocar fogo no mundo, cara!”, disse Nikolai. Figura de expressão, hipérbole. Sim, não no mundo, mas algo iria queimar, com certeza. Tínhamos pessoas o suficiente para fazer isso acontecer. Amadores com corações profissionais, isso nos define até hoje.

Acordamos de madrugada naquele domingo e nos dividimos em dois carros e um caminhão. Dirigimos pouco mais de 150 quilômetros até chegarmos ao nosso destino – um dos maiores matadouros do Sul do Brasil, situado em uma área rural, ladeado por uma lagoa com a água mais suja que já vi em toda a minha vida.

Senti náuseas diante do odor intenso daquele depósito de lixo flutuante. Restos de animais, fezes, resíduos químicos e outras porcarias se misturavam enquanto a água espumava e esfumaçava como um cenário de um filme do Ed Wood ou da Troma. “Que diabos é isso?”, perguntou Sonia.

Não sei se aquilo era normal ou se tinha acontecido algum acidente, mas o solo estava carcomido por algum tipo de podridão. Fedia absurdamente, banhado por um líquido nojento e pegajoso que emborcava lá longe, em uma nascente. Matava tudo que inspirava vida, desde a menor até a maior das plantas. Tudo naquele inferno inspirava à morte. E estávamos lá por isso.

Quando vi um homem parado no portão, caminhei até ele. Não subornei ninguém, senão seríamos tão sujos quanto qualquer um que vive da degradação social. “Seja como nós, ou seja contra nós”, concluí coçando a nuca. Acenei minha cabeça e Borges retribuiu a cordialidade:

— O senhor sabe o que a gente veio fazer aqui.

— Sei sim.

— E está bem com isso?

— Sim, faça o que tiver que fazer. Falei com os outros, já desativaram todo o sistema de segurança.

Borges era o chefe da segurança, e também tio de Juliane, nossa amiga. Quando ele assobiou, três seguranças acenaram positivamente com a cabeça; caminhamos matadouro adentro. Não era limpo como a TV, os jornais, os vídeos institucionais e os folders mostravam. Talvez improvisassem bons ângulos, vai saber.

Conforme eu andava, o ar pesava, uma energia ruim que emanava daquele ambiente onde entrava a vida e saía pedaços de morte bem embalados. O matadouro tinha muros extremamente altos, como uma fortaleza. Imaginei os gregos invadindo o lugar dentro do Cavalo de Troia.

Do lado de fora, era impossível ver o que acontecia lá dentro. Enquanto Eu, Nikolai, Sonia e Juliane entramos, Marcelo, Roberto, Lúcia e Bruna percorreram as imediações, para se certificarem de que não havia nenhum animal, humano ou não, por perto.

Azulejo branco nas paredes e piso vermelho por onde escorria o sangue dos inocentes. Corredores estreitos, plataformas, grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, ferrugem, torneiras, pias de lata, pistolas, facas, tubos, marretas, escadas, sangue seco, riscos no chão – marcas de luta; campos de concentração aprovados pela humanidade e legitimados pela legislação.

As dependências vazias contavam histórias de terror e medo. Borges relatou que milhões de animais morreram naquele lugar. Muitos resistiam em vão. Ele tinha razão. Ouvi porcos se contorcendo e grunhindo, presos aos grilhões enquanto o sangue quente jorrava. Famílias de bois, vacas e bezerros, assassinados em espaços diferentes – mortes sempre solitárias. Nenhum deles queria morrer; ninguém queria reconhecer.

Como podemos comer algo que um dia teve pernas para fugir, olhos e ouvidos para assistir e ouvir o próprio fim? Algo que um dia fez parte de alguém que sentiu calor, frio, fome e sede como nós mesmos; que não teve a oportunidade de viver o suficiente para descobrir algum prazer em existir, porque foi forçado a sucumbir. Morrer cedo demais é algo que animal nenhum deseja ou espera – jamais.

Poderíamos ter provocado um incêndio no departamento de expedição, causando uma pane no painel de controle da esteira que conduz os pedaços de cadáveres que eles chamam de produtos. Mas então não teríamos como mensurar a proporção do estrago. Não! Tinha que ser feito à moda antiga.

Descarregamos galões de querosene e derramamos sem economia por todos os espaços. Alguns de nós gargalhavam e entoavam: “Para aqueles que só o que pesa no bolso pesa na consciência, ignorando dos mais fracos a capacidade de senciência.” Ficamos em silêncio e terminamos de despejar os últimos litros de querosene pelas dependências.

O odor não era agradável. Pelo menos mascarava a gelada fedentina de morte. Pedi que os outros saíssem do matadouro e me esperassem na entrada. Me ajoelhei, inclinei a cabeça em direção ao chão e falei: “Que vocês me perdoem por tudo que não fiz.”

Acendi um coquetel molotov e arremessei com força, fazendo a garrafa atravessar dezenas de metros antes de explodir em chamas, como um pássaro dourado ganhando a liberdade. O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim.

Borges e os seguranças já tinham partido. Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria. Assim que o prédio começou a desmoronar, Marcelo confirmou que não havia ninguém nas imediações. E o tempo previsto para a chegada do Corpo de Bombeiros não poderia ser outro – somente quando as chamas deitassem a última fundação.

Talvez tenha sido o maior espetáculo de nossas vidas. Afinal, ninguém dança melhor que o fogo, especialmente quando suplanta a crueldade humana contra outras espécies. Ele é livre, mais do que nós na nossa incompletude existencial que perpetuamos por arrogância e pedantismo.

— Sentimos muito pelas pessoas que podem ficar desempregadas, mas ninguém deveria se profissionalizar em tirar vidas. Isso destrói o outro e você, mesmo que você não perceba – declarou Sonia.

— É, não acho que alguém consiga ser feliz trabalhando num lugar desgraçado desse, ainda mais num ambiente onde se gera mais morte do que emprego; e menos ainda qualidade de vida – acrescentou Lúcia.

Fomos embora, não crentes de que estávamos salvando o mundo, mas acreditando que uma mensagem foi dada – nem todos abaixam a cabeça ou se mantêm calados diante da intransigência humana, de suas ações desnecessárias, caprichosas e gananciosas.

Me entreguei à polícia no dia seguinte, e insisti para que ninguém fizesse o mesmo. Se eu não me entregasse, provavelmente as pessoas não saberiam o que de fato aconteceu no matadouro. Ah! Matérias capciosas dizem que sou um piromaníaco, desequilibrado; alguém sem qualquer motivação. A mídia independente e as redes sociais estão aí para provar o contrário.

Ainda não fui a julgamento. Faz dois meses que estou em prisão preventiva. Muita gente se afastou de mim; naturalmente, pessoas que não me fazem falta. Os poucos e bons amigos me trazem notícias. Fiquei sabendo que mais 32 matadouros foram incendiados até agora. Não sei onde e quando. Ninguém se feriu ou morreu. Isso é bom. Dizem que sou o mentor intelectual. Isso é ruim. A única coisa que fiz foi mostrar que hoje não é ontem, e que o fogo também representa o renascimento daquilo que amortece o desconhecimento.

É. Há muito tempo, tive um pesadelo em que eu era um boi indo para um matadouro. A diferença é que eu era um bovino com consciência humana – prestes a morrer e incapaz de verbalizar meu desespero. E tudo isso intensificou ainda mais meu medo. Se todas as pessoas tivessem esse pesadelo, acho que teríamos grandes mudanças. Só vou deixar de ter esperanças quando eu morrer, porque sem esperança acredito que não há pelo que viver.

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Um convite animador

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Eles vão enviar cartas para um ativista para relatar esse trabalho (Foto: Reprodução)

Um amigo que é escritor e professor no Espírito Santo entrou em contato comigo me contando que vai fazer um trabalho com estudantes de 13 a 16 anos sobre hábitos e práticas que tratam os animais com crueldade. Depois disso, eles vão enviar cartas para um ativista para relatar esse trabalho e o que eles aprenderam com isso. Eu fui escolhido para me corresponder com essa garotada. São alunos da zona rural de uma cidade pequena, e muitos deles ainda preservam um espírito infantil e inocente, segundo o meu amigo. Fiquei feliz com isso.





A importância das denúncias sobre a indústria da exploração animal

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Denúncias serviram para mostrar a realidade do “abate humanitário” (Foto: Autor desconhecido)

Se essas investigações e denúncias envolvendo a indústria da exploração animal não tivessem sido feitas, provavelmente quem consome carne não precisaria se preocupar com previdência, afinal dificilmente alguém viveria muito depois de passar tanto tempo consumindo carne podre “maquiada” com nocivos produtos químicos – mais do que de costume.

Ademais, na minha opinião, um dos pontos mais importantes disso tudo foi a revelação de como os animais são tratados por essa indústria que insiste em falar em “abate humanitário”, mesmo que em 2017 não seja nada difícil encontrar animais sendo chutados, pisoteados, esmurrados e mortos a tiros de espingarda, machadadas e marretadas.

Estou falando de uma carne que não apenas trouxe ou traz o risco da doença, mas também relatos que parecem pitorescos, porém cotidianos, da crueldade humana. Junto com a carne podre, a população é presenteada com fragmentos de barbárie, indiferença e desprezo à vida.

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Written by David Arioch

March 23, 2017 at 12:53 am