David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“22 de Julho”, a história de um massacre norueguês

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Lançado em 2018 e disponibilizado pela Netflix, o filme “22 de Julho” conta a história dos atentados terroristas de 22 de julho de 2011 em Oslo e Utøya, na Noruega, quando o nacionalista de extrema-direita Anders Behring Breivik causou a morte de 77 pessoas.
 
O filme apresenta simultaneamente duas realidades; a preparação de Breivik (Anders Danielsen Lie) em Oslo, antes do atentado, baseada em informações divulgadas a partir do seu próprio julgamento, e os acontecimentos que precederam o ataque em Utøya, onde dezenas de jovens da Liga da Juventude dos Trabalhadores, vinculada ao Partido Trabalhista Norueguês, estavam reunidos.
 
Depois de explodir bombas em um complexo de prédios do governo norueguês, mesmo sem saber o resultado do ato terrorista, Breivik parte para Utøya, onde, se passando por policial, consegue atravessar até o acampamento da Liga da Juventude. Antes de matar os participantes acomodados em um dos espaços, o assassino em massa antecipa que eles serão mortos por serem “liberais, marxistas…”
 
Alguns deles sobrevivem para contar o que aconteceu na ilha – caso de Viljarn Hanssen (Jonas Strand Gravli) – que ocupa papel de destaque no drama pela sua própria história de superação depois de sobreviver a cinco tiros disparados por Breivik e carregar estilhaços de bala no tronco cerebral que poderiam fazer com que morresse a qualquer momento.
 
Após matar 69 jovens em Utøya e se deparar com a chegada da polícia, Breivik, que parece ter ensaiado suas ações, friamente joga as armas no chão e se ajoelha com as mãos sobre a cabeça para ser preso – sem manifestar qualquer nervosismo. Daí em diante, com a sua prisão em flagrante, a história se direciona para a sua relação com o advogado Geir Lippestad (Jon Øigarden), que mesmo sendo filiado ao Partido Trabalhista, quando é convocado para representá-lo, acaba aceitando.
 
Esta decisão também teria consequências em sua vida – como ameaças de morte e um convite da direção da escola onde sua filha estuda para retirá-la de lá por pressão de outros pais. Mesmo em um espectro político oposto ao de Breivik, o terrorista o escolhe para a sua defesa porque Lippestad já havia atuado como advogado de um neonazista alguns anos antes.
 
O profissionalismo de Lippestad surpreende, porque mesmo diante de um homem que matou tantos jovens, destruiu tantas famílias, e que não demonstra qualquer remorso, ele ainda visita a mãe de Breivik e tenta convencê-la a testemunhar a favor do filho. No entanto, ela declina a proposta. Lippestad também vai atrás do único supremacista norueguês que consegue encontrar que teve algum contato com Breivik, mas por via online.
 
O homem concorda em dar um depoimento durante o julgamento, mas conquista a cólera do terrorista ao dizer que jamais partilharia de um plano como aquele, e que, embora Anders Breivik se refira a si mesmo como uma espécie de líder, ele poderia citar vários nomes que realmente representam um ideal de liderança muito melhor do que Breivik.
 
Momentos como esse revelam como o terrorista é um egomaníaco e possui transtorno de personalidade narcisista. No entanto, Lippestad decide tentar diagnosticá-lo como alguém que sofre de esquizofrenia paranoide, para garantir que Breivik cumpra pena em um hospital de segurança máxima em vez de uma prisão convencional.
 
A princípio, o terrorista concorda, mas depois muda de ideia – porque entende isso como um desrespeito “aos seus próprios ideais”, já que ele estaria se assumindo como alguém que agiu por influência de transtornos psicológicos, não por crenças políticas.
 
O que chama atenção em “22 de Julho” são alguns fatos pitorescos que destoam da realidade de muitos países. Por exemplo, Breivik não é hostilizado em nenhum momento pela polícia – não sofre ataques físicos nem verbais. Apesar dos crimes, ele tem preservado todos os direitos de qualquer outro cidadão.
 
Ademais, ele se vale da garantia dos direitos humanos na Noruega para fazer alguns pedidos incomuns, exigências e até mesmo debochar de algumas situações antes e durante o seu julgamento. Além disso, a sua cela não seria considerada cela em um país como o Brasil, avaliando o conforto oferecido a um condenado.
 
O filme também explora uma espécie de pobreza existencial do personagem, já que ele cria um universo fantasioso de contemplação em torno da própria figura – o que não condiz com a realidade. Breivik tenta fazer a polícia e o governo crer que ele tem muitos apoiadores, e que pertencia a um grupo grande.
 
A obra mostra um terrorista que tinha apenas uma relação vacilante com a mãe, de quem não parecia ser próximo, mesmo dividindo o mesmo espaço. O fato dela não querer testemunhar reforça também esse distanciamento familiar, já que no diálogo com o advogado ela não demonstra grande surpresa ou profunda emoção.
 
O diretor e roteirista Paul Greengrass demonstra cuidado em externalizar a pequenez do terrorista, e o faz explorando também a insegurança do protagonista que se ilude com a crença de ser o dono da situação. Breivik deseja ser condenado pelos crimes que cometeu, porque acredita que assim será reconhecido como uma espécie de herói da extrema-direita.
 
No entanto, ninguém da extrema-direita, pelo menos no recorte feito pelo filme com base no livro “Um de Nós”, de Åsne Seierstad, parece ter dado grande importância a Breivik à época – não que sua representatividade não existisse – mas não a ponto de angariar apoios massivos e explícitos. Talvez a cena que melhor represente que ele estava realmente sozinho é o momento em que pergunta ao advogado Lippestad se o visitará na prisão, e ele responde que não – e ainda se recusa a pegar na mão de Breivik quando a estende, o que não aconteceu no primeiro contato.
 
Esse momento funciona como uma sepultura viva para um assassino em massa que, mesmo imerso na idealização de um mundo que não cabe em uma realidade democrática e globalizada, ainda diz que se tivesse a oportunidade faria tudo de novo.
 
O ódio de Breivik, que o filme não faz questão de tentar explicar, talvez para evitar a humanização do terrorista, apenas dá pistas de que ele não tem empatia pelas pessoas, e que não vê problema em matá-las quando se opõem àquilo que ele qualifica como seus interesses maiores, que neste caso é uma suposta preservação da identidade norueguesa ameaçada pelo multiculturalismo acentuado pela globalização – na sua perspectiva – e que seu ódio pelo Partido Trabalhista Norueguês tem relação com o governo permitir que isso aconteça.
 
Greengrass não dedica o filme a condenar essa sua posição, talvez para não fazer do filme uma obra de engajamento político-partidário – mas a inadmissibilidade está mais no campo de suas ações do que de suas ideias – já que na Noruega não é crime ter tal ideologia. No entanto, o depoimento de Lara Rashid (Seda Witt), uma refugiada, dá voz lírica às incoerências da intransigência que culmina em violência quando ela pergunta o que fez para merecer tal destino – de ter sua irmã morta e ter sobrevivido ao atentado por pouco.
 
É difícil saber se a “simpatia” que o assassino manifesta pelo advogado Geir Lippestad é honesta, ou apenas uma necessidade de ter algum tipo de plateia para o seu próprio show – que a partir da condenação deixa de existir, já que ele é relegado a um confinamento que não o permite ter contato com outros detentos.
 
Interessante também é a forma como o filme explora, ainda que não em profundidade, as falhas do governo em não antever terrorismo por parte de nacionalistas de extrema-direita, mas apenas de “islâmicos” – como destacado na obra – o que revela também fragilidade de percepção, ainda que a Noruega seja uma nação de muitos recursos.
 
Enquanto Anders Breivik se apaga, com seu show tendo um curto prazo de validade que chega ao fim com a sua condenação, sendo relegado ao isolamento prisional, o jovem Viljarn Hanssen, sobrevivente icônico de 22 de julho de 2011, vê sua própria luz acender depois de muita luta pela sobrevivência e de enfrentamento da possibilidade de morrer a qualquer momento – sendo obrigado a reaprender a andar, se alimentar e a viver.
 
Sua libertação simbólica, que o afasta de seus pesadelos, surge quando ele consegue depor contra o seu algoz. Com uma história com tantos mortos, é difícil falar em vitória, mas é possível reconhecer que Breivik, que tencionava matar os chamados “líderes do futuro” na Noruega, teve e ainda tem de lidar com a realidade. Enquanto eles estão aqui fora, ele continua na prisão.

A lição de Memo em “Milagre na Cela 7”

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Lançado em outubro de 2019 pela Netflix, “Milagre na Cela 7”, dirigido por Mehmet Ada Öztekin, é a versão turca do filme homônimo coreano de 2013 e conta a história de um jovem pai com necessidades especiais que é condenado a morte após ser acusado de matar a filha de um coronel do Exército.

Memo acompanhava Seda, colega de escola de sua filha Ova, em suas brincadeiras quando ela sofre um acidente e acaba falecendo. Com dificuldade em se defender das acusações, já que ninguém o ouve por causa das suas limitações cognitivas, Memo é condenado por assassinato e sofre diversos tipos de violência – física, moral e espiritual.

Muitas vezes chamado de “retardado” pela sua própria condição, o protagonista vive em um mundo particular e alheio à maldade, logo diverso à realidade, o que o impede de reconhecer malícias e intenções. Prova disso são os momentos na cadeia em que ele pergunta quando poderá voltar para casa – sem ter real dimensão da situação em que o colocaram.

Mas se Memo parece não saber nada sobre as antipatias e perversidades do mundo, por outro lado, ele dá mostras de muita sabedoria nas relações familiares e na capacidade de transformar o mundo de quem permite uma pequena aproximação.

Assim, a partir da sua própria percepção fluída, sensível e singela de uma realidade em que muitas vezes as pessoas se negam a celebrar o que realmente deveria dar sentido ao viver, ele modifica sem muito esforço a mente e o coração de pessoas – e mais por suas ações do que por suas palavras pouco compreendidas.

Em “Milagre na Cela 7”, Memo, condenado à morte, se torna um guia involuntário para aqueles que até então não conheciam a força e gratidão do perdão e da redenção. A fotografia do filme é digna de destaque em diversos momentos, principalmente quando a vida e a simplicidade são celebradas na natureza – onde as cenas bucólicas ganham um ritmo diferenciado.

Um dos pontos negativos, mas que não anula o valor do filme, são alguns subsequentes momentos melodramáticos que lembram as telenovelas. No mais, “Milagre na Cela 7” soa como um manifesto à vida no seio da injustiça e um respiro de esperança para aqueles que acreditam que foram esquecidos por ela – ou que a esqueceram sem perceber.

Os marginalizados em Fellini e Buñuel

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Um dos meus filmes preferidos do Fellini é “A Estrada da Vida”. Já foi uma das obras mais subestimadas do cinema internacional. O enredo me remete em alguns aspectos a “Os Esquecidos”, do Buñuel, também um dos meus preferidos.

Traz a interpretação mais icônica da Giulietta Masina em início de carreira, como a inocente e sonhadora ajudante Gelsomina que acompanha um sáfaro artista de rua após ser vendida por uma porção de moedas.

Os dois filmes são da década de 1950, e creio que talvez Fellini tenha conhecido a fase mexicana do espanhol alguns anos antes. O que me agrada na história de cada obra, entre outros elementos, são as nuances de escapismo que fogem ao melodrama para abordar miséria humana, realidade social, condicionamento, esperança e descrença.

Ainda assim, os dois trazem poesia e lirismo, seja a partir da condição onírica dos personagens da obra mexicana, que são garotos pobres sem perspectiva de futuro e reféns da violência que buscam amparo para a própria carência; ou da antítese de Gelsomina e Zampano – que são como água e óleo – ela é romântica e sonhadora, entregue a uma condição platônica de viver, e ele o oposto disso – o distanciamento físico também é um reforçador – e assim vão se equilibrando e se desequilibrando perante as necessidades.

Nos dois filmes há personagens brutos de contextos diferentes, mas que nascem de uma miséria análoga, praticamente universalizada, onde aquele que sobrevive, como numa escala predatória, são os menos suscetíveis aos arroubos e impactos da sensibilidade – como se sentir, consoante intensidade, pudesse também em longo prazo ser um prólogo do próprio definhamento.

Quando assisti os dois pela primeira vez, notei a influência do neorrealismo, embora Fellini tenha sido criticado pela abordagem que destoa da corrente tradicional (da qual ele nunca fez parte), mas ainda assim o desfecho não deixa de surpreender. Além disso, são filmes que fixam na mente por dias e te impulsionam a uma série de analogias com a realidade atual, que, em determinados aspectos, nada mudou de lá pra cá.

Written by David Arioch

April 6th, 2020 at 12:46 am

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A moça e as maritacas

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Na praça havia uma moça com uma máscara colorida. Trazia o desenho de uma vaquinha, daquelas que encontramos em roupas infantis. Observava uma maritaca indo de um lado para o outro entre os galhos. Suspeitei que sorria, mantendo as mãos enluvadas sobre os joelhos.

Horas mais tarde, voltando para casa, ela continuava na mesma posição. Notei mais maritacas do que antes – como se atravessassem umas às outras. Seu nariz ainda mirava o céu. Parecia decidida no seu intento. Vi beleza naquela contemplação de uma talisca de natureza.

À noite, retornando outra vez para casa, a moça continuava lá. Imaginei então que só poderia estar esperando alguém, já que até as maritacas tinham desaparecido. Tão perto de casa, nunca tinha visto alguém passar tantas horas seguidas naquele lugar.

Pensei em me aproximar e sugerir que ela fosse para casa, já que havia escurecido bastante e a iluminação no local não era das melhores – insuficiente para agradar uma porção de mariposas. Mas tive receio de ser confundido com algum pervertido.

Pela manhã, a moça já estava lá. “Será que dormiu aqui ou retornou?” Quando tomei a decisão de me aproximar pelo menos o suficiente para saber se estava tudo bem, um caminhão encostou, um homem desceu e levou a moça embora. Uma das maritacas fez cocô no meu ombro e continuou voando com as outras. Acho que nunca vi uma manequim tão realista.

Written by David Arioch

April 3rd, 2020 at 10:41 pm

No mercado em tempos de coronavírus

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Arte: Shutterstock

Fui ontem ao mercado e levei um susto. Parecia um daqueles pré-feriados em que as pessoas se preparam para festejar no domingo. Cheio de gente. Acabei indo embora para retornar mais tarde. Quando voltei, encontrei um cenário de poucas mudanças.

Nos alto-falantes um funcionário pedia o tempo todo que as pessoas mantivessem distância de dois metros e não fizessem compras em grupos, que somente uma pessoa se deslocasse ao mercado, e no caso de idosos, que pedissem a alguém próximo para efetuar as compras.

Muita gente não respeitou isso. Havia uma senhora de mais de 70 anos esbarrando nas pessoas no setor de hortifruti, como se fosse apenas mais um dia normal de compras. Para ser honesto, havia inúmeros idosos no mercado.

Encontrei um homem com máscara abraçando uma conhecida que encontrou na entrada do mercado. Ué? Alguns caras batendo papo na entrada do mercado e alguns outros fazendo o mesmo lá dentro.

Vi também uma menina andando de patins dentro da loja. Estava acompanhada de um casal e ocasionalmente escorava nas gondolas para não se desequilibrar e também esbarrava nas pessoas.

Difícil foi transitar evitando contato, mas não impossível – bastando fazer volteios. Ainda hoje há pessoas que fazem questão de atravessar espaços onde já existe praticamente um amontoado de gente. Poucos respeitavam a distância estabelecida e solicitada pelo mercado de um cliente até outro (que reforçando – são apenas dois metros) – muitos outros não se importavam muito e achavam que um palmo de mão é o suficiente.

Quando uma mulher acompanhada do namorado ou marido se tocou que eu estava com os pés na faixa, que delimitava distância de um cliente ao outro, ela acordou pra situação e se afastou.

O mais estranho disso tudo é que o mercado precisa dizer o tempo todo o que as pessoas precisam fazer pela própria segurança delas – algo que elas deveriam saber faz tempo, desde que o coronavírus chegou ao Brasil e as primeiras recomendações passaram a ser promovidas. Isso prova que infelizmente ainda tem muita gente que não está levando a sério a situação.

Será que só o fato de ser uma doença nova e que já matou pessoas não deveria ser o suficiente para as pessoas agirem de forma mais responsável? Se não por si mesmas, pelo menos pelos outros. Mas o problema é que estamos imersos em uma sociedade em que pensar no outro não existe quando muitos não racionalizam nem o impacto para si mesmos.

Nos tornamos hipócritas

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(Acervo Folio Weekly)

Todos nós nos tornamos hipócritas ao longo da vida, e por diversos fatores, incluindo contexto, assimilações, crenças e influências, mas a diferença é que há aqueles que reconhecem a própria hipocrisia partir de algum momento e, considerando implicação, optam por tentar diminui-la enquanto outros preferem ignorá-la e/ou ampliá-la.

Há muitas formas de hipocrisia, e tanto aquelas que aceitamos e incitamos podem ser tão prejudiciais quanto as que falseamos com outras roupagens para defender nossas inclinações, predileções e conveniências.

Para muitas pessoas o mundo diz que elas devem ser hipócritas e elas sustentam que esse é um tipo de lei da sobrevivência – que a hipocrisia permite um tipo de elevação que não a subtrai, mas proporciona algo tão belo e bom na sua artificialidade que subtrai as considerações de impacto da hipocrisia.

Basicamente o ser humano aprecia as hipocrisias convergentes aos seus interesses, mas deprecia as demais, que, pela própria força oposta ao alheamento, e com um pouco de atenção, iluminam o que ele gostaria de velar.

 

Coronavírus e os milhões de vulneráveis do Brasil

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(Foto: Acervo/Justificando)

Trinta e cinco milhões de brasileiros vivem hoje em situação de extrema vulnerabilidade, sem acesso à água potável, e temos autoridades tratando o coronavírus como se não fosse uma situação de grande preocupação. É fácil analisar a realidade dessa forma ganhando 20, 30, 40 mil reais por mês, e ainda tendo outras regalias bancadas até mesmo às custas do sangue e suor dos mais miseráveis.

Acredito que quando um grave vírus ou doença surge em um país, em vez de priorizar a economia em detrimento da vida, o primeiro passo seria considerar o que precisa ser feito para que essas pessoas mais vulneráveis não sofram as consequências da displicência humana e de suas más ações. Não olhe para você para avaliar a situação, olhe para quem está no ponto mais baixo.

Até dias atrás me surpreendi um pouco acompanhando algumas notícias e vendo pessoas falarem em quarentena voluntária ou isolamento social como se fosse algo acessível para todo mundo; e inúmeros discursos fazendo a tal da quarentena parecer uma colônia de férias – “aproveite para assistir filmes, jogar, tocar instrumentos, se exercitar, ler livros, etc.”

Pelo nível do que foi transmitido, parecia que estavam se direcionando à população da Islândia. Temos vários Brasis, e alguns deles são de até dez pessoas vivendo no mesmo casebre, e ainda hoje sem saneamento básico e esgoto – sem comida de qualidade ou nenhuma comida (como 5,2 milhões de brasileiros), sem sabão, menos ainda acesso a álcool em gel.

O comércio aqui já não funciona normalmente e apenas mercados, farmácias e alguns outros tipos de estabelecimentos podem continuar abrindo, mas com algumas ressalvas e observações de conduta – como manter distância específica ou efetuar pagamento por uma janela ou outro meio sem qualquer contato muito próximo. Encontrei placas em um mercado pedindo que os consumidores sejam mais conscientes e não comprem todo o estoque de determinados produtos.

Quem faz isso, reconheço que teme o pior, mas isso não é motivo para pensar somente nas suas necessidades ou vontades. De alguma forma, me recordei de filmes de ficção apocalítica e pós-apocalíptica em que as pessoas priorizam somente a si mesmas e os seus. Mas a diferença é que parece que no mundo real o ser humano é sempre capaz de fazer isso antes mesmo de qualquer situação realmente caótica.

Isso me preocupa bastante, porque ainda que a situação não seja tão grave quanto pode ficar, se não reavaliarmos nosso papel no mundo e na maneira como nos importamos demais somente conosco, parece que estamos fadados a instaurar um caos inimaginável.

Em Curitiba, há medicamentos que estão faltando nas farmácias porque consumidores “leram ou ouviram” que tal remédio ajuda no combate do coronavírus, sem qualquer comprovação científica, e decidiram fazer estoque em casa, prejudicando pessoas que agora precisam desses medicamentos e já não os encontram com facilidade.

Já existe tanta coisa errada no Brasil desde que surgiram os primeiros casos confirmados de coronavírus, e as autoridades postergando a importância de decisões rápidas porque o “dinheiro vem em primeiro lugar”, que parece que a única solução para superar tudo isso seria um profundo exame de consciência, reeducação e o aperfeiçoamento da nossa capacidade de empatia e de consideração de valores.

São tantos sinais de que tudo isso é consequência das escolhas erradas que fazemos, das coisas que priorizamos em detrimento do que realmente importa. O coronavírus surgiu porque, na presunção ignorância, não nos importamos muito com o que acreditamos que não diz respeito a nós. E a verdade é que diz respeito a nós, mas também aos outros, e por ignorar o amplo mal que causamos que vivemos agora essa realidade.

Há tantas especulações sobre o que pode acontecer ou não, mas uma suspeita crescente que tenho é que se não estivermos preparados para mudar para melhor, talvez o coronavírus seja apenas um princípio de acontecimentos ainda piores que possam surgir.

Ser humano deseja ser observado

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Ilustração: Steve Cutts

Hoje, possivelmente mais do que nunca, o ser humano deseja ser observado, porque ele crê que existir depende do acúmulo de observação.  Quanto mais sou observado, mais existo, crê-se. A ideia de não ser observado, seja verdade ou apenas uma concepção, pode ser para ele o fortalecimento da crença do não estar aqui ou de não ser relevante.

Alguns podem chegar a imaginar-se, numa alegoria acidental, como aqueles personagens de jogos de plataforma em que a perda de força o torna transparente e imperceptível até o completo esmaecimento.

Mas é apenas uma consequência de iterados sinais sintomáticos de um fenômeno em que se dilui uma realidade perante outra, que pode não ser de fato uma representação da realidade, mas daquilo que acreditamos e concebemos como realidade, independente do percentual de verdade.

 

Chovia

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Dias atrás, chovia quando eu retornava da academia para casa. Em menos de dois ou três minutos, senti os pés pesados – peso que massageava os dedos.

Minha imagem refletia na chuva que descia sem violência pelas galerias, nas paredes de vidro. Escorria pela minha cabeça e fazia cócegas no nariz. Sorria sozinho.

Quem me via, se via, não sei o que pensou, porque eu não mirava o que ia ou o que vinha. Só seguia. Abria boca e sentia pontadinhas no palato, suavidade da infância em forma d’água.

Um afago que vem do céu também faz as pessoas acelerarem. Preferi desacelerar porque não sei quando ela vai voltar.

Cachorro também cansa de não existir

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Revirava o lixo quando levou o primeiro golpe no dorso. Teria vomitado se tivesse comido bem, mas só conseguia expelir uma pequena porção de plástico mole com raspas de goiabada e água da chuva que bebeu minutos antes de quedar na calçada de tijolinhos.

Quase ninguém via, sabia, menos ainda contava as dezenas de cicatrizes pelo corpo seviciado. Cinco anos nas ruas não são cinco dias, e continuar em pé deveria ter feito dele um ícone de resistência à violência. Tinha perdido um olho há mais de ano quando tentava atravessar a língua por um portão para comer um pedaço de pão francês caído no chão.

Não teve tempo de ver a ponta da vara de pesca atravessando o olho como agulha. Correu gritando o que ninguém ouvia. Já não funcionava e apodrecia, até que um dia, o olho caiu. Dizem que ficou observando o olho morto com o que restava – passava a pata com estranheza. Suave no desconhecimento. Não entendia o que entendia.

Mais de 20 companheiros mortos em menos de um ano. Atropelamento, envenenamento, espancamento. Talvez mais. Turma morria e renascia. Alguém teve a ideia de chamar de “Bando dos Sem” – sem casa, sem comida, sem atenção, sem nome, sem vida. Às vezes, quando encontravam outros famintos, se desse briga, dependendo do dia, alguém morria, não por maldade – por fome.

Logo estava sozinho de novo – a cinomose levou os dois últimos companheiros. Ninguém sabe como sobreviveu. Dizem que já teve casa, foi vacinado e abandonado com alguns meses de idade porque a criança “que o ganhou enjoou”. Terreno baldio murado, mato alto – pareceu um bom lugar para o papai descartar um jovenzinho. “Alguém o adotaria”. Conclusão da abstenção de culpa. Ninguém quis.

Ainda revirava o lixo quando se levantou e recebeu o segundo, terceiro, quarto e quinto chute. Pela primeira vez, não correu nem reagiu. Deitou no chão e a violência seguiu. “Cachorro também cansa de não existir”, picharam de branco no chão, onde sem nome, e por pouco, jazia um cão.