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A contradição de clamar por democracia sendo antidemocrático
Vejo muita passionalidade envolvida, e muitas vezes me parecem armadilhas do ego e da vaidade
Esses dias, testemunhei na internet um camarada sendo chamado de “comunista”, no sentido mais pejorativo do termo, aquele que hoje povoa o ideário comum, porque publicou um vídeo mostrando um general da época da ditadura militar impedindo um jornalista de exercer a própria função. Esse sujeito que o ofendeu com palavras baixas e declarou que o camarada deveria ser fuzilado por ser “comunista” é um exemplo de uma efervescência perigosa e sem precedentes que tenho visto na internet.
Primeiro porque o camarada não é “comunista”. Ainda assim, tentei entender o posicionamento do rapaz, mas foi impossível porque ele vive uma estoica contradição – uma pessoa que diz estar lutando pela democracia e ao mesmo tempo se coloca no direito de dizer que muitos brasileiros deveriam ser deportados ou fuzilados porque não pensam como ele. Me refiro a alguém que entra na internet para impor sua opinião de forma agressiva em páginas de pessoas com quem não partilha as mesmas ideias.
Penso que se não sou seu amigo e entro na sua página para comentar algo sem ser convidado, devo pelo menos ser educado e defender o meu posicionamento de forma ponderada e lúcida – o mínimo que se pode esperar de um ser humano que deveria respeitar o outro tanto quanto respeita a si mesmo. Não é correto invadir um perfil pessoal no Facebook para impor nada, até porque esse espaço pode, porém não precisa ser democrático. Ninguém tem o direito de fazer isso, independente de qualquer coisa.
Sinceramente, não há como negar que comportamentos como o do rapaz citado têm relação direta com a indigência cultural, já que generalizações e ofensas costumam ser usadas com mais frequência por pessoas que não são capazes de argumentar ou defender um ponto de vista sem apelar para clichês ou estereótipos. O sujeito que ofendeu esse meu camarada trabalha como instrutor em uma academia onde paro em frente quase todos os dias quando o sinal vermelho do semáforo está acionado.
Já o vi algumas vezes rindo e fazendo brincadeiras com alunos e colegas de trabalho, o que torna tudo mais chocante porque mostra como um ser humano aparentemente pacífico pode na realidade esconder uma faceta agressiva e tirânica, o que é interpretado por estudiosos do comportamento humano como sinais de sociopatia.
Acho válido citar também pessoas mais próximas que conheço há muito tempo e que presenciei e ainda presencio defendendo discursos de ódio em mídias sociais. Posso dizer que não é fácil olhar para a pessoa e não associá-la ao que li na internet. A vida segue, mas um resquício de fel na boca persiste.
Vejo muita passionalidade envolvida, e muitas vezes me parece armadilha do ego e da vaidade, aliada a uma visão canhestra do mundo; até um anseio jactante e quase totalitarista de redefinir o que é certo e errado. É incrível como nos deparamos todos os dias com pessoas hostilizando alguém. Tudo isso porque não foram preparadas para lidar com as diferenças, e acho que esse é um problema que surge na infância e adolescência.
Diariamente encontramos pessoas querendo moldar o mundo e as pessoas à sua maneira, o que não significa que seja algo basicamente ruim, já que no fundo todos fazemos isso de algum modo. E claro, muitas coisas nesse sentido podem ser realmente positivas. No entanto, a preocupação surge quando as negativas se sobrepõem, porque aí o respeito é relegado à farelagem e o ser humano deixa de ser humano.
Sobre a divulgação de fotos íntimas na internet
Pra que se preocupar com o estado emocional de uma jovem fragilizada quando é mais importante pensar no que os amigos do boteco vão dizer quando ele chegar para tomar suas biritas?
Mais uma moça teve fotos íntimas divulgadas na internet por um suposto amigo. Quando a família ficou sabendo, o pai simplesmente a expulsou de casa, claro que do alto de uma perspectiva travestida de paternalista. Afinal, pra que se preocupar com o estado emocional de uma jovem fragilizada quando é mais importante pensar no que os amigos do boteco vão dizer quando ele chegar para tomar suas biritas? Outros familiares deram entrevista relatando que a jovem sempre foi muito problemática, deu muito trabalho aos pais. Sem dúvida, ela vai se sentir muito bem quando souber disso por meio dos jornais.
Amigos e parentes pedem o retorno da moça. Apesar das críticas, divulgam na internet que querem que ela volte. Só esqueceram de ponderar que depois disso tudo não há garantias que essa jovem veja a casa como um lar. E quem pode culpá-la? Lar é pra ser um local seguro, uma fortaleza, um ambiente onde se aprende a importância de uma boa comunicação, da cumplicidade existencial. Mas infelizmente há situações extremamente negativas e pesadas na vida que servem para descortinar fatos até então incredíveis sobre a realidade parental. Vejo que em certos aspectos o mundo tem evoluído rápido demais, mas nem todas as famílias acompanham essas transformações, talvez por ainda estarem confinadas a um panorama por vezes anacrônico da vida e do mundo.
Acredito que já temos o entendimento e as ferramentas necessárias para não incorrer no erro dessas famílias que expulsam os filhos de casa por causa de fotos íntimas compartilhadas. O orgulho ferido de um pai deveria ser mais importante? Falo com segurança e tranquilidade que se eu tivesse uma filha passando por esse tipo de situação nunca viraria as costas para ela ou a repreenderia. É preciso ter calma e tentar dialogar. O mundo sempre vai estar pronto para julgá-la, castigá-la, então por que fazê-la se distanciar do lugar e das pessoas que deveriam ser as suas principais referências de segurança?
Sempre que leio sobre fotos íntimas que foram parar na internet me surpreendo com tantos comentários hostis e truculentos. “Se fosse minha filha eu descia o cacete”, “Coitado desse pai!”, “Caramba, que vadia sem noção!”, “Vai, otário, não cuidou direito da filha” e “Vagabunda desde novinha” são alguns dos comentários que me recordo agora sobre o assunto. Pouco se fala sobre quem as divulgou. Você pensaria assim se fosse sua filha? Tem certeza? E mesmo que pensasse, ela tem a sua própria individualidade, é um ser humano como qualquer outro, com suas aspirações, inseguranças e desejos. Sim, claro que muitos jovens que passam por essa situação são dependentes financeiramente, mas nem por isso vão deixar de agir como pessoas que avaliam a vida à sua maneira, com uma autonomia peculiar, mesmo quando reféns da ingenuidade.
Garota de programa, intemperança e transtorno de personalidade

Está cada vez mais fácil encontrar pessoas com transtorno de personalidade no meio virtual (Foto: Francesco Pirrone)
Hoje, li uma notícia sobre uma moça que atuava como garota de programa em Uberlândia, Minas Gerais. Ela foi assassinada porque chegou atrasada ao encontro com um cliente. No Facebook, um homem com cerca de 35 anos e uma foto de perfil em que aparece sorrindo com dois filhos e a esposa comentou exatamente o seguinte: “Que sirva de exemplo para essas quengas kkkk.”
E há quem se pergunte o que existe de errado na sociedade atual. Pessoas aparentemente normais, bastante sociáveis, muitas vezes se tornam irreconhecíveis na internet. Alimentam a intolerância e deixam bem claro que nutrem desprezo pela vida daqueles que lhes são diferentes.
Se você é afeiçoado à generalizações, incapaz de dialogar abertamente ou de aceitar e discutir diferenças sem apelar para clichês, estereótipos ou senso comum, há grandes chances de que você seja um inimigo do conhecimento e do livre-arbítrio.
Infelizmente, ter uma visão limitada do que deve ou deveria ser o mundo revela um tipo peculiar de intemperança e até de megalomania. No fundo, todos nós temos nossos pré-conceitos e preconceitos. No entanto, o problema se torna crônico quando nos recusamos a entender ou analisar em profundidade algo que poderia nos tornar pessoas melhores.
Hoje em dia, o que tem chamado muita atenção de estudiosos do comportamento humano é a tal dissonância entre quem você é na internet e quem você é fora dela. É um assunto preocupante porque nos últimos anos descobriu-se que em âmbito online houve um crescimento imensurável dos mais diversos tipos de transtorno de personalidade.
Para situar melhor, acho plausível citar um exemplo que considero o mais comum na atualidade. Se uma pessoa conversa com outra fora da internet e a primeira diz que a segunda age de modo completamente diferente quando está online, surge aí um grande indício de que a segunda sofra de algum tipo de transtorno de personalidade.
Acredito que hoje a vantagem é que comportamentos suspeitos são facilmente monitorados pela internet. Então quando uma pessoa tem uma atitude nociva em uma mídia social ou faz apologia à violência, ela não apenas mostra quem realmente é como também pode correr o risco de um dia ser responsabilizada por um comentário inconsequente.
Desigualdade, empatia, descomedimento e humanidade

Ofxam International alerta que 50% das riquezas do mundo estarão nas mãos de 1% da população mundial em 2016 (Foto: Reprodução)
A Organização Não Governamental Oxfam International divulgou esta semana uma pesquisa revelando que há grande probabilidade de que até o ano que vem 1% da população mundial assuma o controle de 50% das riquezas do mundo.
Acredito que a ideia da Oxfam seja propor um debate sobre o assunto, claro que já deixando transparecer uma crítica prenunciando os desdobramentos mais severos do que chamam hoje em dia na Europa de bancarrota social, só para ser o mais objetivo possível na minha análise superficial. Daí em redes sociais surgem pessoas com comentários de campina envolvendo meritocracia ou indo um pouco mais além e declarando:
“É isso aí, também quero fazer parte desse 1%”, “Fala mal, mas queria estar no lugar deles” ou “Se não consegue se juntar a eles é porque não tem capacidade pra isso.” São comentários que poderiam simplesmente ser qualificados como individualistas, triunfalistas, egocêntricos, mas não é só isso. Está além disso.
É possível fazer uma observação usando a empatia como exemplo. Sim, ela parece cada vez mais fortuita como mostra a internet, principalmente em mídias sociais como Facebook. Chega a ser digna de abjeção em muitos casos. Diuturnamente, sofre por ser extirpada e privada da própria semântica.
Hoje em dia, na chamada hipermodernidade, é grande o número de pessoas que se colocam numa posição de figura proeminente do digitalismo. Há opinião para tudo e sobre tudo, mesmo sobre aquilo que sequer dedicou alguns minutos de pesquisa. É preciso cultivar um mínimo de senso laborial.

A ausência de empatia aliada a outros fatores exemplifica bem porque é tão difícil diminuir as desigualdades sociais (Foto: Reprodução)
Mídia social se tornou território fértil dos tribunais online. Tudo há de ser julgado com embasamento em senso particularista, “moral” que se confunde muitas vezes com amoral e imoral, e principalmente empirismo inconsistente. Na ausência do confronto físico, é comum o pensamento de que não há motivo para ser educado ou respeitoso. Na realidade, o descomedimento é atroz, “natural” em conceito distorcido e pluralizado.
Quem age de maneira inquisitória ou negligente costuma não ter dúvidas porque nunca teve perguntas. Se contenta com meias certezas, meias verdades de um mundo talvez até plano, como defendia Ptolomeu nos tempos do Renascimento. É alguém que refuta a complexidade, se nega a aceitar o poder da subjetividade, as nuanças que podem travestir mentira de verdade e vice-versa. Esses mesmos indivíduos não acreditam na possibilidade das divergências complementares das forças que regem o pensamento humano.
O Facebook nos prova que há quem prefira o anacronismo de um mundo paralelo e falsamente simplificado. Muitos não permitem discussões construtivas nem críticas. Aprendi na adolescência que crítica se fundamenta em argumento, desde então tomo isso como um referencial do que fazer, mas principalmente do que não fazer.
Numa sociedade tão desnivelada, e ainda fortemente influenciada pelo fatalismo e determinismo, acredito que o ser humano há de continuar perseverando como grande exemplo e símbolo do que eu acho adequado chamar de paradoxo existencial. No entanto, o que mais preocupa é que hoje em dia muita gente ensaia a própria humanidade, pois optou por se despir dela. Sendo assim, cresce a incapacidade humana de verdadeiramente sentir-se humano.
O hip-hop que salva vidas
em Paranavaí, três artistas da cultura urbana já salvaram mais de cem vidas

Marcos Paulo Gerê, Rodrigo Sena e Daniel Hudson já ajudaram muita gente por meio do hip-hop (Foto: Amauri Martineli)
Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, três jovens descobriram no hip-hop uma maneira de salvar vidas. Por meio da dança, já reintegraram à sociedade mais de cem pessoas. O trabalho que desenvolvem também contribui muito para a valorização da cultura popular urbana.
Tudo começou há sete anos, quando Daniel Hudson, Marcos Paulo Gomes e Rodrigo Sena começaram a estudar hip-hop. “Na época, já decidimos que nossa missão seria tirar as pessoas do caminho das drogas e da prostituição”, conta Hudson.
Os três se introduziram no universo do hip-hop como autodidatas. Muito do que aprenderam até hoje descobriram sozinhos, apenas praticando. “Corremos atrás dos passos, nos aperfeiçoamos. A gente estudava tudo que encontrava sobre o assunto. A maior ajuda que tivemos foi da internet”, relata Marcos Paulo Gerê.
Rodrigo Sena conta que no início havia muita discriminação porque as pessoas viam o hip-hop apenas como cultura de marginais. “Estamos quebrando esse preconceito e difundindo a dança da melhor forma possível”, frisa. Entre as principais referências, os três citam B-Boy Neguin e Tsunami All-Stars, de São Paulo, e a competição de b-boying Red Bull BC One, a maior da categoria no mundo.

““Estamos quebrando o preconceito e difundindo a dança da melhor forma possível” (Foto: Amauri Martineli)
Encarado como um estilo de vida, o hip-hop para os três b-boys é o grande chamariz para a reabilitação de pessoas que vivem às margens da sociedade. “É um estilo de impacto, que consegue atrair muita gente. Isso é tão verdade que por meio da dança tiramos até pessoas do mundo do crime”, explica Daniel Hudson.
Basta ver apenas uma apresentação dos breakdancers para entender a tônica do trabalho. A linguagem do corpo flerta com a música de forma tão despojada que é possível interpretar os movimentos como símbolos de liberdade, satisfação, alegria e harmonia. “A nossa língua é a dança”, enfatiza Sena que assim como Gerê e Hudson não esconde o orgulho em ser parte do movimento hip-hop local.
Questionados sobre exemplos de pessoas que mudaram de vida graças a dança, Gerê cita a si mesmo. Se livrou da dependência química quando decidiu se tornar um breaker. Em Paranavaí, os três b-boys já introduziram mais de 200 pessoas na subcultura da dança urbana Desse total, cerca de 70% são pessoas que abandonaram vícios ou saíram do mundo da prostituição e do crime. “Reabilitamos muita gente. Aqui também temos um grande parceiro que faz a diferença, o B-Boy Maiquinho”, ressalta Hudson.
Os b-boys atuam em seis comunidades de Paranavaí, entre as quais Jardim Campo Belo, Vila Operária, Chácara Jaraguá, Coloninha e Jardim Progresso. “Levamos nosso trabalho para escolas e associações de moradores. Também temos uma parceria com algumas igrejas evangélicas, inclusive nosso trabalho começou na igreja”, relatam os breakdancers.
Na região, os três já disseminaram o hip-hop em Paraíso do Norte, Terra Rica e Guairaçá. “A gente tem representantes do hip-hop em quase toda a região”, garantem e acrescentam que os três têm como objetivo mostrar que em Paranavaí o hip-hop está em ascensão.
“Há um grande envolvimento, como uma família”
O hip-hop é um movimento que surgiu no Bronx, em Nova York, nos EUA, ao final da década de 1970. Na época, já tinha uma postura social, transmitia a insatisfação das classes menos favorecidas. A cultura hip-hop está ligada a figura de quatro personagens: DJ, MC, b-boy e grafiteiro. Normalmente, leva de seis meses a um ano para o praticante de dança de rua conquistar resultados sólidos. “Mas pra isso ele tem que treinar pelo menos três horas por dia”, alerta Rodrigo Sena.
Em Paranavaí, os b-boys Hudson, Gerê e Sena ensinam não apenas os movimentos de dança, mas também a teoria. “É importante que eles conheçam a história, entendam o sentido de tudo”, explica Gerê. Para aprender breakdance não há restrição quanto a idade. “Temos alunos de dança com faixa etária de 7 a 40 anos”, exemplifica Sena, acrescentando que a partir dos 14 anos o praticante adquire mais facilidade para dançar.
Os três estimulam os alunos a jamais desistem do hip-hop. “Estamos sempre em contato porque não podemos deixar ninguém se perder. Há um grande envolvimento, como uma família”, assegura Gerê que trabalha na Fundação Cultural de Paranavaí.
“Queremos fazer um festival de cultura urbana”
Uma das metas dos b-boys Daniel Hudson, Marcos Paulo Gerê e Rodrigo Sena é realizar um grande evento de hip-hop em Paranavaí. “Queremos fazer um festival de cultura urbana, com workshops e tudo o mais. O único problema é que ainda precisamos de patrocínio”, contam e acrescentam que recentemente trouxeram a Paranavaí, na Casa de Cultura Carlos Drummond de Andrade, uma oficina com o grupo Urban Style Crew, de Maringá.
Os três especialistas em street dance, pop e power move participaram do 28º Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina. “É o maior evento da América Latina. Fomos convidados a ir com o pessoal do grupo Urban Style Crew, de Maringá”, relata Gerê.
