David Arioch – Jornalismo Cultural

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Duas perguntas sobre direitos animais e plantas

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No utilitarismo existe a defesa de que caso um animal não seja senciente, não há problema em sua morte, já que ele não sente dor. Você concorda?

Arte: Bool

De modo algum. Embora os animais que a humanidade mais explora e mata sejam aqueles que, de fato, são sencientes, pra mim esse não é e não deve ser o único argumento em defesa dos direitos animais, do abolicionismo animal. Até porque se formos por esse caminho, acabaremos por ignorar o que ainda nos é desconhecido. Vejamos. Dizem que há 7,77 milhões de espécies animais no mundo, mas pouco mais de 953 mil foram estudadas em algum nível, mesmo que superficial, pela humanidade. Sendo assim, é difícil dizer se todos foram ou são sencientes. Justamente por isso eu acho que a senciência não deve ser a única baliza moral no reconhecimento do direito à vida animal. Por exemplo, vamos supor que eu tenha nascido sem a capacidade de sentir dor. Ou seja, você pode me bater, me esfaquear, que não sentirei nada. Isso seria motivo para que alguém tivesse o direito de me matar? Claro que não, porque aqui ainda existe uma vida com nível de consciência. E os animais não humanos também têm seus níveis de consciência. Afinal, eles se comunicam, se movem, interagem de alguma forma. Os julgamos de forma bastante equivocada, principalmente quando partimos do obtuso senso comum. Porque nesse caso temos o falho costume de usar como referência a forma como vivemos, nos comunicamos e nos relacionamos. E o especismo nos leva a isso, a uma forte crença de que tudo que é diferente de nós é inferior, menos digno. Os outros animais não precisam ser como nós para terem direito à vida. Eles são como são, e o que devemos fazer é respeitar isso.

Mas se você reconhece que os animais têm direito à vida mesmo quando hipoteticamente eles não são sencientes, as plantas reduzidas a alimento também têm, não acha?

Então, as plantas não têm cérebro, e não há nada realmente concreto quanto aos níveis de consciência delas. Mesmo entre os estudiosos do tema, não há consenso, principalmente quando se compara com os níveis de consciência dos animais humanos e não humanos. O que se descobriu de forma concreta até hoje é que elas respondem a estímulos externos. Há uma pesquisa interessante que repercutiu em 2016 envolvendo o sistema acústico-etileno, que captou reações das plantas a situações bem específicas, ou seja, com manipulação do ambiente. Os próprios pesquisadores deixaram claro que isso não significa consciência como conhecemos, mas sim reações ao meio. Além disso, existe a questão da autoconsciência também que é encontrada nos animais, mas não nas plantas. O que se sabe com certeza é que as plantas possuem elementos de consciência anótica, que é reação sem cognição, o que em si não é a mesma coisa que consciência. Bom, é aquela, vivendo, aprendendo e se adaptando conforme for surgindo novas descobertas. Estou preparado para qualquer coisa. Não vejo isso como um problema.

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Quando fizer compras, priorize produtos não testados em animais

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Foto: Jo-Anne McArthur

Quando fizer compras, priorize produtos não testados em animais, e valorize empresas com essa preocupação. Acredite, há opções, inclusive mais baratas. Do contrário, financiamos o sofrimento de outros seres vivos, como o registrado pela fotógrafa canadense Jo-Anne McArthur. Mais do que nunca, a realização de testes em animais é desnecessária, e há inclusive ONGs, como a Cruelty Free International, que oferecem alternativas e dão consultoria para acabar com esse sofrimento imposto aos animais.

Logo abaixo, você pode fazer o download de uma lista de produtos criada e disponibilizada pelo grupo vegano TrollAjuda, do Facebook:

https://www.4shared.com/office/7VaGaKBYei/Lista_Atualizada_de_Produtos_L.html

O “couro ecológico” que não é ecológico

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Couro ecológico não é a mesma coisa que couro sintético

Hoje em dia, se fala muito em “couro ecológico” não sintético como uma alternativa sustentável e consciente, já que o processo de produção desse material, diferente da tradicional indústria de couro, envolve o uso de produtos químicos menos agressivos, além de demandar menor quantidade de água e energia elétrica. Tudo isso fortalece uma propaganda que faz com que o consumidor se sinta como se estivesse fazendo um bem, contribuindo com o meio ambiente, ao comprar esse tipo de produto.

Porém, o “couro ecológico” também é de origem animal, e todo o processo até a retirada do couro é praticamente o mesmo de uma indústria convencional. Sim, seres que viviam como nós, têm suas peles arrancadas, e, dependendo da espécie animal, somente para atender a demanda da indústria de vestuário e acessórios. Até porque nem todos os animais são relevantes para a indústria alimentícia.

Defensores do “couro ecológico” não sintético, dizem que ele é amigo da sustentabilidade, já que não é curtido, por exemplo, com metais pesados como o cromo, que é extremamente poluente. Contudo, pensando somente por esse lado, incorremos no erro de ignorar fatos importantes. Também há impacto ambiental na criação de animais explorados com essa finalidade, já que eles demandam área, água e precisam ser alimentados.

Produzindo esse “couro ecológico” também incentivamos a morte de animais por um capricho, por um desnecessário apego estético. Além disso, há muitas opções de couro sintético a partir das mais diferentes matérias-primas, inclusive derivado de resíduos do vinho.

Alguém pode alegar que não é a mesma coisa. Independente da veracidade disso, não seria um prazer mórbido ter a oportunidade de não usar algo proveniente do cadáver de um animal e ainda assim insistir em fazê-lo? Sabendo que quando compramos couro, seja tradicional ou “ecológico”, também financiamos a morte de animais.

Mesmo quando o couro é apenas um subproduto, ele estimula diversas cadeias industriais que envolvem a exploração animal, até porque quanto maiores as possibilidades de lucro, maiores são os níveis de exploração de uma espécie. Sendo assim, mesmo quem não come carne, por exemplo, mas não abre mão do uso de couro de boi, seja “ecológico” ou não, também financia privação, sofrimento e a morte não natural de animais nos matadouros.

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Written by David Arioch

July 19, 2017 at 3:27 pm

Há animais das mais diferentes espécies que não sabem que vão morrer amanhã

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Foto do projeto “Eyes on Animals”, que registra o olhar dos animais minutos antes de serem executados nos matadouros

A esta hora, em muitas partes do mundo, há animais das mais diferentes espécies que não sabem que vão morrer amanhã. Em breve, estarão pendurados sobre grilhões, expostos nas vitrines dos açougues, esquartejados e fatiados para ocuparem pequenos espaços em bandejas. Não sabem que a maioria não há de chorar, nem mesmo lamentar por eles.

Não terão velório nem enterro. Simplesmente perecerão como se jamais tivessem existido, como se fossem seres insignificantes. Do lado de cá, muitos olharão para suas carnes e as desejarão como se aqueles cadáveres jamais tivessem sido habitados por qualquer tipo de vida.

Imagine a si mesmo incapaz de falar ao ser subjugado por outra espécie. Não há o que fazer, a não ser torcer por um mínimo de compaixão. Mas essa compaixão inexiste porque a espécie que o domina é incapaz de vê-lo como alguém digno do direito à vida. Você é somente um produto e nada mais que isso. Apenas a realidade animal não humana.

Em todos os lugares há animais humanos e não humanos precisando de ajuda. Acho impossível viver ignorando isso, e seguir a vida sem fazer nada a respeito. A empatia é uma das belas características humanas. Se rejeitamos isso, creio que não resta tantas coisas nobres pelo que viver.

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Written by David Arioch

July 19, 2017 at 2:15 am

Um mundo com sete bilhões de pessoas, onde se cria anualmente 70 bilhões de animais para consumo

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Assim como nós, outros animais também têm direito à vida (Foto: Jo-Anne McArthur)

Um mundo com sete bilhões de pessoas, onde se cria anualmente 70 bilhões de animais para consumo. Isso é sinistro tratando-se de exploração animal. E há pessoas que dizem que vegetarianos e veganos comem a comida que deveria ser destinada aos animais. Usemos um pouco a lógica. Levando em conta esses dados da FAO e da WAP, está bem claro que mesmo que o mundo todo fosse vegano não teríamos a menor condição de chegar nem perto da quantidade de alimentos consumidos pelos animais. Basta pensarmos na mera proporcionalidade. E não estou falando de impacto ambiental nem de sustentabilidade, mas sim de uma simples obviedade, que embora real nos pareça kafkiano.

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Written by David Arioch

July 19, 2017 at 1:44 am

O sofrimento das galinhas poedeiras

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Ritmo intenso de produção favorece o surgimento de doenças

Uma galinha selvagem bota 10 a 15 ovos por ano, e apenas no período natural de reprodução. Porém, as galinhas modernas, que produzem os ovos mais consumidos em todo o mundo, foram manipuladas geneticamente para botarem até 350 ovos por ano.

A produção de ovos é extremamente exaustiva, porque o ovo requer muitos nutrientes, especialmente o cálcio que é um importante nutriente da casca. Para cada casca de ovo produzida, uma quantidade considerável de cálcio é drenada do corpo de uma galinha. Por isso, as galinhas poedeiras geralmente sofrem de osteoporose, e têm ossos bem frágeis se comparado aos das galinhas selvagens. Em muitos casos, a deficiência é tão grande que elas sofrem de quebra de ossos mesmo sem fazer esforço.

Além do uso de luz artificial nas granjas, como forma de condicionar as galinhas a botarem ovos fora do seu ciclo natural, há também uma prática muito comum nas grandes indústrias – deixar as galinhas sem comida e água por até 18 dias. Isso causa um choque no organismo da galinha e a estimula a botar mais ovos caso a produção tenha caído ou estagnado. Esse tipo de prática pode ser aplicada por até três vezes antes da galinha ser enviada para um matadouro.

Outro ponto de reflexão é que galinhas poedeiras exploradas em níveis industriais não raramente sofrem de prolapso uterino, câncer de ovário, peritonite, esteatose (síndrome do fígado gorduroso) e fadiga crônica. Normalmente, uma galinha pode viver por pelo menos dez anos, mas no sistema industrial a sua expectativa de vida é de um a dois anos

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Written by David Arioch

July 19, 2017 at 1:04 am

Plotino: “Os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor”

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Plotino se recusava a consumir medicamentos com ingredientes de origem animal

Vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas também vegetarianos éticos

Mestre de Porfírio, seu discípulo que escreveu “Da Abstinência do Alimento Animal”, considerada por inúmeros pesquisadores como a obra mais importante da Grécia Antiga sobre a abstenção do consumo de animais, Plotino foi um filósofo neoplatônico que melhor assimilou e aperfeiçoou não apenas os ensinamentos de Platão, mas também de Pitágoras e Plutarco, autor de “Do Consumo da Carne”, outra obra igualmente relevante na discussão sobre o tema.

Um asceta moderado, Plotino ficou famoso pela autoria das “Enéadas”, obra fundamental da filosofia ocidental que reúne 54 tratados em seis capítulos. Compilada e editada por Porfírio no ano de 270, as “Enéadas” são baseadas principalmente no conteúdo de palestras e debates de Plotino com seus alunos ao longo de 17 anos.

O filósofo neoplatônico estudou em Alexandria e na Pérsia antes de se mudar para Roma, onde fundou a sua própria escola. No livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, o pesquisador Rod Preece afirma que Plotino, que provavelmente era de origem romana e nasceu no Egito, foi protovegetariano a maior parte de sua vida. Defensor do ascetismo moderado, Plotino começou a se questionar sobre os hábitos alimentares da época que, segundo ele, tinham grande influência sobre o comportamento e a personalidade humana, incluindo sua relação com a vida e o mundo.

Nas “Enéadas”, ele declara que os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor. Na perspectiva de Plotino, a dor é a aisthesis, a percepção do corpo despojado. Ele usa o conceito de pathos como representação da empatia, do sentimento e da ligação afetiva quando diz que, conscientes, somos sensibilizados diante de uma situação em que a vítima morre ou sofre desnecessariamente; como é o caso dos animais não humanos há muito explorados. Quem também defende a ideia de que Plotino foi um importante nome na discussão do que se tornaria o vegetarianismo ético é o pesquisador Gordson Lindsay Campbell, editor de “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.

“Embora não haja provas conclusivas, o estrito ascetismo de Plotino provavelmente incluiu o vegetarianismo, mesmo que o seu biógrafo, Porfírio, não tenha conseguido escrever por Plotino em relação ao assunto”, registrou Preece. Apesar disso, o que reforça a ideia de que Plotino realmente se voltava para a questão do que futuramente seria os direitos animais era a sua recusa em consumir medicamentos com ingredientes de origem animal, conforme informações do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”.

Preece afirma que vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas inclusive vegetarianos éticos. E o argumento fundamentado nas ideias do filósofo neoplatônico, e que teve continuidade com Porfírio, é de que o ser humano precisava mudar a sua relação com os animais e se libertar das calamidades do corpo. Assim, é justo dizer que os ensinamentos de Plotino influenciaram Porfírio a escrever “Da Abstinência do Alimento Animal”, obra também influenciada por Pitágoras, sobre quem o discípulo de Plotino escreveu uma biografia.

Em “Vegetarianism – A History”, Jon Gregerson diz que para Plotino a única forma da humanidade alcançar a realidade suprema seria tratando todos os animais com respeito e compaixão. Ou seja, reconhecendo primordialmente o direito à vida, sem os prejuízos da exploração humana. “Porfírio deu continuidade ao trabalho de Plotino, apresentando evidências observacionais e históricas em defesa do vegetarianismo e da racionalidade dos animais”, enfatizou Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”. Influenciado por Plotino, Porfírio qualificou o consumo de carne como um encorajador da violência. Ademais, apresentou ideias antes defendidas pelo seu mestre neoplatônico de que os animais têm capacidade de raciocínio. Assim sendo, não faltam razões para estender a justiça a eles.

Kerry S. Walters e Lisa Portmess, autores de “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, apontam Plotino como o responsável pela consciência vegetariana de Porfírio, que também se inspirava em Pitágoras e Empedócles. A obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, do filósofo neoplatônico foi uma reação argumentativa ao abandono do filósofo Firmus Castricius, que deixou a Escola de Plotino para renunciar à dieta vegetariana e se juntar aos cristãos.

Do livro 1 ao livro 4 de “Da Abstinência do Alimento Animal”, Porfírio defendendo o estilo de vida apregoado pela Escola de Plotino, assinala que o consumo de carne é intemperante, logo incompatível com a vida filosófica. Ele argumenta que o sacrifício de animais é ímpio, que os animais merecem um tratamento justo e que os sábios do passado condenavam o consumo de carne.

Embora o mestre de Plotino não tenha falado abertamente do vegetarianismo na obra “A República”, tudo leva a crer que Platão via com bons olhos a abstenção do consumo de carne. Prova disso é o fato de que muitos neoplatônicos se identificavam com uma vida livre do consumo de carne. “Publicamente, sua dieta era aceitável como parte do verdadeiro ascetismo. Portanto, não atraiu controvérsia”, pontuou Colin Spencer em “The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism”.

Outro fato revelador é que no século 3 Plotino conseguiu aprovação e apoio do Imperador Galiano para construir o que poderia ter sido a primeira cidade vegetariana ocidental, e que teria como referência a República de Platão. O seu nome seria Platonópolis. Mas o sonho de Plotino esbarrou no Senado, que vetou a sua proposta. Apesar disso, seu trabalho teve continuidade com Porfírio e outros filósofos que mais tarde influenciaram o vegetarianismo ético e a discussão em torno do que daria origem aos direitos animais.

Referências

Plotino. The Enneads: Abridged Edition. Penguin Classic (1991).

Porfírio. Gillian Clark. On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint Edition (2014).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism. UPNE. First Edition (1995).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought. Páginas 112-113. UBC Press (2017).

Gregerson, Jon. Vegetarianism, a History. Jain Publishing Company (1995).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).

Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life (Oxford Handbooks). Oxford University Press; First Edition (2014).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Ethical Vegetarianism: From Pythagoras to Peter Singer. State University of New York Press; Reprint Edition (1999).

The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism

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Reducetarianismo e consumo de produtos de origem animal

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É preciso começar de algum lugar

Surgiu uma polêmica sobre o chamado reducetarianismo, ou seja, prática alimentar em que as pessoas não eliminam, mas reduzem consideravelmente o consumo de produtos de origem animal. Vou dizer o que penso a respeito.

Não vejo isso como algo negativo porque sei que todo mundo precisa começar de algum lugar. Muitas pessoas, por fatores diversos, têm formas particulares de encararem mudanças de hábitos, principalmente alimentares.

Claro, se uma pessoa visa saúde, mas ainda assim privilegia o paladar, pode ser que ela não passe disso. Mas, para quem vai por esse caminho por uma perspectiva também ética dos malefícios dos hábitos alimentares baseados na exploração animal, pode ser um importante passo para grandes mudanças.

 

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Written by David Arioch

July 8, 2017 at 5:08 pm

O que você acha de ovolactovegetarianos?

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O que você acha de ovolactovegetarianos?

Também há exploração, privação e sofrimento na produção de leite e ovos

Acho que é um bom caminho para quem tem como primeiro passo abandonar o consumo de todos os tipos de carne. Mas acho importante também que as pessoas tenham em mente que o ovolactovegetarianismo, embora seja um passo importante no abandono do consumo de produtos de origem animal, não deixa de contribuir com a exploração animal. Exemplo clássico disso é o fato de que a maior parte do leite consumido pela população é proveniente do sistema industrial, e o sistema industrial prevê a separação do bezerro da vaca para que o leite seja destinado ao consumo humano. Para produtores de gado leiteiro não é interessante a criação de bezerros machos, então acaba sendo mais vantajoso economicamente matá-los ou até mesmo vendê-los para o mercado de carne de vitela. Às vezes, alguém diz que é visceral demais dizer que o consumo de laticínios é tão terrível quanto o de carne. Não, não é, basta refletirmos sobre a duração dessa exploração e todos os seus desdobramentos, começando, por exemplo, pelo estado da vaca e do bezerro após a separação. A vaca naturalmente procura o bezerro e ele faz o mesmo, caso tenham a oportunidade. O estado emocional dos dois em decorrência da impotência é de alto estresse seguido de sofrimento. E claro, tudo isso pode culminar na morte do bezerro, que pode ser reduzido a uma carne pela qual as pessoas pagam caro e consomem como se fosse algo natural. Logo se tomo leite ou consumo qualquer produto com laticínios, acabo por incentivar em menor ou maior proporção a morte de bezerros machos e quem sabe a comercialização de carne de vitela. Além disso, a queda na produção de leite não raramente é associada à mastite, uma grave inflamação das glândulas mamárias. É importante entender que vacas exploradas nesse ramo são condicionadas a produzirem leite em um ritmo não natural, e isso consequentemente reduz a expectativa de vida do animal. Também é preciso ponderar que a exploração do gado leiteiro é mais duradoura e só é interrompida quando o animal morre. Sim, a vaca leiteira que já não produz muito leite e não é economicamente viável manter viva. Depois de uma vida de contumaz exploração, o destino dela é o matadouro, ter sua carne, entre outros fins, reduzida a porções de hambúrgueres congelados enfileirados na área de frios dos mercados. Não duvido que haja exceções, mas a verdade é que no geral a produção e o consumo de laticínios nos leva a isso, e claro, a ânsia por carne industrializada.

Mas e se as pessoas consumissem leite de pequenos produtores, em que não há o mesmo sofrimento imposto pela indústria?

Ainda assim eu não endossaria tal prática. Por quê? Porque isso reafirmaria a crença de que os animais existem para nos servir. Não deixaria de ser uma posição antropocêntrica e especista. E claro, alguém pode alegar que o animal não sofre. Vamos supor que isso seja possível. Nem todo mundo teria condições de ter uma vaca em casa ou comprar o suposto embora enganoso “leite eticamente sustentável” e “cruelty free”. E como a demanda seria alta, essas pessoas que consomem o “leite eticamente sustentável” incentivariam os outros a fazerem o mesmo. A demanda seria muito grande, e quem teria que suprir isso seria o sistema industrial, e no sistema industrial é impossível que não haja privação e sofrimento, porque a privação e o sofrimento são consequências de demandas muito altas de consumo num curto período de tempo.

E sobre o consumo de ovos?

O consumo de ovos também tem sua faceta tétrica. O romantismo que a indústria defende não condiz com a realidade em nenhum aspecto. Você já visitou granjas de pequenos produtores? Eu já, e muitas vezes, e posso dizer que ainda assim o nível de estresse das galinhas é muito difícil de ser controlado. E por que isso? Porque elas não estão levando uma vida natural. A dura vida das galinhas começa logo que nascem. Com dez dias de idade, passam pelo processo de debicagem, ou seja, têm seus bicos cortados para que não pratiquem canibalismo quando o nível de estresse se torna muito alto. Mas como eu disse antes, ser ovolactovegetariano é louvável, mas é uma meia medida caso a pessoa não pense em ir além. Quero dizer, não é o suficiente para quem quer evitar realmente tomar parte na exploração animal. Quando falamos de ética alimentar no contexto dos direitos animais, a alimentação vegetariana estrita é a mais adequada.

O que você diria para quem é ovolactovegetariano há anos?

Eu sugiro que, caso seja uma escolha ética, que a pessoa reflita a respeito, porque há sofrimento em um copo de leite, em um ovo, e até mesmo no mel, já que nos apiários as abelhas também são condicionadas a trabalharem em um ritmo não natural. Quero dizer, normalmente elas não vivem mais do que 45 dias a serviço dos seres humanos. A rainha também é substituída, entenda-se como morta, quando começa a colocar menos de dois mil ovos por dia. Isso não seria uma forma de exploração? Elas poderiam viver mais. O romantismo na produção de mel também é preocupante. Onde há intervenção humana na vida animal com fins econômicos, pode acreditar que ali há uma vida não natural. Porque vidas não foram feitas para gerar lucro, sendo assim há sempre uma dissonância entre expectativa de vida e geração de renda.

 

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Tom Regan: “Não há justificativa para causarmos dor aos animais”

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“O direito à vida pertence não apenas aos seres humanos, mas também aos animais que exploramos”

Regan foi um importante filósofo da teoria dos direitos animais

Falecido em 17 de fevereiro de 2017, Tom Regan foi um importante filósofo da teoria dos direitos animais. Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil.

Na obra, o filósofo diz que o que ele aprendeu ao longo da vida sobre direitos humanos provou ser diretamente relevante para a sua reflexão sobre os direitos animais: “Se os animais têm direitos ou não depende da resposta verdadeira a uma pergunta: Os animais são sujeitos-de-uma-vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós.”

Segundo Tom Regan, não podemos nos colocar diante do mundo e declararmos que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos-de-uma-vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos-de-uma-vida, bem, eles não têm nenhum direito.

“Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’ Ninguém quer ser, nem parecer, tão idiota. Então, eis nossa pergunta: Entre os bilhões de animais não humanos existentes, há animais conscientes do mundo e do que lhes acontece? Se sim, o que lhes acontece é importante para eles, quer alguém mais se preocupe com isso, não é? Se há animais que atendem a esse requisito, eles são sujeitos-de-uma-vida. E se forem sujeitos-de-uma-vida, então têm direitos, exatamente como nós. Devagar, mas firmemente, compreendi que é nisso que a questão sobre direitos animais se resume”, argumenta na página 77 de “Jaulas Vazias”.

Em “The Case for Animal Rights”, de 1983, o filósofo escreveu que não faz sentido usar o argumento de que os seres humanos podem subjugar outros animais, já que o leão faz o mesmo para a sua sobrevivência. Tom Regan usou como argumento o fato de que os leões não têm conhecimento da dor que causam à sua presa. “Na verdade, precisamente porque se espera a indiferença dos animais, mas piedade ou misericórdia dos seres humanos, pessoas que podem ser cruéis quando insensíveis ao sofrimento que causam, e muitas vezes são chamadas [pejorativamente] de ‘animais’ ou ‘brutos’”, observa.

Um exemplo clássico da conduta humana cotidiana em minimizar o valor da vida animal é dizer que os piores assassinatos parecem trabalho de animais, pela ausência de piedade. Porém, os animais não fazem isso por um prazer sádico, ao contrário de quem comete um assassinato bárbaro.

Regan faz oposição aos animais explorados nos laboratórios quando afirma que eles não são um “recurso” cujo status moral no mundo é servir aos interesses humanos. Eles próprios são sujeitos-de-uma-vida que pode ser melhor ou pior para eles como indivíduos, logicamente independente de qualquer utilidade que possa ter ou não relação com os interesses dos outros”, defende.

Quando reduzimos o valor dos animais aos interesses humanos, como ocorre na indústria da exploração animal, somos injustos, porque violamos o direito moral básico que é tratar outras vidas sencientes com respeito. Segundo Regan, há leis que legitimam os testes em animais, mas por outro lado não mostram a contradição de que como esses experimentos são moralmente toleráveis.

Para o filósofo, isso prova que as próprias leis são injustas e devem ser mudadas. E mais, que essa perspectiva científica, do ponto de vista dos direitos animais, é anti-científica e anti-humana. Nós, como humanos, temos o direito de garantir que ninguém seja prejudicado. Isso é algo que a perspectiva de direitos visa iluminar e defender, colocando como desafio para farmacologistas e cientistas a busca de formas científicas que sirvam ao interesse público sem violar os direitos individuais.

Regan declara que a farmacologia tem como responsabilidade primária a redução de riscos para quem usa drogas lícitas; e deveria sempre alcançar isso sem prejudicar aqueles que não as usam. Não se empenhar nisso é a reafirmação de uma conduta verdadeiramente anti-científica. Pretensamente, cientistas dizem que a maior justificativa para a realização dos testes de toxicidade em animais são os benefícios que podem se estender tanto a humanos quanto a animais. Como podemos falar em benefício para os animais quando os prejudicamos na criação de um produto farmacológico?

“Esses testes violam os direitos dos animais. […] Os benefícios que esses testes proporcionam aos outros são irrelevantes de acordo com a visão de direitos, uma vez que os testes violam os direitos individuais dos animais. Os animais de laboratório não são nossos provedores, e nós não somos seus reis. […] Não devem ser tratados como meros recipientes ou como recursos renováveis”, argumenta o filósofo em “The Case for Animal Rights”.

Sem fazer concessões, Regan deixa claro que os testes em animais devem ser findados, isto porque o valor dos animais não deve ser baseado na sua utilidade em relação a interesses que não são deles. “Também há algumas coisas que não podemos aprender usando humanos, se respeitarmos seus direitos. A visão de direitos requer consistência moral a este respeito”, pondera. Sendo assim, para o filósofo a ciência que prejudica rotineiramente os animais em busca de seus objetivos é moralmente corrompida, porque é injusta no seu núcleo.

Tom Regan cita ainda médicos veterinários como profissionais que deveriam inspirar exemplo para a sociedade no cuidado com os animais. Porém, a realidade é bem diferente. Regan enfatiza que encontrar tantos profissionais da área prestando serviços para indústrias que violam rotineiramente os direitos animais é desalentador.

Em “All That Dwell Therein”, publicado em 1982, o filósofo estadunidense diz que tanto o direito moral de não sofrer quanto o direito à vida pertencem não apenas aos seres humanos, mas também aos animais que exploramos e comemos. A justificativa de que os humanos gostam de carne, e por isso a comem, não é aceitável porque ignora o direito à vida de seres sencientes. Ademais, mesmo que o “abate humanitário” se estendesse a todos os animais reduzidos a produtos de consumo, isso jamais asseguraria que seus direitos não fossem violados.

E a realidade hipermoderna é a maior prova de como ainda há muito a ser feito para que os animais sejam vistos como sujeitos-de-uma-vida. No século 20, o apetite humano pelo consumo de carne se tornou tão exagerado que deu origem aos métodos intensivos de criação de animais. Ou seja, práticas que asseguram que a maior quantidade de carne seja produzida no menor período de tempo e com as menores despesas possíveis. Assim, muitos animais foram e são obrigados a viver em condições de lotação e sem a possibilidade de manifestar seus desejos naturais.

Tanto em termos de dor física quanto psicológica, não há dúvida de que não raramente os animais experimentam uma realidade imerecida. E conforme nos alimentamos da carne desses animais, ajudamos a criar demandas cada vez maiores de métodos de criação intensiva. Basicamente, financiamos a privação e o sofrimento animal quando compramos e consumimos carne.

Temos o costume de acreditar que uma prática cultural, por pior que seja, sempre tem algum respaldo moral. Afinal, se muitos a praticam é porque é no mínimo socialmente aceitável. Só a partir do momento que são apresentadas as falhas dessa suposta moralidade que as pessoas começam a refletir e a se questionar. E nesse percurso, muitos sempre lutarão para que essa prática não seja vista como imoral, por saber que a imoralidade exige mudanças; que deve ser suprimida, principalmente quando há muitos prejudicados.

“Somos sempre tentados a negar que os animais sentem dor e, embora pareçam sofrer, diremos que eles realmente nunca o fazem. […] Que evidências precisaríamos além de seus gritos, gemidos, corpos e olhar desesperado? De minha parte, não sei o que mais poderia exigir. […] E uma linha de argumento semelhante pode ser dada, penso eu, ao considerar a visão de que os animais têm experiências agradáveis que, embora possam ser de baixo nível em comparação com, digamos, as alegrias da filosofia ou êxtase da visão beatífica, ainda assim são prazeres”, escreveu Tom Regan em “All That Dwell Therein”.

No entendimento do filósofo, se é justo evitar que um ser humano, que também é animal, sofra imerecidamente, levando em conta que a dor é má e o ser humano é inocente, portanto não merece o mal que recebe, então não há justificativa para causarmos dor aos outros animais. “Todos nós temos motivos para supor que restringir os conceitos de tratamento justo e injusto aos seres humanos é um preconceito”, enfatizou.

Saiba Mais

Tom Regan nasceu em Pittsburgh, na Pensilvânia, em 28 de novembro de 1938.

Referências

Regan, Tom. Empty Cages. Rowman & Littlefield Publishers (2005).

Regan, Tom. The Case for the Animal Rights. University of California Press (1983-2004).

Regan, Tom. All That Dwell Therein.  University of California Press. First edition (1982).

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