David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for October, 2018

Bolsonaro, Pinochet e economia

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Outra estranha curiosidade. Assim como pretende Bolsonaro, na figura do seu economista Paulo Guedes, Pinochet também tinha um modelo econômico baseado na Escola de Chicago. Pinochet, ditador, que matava seus opositores, privatizou a previdência social e hoje 39% da população chilena não dispõe de nenhum tipo de seguridade social. Como consequência disso, o Chile atualmente é recordista em suicídio entre idosos, que sem condições de viver com dignidade decidem tirar a própria vida.

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October 14th, 2018 at 6:08 pm

Bolsonaro quer entregar a economia brasileira para um seguidor do Reaganomics

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Querem entregar o Brasil para um economista que segue um plano econômico instituído nos Estados Unidos da década de 1980. Paulo Guedes, que o candidato à presidência Jair Messias Bolsonaro (PSL) quer nomear como ministro da fazenda, tem como referência o plano econômico de Reagan (Reaganomics). Isso mesmo, que foi presidente nos EUA há mais de 30 anos.

O Reaganomics não apenas cortou impostos dos ricos quando foi instituído, como realizou grandes cortes em gastos sociais. Os cortes foram feitos para compensar a redução no corte de impostos, o que acabou beneficiando os ricos e lesando os mais pobres. Com os cortes sociais, a meta era ampliar os investimentos que favorecessem o crescimento econômico.

Então eles cortaram custos para os negócios visando gerar mais capital que pudesse impulsionar o crescimento econômico. Mas capital próprio não impulsiona crescimento e em vez da economia crescer ela encolheu. Inclusive o último que tentou imitar isso no Brasil foi o Collor. E o resto vocês já sabem.

Pesquisem sobre esse plano Reaganomics. É apontado como logicamente insustentável e matematicamente desacreditado, mas há aqueles que vivem tentando duplicar, triplicar e quadriplicar essa filosofia como política econômica sólida porque não admitem os próprios erros, e também porque acreditam que o segredo da boa economia está em financiar e incentivar sempre os mais ricos. Quando a ganância supera a razão a história nos cega para o futuro.

Written by David Arioch

October 14th, 2018 at 3:06 pm

Um candidato que desconsidera valores humanos e sociais

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Bolsonaro, um candidato que desconsidera valores humanos e sociais, que faz piadas sobre tortura, negros, gays e quilombolas; que acha normal desrespeitar mulheres; que não vê palestinos como cidadãos; que diz que “índio” não tem que viver no mato, mas sim aprender a se virar na cidade (não respeitando valores culturais); que fala em destruir o meio ambiente com a maior naturalidade possível, alegando que temos “áreas de proteção ambiental demais”; que chama caça de “esporte saudável”; que é o primeiro candidato à presidência do Brasil recente a ter apoio massivo das bancadas mais perigosas do congresso (BBB), que sempre colocaram os interesses pessoais e econômicos muito acima dos interesses humanos. Como isso pode ser aceitável?

Nada disso é ser sincero, verdadeiro ou do tipo que “fala o que tem pra falar”, mas sim apenas uma figura arbitrária que ao longo de sua vida não aprendeu a lidar com a pluralidade; alguém que não tem um arcabouço cultural sobre a premência de valores sociais porque esteve sempre imerso em vaidades, veleidades e em uma realidade unilateral. Estou falando de um candidato que foi despejado pelo Exército, que se exalta e fica nervoso diante de contrariedades, que em sua ficha militar consta: “Tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos.”

Basicamente, uma pessoa que não tem perfil para ser o presidente do quinto maior país do mundo. Como um sujeito que desconsidera valores básicos como o respeito, as diferenças, tem condições de melhorar a realidade de um país? Se você não respeita as diferenças e as margens sociais de uma nação você está fadado a continuar sacrificando pessoas em benefício de interesses que você, na sua ignorância ou indiferença, considera mais urgentes.

Nas sociedades contemporâneas mais evoluídas, o tratamento dispensado às chamadas minorias é sempre um indicativo dos níveis de progresso de uma nação. Porque há um entendimento de que se você respeita “um diferente” você naturalmente respeita “um igual”. Não existe boa economia que beneficie toda uma população quando valores sociais são desconsiderados. Não existe boa economia se isso ofusca ou suprime outros valores. O Brasil precisa é de políticas econômicas que se voltem para modelos de referência como aqueles defendidos pelo sueco Olof Palme, modelos econômicos que consideram os valores humanos e sociais na formulação de um plano econômico, valores que combinam economia justa com bem-estar social.

O que vejo nos discursos e nas propostas do candidato, que me parecem vagas ou confusas, é apenas interesse em sacrificar todos ou quaisquer valores visando elevar a economia sem considerar de que forma isso pode efetivamente beneficiar quem mais precisa, não somente uma pequena parcela da população. Vamos considerar que o candidato consiga elevar a geração de renda. Se a apropriação dessa renda continuar, por exemplo, nas mãos dos 10% mais ricos, não há como alcançar mudanças substanciais, e pelo discurso de desconsiderações de outros valores, não tenho dúvida de que é isso que vai acontecer. O Brasil é um país que só vai ser capaz de melhorar quando a social-democracia for levada a sério.

Written by David Arioch

October 13th, 2018 at 6:49 pm

O Brasil vai virar uma Venezuela com o PT?

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Não vejo como isso seria possível considerando fatores como territorialidade, configuração macroeconômica e disposição de recursos naturais. A Venezuela é um país que tem como principal fonte econômica o petróleo, diferentemente do Brasil que dispõe de inúmeros recursos naturais e economia fundamentalmente multifária. Além disso, o nosso vizinho tem pouco mais de 916 mil quilômetros quadrados e 31 milhões de pessoas, e o Brasil tem 8,6 milhões de quilômetros quadrados e uma população de 207,7 milhões de pessoas.

A Venezuela sofre pressões externas há muito tempo, e há indicadores de que na mesma proporção dos países do Tratado do Atlântico Norte. E quando falamos então em geopolítica e relações internacionais, peço apenas que você faça o seguinte exercício. Nessa reta final das eleições, onde os temores de tanta gente se direcionam para a possibilidade de um “Brasil Venezuelano”, as notícias lá fora são mais favoráveis ao Bolsonaro ou ao Haddad? As críticas são mais direcionadas a quem? Assim você terá sua resposta. América do Norte, Europa e Ásia publicam diariamente notícias sobre o impacto negativo de uma vitória do candidato Jair Messias Bolsonaro (PSL). Sendo assim, quem será que tem mais impacto negativo no mercado? Quem será que traz mais medo e incertezas especulativas?

Venezuela, que apesar de tudo não está no mesmo espectro da Coreia do Norte de King Jong-un, já que Nicolás Maduro foi eleito pela própria população, não é um exemplo de Estado porque cometeu um grave erro de supervalorizar a soberania e desconsiderar o mais importante que são os interesses da população. Correu um risco, com uma economia sucateada e fundamentada no petróleo, e infelizmente muita gente está pagando o preço por esse erro que levou a miséria a níveis estratosféricos. E o mais estranho, é que transversalmente Bolsonaro está mais próximo da Venezuela do que Haddad. Mas como assim?

Bolsonaro já deixou claro antes mesmo das eleições que quer usar o petróleo nacional como moeda de troca pelo protecionismo estadunidense como mecanismo de fortalecimento de um governo menos democrático, o que naturalmente me lembra o que aconteceu no Brasil pré-ditadura militar quando os militares em parceria com os EUA criaram factoides para fundamentar a derrubada de Jango (fizeram uma maquiagem para transformar a imagem de um ruralista em suposto “comunista” e inimigo da nação), e fizeram isso porque queriam submeter a economia brasileira à “americana”, considerando que o Brasil tinha todos os predicados para não se submeter aos EUA. Mas isso era inconcebível porque o Brasil, enquanto reserva estratégica, possuía matérias-primas de alto valor que eram do interesse dos EUA, mas que eles não teriam condições de ter acesso se não fosse em decorrência da emergência da ditadura militar.

Ademais, no Brasil, partidos chamados de esquerda como o PT nem mesmo defendem uma economia planificada, em que todo o sistema de produção é deixado sob controle estatal (que se enquadra nas ideias que costumam associar com um suposto “socialismo” a caminho do “comunismo”. Afinal, o socialismo é o passo instancial do comunismo) – logo não há como o Brasil ter qualquer proximidade com a realidade venezuelana. Bolsonaro, que se esconde sob uma propaganda neoliberal, quer um estado econômico intervencionista e protecionista (por isso, deu um “cala a boca” no “neoliberal de Chicago” Paulo Guedes nas últimas semanas), e Haddad já segue um plano mais próximo das medidas heterodoxas do keynesianismo. Pra entender um pouco melhor, vamos voltar no tempo. Com a saída do PSDB do comando da nação em 2003, o Brasil começou a abandonar uma política econômica mais reacionária se tratando de questões fiscais e monetárias, e motivado pela necessidade de uma política pragmática que considerou o cenário da adversidade econômica mundial.

Hoje, anos depois, Haddad se mostra mais próximo da corrente keynesiana desenvolvimentista, que prevê flexibilização no combate à inflação visando a manutenção do crescimento do produto interno e do emprego sem sacrificar as políticas sociais. Além disso, o PT, que já flertou inclusive com o chamado “neoliberalismo do PSDB”, não poderia estar mais longe do que chamam de um demonizado “estado socialista” ou “comunista”, até por cortejar a visão social da escola de Myrdal ou Estocolmo, que se volta para um estado de bem-estar social, e que tem como exemplos de modelos mais bem-sucedidos a realidade dos países escandinavos que vivem a social-democracia.

Curiosamente, é um modelo que inspira e se distancia da economia do modelo estadunidense baseado na escola neoliberal de Chicago, a mesma de onde saiu o economista Paulo Guedes, que Bolsonaro indicou como ministro da fazenda. Chomsky, que conheceu bem o trabalho de Guedes, declarou recentemente que o economista brasileiro tem uma visão macroeconômica e de resolução de problemas ultrapassada e que seria um desastre para a economia de um país com as proporções do Brasil, que é o quinto maior do mundo, e onde ainda há muita concentração de renda nas mãos de poucas pessoas.

Não posso deixar de frisar também que se o PT fosse “comunista” já estaríamos vivendo em uma Venezuela. O Lula ascendeu ao poder quando eu estava saindo da adolescência, e se a intenção fosse essa, por que ele não transformou o país em uma Venezuela antes? Por que ele não planejou uma fuga quando ordenaram sua prisão? Por que o PT não fez uma revolução após o impeachment de Dilma Rousseff? Afinal, não é isso que se faz sob o manto do autoritarismo? Do pseudo-socialismo ou do pseudo-comunismo? Até porque, obviamente, autocratas não aceitam decisões contrárias às suas, não aceitam se submeter às leis ou determinações de um congresso. Eles estão acima de tudo. Mas ainda assim o PT não fez mais do que resistir no campo judiciário.

Não imagino como no tempo presente conseguiriam transformar uma nação de proporções continentais, a quinta maior do mundo, em um “país comunista”. O Brasil nunca se aproximou de fato do “comunismo”. Sim, temos figuras políticas que já tiveram contato e relações com líderes de outras nações de caráter democrático duvidoso, mas nada mais do que isso. Se você estudar a história do Brasil no período da pré-ditadura militar isso fica ainda mais evidente. Além disso, as experiências negativas do passado estão sempre servindo de lição para uma revisão de autoavaliação constante.

Considere também a quantidade de acordos que o PT, assim como outros partidos que comandaram o Brasil, fez ao longo dos anos, inclusive com inimigos históricos na consideração de pautas e projetos. É apenas realidade de um mundo pragmático. Afinal, políticas e partidos diluem-se entre si quando se trata de certas questões, o que é um desdobramento do nosso engessado sistema político. O próprio apoio concedido à JBS no governo petista, e tão apontado por tanta gente, seria inconcebível em um “estado “comunista”. Governantes que visam uma guinada tão radical nunca seriam tão suscetíveis. O Brasil é um país com uma configuração política bem simples – democracia delimitada, guiada e dinamitada pelo dinheiro, assim como outras nações chamadas de “nações em desenvolvimento”.

Written by David Arioch

October 10th, 2018 at 9:12 pm

Acredito que veganos votando no Bolsonaro estão sendo os mais especistas

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Eu acredito realmente que veganos votando no Bolsonaro estão sendo os mais especistas. A lógica é simples. Esse voto é uma reação de ódio ao PT, e nesse caso quem vai pagar a conta são os animais, simplesmente porque a cólera humana desconsidera até mesmo as lutas em defesa dos mais vulneráveis. E ódio é uma manifestação de ego, uma manifestação de veleidade.

Não vejo maior prova disso do que o endosso às três bancadas que historicamente neste país mais desprezaram os animais – ruralista, religiosa e armamentista. Ninguém nega que a JBS cresceu assustadoramente no governo PT, e que há sim muita culpa nos benefícios concedidos a JBS, mas, francamente, eu não vou ficar olhando pra trás quando um candidato a presidente já firmou compromisso para os próximos quatro anos de transformar o Brasil em um inferno ainda mais visceral para os animais, com apoio de centenas de deputados que olham para os animais como objetos, bens de consumo e até mesmo lixo.

Estou falando de um cara que apoia abertamente caça (não me interessa se ele citou apenas javali, caça é caça. E ainda por cima firmou compromisso com o Clube de Caça de Goiânia). O sujeito apoia vaquejada, pesca em área de proteção ambiental, já disse que vai sair do Acordo de Paris, que é o único compromisso do Brasil com a redução da emissão de gases do efeito estufa. O indivíduo deixou claro que as questões ambientais passarão pela bancada ruralista, o que coloca as nossas reservas naturais em risco mais premente. Estou fora de apoiar alguém assim.

 

Written by David Arioch

October 10th, 2018 at 3:09 pm

Quando alguém me diz que eu deveria ser assassinado ou roubado por não defender o discurso “bandido bom é bandido morto”

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Quando alguém me diz que eu deveria ser assassinado, roubado ou algo do tipo por não defender o discurso “bandido bom é bandido morto”, eu desejo apenas muita luz e serenidade pra quem diz isso. Eu não nego que venho de uma realidade confortável, mas por uma mistura de influência familiar e iniciativa própria comecei a conviver com os mais desfavorecidos ainda muito cedo. Na infância, meu pai me levava para passear pelos bairros mais pobres (Vila do Sossego, Vila Alta, Região do Brejo), para conviver com crianças que atuavam como engraxates, que fumavam e eram usuárias de drogas. Não viviam em casas, mas em barracas de lona – chamavam de balão mágico. Você acha isso visceral? Visceral é a vida e o obscurantismo da zona de conforto.

No início da adolescência, meu pai saiu de cena e minha mãe passou a me levar para a Vila Alta para acompanhá-la em trabalhos sociais, realização de reuniões e festinhas para as crianças. Também tive o exemplo da minha avó, que levava andarilhos para a sua casa, e um deles hoje é um empresário do ramo de consultoria em commodities. Minha avó foi a primeira pessoa a estender uma mão quando ele mais precisou.

Anos depois, adulto, terminei a faculdade e voltei a frequentar a Vila Alta, graças a um amigo que me levou a conhecer outro amigo. Isso foi na década passada. Estava tudo bem diferente, talvez nem tanto. Passei anos convivendo com menores infratores, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Ouvia suas histórias, filmava. Transformei algumas em pequenos filminhos e em um documentário. Você não conhece a humanidade de alguém até que ele abra seu coração na espontaneidade, livre das amarras da ignorância social. O ódio muitas vezes é apenas a casca do que existe de mais nobre na alma humana.

E sim, como outras pessoas desejaram, não sei se maldosamente ou apenas de forma impensada, em março do ano passado um rapaz estava tentando furtar o meu carro quando eu o vi tentando abrir a porta (essa história chegou a ser publicada na época). Perguntei pra ele o que pretendia. Ficou assustado e deixou algo cair rente ao meio fio. Claro que não recomendo que ninguém faça isso, mas eu faço, porque esse sou eu.

Eu já tinha visto ele na Vila Alta. Seu pai vivia em uma cadeira de rodas, a mãe atuava ocasionalmente como diarista e ele tentou justificar me dizendo que “ninguém dava emprego, então tava arriscanu”. Moravam em um barraco na Rua E (soube depois). Perguntei se valeu a pena o risco, que eu poderia tê-lo matado ou espancado. Ele disse que não pensou pra agir. “Viu o carro e bateu a vontade”. “Colei aqui só!” Com 19 anos, explicou que não pagava a pensão da criança tinha meses e não queria ir pra cadeia. Já tinha cometido outros pequenos delitos, como “furto de radinho, coisa pouca, duas, três vezes”, confidenciou.

Falei pra ele sair dessa vida. Já tinha terminado o ensino médio, mas só conseguia bico de vez em nunca como servente de pedreiro. Disse que “aliviava pra ele” com uma condição – encontrar um amigo meu que atua como engenheiro. Conseguiu trabalho. Isso tem mais de um ano. Hoje Fimo trabalha como pedreiro e está cursando engenharia. Talvez tenha sido loucura. Mas faria tudo de novo. É verdade.

 

Written by David Arioch

October 10th, 2018 at 1:22 pm

Imparcialidade é uma ilusão teórica sem respaldo filosófico

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Imparcialidade é uma ilusão teórica sem respaldo filosófico. Ainda criança, a partir do momento que você começa a enxergar o mundo, você se torna parcial, seja influenciado por suas razões, sentimentos, crenças, familiares, amigos, conhecidos ou até mesmo pela sua própria autoavaliação. Na faculdade de jornalismo um ou outro professor falava com certo romantismo da tal imparcialidade, mas essa imparcialidade também é parcial.

Quando alguém escolhe uma pauta, considerando importância e relevância, ou mesmo interesses particulares, editoriais ou empresariais, há parcialidade nisso; quando alguém constrói um texto, quando alguém abdica de um assunto ou suprime uma ideia e um parágrafo, isso é ser parcial. Quando alguém delimita uma abordagem…Até mesmo o uso e a escolha das palavras é ser parcial. Afinal porque escolhe-se esta e não aquela?

Escolhas são manifestações claras ou subjetivas de parcialidade. Então quando alguém diz que devo ser imparcial, acho que isso não faz o menor sentido. Viver é ser parcial, em menor ou maior proporção, mas muitas vezes chamamos de “parciais” somente aqueles com quem não concordamos, e obviamente que em crítica, consubstanciada ou vazia, de seu trabalho.

 

Written by David Arioch

October 9th, 2018 at 1:29 pm

O preconceito e o preconceituoso

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Descartes dizia que um dos maiores desafios do ser humano é se livrar dos preconceitos com o qual cresce e é educado, até porque o preconceito, como um juízo mecânico aprendido, só deixa de ser desconhecido a partir do momento que alguém reconhece a sua existência. Muitas pessoas que são preconceituosas, mesmo crentes de que não são, recobrem o preconceito com uma couraça de tradição, normalização e demérita transigência – pretextos de todos os tipos para justificar suas ignorâncias, vaidades, veleidades e iniquidades.

Um sujeito preconceituoso jamais dirá que é preconceituoso se a ele o preconceito não é preconceito. Ele nega não apenas que seja preconceituoso, mas a própria essência e existência do preconceito. Assim como rejeita a plena moralidade para reduzi-la à meia moralidade, ou chamada moralidade de conveniência, ou mesmo imoralidade. Nisso subsiste algo morbígero, que é naturalização do que não deveria ser naturalizado.

E assim, incorre-se em prejuízos de montas gerais, consequências mais destrutivas na coletividade do que na individualidade, porque o preconceito é tão deletério que sobrevive à morte e se multiplica na celeridade do desconhecimento, na extensão de seus tentáculos, na ignorância e na ausência de valores humanos, assim ganhando vozes tão altas que muitas vezes nem toda a boa e justa informação possível é capaz de corrigir isso. Provavelmente porque até mesmo a assimilação do conhecimento em direção oposta ao preconceito exige uma sensível predisposição. E a verdade é que quando interesses mesquinhos são supervalorizados, às vezes resta-nos, não por opção, mas sim por imposição, as trevas.

 

 

 

 

Written by David Arioch

October 8th, 2018 at 2:14 am

“Brasil: Nunca Mais”, um livro que não deve ser esquecido

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O livro “Brasil: Nunca Mais” foi lançado em 1985 por dom Paulo Evaristo Arns, quinto arcebispo de São Paulo, e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. A obra é baseada em informações coletadas em mais de um milhão de páginas de 707 processos do Superior Tribunal Militar. E a partir daí, dom Paulo Evaristo, o reverendo Wright e mais 30 pesquisadores mostram a dimensão da repressão política no Brasil dos tempos da ditadura militar.

No livro, é apresentado como funcionavam as agências de investigação, quem eram os principais perseguidos, como eram feitas as prisões e expõe as técnicas de tortura contra presos políticos. Há dados reveladores sobre violência física e psicológica aplicada contra crianças e gestantes. “Brasil: Nunca Mais” foi a primeira obra a denunciar essas práticas.

Entre os principais colaboradores do projeto estavam os advogados Eny Raimundo Moreira, Luiz Eduardo Greenhalgh, Luís Carlos Sigmaringa Seixas e Mário Simas, os jornalistas Paulo Vannuchi e Ricardo Kotscho, além de Frei Betto, a socióloga Vânya Santana e a historiadora Ana Maria de Almeida Camargo. Durante o processo de produção do livro, a equipe teve de mudar de local várias vezes por medidas de segurança. A obra informa que a tortura no Brasil durante o período da ditadura militar foi colocada em prática por 444 torturadores.

No prefácio do livro, dom Paulo Evaristo diz que a tortura é o meio mais inadequado para levar-nos a descobrir a verdade e chegar à paz: “É com penitências, pois, que encaramos este livro. Ele não pretende ser meramente uma acusação, mas sim um convite para que todos nós reconheçamos nossa verdadeira identidade através das faces desfiguradas dos torturados e dos torturadores.”

Acho que me falta aptidão para ser agressivo e ofensivo

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Depois que publiquei alguns textos sobre política nas últimas semanas algumas pessoas, que não conheço realmente, vieram “conversar” comigo por mensagem privada em mídias sociais em um tom bem estranho, inclusive questionando a credibilidade do meu trabalho como um todo.

Entendo que alguns vieram por curiosidade ou surpresa e, se há respeito, não vejo problema. Mas não pude deixar de notar algumas atitudes agressivas e ofensivas. Não sei se alguém esperava que eu me irritasse ou entrasse em algum tipo de jogo, talvez com a intenção de me expor de alguma forma. Não sei se há verdade nisso também. Honestamente, não imagino claramente qual é a finalidade. Me falta aptidão e interesse para pensar com acuidade a respeito.

Se alguém me ofende ou me trata de forma agressiva, provavelmente espera de mim o mesmo, e isso parece-me tão cansativo sob a perspectiva da obliteração de energia. Mais uma vez, reconheço que me falta aptidão ou interesse para reagir a esse tipo de situação. Pode ser que eu fique em silêncio, o que é bem comum, ou diga algo imprevisível fora do rol de expectativas, ainda vazio em agressividade ou ofensa. Talvez eu sorria ou ache engraçado, inesperado. Depende.

Sempre me parece um exercício cansativo ser agressivo ou ofensivo. Agir de outra forma, creio que não seria eu, e não sendo eu, seria alguém não deixando a máscara cair, creio, mas vestindo a de outrem que me habita, que exista dentro de mim, fora de mim, descartável ou perene dependendo de como o alimento. Ainda assim, consideraria uma face tola e ruidosa do meu descaminho. Não sei em que proporção isso pode ser afugentador. Mas é verdade, acho que me falta aptidão para ser agressivo e ofensivo.

Written by David Arioch

October 3rd, 2018 at 1:32 am