David Arioch – Jornalismo Cultural

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Grileiros tomavam conta da Brasileira

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Em 1935, o povoado era habitado apenas por pioneiros corajosos e posseiros

Intervenção federal na Brasileira só aconteceu em 1936 (Foto: Reprodução)

Na década de 1930, quando a Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foi abandonada por grande parte de seus habitantes, ficaram apenas os pioneiros mais corajosos e grileiros que logo começaram a tomar conta do povoado.

Em 1935, a Brasileira se dividia entre pioneiros que não queriam abrir mão do novo lar e grileiros que chegavam de todas as partes do país. Nenhum dos remanescentes se deixava intimidar, mesmo com a intervenção federal de Manoel Ribas. “Havia poucos colonos. Naquele tempo, tinha que ter muita coragem pra vir pra cá, então dá pra imaginar que quem se aventurava na Fazenda Brasileira estava sujeito a duas coisas: matar ou morrer”, relata o pioneiro cearense João Mariano.

Sede da Brasileira na década de 1930

Mesmo com poucos moradores no povoado, a briga por terras se acirrou. Posseiros trocavam ameaças sem se importar com os transeuntes, o que já dava a ideia de que algo muito ruim viria depois. Quando o Governo do Paraná decidiu intervir, dando prazo de 90 dias para os grileiros desocuparem as áreas invadidas, a situação já estava fora de controle. “Seria preciso muito mais que isso pra fazer esse pessoal desapropriar as terras”, destaca Mariano, acrescentando que chegou um momento em que ninguém mais trocava ameaças, simplesmente matava o seu desafeto.

À luz do dia, não era raro ouvir tiros vindo de várias direções. Cadáveres eram vistos em meio ao povoado, caídos sobre o solo arenoso. Dependendo da intensidade da corrente de ar, a terra cobria superficialmente o morto. Aqueles que não tinham familiares eram deixados onde estavam, abandonados sobre o chão, até começarem a se decompor. Apenas quando o odor da volatização de cadaverina e putrescina se tornava insuportável que alguém dava um jeito de se livrar do corpo.

“Mas a vida continuava. Afinal, quem tinha peito pra interferir?”, questiona o pioneiro, lembrando que quem quisesse viver na colônia tinha que lidar com a morte como se fosse algo natural e cotidiano. À época, acontecia do moribundo agonizar no chão enquanto suplicava por ajuda. Mesmo assim, as pessoas passavam ao lado ignorando sua presença.

Telmo Ribeiro chegou na Brasileira com um grupo de mercenários paraguaios

A ambição e a ganância em conseguir por meio da força um pouco dos 317 mil alqueires de terras da Fazenda Brasileira custou a vida de muita gente. Estima-se que dezenas de pessoas foram assassinadas nesse período, embora seja impossível precisar o total de vítimas. Muitos crimes eram ocultados pelos jagunços que se livravam dos cadáveres nas imediações do Porto São José, na Lagoa do Jacaré, confluente do Rio Paraná. “Os corpos eram despejados lá porque os jacarés comiam a carne humana, eliminando as provas do crime”, garante o pioneiro mineiro Sátiro Dias de Melo.

Em 1936, quando a Brasileira começou a ganhar fama em todo o Paraná pela onda de crimes, o governo federal pressionou o interventor Manoel Ribas que enviou para cá o tenente gaúcho Telmo Ribeiro, famoso por métodos menos ortodoxos de impor ordem. Com o tenente, conhecido como rápido no gatilho, veio um grupo de mercenários paraguaios de Pedro Juan Caballero. Não levaram mais do que alguns meses para dar fim ao clima de faroeste que imperava no povoado. Segundo pioneiros, melhoraram a situação ao preço de muitas mortes.

Quando a Brasileira entrou em decadência

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Na década de 1930, o progresso de Paranavaí foi comprometido pelo esvaziamento populacional

Tourinho retomou áreas da Brasileira para o Estado (Foto: Reprodução)

Decreto criado pelo Governo do Paraná em 1931, limitando a quantidade de terras a 200 hectares por pessoa ou família, desestimulou colonizadores a ficarem na Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Alguns deixaram o povoado quando souberam que a colonização seria supervisionada pelo governo estadual. Para os oportunistas, era algo que poderia comprometer a exploração da mão de obra barata. Por isso, vários contratantes convenceram muitos colonos a partirem. A consequência foi o esvaziamento populacional.

Em 8 de abril de 1931, o interventor e general Mário Tourinho, ciente da onda de crimes na Fazenda Brasileira, assinou decreto retomando as terras da localidade para o Estado e autorizando o início dos loteamentos da então futura Paranavaí. Por essa atitude há quem responsabilize Tourinho pelo início da decadência da Brasileira, já que as terras sob controle do governo estadual trouxeram a Paranavaí uma enorme burocracia. Pioneiros afirmam que a morosidade para se conseguir um terreno fez muitos moradores irem embora para outros povoados, locais onde o acesso à terra era mais fácil.

Outros defendem que o decreto afastou muitos colonizadores porque estes viviam da exploração dos colonos nordestinos, vistos como mão de obra barata pelos pioneiros do Sul e Sudeste. “A informação de que o governo acompanharia de perto tudo que acontecia na colônia intimidou muita gente”, relata o pioneiro cearense João Mariano. Alguns proprietários rurais tentaram convencer os colonos a irem embora com eles, fazendo promessas de melhor remuneração e também de boas condições de trabalho.

A situação era tão ruim que muitos colonos trabalhavam apenas para comer e ainda assim ficavam endividados. “Quando o sujeito ia até a venda acertar as contas era informado que estava em débito, então além de não ter condições de viver com dignidade, ele não podia ir embora porque corria risco, já que estava devendo. O patrão sempre dava um jeito de endividar o empregado”, relata Mariano.

Manoel Ribas (ao centro) veio para a Brasileira em 1933

Em 1933, o interventor Manoel Ribas visitou a Fazenda Brasileira. Naquele tempo, o acesso ao povoado só era possível por uma estrada que findava no Rio Paranapanema. Para facilitar o contato com as outras colônias e cidades do Paraná, além de diminuir a influência paulista na localidade, Ribas pediu que o engenheiro Francisco Natel de Camargo iniciasse a abertura de uma nova estrada que começava em Arapongas, no Norte Central Paranaense.

Mesmo assim, nada impediu que a Brasileira sofresse um esvaziamento populacional, o que também comprometeu o progresso local. De um total de aproximadamente seis mil habitantes que viviam aqui em 1930, não restaram nem 500 para dar conta dos mil alqueires de pés de café.

Período obscuro perdurou até 1944

A falta de mão de obra estimulou outros a irem embora, e logo parte do cafezal foi coberto pelo mato. Aqueles que continuaram aqui aproveitavam para colher o que podiam. Transportavam até Presidente Prudente, onde o produto era comercializado. Muitos cafeeiros foram plantados onde estão localizados o Cemitério Municipal (ao lado do Colégio Unidade Polo), Colégio Estadual de Paranavaí (CEP) e Jardim Ipê.

À época, havia centenas de casas no Jardim Ouro Branco, mas muitas foram abandonadas com o passar dos anos. A situação piorou com o início da Segunda Guerra Mundial e as sanções que o Governo do Paraná impôs às colônias, inclusive com relação ao transporte de pessoas, cargas e animais.

Estrada Boiadeira ligava o povoado ao resto do Paraná

Em 1939, o capitão Telmo Ribeiro, que chegou ao povoado por intermédio do interventor Manoel Ribas, tentou atrair migrantes para a Fazenda Brasileira. A estratégia do capitão foi ordenar a manutenção da estrada aberta por Camargo. O resultado não foi o esperado. Apesar disso, o caminho se tornou atrativo para moradores de Guarapuava e Campo Mourão que percorriam longas distâncias a procura de gado abandonado.

Aqui foram arrebanhados centenas de animais, o que justifica o nome “Estrada Boiadeira”. Tudo isso aconteceu quando Paranavaí contava com mais de 300 alqueires só de pastagens, por onde o gado circulava com total liberdade. Em 1943, dez anos depois do Estado assumir a Inspetoria de Terras, não havia mais que 80 casas na Brasileira e o total de habitantes mal chegava a 500. Foi um período obscuro e de pouca produtividade que perdurou até 1944.