David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Por que você acha que as pessoas consomem alimentos de origem animal?”

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Dos trabalhos old school da artista plástica britânica Sue Coe, este é um dos meus preferidos: “It’s a Picnic”. De um lado, animais confinados e sendo açoitados. Do outro lado, pessoas se confraternizando. Essa arte sintetiza o desinteresse humano em fazer alguma diferença na vida dos animais, ignorando à sua volta até mesmo um cenário de privação, sofrimento e morte.

— Por que você acha que as pessoas consomem alimentos de origem animal, mesmo quando reconhecem que estão se alimentando de animais mortos?

— Eu vejo três aspectos importantes para entender um pouco essa questão. O primeiro é um fator historicamente cultural, ou seja, o distanciamento da ideia de que um animal não é um produto. E claramente isso foi reforçado a partir da Revolução Industrial no século 18, se estendendo em proporções aberrantes até os dias atuais. É até interessante tocar nesse ponto porque o vegetarianismo, ou melhor, o vegetarianismo ético, começou a ser formatado nos moldes atuais exatamente nesse período, o que pode ter sido inclusive uma reação a um novo nível de banalização da vida.

Mas voltando a questão, vejo que antigamente não era incomum os criadores terem algum tipo de vínculo ou afinidade com os animais. Na realidade, no Brasil, por exemplo, isso era muito comum até os anos 1970, pelo menos no interior do país. Sei disso porque parte da minha família veio do meio rural. Mas essa afinidade, mesmo quando culminava ou culmina na morte do animal reduzido a produto, era e é limitada, limitada por uma crença de que se você ver inúmeras semelhanças entre você e um animal, você não é capaz de matá-lo. Talvez de mandar que alguém o mate, dependendo dos níveis de conexão e desconexão.

Ainda assim, eu diria que pode ser bem difícil você atentar contra a vida de um animal depois de reconhecer, talvez até mesmo por identificação, que ele é um ser de direitos com necessidades que pareçam similares às humanas, embora não signifique que sejam. Digo isso porque devemos considerar que cada animal tem a sua própria complexidade enquanto ser vivo. Sobre a desconexão, um exemplo que posso citar baseado em uma realidade histórica regional é que se evitava dar nomes aos animais, principalmente nomes humanos. Também não era recomendado manter contato diário que fosse além do essencial, como alimentá-los. E aqui eu falo da realidade dos pequenos criadores. Porque nas médias e grandes propriedades já havia claramente toda uma estrutura que permitia um distanciamento muito maior.

“Factory Pharm”, de Sue Coe

Afinal, dependendo da quantidade de animais concentrados em uma área, é mais fácil não encará-los como sujeitos-de-uma-vida, termo cunhado pelo filósofo Tom Regan. Não tenho dúvida de que para que a morte dos animais continue sendo perpetuada, é preciso que a desconexão seja predominante, e muitas vezes essa desconexão é baseada na ideia de que o animal está cumprindo o seu papel, que é servir como comida, logo há quem encare isso como um ato de nobreza, mesmo que mascarado por uma falsa premissa. Sem essa desconexão, se você se permitir entender o quanto a vida de um animal é importante para ele, assim como a sua é para você, as chances de você mata-lo ou comê-lo diminuem muito. Qualquer pessoa que experimenta não apenas o entendimento, mas a sensibilidade do que é a vida não humana, tem grandes chances de não querer mais tomar parte nessa desnecessária exploração animal.

O segundo aspecto que considero relevante é a dissimulação da informação. Conheço muitas pessoas de grande sensibilidade, mas que estão imersas no fator cultural da legitimação da exploração animal. Mas sei, baseado no que vejo, que muitos desses irão abdicar disso no futuro. Porém, ainda não o fizeram porque têm dúvidas, inclusive medo, sobre as consequências dessa decisão. Ainda assim, não tenho a menor dúvida de que aos poucos isso vai melhorando, conforme mais e mais informações forem compartilhadas, e os mitos derrubados. Acredito que a única ferramenta para reverter isso é a conscientização, que naturalmente varia de acordo com o emissor e seu nível de informação. Temos inclusive literatura voltada para a educação vegana, o respeito aos direitos animais. Um exemplo recente é o livro “Educação Vegana – Perspectivas no ensino de direitos animais”, de Leon Denis.

‘Select”, de Sue Coe

É perceptível o receio das pessoas em tornarem-se vegetarianas ou veganas, um temor que desde o princípio do século 20 é alimentado por muita propaganda que existe não exatamente para garantir o bem-estar da população, mas para manter o status quo das grandes indústrias que atuam no ramo da exploração animal. E qual é o maior exemplo da eficácia dessa propaganda? Quando se tornam parte do ensino. Ou seja, invadem escolas e universidades como vemos há muito tempo. O que as instituições de ensino repercutem, quando ajudam a reforçar a falsa necessidade da exploração animal, é uma versão supostamente educativa da publicidade e da propaganda que ganhou muita força no século 20. Compare a propaganda com a educação nesse aspecto da objetificação. Basicamente é a mesma coisa, o que muda é apenas a linguagem. Afinal, se houvesse uma forte crença do quanto é desnecessário consumir, por exemplo, carne, leite, ovos, o que as grandes indústrias fariam? Elas não teriam como se sustentar no mercado, porque elas dependem de uma aprovação massiva, que poderia sair de controle com uma perda acentuada de consumidores.

Não tenho dúvida de que no entendimento da indústria da exploração animal, é preciso bombardear a população com informações diárias e constantes sobre a importância do consumo de alimentos de origem animal, o que obviamente é uma falsa necessidade, já que vegetarianos e veganos saudáveis são a prova disso. Sem propaganda, a indústria da exploração animal não seria o que é. E ela tem a seu favor o fato de que ainda podemos encontrar muita, muita gente mesmo, que nunca viu à curta distância e vivo um porco, um boi ou qualquer outro animal reduzido a produto, o que dificulta o processo de empatia e reconhecimento de direitos não humanos. Isso é mais comum do que podemos imaginar. E facilita bastante a dissociação entre vida, morte e comida.

É fácil encontrar pessoas no mercado que não sabem a origem do presunto, quero dizer, de qual animal esse suposto alimento é proveniente. Isso mostra o quão imersos estamos em uma realidade preocupante, em que muitas vezes as pessoas não se importam, de fato, com o que consomem e as implicações disso, seja para outros seres ou até mesmo para nós. E por que isso acontece? Porque eles acreditam cegamente na indústria. Não há realmente um questionamento contundente. Quando ele existe, se volta mais para a “qualidade do produto”, não para o que ele realmente é.

“Gassing hogs, 6 at a time, instead of one at a time, more profitable for the industry”, de Sue Coe

O terceiro aspecto é o paladar, que também está relacionado com o aspecto cultural e a dissimulação da informação. As agências de publicidade conseguem despertar um anseio no espectador ao trabalhar imagens positivas, repletas de cores associadas ao prazer da alimentação baseada na exploração animal. Além disso, sempre apresentam animais como seres felizes e caricatos ao darem sua vida para alimentar seres humanos. E qual animal que seria feliz em morrer para alimentar alguém? Obviamente, nenhum, já que isso não acontece nem mesmo na savana, imagine então no contexto da indústria de carnes, laticínios e ovos, onde muitos animais são condicionados à exploração intensiva, privados de uma vida natural.

É preciso considerar também que o paladar é um prazer sensorial que há muito tempo dita alguns hábitos da humanidade. Como lidar com o paladar quando falamos de exploração animal? Bom, o paladar só pode ser associado ao prazer se entendermos que o que estamos consumindo é plenamente satisfatório, sem levantar muitas dúvidas e questionamentos que coloquem esse hábito em xeque a ponto de propor uma real mudança. E não há como algo ser satisfatório se a sua mente trabalha contra isso. Portanto, isso explica porque vegetarianos e veganos muitas vezes têm esse prazer anulado ou neutralizado.

Até porque torna-se impossível não ver os animais que deram vida àqueles “produtos” nas vitrines dos açougues e na seção de frios, por exemplo. Claro que nem todos são assim. Há quem sinta falta de alguns produtos de origem animal. No entanto, com o passar do tempo esse anseio vai desaparecendo, até se extinguir completamente, pelo menos em muitos casos. Ainda assim, é importante reconhecer que substituir o prazer da gustação, seja motivado por compaixão ou não, é uma demonstração de que o paladar está abaixo de valores mais importantes como a valorização da vida não humana. Afinal, você associa produtos de origem animal com exploração, privação, sofrimento e morte.

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