David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O que você acha de ovolactovegetarianos?

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O que você acha de ovolactovegetarianos?

Também há exploração, privação e sofrimento na produção de leite e ovos

Acho que é um bom caminho para quem tem como primeiro passo abandonar o consumo de todos os tipos de carne. Mas acho importante também que as pessoas tenham em mente que o ovolactovegetarianismo, embora seja um passo importante no abandono do consumo de produtos de origem animal, não deixa de contribuir com a exploração animal. Exemplo clássico disso é o fato de que a maior parte do leite consumido pela população é proveniente do sistema industrial, e o sistema industrial prevê a separação do bezerro da vaca para que o leite seja destinado ao consumo humano. Para produtores de gado leiteiro não é interessante a criação de bezerros machos, então acaba sendo mais vantajoso economicamente matá-los ou, dependendo do país, até mesmo vendê-los para o mercado de carne de vitela. Às vezes, alguém diz que é visceral demais dizer que o consumo de laticínios é tão terrível quanto o de carne. Não, não é, basta refletirmos sobre a duração dessa exploração e todos os seus desdobramentos, começando, por exemplo, pelo estado da vaca e do bezerro após a separação. A vaca naturalmente procura o bezerro e ele faz o mesmo, caso tenham a oportunidade. O estado emocional dos dois em decorrência da impotência é de alto estresse seguido de sofrimento. E claro, tudo isso pode culminar na morte do bezerro, que pode ou não ser reduzido a uma carne pela qual as pessoas pagam caro e consomem como se fosse algo natural. Logo se tomo leite ou consumo qualquer produto com laticínios, acabo por incentivar em menor ou maior proporção a morte de bezerros machos. Além disso, a queda na produção de leite não raramente é associada à mastite, uma grave inflamação das glândulas mamárias. É importante entender que vacas exploradas nesse ramo são condicionadas a produzirem leite em um ritmo não natural, e isso consequentemente reduz a expectativa de vida do animal. Também é preciso ponderar que a exploração do gado leiteiro é mais duradoura e só é interrompida quando o animal morre. Sim, a vaca leiteira que já não produz muito leite e não é economicamente viável manter viva. Depois de uma vida de contumaz exploração, o destino dela é o matadouro, ter sua carne, entre outros fins, reduzida a porções de hambúrgueres congelados enfileirados na área de frios dos mercados. Não duvido que haja exceções, mas a verdade é que no geral a produção e o consumo de laticínios nos leva a isso, e claro, a ânsia por carne industrializada.

Mas e se as pessoas consumissem leite de pequenos produtores, em que não há o mesmo sofrimento imposto pela indústria?

Ainda assim eu não endossaria tal prática. Por quê? Porque isso reafirmaria a crença de que os animais existem para nos servir. Não deixaria de ser uma posição antropocêntrica e especista. E claro, alguém pode alegar que o animal não sofre. Vamos supor que isso seja possível. Nem todo mundo teria condições de ter uma vaca em casa ou comprar o suposto embora enganoso “leite eticamente sustentável” e “cruelty free”. E como a demanda seria alta, essas pessoas que consomem o “leite eticamente sustentável” incentivariam os outros a fazerem o mesmo. A demanda seria muito grande, e quem teria que suprir isso seria o sistema industrial, e no sistema industrial é impossível que não haja privação e sofrimento, porque a privação e o sofrimento são consequências de demandas muito altas de consumo num curto período de tempo.

E sobre o consumo de ovos?

O consumo de ovos também tem sua faceta tétrica. O romantismo que a indústria defende não condiz com a realidade em nenhum aspecto. Você já visitou granjas de pequenos produtores? Eu já, e muitas vezes, e posso dizer que ainda assim o nível de estresse das galinhas é muito difícil de ser controlado. E por que isso? Porque elas não estão levando uma vida natural. A dura vida das galinhas começa logo que nascem. Normalmente, com dez dias de idade, passam pelo processo de debicagem, ou seja, têm seus bicos cortados para que não pratiquem canibalismo quando o nível de estresse se torna muito alto. Mas como eu disse antes, ser ovolactovegetariano é louvável, mas é uma meia medida caso a pessoa não pense em ir além. Quero dizer, não é o suficiente para quem quer evitar realmente tomar parte na exploração animal. Quando falamos de ética alimentar no contexto dos direitos animais, a alimentação vegetariana estrita é a mais adequada.

O que você diria para quem é ovolactovegetariano há anos?

Eu sugiro que, caso seja uma escolha ética, que a pessoa reflita a respeito, porque há sofrimento em um copo de leite, em um ovo, e até mesmo no mel, já que nos apiários as abelhas também são condicionadas a trabalharem em um ritmo não natural. Quero dizer, normalmente elas têm sua expectativa reduzida à a serviço dos seres humanos. A rainha também é substituída, entenda-se como morta, quando começa a colocar menos de dois mil ovos por dia. Isso não seria uma forma de exploração? Elas poderiam viver mais. O romantismo na produção de mel também é preocupante. Onde há intervenção humana na vida animal com fins econômicos, pode acreditar que ali há uma vida não natural. Porque vidas não foram feitas para gerarem lucro, para serem mercantilizadas logo objetificadas, sendo assim há sempre uma dissonância entre expectativa de vida e geração de renda.

 

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