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Carnavais do passado deixaram saudade

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Época de carnaval é marcada pela lembrança dos grupos que fazem parte da história de Paranavaí

Dorival Torrente e a sua famosa boneca: diversão garantida (Acervo: Sesc)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, os carnavais da década de 1970 e 1980, marcados pelos grupos Escola do Biga, Clube da Binidita e Bloco dos Sujos, se caracterizaram como ícones da liberdade. A magia emblemática que deu origem aos ritos carnavalescos se desvaneceu no final dos anos 1990, mas ainda subsiste no ideário de quem viveu esse período. Hoje, prevalece um saudosismo rememorado nos balcões de bares.

Célebre, o ex-jogador e ex-técnico do Atlético Clube Paranavaí (ACP), o falecido Chico Venâncio, conhecido como Biga, é o responsável pelo surgimento do carnaval de rua local. “Em 1975, ele trouxe para a nossa cidade uma realidade conhecida apenas por quem passou pelos grandes centros”, conta o comerciante e ex-integrante do extinto Clube da Binidita, Luís Carlos do Amaral, em referência ao surgimento da Escola do Biga.

Segundo o técnico em atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e ex-coordenador do extinto Bloco dos Sujos, Dorival Torrente, Biga corria atrás de tudo sozinho, representando magistralmente o ideal de uma época. “Naqueles anos, o pessoal não simplesmente curtia o carnaval, mas vivia. Passavam 12 meses pensando nisso”, comenta Amaral, exemplo pródigo da realidade.

O comerciante foi um membro importante do Clube da Binidita, o segundo grupo carnavalesco da cidade, fundado em 1977, com origem no salão. Somente após dez anos de festividades no Clube Campestre e nas ruas é que houve uma queda no número de participantes da “Binidita”. “Nos primeiros anos, quase todo mundo era solteiro ou só namorava, então a presença era garantida. Já em 1987, muitos estavam casados e se tornaram pais de família”, lembra Luís Carlos.

O terceiro grupo a entrar para a história do carnaval de Paranavaí foi o irreverente Bloco dos Sujos, criado em 1981. Com cunho social e político, os participantes aproveitavam o período de folia para expressar as insatisfações da época. “Era tudo muito divertido. Tinha homem travestido de mulher e vice-versa. Não esqueço até hoje que fizeram um camelo em tamanho original e uma pessoa representando o Saddam Hussein, além de outros personagens políticos”, destaca Dorival Torrente.

Personagens irreverentes do extinto Bloco dos Sujos (Foto: Sesc)

Personagens irreverentes do extinto Bloco dos Sujos (Acervo: Sesc)

O Bloco dos Sujos foi o último dos três a chegar ao fim, encerrando atividades em 1999, quando o Carnaval de rua local perdeu sua importância junto à população.  “Desapareceu a magia de antigamente, pelo menos no interior do Paraná. Vai ser sempre uma época que deixa saudades porque as coisas não voltam”, desabafa Luís Carlos do Amaral.

Torrente concorda e atribui a desvalorização do carnaval a um processo de desvirtuação e individualismo gerado pela tecnologia. “A juventude não valoriza mais o congraçamento social. As pessoas preferem o isolamento diante da TV, aparelhos de DVD e computadores”, lamenta.

Hoje em dia, Torrente, Amaral e outros ex-integrantes dos três grupos ainda relembram o passado quando se reúnem diante de um balcão. “O bar é o local ideal para parir novas ideias e relembrar carnavais de antigamente”, avalia Dorival Torrente.

Auge do carnaval de rua foi na década de 1980

Na década de 1960, os clubes de Paranavaí estavam sempre lotados de foliões no mês de fevereiro. Os maiores exemplos eram o Paranavaí Tênis Clube, Harmonia Country Cub, Clube Campestre e Salão Paroquial da Igreja São Sebastião. “Nessa época, o pau comia”, diz, às gargalhadas, o técnico em atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e ex-coordenador do extinto Bloco dos Sujos, Dorival Torrente.

O carnaval de rua local teve seu auge na década de 1980, quando a folia era baseada em canções como “Mamãe eu quero”, “Você pensa que cachaça é água?”, “Meu coração é corinthiano” e “Atirei o pau no gato”. As marchinhas compostas na década de 1950 eram determinantes e ditavam o carnaval paranavaiense. “Me recordo das canções do Moacyr Franco e do Sílvio Santos. Eram como símbolos. Bem diferente disso que tocam hoje em dia”, frisa Torrente. A opinião é partilhada pelo comerciante e ex-integrante do extinto Clube da Binidita, Luís Carlos do Amaral que considera inadequado celebrar o carnaval com outros gêneros musicais.

Até 1999, o tradicional carnaval de rua de Paranavaí tinha como ponto de partida a Avenida Distrito Federal, em frente ao Posto São José. “A gente descia até onde está localizado o atual Bar Toyokawa. O movimento nas ruas era imenso, havia muita gente”, explica Torrente. O evento começava às 20h30 e terminava por volta das 23h. Amaral revela que no Clube Campestre reuniam até 20 blocos carnavalescos.

 Clube da Binidita teve quase 300 integrantes

Clube da Binidita colecionava prêmios no carnaval do Campestre (Acervo: Sesc)

Clube da Binidita colecionava prêmios no carnaval do Campestre (Acervo: Sesc)

De acordo com o comerciante Luís Carlos do Amaral, o Clube da Binidita chegou a ter aproximadamente 300 integrantes quando se tornou uma escola de samba. “Esse foi o número de componentes por volta de 1986, quando tínhamos até samba-enredo e resolvemos homenagear o radialista José de Matos, falecido em um acidente automobilístico”, conta.

À época, a conquista de recursos era feita junto ao comércio local que contribuía e muito com o Clube da Binidita. “Foi mais difícil quando resolvemos levar o carnaval do salão para as ruas. Tivemos de montar uma estrutura com instrumentos e roupas”, relata Amaral, mas admite que o esforço valeu a pena.

Com base nas escolas dos grandes centros, o Clube da Binidita tinha samba-enredo, puxador de samba (o próprio Amaral), abre-alas, 60 componentes na bateria, ala das baianas, das crianças e da velha guarda. “Seguimos os moldes do que vimos em São Paulo e Rio de Janeiro. Queríamos fazer bonito perto da Escola do Biga”, revela Luís Carlos, referindo-se ao primeiro grupo carnavalesco da cidade.

O técnico em atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e ex-coordenador do extinto Bloco dos Sujos, Dorival Torrente, admite ter sido um fã incondicional do Clube da Binidita e afirma que a maior qualidade dos integrantes era o respeito mútuo. “Sempre chegavam a um denominador comum quando queriam decidir algo. Nunca havia briga. Era tudo extremamente organizado”, comenta.

Quando o Clube da Binidita chegou ao fim, Amaral e outros ex-integrantes resolveram fundar a Ala do Cachorro Louco. “Apenas os mais jovens da época participaram. Ficamos alguns anos, só que não era a mesma coisa. O pessoal mais antigo já tinha se desligado do carnaval”, garante o comerciante.

Saiba mais

Origem do Clube da Binidita – Em 1977, Jacaré e Mineiro estavam em um bar próximo à Praça da Xícara. Era sábado, e a pinga com limão era sagrada para os dois no final de semana. Então pediram a birita e em seguida verteram um pouquinho no chão. Quando questionados sobre o ato, disseram que era para São Benedito. Então alguém perguntou: “Por que não Binidita?” Em seguida, batizaram como Clube da Binidita o bloco formado principalmente por apreciadores da cachacinha.

Se estivesse na ativa, o Clube da Binidita completaria 32 anos.

Durante o carnaval de rua da década de 1980, comerciantes aproveitavam a oportunidade parar criar “camarotes” improvisados, com o objetivo de agregar mais renda. Normalmente reservavam espaços privilegiados.

No final da década de 1980, a bateria da Binidita fez uma parceria com o Bloco dos Sujos, dando sustentação musical para o desfile. Mas no final da década de 1990 alguns participantes do Bloco dos Sujos fizeram brincadeiras pejorativas, surgindo embate com a proposta inicial do grupo. Assim a coordenadoria do bloco optou por encerrar as atividades.

O Bloco dos Sujos era conhecido como uma fusão de Clube da Binidita com Escola do Biga. Na década de 1980, os três grupos atraíam pelo menos 12 mil pessoas para as ruas de Paranavaí, uma quantidade superior ao público que prestigiava o desfile de 7 de setembro.

Emblemáticos no carnaval de rua do Bloco dos Sujos eram o bumba-meu-boi e a boneca nega maluca de Dorival Torrente.

Em uma edição do Carnaval de Rua, Lourival Félix Carneiro, que posteriormente se tornaria prefeito de São João do Caiuá, provocou comoção popular ao participar do Bloco dos Sujos com um pênis de três metros usando uma camisinha. A proposta era educativa e alertava para os riscos do HIV.

O ritual do Clube da Binidita antes de se apresentar em público era se concentrar na residência de alguém para tomar caipirinha.

O Clube da Binidita ganhava todos os anos o prêmio disputado por todos os blocos que participavam do carnaval no Clube Campestre.

O folião Luís Carlos do Amaral não costumava entrar em férias. Aproveitava para folgar alguns dias no período do carnaval.

 

 

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Written by David Arioch

February 18th, 2009 at 3:08 pm

De Bamberg a Paranavaí

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Enfermeiro da Segunda Guerra Mundial cumpriu missão e encontrou paz no Brasil

Padre era tímido e não gostava de ser fotografado sozinho (Foto: Acervo da Ordem do Carmo)

Padre era tímido e não gostava de ser fotografado sozinho (Foto: Acervo da Ordem do Carmo)

Depois de enfrentar as tragédias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o padre e enfermeiro alemão Bonaventura Einberger veio a Paranavaí com a missão de construir um seminário em Graciosa, distrito de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Além de concluir o trabalho, adotou o Brasil como pátria e aqui viveu ao longo de 31 anos.

Em meados de 1953, o frei alemão Ulrico Göevert, que já vivia em Paranavaí, pediu para a Ordem dos Carmelitas na Alemanha enviar um padre apto a construir um seminário em Graciosa. “O frei Bonaventura mal chegou e já foi visitar propriedades nas imediações da igreja. Ali ele escolheu um sítio. No dia seguinte, começaram a derrubada da mata”, conta a pioneira Francisca Schiroff.

Entre o início da construção e a inauguração, passaram nove meses. A maior parte do investimento veio da Ordem dos Carmelitas da Alemanha. De acordo com Francisca, quase todos da comunidade ajudaram, mas o destaque maior foi o frei Bonaventura que viveu em função do Seminário Imaculada Conceição.

Antes de chegar a Graciosa, onde a quietude se contrastava apenas com o som preponderante da natureza, Einberger ainda mantinha fresca em suas lembranças os sons de bombas, metralhadoras e gritos exasperados, consequência de dores, na maioria das vezes, irremediáveis.

Tudo começou em meados da década de 1940, quando o frei Bonaventura foi convocado a compor um grupo de enfermeiros em um navio do Terceiro Reich. Segundo a pioneira, o padre cuidou de centenas de soldados alemães que se feriram na linha de frente.

A guerra fez com que Bonaventura Einberger perdesse o contato com os familiares, principalmente com os irmãos Otto Einberger, inspetor-chefe da SS (Schutzstaffel), unidade de elite da polícia nazista, e o caçula Heinrich Einberger, soldado do Exército alemão.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Einberger desconhecia o paradeiro dos irmãos. “Otto, que tinha 38 anos, foi capturado pelo Exército soviético. Ele ficou oito meses em uma prisão russa próxima de Moscou, até que foi encontrado morto depois do fim da guerra”, revela Francisca, referindo-se ao fatídico dia 13 de outubro de 1945.

Bonaventura, inconformado com a morte do irmão, decidiu buscar o corpo para enterrá-lo em Bamberg, sua cidade natal. O corpo de Heinrich nunca foi encontrado e a única conjetura possível é a de que foi alvejado em um confronto terrestre com os soviéticos.

Em 1953, depois de perder os pais e os irmãos, surgiu uma oportunidade de deixar tudo para trás. Acompanhado pela cunhada e três sobrinhos, filhos do irmão Otto Einberger, o frei Bonaventura veio a Paranavaí. “Eles compraram um sítio de cinco alqueires aqui em Graciosa e fixaram residência, com exceção do frei que vivia no seminário”, garante Francisca.

Einberger era discreto e reservado

Quando chegou a Graciosa, o frei Bonaventura Einberger foi recebido por todos os moradores do distrito. “Ele falou muito obrigado em português”, relembra a pioneira Francisca Schiroff que durante décadas guardou um grande baú de madeira que pertenceu ao frei.

O objeto foi doado para a Fundação Cultural de Paranavaí e colocado em exposição no Museu Histórico de Paranavaí que funciona na Casa de Cultura Carlos Drummond de Andrade. “Ele trouxe grandes caixas de madeira. Veio com toda a mudança. A ideia dele já era se fixar aqui”, destaca Francisca.

Quando aprendeu a falar fluentemente em português, o frei Bonaventura visitou todas as capelas da região. “Ele ia a cavalo, não tinha pressa. Inclusive quando o animal ficava com fome e havia algo na beira da estrada, ele parava e deixava o cavalo comer. Tinha dó”, conta Francisca sorrindo. O equino foi o principal meio de transporte do frei durante sete anos, até que ganhou um jipe da Ordem dos Carmelitas.

Segundo a pioneira, Einberger era bastante amistoso e jamais teve qualquer tipo de inimizade. “Acho que todo mundo gostava dele justamente por não se envolver com política e assuntos familiares. Só ajudava quando lhe era solicitado, algo constante”, informa, referindo-se a uma época em que padre desempenhava papel de conselheiro.

No entanto, Bonaventura Einberger era bastante reservado e tímido. A pioneira conta que o padre era acanhado a ponto de evitar ser fotografado sozinho. “Me recordo também que festas para ele tinham de ser surpresa, do contrário, ele fugia”, enfatiza em tom de nostalgia.

Frei alemão adotou pátria brasileira

Quando, por curiosidade, questionavam o frei Bonaventura Einberger sobre as agruras vivenciadas durante a Segunda Guerra Mundial, a expressão do padre mudava na hora. Hesitante e apreensivo, se limitava a dizer que era algo horrível.

Einberger torcia para que qualquer guerra jamais chegasse ao Brasil, citando a experiência de ter visto tantas pessoas morrendo. “Falava também que viu muitas casas sendo bombardeadas, noite após noite”, reitera a pioneira Francisca Schiroff.

Quando o assunto era o Brasil ou nova pátria, como ele mesmo dizia, o frei Bonaventura, com um sorriso cândido e olhar profundo, afirmava que não errou em escolher um país que tem tudo para estar entre os melhores do mundo. “Dizia que aqui é muito bom para se viver. Era algo muito sincero, tanto que ele esteve com nós até o dia de sua morte”, lembra a pioneira Francisca Schiroff emocionada.

O frei Bonaventura Einberger faleceu em 14 de novembro de 1984, aos 80 anos, em decorrência de algumas complicações envolvendo rins, pulmão e coração. “Agradecemos por ele não ter ficado muito tempo acamado. Foi uma grande perda, ainda mais se tratando de uma pessoa que dedicou sua vida ao povo de Graciosa e de Paranavaí”, enfatiza Francisca.

Saiba Mais

O frei Bonaventura Einberger está enterrado na cripta da Igreja São Sebastião em Paranavaí.

Ele nasceu em Bamberg no dia 15 de fevereiro de 1904 e se tornou sacerdote em 29 de junho de 1929.

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