Os marginalizados em Fellini e Buñuel
Um dos meus filmes preferidos do Fellini é “A Estrada da Vida”. Já foi uma das obras mais subestimadas do cinema internacional. O enredo me remete em alguns aspectos a “Os Esquecidos”, do Buñuel, também um dos meus preferidos.
Traz a interpretação mais icônica da Giulietta Masina em início de carreira, como a inocente e sonhadora ajudante Gelsomina que acompanha um sáfaro artista de rua após ser vendida por uma porção de moedas.
Os dois filmes são da década de 1950, e creio que talvez Fellini tenha conhecido a fase mexicana do espanhol alguns anos antes. O que me agrada na história de cada obra, entre outros elementos, são as nuances de escapismo que fogem ao melodrama para abordar miséria humana, realidade social, condicionamento, esperança e descrença.
Ainda assim, os dois trazem poesia e lirismo, seja a partir da condição onírica dos personagens da obra mexicana, que são garotos pobres sem perspectiva de futuro e reféns da violência que buscam amparo para a própria carência; ou da antítese de Gelsomina e Zampano – que são como água e óleo – ela é romântica e sonhadora, entregue a uma condição platônica de viver, e ele o oposto disso – o distanciamento físico também é um reforçador – e assim vão se equilibrando e se desequilibrando perante as necessidades.
Nos dois filmes há personagens brutos de contextos diferentes, mas que nascem de uma miséria análoga, praticamente universalizada, onde aquele que sobrevive, como numa escala predatória, são os menos suscetíveis aos arroubos e impactos da sensibilidade – como se sentir, consoante intensidade, pudesse também em longo prazo ser um prólogo do próprio definhamento.
Quando assisti os dois pela primeira vez, notei a influência do neorrealismo, embora Fellini tenha sido criticado pela abordagem que destoa da corrente tradicional (da qual ele nunca fez parte), mas ainda assim o desfecho não deixa de surpreender. Além disso, são filmes que fixam na mente por dias e te impulsionam a uma série de analogias com a realidade atual, que, em determinados aspectos, nada mudou de lá pra cá.
A moça e as maritacas
Na praça havia uma moça com uma máscara colorida. Trazia o desenho de uma vaquinha, daquelas que encontramos em roupas infantis. Observava uma maritaca indo de um lado para o outro entre os galhos. Suspeitei que sorria, mantendo as mãos enluvadas sobre os joelhos.
Horas mais tarde, voltando para casa, ela continuava na mesma posição. Notei mais maritacas do que antes – como se atravessassem umas às outras. Seu nariz ainda mirava o céu. Parecia decidida no seu intento. Vi beleza naquela contemplação de uma talisca de natureza.
À noite, retornando outra vez para casa, a moça continuava lá. Imaginei então que só poderia estar esperando alguém, já que até as maritacas tinham desaparecido. Tão perto de casa, nunca tinha visto alguém passar tantas horas seguidas naquele lugar.
Pensei em me aproximar e sugerir que ela fosse para casa, já que havia escurecido bastante e a iluminação no local não era das melhores – insuficiente para agradar uma porção de mariposas. Mas tive receio de ser confundido com algum pervertido.
Pela manhã, a moça já estava lá. “Será que dormiu aqui ou retornou?” Quando tomei a decisão de me aproximar pelo menos o suficiente para saber se estava tudo bem, um caminhão encostou, um homem desceu e levou a moça embora. Uma das maritacas fez cocô no meu ombro e continuou voando com as outras. Acho que nunca vi uma manequim tão realista.
No mercado em tempos de coronavírus
Fui ontem ao mercado e levei um susto. Parecia um daqueles pré-feriados em que as pessoas se preparam para festejar no domingo. Cheio de gente. Acabei indo embora para retornar mais tarde. Quando voltei, encontrei um cenário de poucas mudanças.
Nos alto-falantes um funcionário pedia o tempo todo que as pessoas mantivessem distância de dois metros e não fizessem compras em grupos, que somente uma pessoa se deslocasse ao mercado, e no caso de idosos, que pedissem a alguém próximo para efetuar as compras.
Muita gente não respeitou isso. Havia uma senhora de mais de 70 anos esbarrando nas pessoas no setor de hortifruti, como se fosse apenas mais um dia normal de compras. Para ser honesto, havia inúmeros idosos no mercado.
Encontrei um homem com máscara abraçando uma conhecida que encontrou na entrada do mercado. Ué? Alguns caras batendo papo na entrada do mercado e alguns outros fazendo o mesmo lá dentro.
Vi também uma menina andando de patins dentro da loja. Estava acompanhada de um casal e ocasionalmente escorava nas gondolas para não se desequilibrar e também esbarrava nas pessoas.
Difícil foi transitar evitando contato, mas não impossível – bastando fazer volteios. Ainda hoje há pessoas que fazem questão de atravessar espaços onde já existe praticamente um amontoado de gente. Poucos respeitavam a distância estabelecida e solicitada pelo mercado de um cliente até outro (que reforçando – são apenas dois metros) – muitos outros não se importavam muito e achavam que um palmo de mão é o suficiente.
Quando uma mulher acompanhada do namorado ou marido se tocou que eu estava com os pés na faixa, que delimitava distância de um cliente ao outro, ela acordou pra situação e se afastou.
O mais estranho disso tudo é que o mercado precisa dizer o tempo todo o que as pessoas precisam fazer pela própria segurança delas – algo que elas deveriam saber faz tempo, desde que o coronavírus chegou ao Brasil e as primeiras recomendações passaram a ser promovidas. Isso prova que infelizmente ainda tem muita gente que não está levando a sério a situação.
Será que só o fato de ser uma doença nova e que já matou pessoas não deveria ser o suficiente para as pessoas agirem de forma mais responsável? Se não por si mesmas, pelo menos pelos outros. Mas o problema é que estamos imersos em uma sociedade em que pensar no outro não existe quando muitos não racionalizam nem o impacto para si mesmos.
Nos tornamos hipócritas
Todos nós nos tornamos hipócritas ao longo da vida, e por diversos fatores, incluindo contexto, assimilações, crenças e influências, mas a diferença é que há aqueles que reconhecem a própria hipocrisia partir de algum momento e, considerando implicação, optam por tentar diminui-la enquanto outros preferem ignorá-la e/ou ampliá-la.
Há muitas formas de hipocrisia, e tanto aquelas que aceitamos e incitamos podem ser tão prejudiciais quanto as que falseamos com outras roupagens para defender nossas inclinações, predileções e conveniências.
Para muitas pessoas o mundo diz que elas devem ser hipócritas e elas sustentam que esse é um tipo de lei da sobrevivência – que a hipocrisia permite um tipo de elevação que não a subtrai, mas proporciona algo tão belo e bom na sua artificialidade que subtrai as considerações de impacto da hipocrisia.
Basicamente o ser humano aprecia as hipocrisias convergentes aos seus interesses, mas deprecia as demais, que, pela própria força oposta ao alheamento, e com um pouco de atenção, iluminam o que ele gostaria de velar.
Coronavírus e os milhões de vulneráveis do Brasil
Trinta e cinco milhões de brasileiros vivem hoje em situação de extrema vulnerabilidade, sem acesso à água potável, e temos autoridades tratando o coronavírus como se não fosse uma situação de grande preocupação. É fácil analisar a realidade dessa forma ganhando 20, 30, 40 mil reais por mês, e ainda tendo outras regalias bancadas até mesmo às custas do sangue e suor dos mais miseráveis.
Acredito que quando um grave vírus ou doença surge em um país, em vez de priorizar a economia em detrimento da vida, o primeiro passo seria considerar o que precisa ser feito para que essas pessoas mais vulneráveis não sofram as consequências da displicência humana e de suas más ações. Não olhe para você para avaliar a situação, olhe para quem está no ponto mais baixo.
Até dias atrás me surpreendi um pouco acompanhando algumas notícias e vendo pessoas falarem em quarentena voluntária ou isolamento social como se fosse algo acessível para todo mundo; e inúmeros discursos fazendo a tal da quarentena parecer uma colônia de férias – “aproveite para assistir filmes, jogar, tocar instrumentos, se exercitar, ler livros, etc.”
Pelo nível do que foi transmitido, parecia que estavam se direcionando à população da Islândia. Temos vários Brasis, e alguns deles são de até dez pessoas vivendo no mesmo casebre, e ainda hoje sem saneamento básico e esgoto – sem comida de qualidade ou nenhuma comida (como 5,2 milhões de brasileiros), sem sabão, menos ainda acesso a álcool em gel.
O comércio aqui já não funciona normalmente e apenas mercados, farmácias e alguns outros tipos de estabelecimentos podem continuar abrindo, mas com algumas ressalvas e observações de conduta – como manter distância específica ou efetuar pagamento por uma janela ou outro meio sem qualquer contato muito próximo. Encontrei placas em um mercado pedindo que os consumidores sejam mais conscientes e não comprem todo o estoque de determinados produtos.
Quem faz isso, reconheço que teme o pior, mas isso não é motivo para pensar somente nas suas necessidades ou vontades. De alguma forma, me recordei de filmes de ficção apocalítica e pós-apocalíptica em que as pessoas priorizam somente a si mesmas e os seus. Mas a diferença é que parece que no mundo real o ser humano é sempre capaz de fazer isso antes mesmo de qualquer situação realmente caótica.
Isso me preocupa bastante, porque ainda que a situação não seja tão grave quanto pode ficar, se não reavaliarmos nosso papel no mundo e na maneira como nos importamos demais somente conosco, parece que estamos fadados a instaurar um caos inimaginável.
Em Curitiba, há medicamentos que estão faltando nas farmácias porque consumidores “leram ou ouviram” que tal remédio ajuda no combate do coronavírus, sem qualquer comprovação científica, e decidiram fazer estoque em casa, prejudicando pessoas que agora precisam desses medicamentos e já não os encontram com facilidade.
Já existe tanta coisa errada no Brasil desde que surgiram os primeiros casos confirmados de coronavírus, e as autoridades postergando a importância de decisões rápidas porque o “dinheiro vem em primeiro lugar”, que parece que a única solução para superar tudo isso seria um profundo exame de consciência, reeducação e o aperfeiçoamento da nossa capacidade de empatia e de consideração de valores.
São tantos sinais de que tudo isso é consequência das escolhas erradas que fazemos, das coisas que priorizamos em detrimento do que realmente importa. O coronavírus surgiu porque, na presunção ignorância, não nos importamos muito com o que acreditamos que não diz respeito a nós. E a verdade é que diz respeito a nós, mas também aos outros, e por ignorar o amplo mal que causamos que vivemos agora essa realidade.
Há tantas especulações sobre o que pode acontecer ou não, mas uma suspeita crescente que tenho é que se não estivermos preparados para mudar para melhor, talvez o coronavírus seja apenas um princípio de acontecimentos ainda piores que possam surgir.
Ser humano deseja ser observado
Hoje, possivelmente mais do que nunca, o ser humano deseja ser observado, porque ele crê que existir depende do acúmulo de observação. Quanto mais sou observado, mais existo, crê-se. A ideia de não ser observado, seja verdade ou apenas uma concepção, pode ser para ele o fortalecimento da crença do não estar aqui ou de não ser relevante.
Alguns podem chegar a imaginar-se, numa alegoria acidental, como aqueles personagens de jogos de plataforma em que a perda de força o torna transparente e imperceptível até o completo esmaecimento.
Mas é apenas uma consequência de iterados sinais sintomáticos de um fenômeno em que se dilui uma realidade perante outra, que pode não ser de fato uma representação da realidade, mas daquilo que acreditamos e concebemos como realidade, independente do percentual de verdade.
Chovia
Dias atrás, chovia quando eu retornava da academia para casa. Em menos de dois ou três minutos, senti os pés pesados – peso que massageava os dedos.
Minha imagem refletia na chuva que descia sem violência pelas galerias, nas paredes de vidro. Escorria pela minha cabeça e fazia cócegas no nariz. Sorria sozinho.
Quem me via, se via, não sei o que pensou, porque eu não mirava o que ia ou o que vinha. Só seguia. Abria boca e sentia pontadinhas no palato, suavidade da infância em forma d’água.
Um afago que vem do céu também faz as pessoas acelerarem. Preferi desacelerar porque não sei quando ela vai voltar.
Cachorro também cansa de não existir
Revirava o lixo quando levou o primeiro golpe no dorso. Teria vomitado se tivesse comido bem, mas só conseguia expelir uma pequena porção de plástico mole com raspas de goiabada e água da chuva que bebeu minutos antes de quedar na calçada de tijolinhos.
Quase ninguém via, sabia, menos ainda contava as dezenas de cicatrizes pelo corpo seviciado. Cinco anos nas ruas não são cinco dias, e continuar em pé deveria ter feito dele um ícone de resistência à violência. Tinha perdido um olho há mais de ano quando tentava atravessar a língua por um portão para comer um pedaço de pão francês caído no chão.
Não teve tempo de ver a ponta da vara de pesca atravessando o olho como agulha. Correu gritando o que ninguém ouvia. Já não funcionava e apodrecia, até que um dia, o olho caiu. Dizem que ficou observando o olho morto com o que restava – passava a pata com estranheza. Suave no desconhecimento. Não entendia o que entendia.
Mais de 20 companheiros mortos em menos de um ano. Atropelamento, envenenamento, espancamento. Talvez mais. Turma morria e renascia. Alguém teve a ideia de chamar de “Bando dos Sem” – sem casa, sem comida, sem atenção, sem nome, sem vida. Às vezes, quando encontravam outros famintos, se desse briga, dependendo do dia, alguém morria, não por maldade – por fome.
Logo estava sozinho de novo – a cinomose levou os dois últimos companheiros. Ninguém sabe como sobreviveu. Dizem que já teve casa, foi vacinado e abandonado com alguns meses de idade porque a criança “que o ganhou enjoou”. Terreno baldio murado, mato alto – pareceu um bom lugar para o papai descartar um jovenzinho. “Alguém o adotaria”. Conclusão da abstenção de culpa. Ninguém quis.
Ainda revirava o lixo quando se levantou e recebeu o segundo, terceiro, quarto e quinto chute. Pela primeira vez, não correu nem reagiu. Deitou no chão e a violência seguiu. “Cachorro também cansa de não existir”, picharam de branco no chão, onde sem nome, e por pouco, jazia um cão.
Atropelou um gato e partiu
Um motorista, assim como muitos, atropelou um gato e o deixou estirado no asfalto. Não se importou em saber se estava vivo ou morto. Não parecia importante uma vida menor do que os pneus de sua caminhonete.
Talvez partisse da consideração de que vidas são relevantes apenas quando convenientes. As outras, pouco importa, principalmente de criaturas menores que não verbalizam o que sentem.
Mas o gato ainda se movia, deitado à força no chão quente de verão. “Logo morre”, concluiu. Alguém viu e recolheu o animal que, muito ferido, não resistiu. Pela manhã, quando o motorista acordou, ouviu um miado vindo do banheiro.
Gatos não viviam na casa. Procurou, procurou, e os miados não paravam, apenas mudavam de cômodo a cômodo – e nada de encontrar qualquer felino. Desistiu da busca e foi para o trabalho.
No caminho, os miados vinham debaixo do carro. Não entendia como era possível. Ignorou e ligou o som. Miados nos alto-falantes. Ficou irritado, esmurrou o volante e acelerou com violência, até que perdeu o controle da caminhonete.
Atravessou a pista contrária e capotou duas vezes antes de atravessar uma mangueira, invadindo um pasto sem boi. Nenhum veículo parou para socorrê-lo. Era como se fosse invisível ou não estivesse ali.
Preso entre as ferragens, observava pela janela motoristas seguindo suas vidas. Alguns pedestres passaram ao seu lado e seguiram adiante. Ele agonizava dentro da caminhonete, e os miados já inexistiam.
Prestes a desmaiar, ouviu um miado e monologou, quase sem forças: “De novo? Então esse é o fim?” Um gato se aproximou, e miava tão alto que foi como se o tempo tivesse parado. As atenções se voltavam para o felino – veículos e pessoas assistiam.
Assim que o gato lambeu o motorista ferido, os paramédicos e os bombeiros se aproximaram. O homem sobreviveu, e no hospital perguntou pelo gato. “Que gato?”, replicavam a cada repetição da questão. Retornou muitas vezes ao local do acidente, e nenhum sinal felino.
O menino, o pau e o gato
Menino corria com o pau na mão pra acertar o gato. Aprendeu com o pai que o abandonou que quando um felino “invadisse o quintal era preciso mostrar quem mandava”.
Percebendo que não o alcançaria, lançou o pau. Faltava força. Caiu sobre o pé. Como chorava. De cima do muro, o gato observava o menino chororô.
Já não corria, porque a ameaça inexistia. Lambeu as patas e olhou mais uma vez antes de saltar muro afora. No dia seguinte, lá estava ele perseguindo novamente o gato, de um lado para o outro, até que tropeçou na bola e caiu de bunda na grama.
De novo, o gato só assistia. Lambeu um pouco o pelo acinzentado e desapareceu. Foi assim durante mais alguns dias, até que o menino teve um pesadelo em que o gato corria para a rua e sofria atropelado.
Quando se aproximou, o felino o chamou: “Venha, Natan. Se aproxime de mim.” Surpreso, o menino se abaixou e encostou o rosto pertinho da boca do gato que respirava com dificuldade.
“Você vai morrer?” “Sim, vou morrer porque você me obrigava a correr pra rua.” Natan silenciou e começou a chorar sobre o gato. Quando tentou abraçá-lo, o felino desapareceu como poeira, um buraco se abriu e Natan caiu, até que acordou.
Ficou pensativo na cama. Não sabia por que perseguia tanto o gato que o visitava todos os dias. Os por quês ganhavam formas para onde Natan olhasse – teto, espelho, debaixo da cama, nos livrinhos e nos brinquedos. Não sabia responder.
Quando saiu lá fora e o gato chegou, Natan não correu nem o expulsou. Ficou assistindo o bichano se aproximar com o rabo cheio de carrapicho. Tirou um a um e o gato nem se moveu.
Apenas deitou na grama com a barriga pra cima, deixando o sol aquecer seus pelos. Natan também deitou, sorriu e deu-lhe o nome de Sol, porque, segundo ele, “é quentinho como as manhãs de sol”.









