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A professora que enfrentou sozinha o Estado Islâmico

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“Quando protestei em frente ao quartel-general do EI, ninguém teve coragem de tirar foto”

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“Eles atiraram em nós e mataram 16 pessoas que estavam com a gente” (Foto: Yvan)

Há anos, a professora síria Souad Nawfal protesta contra o Estado Islâmico e contra o regime ditatorial do presidente sírio Bashar al-Assad, que segundo ela é o maior responsável pela expansão terrorista na Síria. As ações de Souad tiveram início em 15 de março de 2012, após a morte de Ali Babinsky, de 17 anos, o primeiro sírio a ser assassinado pelo regime de Assad.

Naquele dia, um grupo se reuniu para realizar o funeral do garoto seguido por um protesto clamando por justiça. Mas o que ninguém imaginava era que Assad mandaria matar quem ousasse “afrontá-lo”. “Eles atiraram em nós e mataram 16 pessoas que estavam com a gente”, conta a professora. A popularidade de Souad, que sempre se recusou a seguir o código de vestimenta feminina, cresceu quando um vídeo dela intitulado “A Mulher de Calças” foi publicado na internet. Ao longo de quatro minutos, a professora aparece criticando o Estado Islâmico e o qualificando como um governo ilegítimo fundamentado no obscurantismo religioso.

“Comecei a protestar contra o Estado Islâmico quando eles levaram o Pai Paolo [jesuíta italiano que apoiou a revolução síria e tinha uma paróquia ao norte de Damasco], meu hóspede. Eles o raptaram e desde então nunca mais tivemos notícias”, relata. O padre foi visto como uma ameaça porque ele tinha planos de acabar com o sigilo envolvendo os crimes cometidos em Raqqa, no centro-norte da Síria.

Baixinha, Souad Nawfal, que tem como hábito usar apenas o hijab, e por tradição identitária, não por obrigação, chegou a passar meses protestando contra a imposição de uma nova ideologia que segundo ela é totalitarista e contrária ao verdadeiro islã. “O Estado Islâmico trata todos muito mal. São exatamente como o regime de Assad. Assustam e subjugam as pessoas”, reclama. Durante os protestos de 2012, o EI impediu que os manifestantes fotografassem ou filmassem as mobilizações. Quem os desafiasse, era surrado e preso.

“Ao longo dos 45 dias que protestei em frente ao quartel-general do Estado Islâmico, ninguém teve coragem de tirar foto de mim, nem de longe”, lembra. Ainda assim, ela prosseguiu sozinha, tentando chamar a atenção para a realidade do povo sírio que já morria aos milhares. Muitas vezes a professora foi alvo de xingamentos, cusparadas e até atropelamentos. “Um dia um homem de barba longa e branca, que fazia parte do Estado Islâmico, quis estacionar bem onde eu estava. Eu disse que não sairia e ele me bateu algumas vezes com o carro, querendo me intimidar”, enfatiza.

De acordo com Souad, o EI nunca teve dificuldade em conquistar adeptos porque a tática deles é baseada na desinformação. Para as linhas de frente, eles sempre procuram recrutar jovens pobres e ignorantes, que pouco acesso tiveram à educação formal. “Uma tática eficaz é a lavagem cerebral das crianças de Raqqa. Eles prometem alimento e dinheiro à família e em troca exigem que seus filhos se tornem soldados. Essas crianças se sentem poderosas porque ganham armas e são chamadas de ‘xeiques’”, pontua.

Não foram poucas as vezes que Souad teve uma kalashnikov apontada para sua cabeça. E as ameaças eram diárias. Acostumada, ela simplesmente respondia: “Vamos! Se vocês me matarem primeiro, não esqueçam que a segunda bala tem que ser para Bashar.” Esse comentário irritava os soldados do Estado Islâmico porque provava que a professora sabia do relacionamento de conveniência deles com o presidente sírio.

Nem mesmo Souad Nawfal consegue explicar como ela conseguiu ir tão longe sem ser assassinada. Embora seja vista como heroína por tantos ativistas sírios, é possível crer que o fato dela não integrar nenhum grupo ou movimento fizesse com que o Estado Islâmico não a encarasse como uma real ameaça, permitindo que ela vivesse.

Porém, de acordo com o jornalista estadunidense Michael Weiss e o analista sírio Hassan Hassan, Souad ficou bem próxima da morte em setembro de 2012, quando o Estado Islâmico atacou e queimou duas igrejas cristãs, removendo as cruzes e colocando a bandeira negra da jihad. “No dia 25 de setembro, eles fizeram isso na igreja católica Sayidat al-Bishara e então 24 pessoas apareceram para protestar”, narram.

Ciente de que não adiantaria se queixar diante dos escombros. Souad sugeriu que todos a acompanhassem até o quartel-general do EI. Porém, antes de chegar lá, os manifestantes se dispersaram e a deixaram sozinha. Irritados, os soldados do Estado Islâmico lançaram uma bomba que explodiu ao lado da professora. Por sorte, ela saiu ilesa. “Antes escrevi uma mensagem à minha família me desculpando. Eu achava que aquele seria meu fim”, confidencia.

E para piorar, um garoto de 16 anos se aproximou, a chamou de infiel e perguntou aos outros soldados porque eles não matavam Souad. Não houve resposta. Ordenaram apenas que o menino se afastasse. “Depois um sujeito armado desceu de um carro, me pegou pelo braço e bateu em meu ombro”, assinala. A professora também recebeu cusparadas de outro homem.

Antes de ser liberada, ela fez questão de se queixar da apatia da população síria: “Vocês estão felizes, sírios? Olhem o que eles estão fazendo comigo. Olhem para suas mulheres, como elas estão sendo estupradas, como estão sendo atacadas e vocês só aí, olhando.”

Prêmio Homo Homini

Em 2015, Souad Nawfal foi premiada em Praga, na República Tcheca, com o prêmio Homo Homini, destinado a quem luta pela defesa dos direitos humanos. Até hoje a professora atua como ativista, denunciando as mazelas do Estado Islâmico e do governo sírio.

Ela também critica a apatia da comunidade internacional, que ignora o fato de que mais de 470 mil pessoas já morreram na Síria ao longo de cinco anos de Guerra Civil, segundo dados do Centro Sírio para Pesquisa Política.

De acordo com Souad, o único jeito de acabar com o terrorismo na Síria é derrubando o regime de Bashar al-Assad, a quem ela culpa por oferecer condições para a expansão do Estado Islâmico no Oriente Médio.

Referências

Weiss, Michael. Hassan, Hassan. Isis: inside the Army of Terror. Regan Arts (2015).

If Assad falls the terrorists will fall too – Souad Nawfal accepts the Homo Homini Award (2015). Disponível em http://oneworld.cz.

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Ajde Jano, um hino balcânico não oficial

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A beleza de uma composição folclórica que atravessa os séculos

Kultur Shock ajudou a divulgar a música folclórica sérvia fora do Bálcãs (Foto: Reprodução)

Kultur Shock, um aliado da música folclórica sérvia fora dos Bálcãs (Foto: Reprodução)

Uma das mais belas, tristes e famosas composições folclóricas do Sul da Sérvia e do Kosovo, Hayde Yano ganhou uma versão com um singular “que” de autoralidade em 2001, na versão da banda estadunidense Kultur Shock, uma das mais respeitadas do gênero gypsy punk.

O grupo, conhecido por valorizar o cancioneiro nômade, explorar suas habilidades técnicas multi-instrumentistas e influências multiétnicas, nunca se faz de rogado quando o que está em jogo é a espontaneidade não de apenas entreter, mas reacender os valores semeados e preservados pela música folclórica. É exatamente o que encontramos na versão que o Kultur Shock gravou de Hayde Yano.

Concebida com preciosismo, a canção segue a premissa do kolo tradicional, uma das danças coletivas e circulares mais difíceis do mundo – que exige uma contumaz flexão de joelhos, recaindo o peso sobre os calcanhares. É muito popular entre os povos eslavos, com destaque para sérvios, bósnios, herzegovinos, croatas, macedônios e montenegrinos. A versão dos estadunidenses para Ajde Jano é baseada em instrumentos que popularizaram o kolo, com predominante característica de gravador radiofônico, como frula, tamburica, šargija, zurla, gajde, tapan e gaita.

O que a distingue das versões menos ousadas é a roupagem moderna e eletrônica que lembra ocasionalmente o trabalho de aspiração mediterrânea do projeto israelense-estadunidense Balkan Beat Box, referência em gypsy punk e cultura roma. Outro ponto interessante de Hayde Yano é que durante a execução do kolo os punhos cerrados atrás das costas representavam no passado um desafio ao governo turco – como um protesto, o que rende ao ouvinte uma extra carga simbólica sobre a importância contextual da música com status de hino não oficial.

Kolo, uma dança popular entre os povos eslavos (Foto: Reprodução)

Kolo, uma dança popular entre os povos eslavos (Foto: Reprodução)

Hayde Yano recebeu dezenas de versões desde que foi gravada pela primeira vez em 1928 pelo desconhecido V. Georgevich. A história da canção remonta aos séculos anteriores, principalmente ao tempo e as consequências do duradouro domínio do Império Otomano. Ao longo dos anos, a letra foi modificada algumas vezes. No entanto, a ideia original fala sobre a necessidade de se preservar os velhos e bons hábitos.

Isso é representado pela recusa do homem em vender o cavalo e a casa, os únicos bens de um casal sérvio que passa por um grave momento de crise econômica e privação imposta pelos turcos. Além disso, a residência é o único local onde podiam dançar o kolo, honrando as próprias origens e a relação com a terra.

Antonín Dvořák, compositor erudito que estudou o folclore dos Bálcãs (Foto: Reprodução)

Antonín Dvořák, compositor erudito que estudou o folclore balcânico (Foto: Reprodução)

Mais tarde, a letra foi alterada e o personagem masculino sugere a Jana, sua mulher, que o melhor é vender a propriedade, já que teriam mais tempo para dançar o kolo, sem precisar se preocupar com o animal ou a residência. Assim, a letra ganhou um novo e distinto caráter conceitual e imaterial. O mais importante para o casal estava com eles o tempo todo – a sabedoria de se dançar o kolo, não apenas uma dança, mas um legado de identidade e valores que ninguém poderia destruir.

Antes de Hayde Yano ser gravada, o kolo entrou para a história como uma das mais importantes danças balcânicas; o que foi endossado em 1886 pela peça orquestral No. 7 (15) em C Maior (Kolo), pertencente a série Danças Eslavas, do compositor tcheco Antonín Dvořák, um gênio do romantismo que sincretizava tradição sinfônica e influências populares e folclóricas.

Enfim, Ajde Jano, kolo da igramo!   

A letra traduzida:

Hayde Yano

Vamos, Jana, vamos dançar o kolo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos dançar o kolo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos dançar o kolo!

 

Vamos, Jana, vamos vender o cavalo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender o cavalo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender o cavalo!

 

Vamos vender apenas para dançar!

Vamos vender, Jana querida, apenas para dançar!

Vamos, Jana, vamos vender a casa!

 

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender a casa!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender a casa!

Vamos vender tudo apenas para dançar!