David Arioch – Jornalismo Cultural

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Boi marcado para morrer

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O primeiro da fila manteve um olhar hirto e esfíngico em direção ao paroleiro (Foto: Reprodução)

A boiada desceu do caminhão, mas alguns animais sentiram um cheiro nauseoso e acidulce. Resistiram a entrar em um corredor estreito por onde ninguém retornava. Um dos campônios começou a assobiar para sopitar e docilizar os bovinos. Os bois serenaram. O primeiro da fila manteve um olhar hirto e esfíngico em direção ao paroleiro. Nenhuma palavra, nenhum sinal. Se distanciou dos companheiros e seguiu rumo à caixa enquanto os outros aguardavam a metros de distância.

Assim que Milovan levantou a marreta para golpear o boi, ele recuou. O animal abriu a boca e cuspiu um pedaço de papel. Nele, havia uma frase: “O assobio da morte é a lorpa tirania do mais forte.” O homem fitou os olhos do boi e arredou:

— Sim, sei que você vai matar a mim e aos meus companheiros. Não vou resistir — disse o boi.
— Quê? Como você tá falando?
— Isso não importa. Vou te contar a história de Djordje, o Carrasco de Negotin, um sujeito bamba. Assim como você, ele também vindimava a mando dos outros. Até que um dia, quando se aposentou depois de matar animais como eu e meus companheiros ao longo de 30 anos, Psoglav apareceu para cobrar uma dívida.
— Que dívida?
— As vidas que ele tirou. Para cada animal que ele matou, Psoglav levou um de seus descendentes. E quando não restou mais nenhum deles, ele o perdoou e disse que seus últimos anos seriam de reparação.

O Carrasco de Negotin perguntou por que punir ele e não quem o pagou:

— Todos são penalizados, no meão ou na cessação da vida. Quem te pagou deixou de existir há muito tempo, você sabe. Além disso, não comprou apenas seus serviços, mas também a supressão da sua vocação humana. Você não teria morrido de fome se não tivesse aceitado esse trabalho. Eu o conheço. Em algum nível, você aprendeu a gostar do que fazia, um tipo de acromania e, mesmo que não tivesse gostado, nada impedia-te a partida. A existência pautada na morte é estéril, baldada, mesmo para quem não a enxerga.

Djordje aquiesceu e Psoglav se desvaneceu. O boi abaixou a cabeça, toldou os olhos e aguardou a marretada. Milovan a colocou no chão e ajoelhou-se. O animal saiu da caixa e caminhou em direção à saída. O corredor alvoreceu e a boiada desapareceu.





 

Psoglav, o carnívoro

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No folclore balcânico há uma criatura telúrica que chamam de Psoglav, que teria vivido em algumas regiões que hoje fazem parte da Bósnia e de Montenegro. Ganhou fama de demônio, inclusive esteticamente, pelo fato de se alimentar de carne humana, chegando a desenterrar cadáveres.

Mas Psoglav era naturalmente carnívoro, e ainda assim se popularizou como um chavelhudo, pois sua sobrevivência, vinculada a uma condição rara, o tornava dependente do consumo de carne. Com o tempo, sua história ganhou novos elementos, para reafirmarem sua “natureza demoníaca”.

Porém, se ele se alimentava de carne por uma questão incontestável de sobrevivência, deveríamos chamá-lo de demônio? Ainda mais levando em conta que nos alimentamos da carcaça de outros seres vivos por uma questão cultural e opcional, ou seja, não por uma necessidade.

 

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