Archive for October, 2018
Bancada ruralista, Bolsonaro e meio ambiente
Bancada ruralista, com seus 261 deputados federais e senadores, anunciou hoje apoio à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). Depois que votar no Messias, não esqueça de compartilhar aquelas matérias sobre o impacto da agropecuária no meio ambiente, aquelas reportagens contra a exportação de animais vivos.
Acredito que o tipo de apoio que um candidato recebe diz muito sobre quem ele realmente vai representar. Até porque apoios que não são bem-vindos são prontamente rejeitados. Bancada BBB, não, obrigado. Líderes “evangélicos” de moral duvidosa mandando pastores pedirem votos aos fiéis, grandes empresários forçando seus anseios políticos sobre seus funcionários, mesmo que para isso seja necessário dissimular um cenário fantasioso.
Posso estar exagerando, mas isso me lembra a política do café com leite, ou mesmo notícias atemporais de patrões que “levavam” os empregados para votar. Meu avô me contava muito essas histórias. Fico imaginando qual vai ser o futuro de uma nação onde uma vitória política pode significar a fusão de um ministério tão importante quanto o do meio ambiente com o da agricultura, ainda mais em um país onde o lucro está acima de tudo. O que pensariam sobre isso figuras como Chico Mendes, a freira Dorothy Stang, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo? Mortos brutalmente tentando defender aquilo que não tem preço – o meio ambiente.
Vivemos no país que mais mata ativistas ambientais, e há pessoas que querem eleger um sujeito que inclusive sugeriu o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 916/13, que previa a proibição aos agentes de fiscalização ambiental de usarem armas de fogo. Que momento estranho, que realidade estranha.
Perica
Quando eu tinha dez anos, meu pai me levou para a casa de seu amigo Perica, um senhor já idoso que há mais de 20 anos vivia sozinho no campo com sua biblioteca e seus tonéis. Cheiro de papel e cheiro de vinho, de um lado, do outro, por todos os lados. Perguntou se eu bebia. Respondi que não, que o álcool é nojento. Ele achou engraçado.
“Mas lê pelo menos?”, Sim, leio, respondi. “Então tudo bem! Não esqueça que a morte precoce acontece quando não alimentamos a vida, e sim nos alimentamos dela”, disse. Certo, comentei. Perica foi meu mentor nas férias de verão. Era um sujeito incomum. Bebia e lia, lia ou bebia, e lia e bebia. Mas nunca o vi bêbado. No último dia antes de voltar para casa, perguntei como era possível ele tomar tanto vinho e nunca ficar bêbado.
“Na realidade, eu não bebo.” Como? “Isso, não bebo.” Mas esse cheiro, esses tonéis, o copo na mão?, questionei. “Eu te induzi a acreditar nisso a partir da sua chegada, da nossa conversa, do primeiro dia. O cenário ajuda, mas o que eu trazia no copo nunca era vinho. Não cheguei a produzir vinho, meus pais sim. O que você acha disso?”
Acho que você está me enganando, comentei. “Não…isso seria desnecessário e imprudente.” Realmente havia um copo na mão de Perica, mas não com vinho, e os tonéis, de fato, traziam aroma de vinho, mas era simplesmente sinestesia. “A minha verdade, a sua verdade, às vezes não é fácil distinguir se a mente se liberta para a realidade ou para a criatividade ou constrói a sua própria grade”, disse Perica.

