David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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O Brasil vai virar uma Venezuela com o PT?

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Não vejo como isso seria possível considerando fatores como territorialidade, configuração macroeconômica e disposição de recursos naturais. A Venezuela é um país que tem como principal fonte econômica o petróleo, diferentemente do Brasil que dispõe de inúmeros recursos naturais e economia fundamentalmente multifária. Além disso, o nosso vizinho tem pouco mais de 916 mil quilômetros quadrados e 31 milhões de pessoas, e o Brasil tem 8,6 milhões de quilômetros quadrados e uma população de 207,7 milhões de pessoas.

A Venezuela sofre pressões externas há muito tempo, e há indicadores de que na mesma proporção dos países do Tratado do Atlântico Norte. E quando falamos então em geopolítica e relações internacionais, peço apenas que você faça o seguinte exercício. Nessa reta final das eleições, onde os temores de tanta gente se direcionam para a possibilidade de um “Brasil Venezuelano”, as notícias lá fora são mais favoráveis ao Bolsonaro ou ao Haddad? As críticas são mais direcionadas a quem? Assim você terá sua resposta. América do Norte, Europa e Ásia publicam diariamente notícias sobre o impacto negativo de uma vitória do candidato Jair Messias Bolsonaro (PSL). Sendo assim, quem será que tem mais impacto negativo no mercado? Quem será que traz mais medo e incertezas especulativas?

Venezuela, que apesar de tudo não está no mesmo espectro da Coreia do Norte de King Jong-un, já que Nicolás Maduro foi eleito pela própria população, não é um exemplo de Estado porque cometeu um grave erro de supervalorizar a soberania e desconsiderar o mais importante que são os interesses da população. Correu um risco, com uma economia sucateada e fundamentada no petróleo, e infelizmente muita gente está pagando o preço por esse erro que levou a miséria a níveis estratosféricos. E o mais estranho, é que transversalmente Bolsonaro está mais próximo da Venezuela do que Haddad. Mas como assim?

Bolsonaro já deixou claro antes mesmo das eleições que quer usar o petróleo nacional como moeda de troca pelo protecionismo estadunidense como mecanismo de fortalecimento de um governo menos democrático, o que naturalmente me lembra o que aconteceu no Brasil pré-ditadura militar quando os militares em parceria com os EUA criaram factoides para fundamentar a derrubada de Jango (fizeram uma maquiagem para transformar a imagem de um ruralista em suposto “comunista” e inimigo da nação), e fizeram isso porque queriam submeter a economia brasileira à “americana”, considerando que o Brasil tinha todos os predicados para não se submeter aos EUA. Mas isso era inconcebível porque o Brasil, enquanto reserva estratégica, possuía matérias-primas de alto valor que eram do interesse dos EUA, mas que eles não teriam condições de ter acesso se não fosse em decorrência da emergência da ditadura militar.

Ademais, no Brasil, partidos chamados de esquerda como o PT nem mesmo defendem uma economia planificada, em que todo o sistema de produção é deixado sob controle estatal (que se enquadra nas ideias que costumam associar com um suposto “socialismo” a caminho do “comunismo”. Afinal, o socialismo é o passo instancial do comunismo) – logo não há como o Brasil ter qualquer proximidade com a realidade venezuelana. Bolsonaro, que se esconde sob uma propaganda neoliberal, quer um estado econômico intervencionista e protecionista (por isso, deu um “cala a boca” no “neoliberal de Chicago” Paulo Guedes nas últimas semanas), e Haddad já segue um plano mais próximo das medidas heterodoxas do keynesianismo. Pra entender um pouco melhor, vamos voltar no tempo. Com a saída do PSDB do comando da nação em 2003, o Brasil começou a abandonar uma política econômica mais reacionária se tratando de questões fiscais e monetárias, e motivado pela necessidade de uma política pragmática que considerou o cenário da adversidade econômica mundial.

Hoje, anos depois, Haddad se mostra mais próximo da corrente keynesiana desenvolvimentista, que prevê flexibilização no combate à inflação visando a manutenção do crescimento do produto interno e do emprego sem sacrificar as políticas sociais. Além disso, o PT, que já flertou inclusive com o chamado “neoliberalismo do PSDB”, não poderia estar mais longe do que chamam de um demonizado “estado socialista” ou “comunista”, até por cortejar a visão social da escola de Myrdal ou Estocolmo, que se volta para um estado de bem-estar social, e que tem como exemplos de modelos mais bem-sucedidos a realidade dos países escandinavos que vivem a social-democracia.

Curiosamente, é um modelo que inspira e se distancia da economia do modelo estadunidense baseado na escola neoliberal de Chicago, a mesma de onde saiu o economista Paulo Guedes, que Bolsonaro indicou como ministro da fazenda. Chomsky, que conheceu bem o trabalho de Guedes, declarou recentemente que o economista brasileiro tem uma visão macroeconômica e de resolução de problemas ultrapassada e que seria um desastre para a economia de um país com as proporções do Brasil, que é o quinto maior do mundo, e onde ainda há muita concentração de renda nas mãos de poucas pessoas.

Não posso deixar de frisar também que se o PT fosse “comunista” já estaríamos vivendo em uma Venezuela. O Lula ascendeu ao poder quando eu estava saindo da adolescência, e se a intenção fosse essa, por que ele não transformou o país em uma Venezuela antes? Por que ele não planejou uma fuga quando ordenaram sua prisão? Por que o PT não fez uma revolução após o impeachment de Dilma Rousseff? Afinal, não é isso que se faz sob o manto do autoritarismo? Do pseudo-socialismo ou do pseudo-comunismo? Até porque, obviamente, autocratas não aceitam decisões contrárias às suas, não aceitam se submeter às leis ou determinações de um congresso. Eles estão acima de tudo. Mas ainda assim o PT não fez mais do que resistir no campo judiciário.

Não imagino como no tempo presente conseguiriam transformar uma nação de proporções continentais, a quinta maior do mundo, em um “país comunista”. O Brasil nunca se aproximou de fato do “comunismo”. Sim, temos figuras políticas que já tiveram contato e relações com líderes de outras nações de caráter democrático duvidoso, mas nada mais do que isso. Se você estudar a história do Brasil no período da pré-ditadura militar isso fica ainda mais evidente. Além disso, as experiências negativas do passado estão sempre servindo de lição para uma revisão de autoavaliação constante.

Considere também a quantidade de acordos que o PT, assim como outros partidos que comandaram o Brasil, fez ao longo dos anos, inclusive com inimigos históricos na consideração de pautas e projetos. É apenas realidade de um mundo pragmático. Afinal, políticas e partidos diluem-se entre si quando se trata de certas questões, o que é um desdobramento do nosso engessado sistema político. O próprio apoio concedido à JBS no governo petista, e tão apontado por tanta gente, seria inconcebível em um “estado “comunista”. Governantes que visam uma guinada tão radical nunca seriam tão suscetíveis. O Brasil é um país com uma configuração política bem simples – democracia delimitada, guiada e dinamitada pelo dinheiro, assim como outras nações chamadas de “nações em desenvolvimento”.

Written by David Arioch

October 10th, 2018 at 9:12 pm

Acredito que veganos votando no Bolsonaro estão sendo os mais especistas

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Eu acredito realmente que veganos votando no Bolsonaro estão sendo os mais especistas. A lógica é simples. Esse voto é uma reação de ódio ao PT, e nesse caso quem vai pagar a conta são os animais, simplesmente porque a cólera humana desconsidera até mesmo as lutas em defesa dos mais vulneráveis. E ódio é uma manifestação de ego, uma manifestação de veleidade.

Não vejo maior prova disso do que o endosso às três bancadas que historicamente neste país mais desprezaram os animais – ruralista, religiosa e armamentista. Ninguém nega que a JBS cresceu assustadoramente no governo PT, e que há sim muita culpa nos benefícios concedidos a JBS, mas, francamente, eu não vou ficar olhando pra trás quando um candidato a presidente já firmou compromisso para os próximos quatro anos de transformar o Brasil em um inferno ainda mais visceral para os animais, com apoio de centenas de deputados que olham para os animais como objetos, bens de consumo e até mesmo lixo.

Estou falando de um cara que apoia abertamente caça (não me interessa se ele citou apenas javali, caça é caça. E ainda por cima firmou compromisso com o Clube de Caça de Goiânia). O sujeito apoia vaquejada, pesca em área de proteção ambiental, já disse que vai sair do Acordo de Paris, que é o único compromisso do Brasil com a redução da emissão de gases do efeito estufa. O indivíduo deixou claro que as questões ambientais passarão pela bancada ruralista, o que coloca as nossas reservas naturais em risco mais premente. Estou fora de apoiar alguém assim.

 

Written by David Arioch

October 10th, 2018 at 3:09 pm

Bancada ruralista, Bolsonaro e meio ambiente

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Bancada ruralista, com seus 261 deputados federais e senadores, anunciou hoje apoio à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). Depois que votar no Messias, não esqueça de compartilhar aquelas matérias sobre o impacto da agropecuária no meio ambiente, aquelas reportagens contra a exportação de animais vivos.

Acredito que o tipo de apoio que um candidato recebe diz muito sobre quem ele realmente vai representar. Até porque apoios que não são bem-vindos são prontamente rejeitados. Bancada BBB, não, obrigado. Líderes “evangélicos” de moral duvidosa mandando pastores pedirem votos aos fiéis, grandes empresários forçando seus anseios políticos sobre seus funcionários, mesmo que para isso seja necessário dissimular um cenário fantasioso.

Posso estar exagerando, mas isso me lembra a política do café com leite, ou mesmo notícias atemporais de patrões que “levavam” os empregados para votar. Meu avô me contava muito essas histórias. Fico imaginando qual vai ser o futuro de uma nação onde uma vitória política pode significar a fusão de um ministério tão importante quanto o do meio ambiente com o da agricultura, ainda mais em um país onde o lucro está acima de tudo. O que pensariam sobre isso figuras como Chico Mendes, a freira Dorothy Stang, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo? Mortos brutalmente tentando defender aquilo que não tem preço – o meio ambiente.

Vivemos no país que mais mata ativistas ambientais, e há pessoas que querem eleger um sujeito que inclusive sugeriu o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 916/13, que previa a proibição aos agentes de fiscalização ambiental de usarem armas de fogo. Que momento estranho, que realidade estranha.

Written by David Arioch

October 2nd, 2018 at 9:11 pm

Por que a massiva “má interpretação” de um discurso político não é um problema da população, mas sim do candidato

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Desde o início de sua campanha, Jair Messias Bolsonaro (PSL) está envolto em polêmicas. Seus defensores dizem que seus discursos, assim como do General Mourão, são frequentemente mal interpretados, que há má-fé. Exemplos são as recentes questões do 13º salário e de filhos criados sem pais. Eu discordo. Quando você se lança na política, você precisa entender em primeiro lugar a importância da boa retórica, do discurso, da clareza e da capacidade em transmitir o que realmente pensa, acredita e defende. É por isso que existe marketing eleitoral. Tenho amigos que trabalham nessa área há décadas, e os mais experientes dizem sempre que o que muitos eleitores interpretam é mais um problema do candidato do que do eleitor, porque a sua obrigação é não dar margem para a dubiedade, para crassos equívocos. Se você faz isso, sua equipe está equivocada e você está despreparado, simplesmente.

Written by David Arioch

September 30th, 2018 at 5:52 pm