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Sobre a divulgação de fotos íntimas na internet
Pra que se preocupar com o estado emocional de uma jovem fragilizada quando é mais importante pensar no que os amigos do boteco vão dizer quando ele chegar para tomar suas biritas?
Mais uma moça teve fotos íntimas divulgadas na internet por um suposto amigo. Quando a família ficou sabendo, o pai simplesmente a expulsou de casa, claro que do alto de uma perspectiva travestida de paternalista. Afinal, pra que se preocupar com o estado emocional de uma jovem fragilizada quando é mais importante pensar no que os amigos do boteco vão dizer quando ele chegar para tomar suas biritas? Outros familiares deram entrevista relatando que a jovem sempre foi muito problemática, deu muito trabalho aos pais. Sem dúvida, ela vai se sentir muito bem quando souber disso por meio dos jornais.
Amigos e parentes pedem o retorno da moça. Apesar das críticas, divulgam na internet que querem que ela volte. Só esqueceram de ponderar que depois disso tudo não há garantias que essa jovem veja a casa como um lar. E quem pode culpá-la? Lar é pra ser um local seguro, uma fortaleza, um ambiente onde se aprende a importância de uma boa comunicação, da cumplicidade existencial. Mas infelizmente há situações extremamente negativas e pesadas na vida que servem para descortinar fatos até então incredíveis sobre a realidade parental. Vejo que em certos aspectos o mundo tem evoluído rápido demais, mas nem todas as famílias acompanham essas transformações, talvez por ainda estarem confinadas a um panorama por vezes anacrônico da vida e do mundo.
Acredito que já temos o entendimento e as ferramentas necessárias para não incorrer no erro dessas famílias que expulsam os filhos de casa por causa de fotos íntimas compartilhadas. O orgulho ferido de um pai deveria ser mais importante? Falo com segurança e tranquilidade que se eu tivesse uma filha passando por esse tipo de situação nunca viraria as costas para ela ou a repreenderia. É preciso ter calma e tentar dialogar. O mundo sempre vai estar pronto para julgá-la, castigá-la, então por que fazê-la se distanciar do lugar e das pessoas que deveriam ser as suas principais referências de segurança?
Sempre que leio sobre fotos íntimas que foram parar na internet me surpreendo com tantos comentários hostis e truculentos. “Se fosse minha filha eu descia o cacete”, “Coitado desse pai!”, “Caramba, que vadia sem noção!”, “Vai, otário, não cuidou direito da filha” e “Vagabunda desde novinha” são alguns dos comentários que me recordo agora sobre o assunto. Pouco se fala sobre quem as divulgou. Você pensaria assim se fosse sua filha? Tem certeza? E mesmo que pensasse, ela tem a sua própria individualidade, é um ser humano como qualquer outro, com suas aspirações, inseguranças e desejos. Sim, claro que muitos jovens que passam por essa situação são dependentes financeiramente, mas nem por isso vão deixar de agir como pessoas que avaliam a vida à sua maneira, com uma autonomia peculiar, mesmo quando reféns da ingenuidade.
Literatura, Paulo Coelho, culinária e Alexandre Dumas
Há quem acredite que para ser escritor ou leitor é importante desprezar alguns autores
Em 2014, participei do lançamento do novo livro de um escritor que prefiro não dizer o nome. É um autor relativamente conceituado no cenário da literatura e que me pareceu ser uma pessoa que valia a pena conhecer. Após o lançamento, houve um bate-papo com o escritor e infelizmente percebi mais uma vez que há autores que se preocupam mais em apelar para o senso comum, o que eu chamo de “malhar o Judas”, talvez visando conquistar com mais facilidade a cumplicidade da plateia, do que propor um diferencial, surpreendê-la com alguma ideia menos usual e que instigasse a reflexão.
Nem todo escritor é obrigado a ser bom em lidar com o público, até porque não é sua obrigação, mas é sempre estranho encontrar uma pessoa com uma capacidade tão complexa de raciocínio e criatividade se condicionando a repetir ideias fragilizadas e facilmente questionáveis. Como acontece em qualquer lugar hoje em dia, o referido escritor fez questão de despender uma parte do bate-papo para falar mal do trabalho do escritor Paulo Coelho, ou seja, uma pessoa que não acrescenta nem diminui nada na literatura desse autor. Então por que ele o “criticou”?
A impressão que fica é que para ser “escritor de verdade” ou “leitor de verdade” é importante desprezar alguns ou muitos autores. Parece existir uma lista sistemática com nomes seletos que determinam que você só é escritor ou leitor se ler este ou aquele, o resto não interessa. Sempre me pareceu muito clichê desprezar o trabalho do Paulo Coelho. Acredito até que são justamente as chamadas “críticas” e “desconsiderações” pelas suas obras que o tornam ainda mais popular no Brasil. O homem nem precisa investir em publicidade. Até quem nunca leu seus livros gosta de arremessar uma pedra que reverbera seu nome.
Depois de deixar claro o seu desprezo por Paulo Coelho, o autor declarou que hoje em dia o mercado editorial brasileiro está ruim porque há pessoas que nunca escreveram ocupando o espaço dos verdadeiros escritores. Ora, deveria haver um concurso em que quem for reprovado ou não se enquadrar nos temas e gêneros propostos não tem o direito de escrever? Nessa linha de pensamento, posso inferir que os leitores também não deveriam ter o direito de ler o que querem? Alguns dos maiores nomes da literatura universal se lançaram no mundo de forma independente. Rimbaud que o diga.
Bom, mas continuando. O escritor “criticou” também o trabalho de Laurentino Gomes, defendendo que o que ele faz não é literatura. Pode não ser literatura ficcional, mas não deixa de ser literatura, tanto que ele recebeu prêmios que se enquadram em categorias literárias, o que é mais do que um contraponto ao comentário feito pelo autor. Eu, como fã de culinária e gastronomia, tive que ouvir um escritor com mais tempo de literatura do que eu de idade declarar que outra “porcaria” que estraga o mercado editorial são os livros de culinária. Bom, generalizações à parte, culinária é cultura e sempre vai ser, independente do que quem não gosta ou não entende do assunto pense.
Com a tal “porcaria”, é possível aprender muito sobre as civilizações, e não falo apenas de hábitos e costumes, mas também de história, crenças, valores, capacidade de adaptação às adversidades e preservações ou transformações étnicas. A culinária sempre teve estreita relação com um ou diversos contextos. Ela já foi determinante na sobrevivência e ascensão de muitos povos em períodos de guerra, por exemplo. Em síntese, a culinária pode ter conotação econômica, social e até política. Muitos povos tiveram suas identidades, histórias e legados fortalecidos graças à culinária.
No século XIX, o escritor francês Alexandre Dumas, eternizado por obras como “Os Três Mosqueteiros”, “O Conde de Monte Cristo” e “Os Irmãos Corsos”, já reconhecia isso, tanto que dedicou os últimos anos de vida a escrever “O Grande Dicionário de Culinária”, lançado em 1873, três anos após sua morte. Na minha opinião, dizer que livros de culinária não merecem espaço é simplesmente um preconceito tolo e que revela um ego inflado por um desejo de cerceamento que nasce da incapacidade em lidar com as diferenças.
Vila Alta e a realidade da periferia
Documentário mostra que a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas
Disponibilizei hoje no meu canal no YouTube o documentário “Vila Alta”, que faz parte da série Realidade da Periferia, composta por um filme de longa-metragem, um de média-metragem e um curta. É uma trilogia de documentários. Todos estão relacionados, tanto que há referências de cada obra nos três filmes.
Na semana que vem começo a produzir o curta-metragem “Ivan & Rose”, sobre as dificuldades e o cotidiano de um casal de catadores de recicláveis que vive com R$ 280 por mês. O filme fecha a trilogia iniciada com a obra “Oficina do Tio Lú”, lançada em fevereiro.
Mas voltando ao filme que lancei hoje, o documentário Vila Alta mostra que há mais de 30 anos os moradores mais pobres da área rural e de diversos bairros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foram obrigados a se mudar para um lixão no fim da Vila Operária. No local, mesmo sem energia elétrica e água encanada, eles montaram dezenas de barracos de lona para abrigar suas famílias.
Vivendo sob condições sub-humanas, ainda tiveram de conviver com o preconceito, a intolerância, a violência e a criminalidade. Socialmente invisível, a população do bairro, que um dia foi conhecido como Balão Mágico e Vila do Sossego, hoje sofre para se livrar de um estigma social que se perpetuou ao longo de décadas.
Em Paranavaí, os mais jovens crescem ouvindo histórias que reforçam o mito de que a Vila Alta é uma “terra de criminosos”, um lugar onde ninguém deve ir. Não é à toa que a maior parte da população da cidade não conhece o bairro.
O documentário destaca outra realidade pouco conhecida. Na contramão da sua fama, a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas, batalhadoras e sensíveis que mesmo privadas das necessidades básicas ainda lutam e sonham com um futuro mais digno.
Apresentado de forma crua, mas solene, Vila Alta é uma obra testemunhal em que os personagens dialogam livremente. Do início ao fim, para reforçar o caráter intimista, a câmera é apoiada sobre uma mão. Não há escapismo, tratamento de imagem, uso de microfone externo e neutralização do som ambiente. Até mesmo alguns ruídos são preservados, cumprindo o objetivo de retratar com fidelidade as particularidades de cada momento, assim como o universo de cada personagem.
Para quem quiser assistir ao filme na íntegra, segue o link:
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