David Arioch – Jornalismo Cultural

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Nefaltzi Vallató

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“Reveste-lhe o âmago um mausoléu, nuvens turvas que no decantar de suas lágrimas expropriam o céu”

Nefaltzi Vallató gostava de caminhar fora da colônia (Arte: Pierre-Auguste Renoir)

Nefaltzi Vallató gostava de passar um bom tempo distante da colônia (Arte: Pierre-Auguste Renoir)

Na década de 1910, antes do surgimento das cidades do Noroeste do Paraná, já havia um núcleo populacional a poucos quilômetros da fronteira do Paraná com o então Mato Grosso. Era um lugarejo isolado, mas muito bem organizado e com boa infraestrutura, onde ninguém poderia entrar sem autorização de uma companhia de colonização conhecida como Sulina – O Braço Armado do Norte Sulista. A colônia foi fundada por um grupo de magnatas que tinha como conselheiro um suposto profeta chamado Ausenbaum. O homem defendia que as tradicionais sociedades urbanas definhariam até 1930. Também pregava que o fim do mundo estava próximo.

À época, vivia no povoado um jovem questionador na faixa dos 20 anos e estatura mediana. Seu nome era Nefaltzi Vallató e ele tinha o atípico costume de passar horas do dia em um cemitério clandestino que começava onde terminava a colônia – local em que seus pais foram enterrados dois anos antes, em 1913. Por causa desse hábito, um dia o jovem foi abordado por dois guardas. Um deles sorriu e o cumprimentou. Nefaltzi retribuiu a cordialidade, porém se manteve circunspecto. O mais baixo, um homem chamado Marino, que se dizia um poeta do acaso, chamou-lhe a atenção e o questionou: “Rapaz, sorria! De que adianta nutrir sentimentos negativos na alvorada se é no resguardar da madrugada que a serpente deve ser alimentada?”

Nefaltzi, que desde a morte dos pais nunca sorria com facilidade, respondeu: “Por que ultrajar a verdade? Por que demonstrar emoções inexistentes e obscurecer as verdadeiras? Confuso és, pois dentro de ti reveste-lhe o âmago um mausoléu, nuvens turvas que no decantar de suas lágrimas expropriam o céu. Por que abrir a boca e expor os dentes se for arbitrariedade aos sentimentos?” Impaciente e ofegante, Marino pediu que Nefaltzi virasse de costas. Algemou-lhe as duas mãos e o levou até o pequeno escritório da Polícia Independente de Sulina. No local, o rapaz foi formalmente autuado por desacato. Sileno, o único investigador contratado pela companhia, abriu um inquérito, prevendo que a polícia poderia ser vista como bonapartista.

Vallató preservou o mesmo semblante – de um rosto pictórico, assim que Sileno o inquiriu sobre o desrespeito ao guarda. Sem compreender com clareza, abaixou a cabeça, coçou a palma da mão, se levantou e disse: “Por que muitos cavalgam na luz se sabem que enxergam apenas no escuro? O galope com destino à refração enobrece alguém? Saiba, senhor, não sei onde nasce ou morre a razão, mas acredito que é no ranger dos dentes que se admite a intransigência ou a intemperança”, comentou Nefaltzi que ainda refutou a acusação e perguntou se poderia fazer outro comentário.

O investigador concordou e Vallató discursou: “Se acordas pela manhã e beijas a fronte de seu primogênito, não o faz para congratular-se como benemérito de Lemúria, e sim porque no desabrochar de uma relação o sentimento tenro privilegia a sinceridade, autodoação. Pena que seja limitado e defasado, tanto quanto o princípio da isonomia que, embora registrado na Magna Carta, destoa da realidade em tempos modernos. Penso em nós como selvagens, logo que nascemos e abrimos os olhos, somos impelidos a enxergar o mundo sob a hierarquia de Lupus – somos todos animais engolindo a mesma cauda, a nossa e a dos outros. Antropofagia! É isso que praticamos todos os dias!”

Nefaltzi se calou por segundos, até que o investigador, tornado meândrico, o interrogou sobre a relação de seu discurso com a autuação. Estático, justificou: “Nenhuma! Principalmente se enxergas o mundo como uma extensão do próprio quintal!” Irrequieto, Sileno levantou-se e pediu a ele que o acompanhasse até a sala do delegado Abílio. Foi recebido cordialmente, embora a fisionomia do homem transmutou-se ao saber o motivo da visita. Sileno reclamou que o rapaz se recusava a colaborar durante o interrogatório, então indagou se Abílio poderia cuidar do caso. Apesar da feição carrancuda e da sudorese repentina, o delegado concordou, dispensou Sileno e pediu que Vallató se sentasse.

Com olhar esfíngico, o estudante também interpelou Abílio sobre o motivo da acusação. “Meu jovem, você foi trazido até a minha sala porque temos a melhor das intenções, por que não contribui e ainda faz o possível para dificultar o nosso trabalho?”, queixou-se. Nefaltzi prosseguiu em silêncio, roçou o piso de madeira com a sola do sapato e disparou: “Transgressão, será? Hum…parece-me um aparato ardiloso. Sabes o motivo, não é mesmo? Pois bem, é volátil, não é substancial nem equânime. Eu e o senhor sabemos que a verdadeira transgressão é aquela que mascara o capricho de poucos em detrimento de muitos. Isso me lembra um vizinho que resolveu derrubar uma árvore porque não lhe forrava mais o quintal com bons frutos.”

Irascível, o delegado se retirou da sala e pediu a Sileno que formalizasse o pedido de prisão preventiva. Na noite daquele dia, Vallató foi preso após o parecer favorável do juiz Bacelar. Marcaram o julgamento para a semana seguinte. Nefaltzi rejeitou o direito à defesa. Durante a curta audiência, Bacelar questionou se o jovem tinha algo a declarar, logo que o promotor deu por encerrado o caso. Com a mesma feição peculiar, soergueu-se modestamente, olhou para o juiz e argumentou:

“O que significa ser culpado ou inocente? A culpa pode nascer da inocência, assim como a inocência pode ser rebento da culpa. Creio que dispendem tempo demais com os lacônicos e esquecem dos binômios. De qualquer modo, ficarei grato se o meritíssimo senhor juiz responder a pergunta que farei agora: ‘Por que o homem refugia-se nos ditames da sociedade quando macula a própria integridade com a ignorância da inverdade?’” O magistrado torceu o nariz, não respondeu e anunciou o veredicto. Vallató, que não tinha mais família na colônia, foi condenado a dez anos de prisão. A pena começou a ser cumprida numa área erma e privada situada a sete quilômetros ao leste de Sulina.

No dia seguinte, encaminhado ao seu destino, Nefaltzi teve o dorso amarrado por uma longa corda de cânhamo que o desceu até a Boca Apuara, um buraco com cinquenta metros de profundidade, úmido e sobrenaturalmente oxigenado, o que evitava que os transgressores morressem asfixiados. Quando Vallató foi deixado na Apuara, não havia nenhum outro condenado vivendo ali – estava sozinho. Nos primeiros meses, Marino e alguns amigos do rapaz percorriam o trajeto a pé até chegarem ao local. Lá, gritavam-lhe o nome e pediam que recostasse à lateral direita para não ser machucado pelo atrito com os alimentos lançados ao buraco.

Desde a condenação, Nefaltzi nunca mais falou, embora ao longo das visitas sinalizasse que estava bem, entoando sons primitivos com o auxílio de uma ocarina que carregou escondida no bolso no dia da transferência. Três anos depois do confinamento, ninguém mais se lembrava dele. Por eventualidade, um rapaz, Titu Csendes, que há muito tempo deixou a colônia com a família, retornou para ver de perto a situação do amigo. Csendes, ao gritar em vão durante horas diante da Boca, ficou desesperado e resolveu pedir ajuda no escritório policial e na sede administrativa de Sulina. Enviaram três guardas. Um deles desceu até o buraco e se assustou ao encontrar Nefaltzi morto, com o corpo sujo pelo solo vermelho.

O guarda se surpreendeu com a pouca profundidade da Apuara. Depois que retiraram o cadáver, usaram um enorme rolo de fita métrica para mensurá-la. A Boca de cinquenta metros estava com menos de quinze. Houve grande comoção e espalhou-se pelo lugarejo um boato de que o mundo chegaria ao fim em poucos dias. Antes do enterro de Nefaltzi Vallató, ninguém percebeu que o interior da sua boca tinha vestígios de terra vermelha. Do lado de seu corpo, antecipando o próprio fim, o jovem escreveu uma frase usando a face da pequena ocarina: “Alimento-me da boca para a qual servi de alimento.” Ninguém entendeu ou se importou.

Curiosidade

Quando comecei a pesquisar sobre a história de Paranavaí em 2006, há dez anos, escrevi o meu primeiro conto inspirado no tema – “Nefaltzi Vallató”. Hoje, depois de tanto tempo, o divulgo pela primeira vez.

Consequência da grilagem de terras durante a colonização

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Problema está relacionado com a grilagem nos tempos de colonização (Foto: Toshikazu Takahashi)

Problema está relacionado aos tempos de colonização (Foto: Toshikazu Takahashi)

Uma curiosidade sobre a região Noroeste do Paraná é que há muitas propriedades em situação de irregularidade fundiária. De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os imóveis estão localizados principalmente em Paranavaí, Querência do Norte, Santa Cruz do Monte Castelo, São Pedro do Paraná, Amaporã, Nova Londrina, Marilena, Terra Rica e Santo Antônio do Caiuá, além de outros municípios. Um fato que pode ter relação com a grilagem de terras iniciada nos anos 1930.

Written by David Arioch

February 6th, 2016 at 2:39 pm

Calado, o homem que rejeitou a sociedade

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Diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

Calado não é um personagem comum ou conhecido da população de Paranavaí e do Noroeste do Paraná. Na realidade, ouso dizer até que é anônimo. A primeira vez que ouvi falar sobre ele foi no Cemitério Municipal de Alto Paraná, em uma conversa entre meus familiares e outras pessoas já falecidas que chegaram a esta região nas décadas de 1930 e 1940. À época, eu tinha entre 11 e 12 anos e fiquei fascinado, embasbacado com o relato sobre aquela figura quimérica que logo invadiria meus sonhos. Acordado, eu divagava e escrevia, baseando-me no que foi ou poderia ser tal sujeito de características singulares.

A história diz que Calado ou Saru, chamado Maurício, chegou ao Noroeste do Paraná no final do século 19, após ser acusado de se aliar aos maragatos em Paranaguá, durante a Revolução Federalista em 1894. Há quem diga que ele era parente de Gumercindo Saraiva, um dos comandantes das tropas rebeldes que lutavam pela deposição do presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos. Mesmo com a morte de Ildefonso Pereira Correia, o barão do Serro Azul, em 6 de agosto de 1894, injustamente executado como traidor da pátria, os chimangos (republicanos) intensificaram a perseguição aos que teriam contribuído com os maragatos, independente da consistência das provas.

Com 19 anos, na tarde de 13 de setembro, Maurício estava em casa ajudando o seu pai a recolher as tábuas de um velho rancho que tinham desmontado pela manhã. Antes que pudesse terminar o trabalho, quatro homens invadiram a chácara da família procurando pelo rapaz. Assim que Maurício se apresentou, dois soldados o seguraram pelos braços, o acusando de conspiração contra a república. Vasculharam o quarto do jovem e encontraram uma pequena caixa de madeira dentro de um armário. No interior, havia um lenço vermelho, que caracterizava a vestimenta dos maragatos, e o rascunho de uma carta que supostamente foi entregue em julho de 1894 a Gumercindo Saraiva, líder do movimento.

Nela, o autor dava detalhes sobre a localização de uma fazenda que poderia servir de abrigo para os insurgentes sob comando do almirante Custódio de Mello. As informações selaram o destino de Maurício que tentou explicar que a caixa não pertencia a ele. Desesperados, seus pais choraram e imploraram para que o filho não fosse levado. De nada adiantou. O rapaz foi transportado até uma casa velha e abandonada a quilômetros de distância, onde o obrigaram a entrar em um porão extremamente sujo.

O rapaz foi acusado de se aliar aos maragatos (Foto: Reprodução)

O rapaz foi acusado de se aliar aos maragatos (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

O lugar era úmido, escuro e havia um odor nauseante de ferrugem. Sem enxergar nada, Maurício quase escorregou em uma poça. Quando um dos soldados acendeu a lamparina, o rapaz viu que havia bastante sangue sob seus pés; uma parte ressequida e outra ainda fresca, indicando que não fazia muito tempo que alguém entrou ou saiu gravemente ferido daquele lugar. O oficial que comandava a operação, identificado apenas como Justo, disse com voz plácida e pausada para Maurício assumir a autoria da carta, justificando que assim eles não precisariam machucá-lo.

O rapaz rejeitou a oferta. Por cerca de um minuto, o oficial observou seus olhos sem transmitir qualquer tipo de emoção. Caminhou até uma cadeira recostada num canto bem iluminado e sentou-se diante de uma mesinha onde havia um cachimbo com um tubo de bambu e um fornilho de barro. Lá mesmo, o sujeito começou a fumar ópio, alheio ao que aconteceria nos próximos minutos.

Enquanto isso, Maurício, mantido nas pontas dos pés com os braços suspensos por uma corda, levava socos e chutes de dois chimangos, mas não o suficiente para feri-lo gravemente. Ainda assim, sentindo severas dores em várias partes arroxeadas do corpo, ele lacrimejava em silêncio e ocasionalmente gritava que era inocente. Quando Justo parou de fumar, e acenou com uma das mãos cobertas pela fuligem de uma lamparina pendurada a centímetros de distância, os soldados se afastaram e saíram do porão.

“Você já ouviu falar no ‘braço de folie?’ É uma técnica muito interessante que um mercenário, um apátrida francês, descobriu na Ásia para conseguir respostas honestas de pessoas que não gostam muito de falar a verdade. É bem eficaz, tanto que até hoje nunca deixei de alcançar meu objetivo. Ah! E é exatamente pela boa aplicação dela que me chamam de Justo”, declarou com voz grave e sorriso tétrico.

Desinteressado em fazer mistério, o oficial caminhou até outro canto do porão, retirou algumas flores amarelas de um saco e começou a macerá-las vagarosamente com um pilão, combinando com outros dois ou três ingredientes desconhecidos. “Meu rapaz, veja que dádiva de flor! Se chama ranunculus e pode ser tão bela aos olhos quanto deletéria ao corpo. Há de concordar comigo em breve”, comentou.

Jonathas Kistner - Grupo de Estudos Manoa

Ainda jovem viajou com tropeiros até chegar ao interior de São Paulo (Acervo: Jonathas Kistner – Grupo de Estudos Manoa)

Justo avaliou a viscosidade da pasta, caminhou até Maurício, deu alguns tapinhas em suas costas e esfregou nas axilas do rapaz a mistura que tinha a consistência de um unguento. Em segundos, sentiu a pele esquentando. Um minuto depois, todos os pelos da área afetada caíram e suas axilas queimaram como se alguém as tocasse com um ferrete. “Enquanto sentia a pele em carne viva e se balançava, na tentativa de resfriar as queimaduras, ele continuava afirmando que era inocente. Disse à minha avó que a princípio o cheiro da mistura ajudava a amenizar a dor insuportável”, conta Arminda Gervasi, sobrinha-neta de Maurício.

Justo também esfregou um pouco do “braço de folie” nas costas do rapaz que não suportou as dores e acabou desmaiando. A sensação era terrível, dando a impressão de que seus músculos dorsais foram dilacerados. Horas mais tarde, Maurício estava deitado em uma cama dentro de um barracão de estocagem de erva-mate. Acordou e não entendeu o que aconteceu. No seu corpo não havia sinais de queimadura, apenas da violência física cometida pelos dois soldados. Quando ouviu o som da buzina de um navio, percebeu que estavam nas imediações do porto.

O seu algoz continuava ao seu lado, observando sua reação. Supostamente o rapaz seria levado em um navio da Marinha para ser julgado no Rio de Janeiro. Porém, o oficial da escolta mudou de ideia ao ter certeza que Maurício não mentiu. “A verdade é que não vamos levá-lo a lugar nenhum. A ordem que recebi é para matá-lo e abandonar o seu cadáver num buraco qualquer. Só que minha experiência me convenceu de que você é inocente. Como não posso admitir falhas, deixarei você viver sob duas condições: suma deste lugar e nunca mais procure seus pais. Se eu souber que não acatou minha ordem, voltarei e matarei toda a sua família. Agora vá! Desapareça da minha frente!”, ordenou o homem.

Confuso, assustado e tremendo, o rapaz saiu porta afora e correu mancando por mais de dois quilômetros até encontrar uma floresta onde se escondeu entre os arbustos. Sujo, faminto e ofegante, Maurício observou ao longe seus pais cabisbaixos na entrada de casa. Contrariando o oficial da escolta, caminhou furtivamente até eles e relatou tudo que aconteceu desde que foi levado de casa.

“Não posso ficar. Fiz um acordo com aquele homem e ele prometeu que viria atrás de mim e de toda nossa família se eu não cumprisse sua ordem. Vim só pra me despedir e avisar que entrarei em contato em no máximo um ano”, prometeu. Abraçados com o filho, os pais choraram novamente e pediram que ele passasse pelo menos mais uma noite em casa antes de partir. Temendo o pior, Maurício recusou. Aceitou só os curativos, a mala preparada pela mãe e um saco com alimentos, principalmente pães e frutas. Também se despediu da irmã Sophia que à época tinha dez anos.

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Enquanto caminhava a passos rápidos, o jovem manteve o olhar em direção aos pais. A mãe, Maria, uma costureira baixinha e de mãos aveludadas, estava com o rosto rubro e os olhos túrgidos de tanto lacrimejar. O pai, Nestor, um magro sapateiro de estatura mediana que se dedicava tanto ao trabalho que trazia no rosto duas pequenas manchas indeléveis de graxa, acenava com uma das mãos enquanto usava a outra para acariciar o ombro da esposa, na tentativa de confortá-la. Prestes a desaparecer através do nevoeiro, Maurício ouviu o eco da voz de sua mãe gritando que o amava, lembrança que o acompanharia por toda a vida.

Assim que deixou Paranaguá, o rapaz encontrou um grupo de tropeiros e os acompanhou até chegar a Sorocaba, em São Paulo. De lá, partiu a pé e sozinho para Tatuí e Avaré, também no interior paulista. “Trabalhava só pra sobreviver. Seu objetivo era ficar longe e ao mesmo tempo sentir-se perto dos pais. Não parava em lugar algum porque seu sonho era voltar ao Paraná, de uma forma que não comprometesse sua família”, enfatiza Arminda, neta de Sophia.

Maurício chegou no início de 1896 à Fazenda da Prata, da Família Alcântara, onde mais tarde surgiria a cidade de Jacarezinho, no Norte Pioneiro do Paraná. Lá, se ofereceu para trabalhar na derrubada de mata. Na incursão pela floresta, ficou impressionado com as belezas da flora e da fauna. Era a primeira vez que sentia-se bem desde que saiu de casa.

Sempre que perguntavam seu nome e origem, ele mentia, preocupado com a possibilidade de ser perseguido pelos republicanos. Evitava falar do passado e não gostava de conversar mais do que o necessário. Às vezes, dormindo na colônia da fazenda ou em algum acampamento perto da mata, onde passava meses trabalhando, acordava sobressaltado, suando frio e soluçando. “Nunca mais foi o mesmo. Tinha fortes dores de cabeça e de estômago, delírios ocasionais e um medo constante de morrer, agravado por uma ansiedade sem fim. Sonhava com a família todos os dias, só que decidiu nunca mais procurar ninguém por receio de represália”, revela a sobrinha-neta.

Avesso à violência, quando presenciava brigas entre peões, Maurício virava as costas e se afastava com o corpo trêmulo. O som de cada soco ou chute trazia nefastas recordações das sessões de tortura em Paranaguá. A agonia e o estado de desespero só eram amenizados com a leitura de um livro que o acompanhava desde os 15 anos – “Papéis Avulsos”, de Machado de Assis, que ganhou dos pais no Natal de 1890.

“Antes de falecer em decorrência de um câncer de tireoide, minha avó ainda falava com os olhos cheios de lágrimas das muitas vezes que seu irmão sentou perto da cabeceira para ler uma das histórias desse livro antes dela dormir”, confidencia Arminda emocionada. Maurício tinha predileção pelos contos “A Teoria do Medalhão”, A Sereníssima República”, “O Alienista” e “O Espelho”, decorando-os integralmente antes de completar 16 anos.

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Respeitado pelo patrão, e tratado com desprezo e indiferença por gatos (fiscais) e colegas de trabalho – homens brutos do sertão, o rapaz teve a paz abalada numa noite amena de outono. Cochilando com as costas escoradas numa árvore, deu um grito alarmado quando um sujeito embriagado o segurou pelo colarinho da camisa, o questionando sobre o paradeiro de uma quantia em dinheiro guardada embaixo de um toco. “Por favor, me deixe em paz. Eu não sei de nada. Me solta! Me solta!”, pediu Maurício, de acordo com Arminda Gervasi.

Ignorando a negativa, o homem desferiu um soco no rosto e outro no estômago do rapaz que de tão espaventado teve uma repentina crise de diarreia. Entre goles de cachaça e muita gritaria, os peões já bêbados apontavam os dedos para Maurício e gargalhavam, numa zombaria sem limites. Sem dizer palavra, ele se levantou, caminhou até a barraca onde guardava seus pertences, juntou as próprias roupas em um saco e desapareceu mata adentro, sob o olhar displicente do fiscal que entornava uma garrafa de aguardente. Aquelas pessoas nunca mais o veriam.

Sem se importar com o que poderia lhe acontecer, o jovem se distanciou cada vez mais da sociedade e da civilização, entregando a própria vida aos acasos do desconhecido. “Ele já não queria mais viver junto de outras pessoas. O que aconteceu naquela noite foi o estopim”, garante a sobrinha-neta.

No dia 27 de março de 1896, Maurício entrou na floresta para não mais retornar. Sem medo do próprio fim, começou uma jornada despretensiosa de descobertas e autoconhecimento. Durante o dia, atravessava quilômetros de mata fechada e quando anoitecia se abrigava sobre as árvores. Com o tempo, aprendeu a escalar as mais altas e robustas, que lhe permitiam uma visão privilegiada das cercanias.

Apesar das dificuldades, seu organismo então fragilizado aprendeu a se adaptar a uma alimentação baseada em frutos e vegetais. Algumas vezes, após ingerir algo completamente desconhecido, passou tão mal que pensou que fosse morrer. “Ele era muito mais forte do que imaginava. Em poucos dias, já se sentia saudável. Talvez fosse um sinal, um chamado da natureza, de que nasceu para aquela vida. Acho que outras pessoas não sobreviveriam”, avalia Arminda.

Com o tempo, o rapaz abandonou roupas e pertences, menos um relógio de bolso que prendeu no braço – presente dos pais. Sem rumo, atravessou centenas de quilômetros de mata nativa. Só interrompeu o percurso por volta de 1898, quando encontrou uma onça-pintada caída, quase morta, com o sangue escorrendo sobre pedras musgadas às margens de um riacho.

Ainda acordada, observou Maurício a arrastando alguns metros mata adentro. Ele a deitou sobre a relva e estancou com folhas e raízes um grande ferimento na barriga do animal. Cuidou da onça por dez dias e, apesar de parecer assustada e confusa, ela não o encarou como ameaça, sequer mostrou os dentes ou apontou as garras.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta (Acervo: Ordem do Carmo)

Saru começou a minar os planos dos caçadores que invadiam a mata nativa noroestina (Acervo: Ordem do Carmo)

Para Maurício, já não era algo surpreendente. A floresta tornou-se um lar e, de algum modo, seus velhos habitantes o aceitavam. Nem mesmo os índios de etnias caingangue e caiuá que encontrou pelo caminho o tratavam como invasor. Muito pelo contrário. Até o convidavam a participar de algumas celebrações, e foi numa dessas ocasiões que o batizaram como Saru, palavra tupi-guarani que significa Calado em português.

Meses depois, o rapaz reencontrou a onça de quem salvou a vida. Empoleirada numa árvore, ela saltou quando o viu. Se aproximou, observando os olhos de Saru, e deixou que ele deslizasse rapidamente as mãos pelo seu dorso. Cabeludo, barbudo, de estatura mediana e magro, o jovem ostracista de pele oliva aprendeu a ser mais silencioso do que os mais leves e menores animais que atravessavam a mata nativa. Vivendo sozinho, só interagia com quem se aproximava dele, o que talvez justifique porque sobreviveu tanto tempo na floresta. “Ele chegou a ser picado por cobras. A sua salvação foi o tratamento dos índios caiuá”, informa Arminda.

Em 1898, Calado já vivia em uma área onde surgiria a cidade de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Numa manhã, cansado de viajar sem rumo e de dormir ao relento, começou a construir uma casa no topo de uma gameleira. Dias depois, levou um susto numa madrugada quando notou que havia um animal pressionando as patas contra a lateral da casinha. Cuidadoso, se aproximou e viu que era a onça que o visitou em outra ocasião.

Segundo relato de Arminda, Saru saltou da árvore e seguiu o animal até uma área dominada por cedros, ipês e aroeiras, onde árvores menores ofereciam muitos frutos desconhecidos. A onça a quem Calado deu o nome de Sophia, em homenagem à irmã, conviveu com ele por mais de 15 anos. Por volta de 1914, um pequeno grupo de invasores que chegou à região, provavelmente vindo do estado de São Paulo, para avaliar a qualidade do solo, matou Sophia e Toriba, um de seus filhos, a tiros. Os dois brincavam às margens de um riacho.

Assim que ouviu um estampido, Calado atravessou até o local do ataque e observou os quatro homens armados se aproximando de seus amigos mortos. Um deles sorriu, cutucou a onça com a bota e comemorou: “Nunca imaginei que seria tão fácil matar um bicho selvagem no seu próprio habitat.” Saru guardou para si a fúria que o dominou naquele momento e esperou anoitecer.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)

Quando os quatro montaram acampamento e se reuniram em torno de uma fogueira, ele assistiu um dos homens ir até uma mina buscar água. Assim que o sujeito retornou, Calado atirou castanhas em várias direções. Também imitou rugidos de onça e escalou a árvore mais próxima. Preocupados, recolheram suas armas e tentaram localizar a origem do barulho, se afastando do acampamento. Silencioso, Calado saltou perto da fogueira, abriu cada cantil e dentro despejou “sono de abaité”, um veneno de origem indígena baseado em batracotoxina, uma secreção extraída das costas de rãs e besouros.

Pela manhã, ao retornar ao acampamento, os quatro invasores tinham tomado a água do cantil e estavam mortos. Semanas depois, outros homens chegaram ao local procurando os desaparecidos. No entanto, concluíram que as mortes foram uma consequência natural da falta de atenção dos desbravadores que talvez tivessem comido frutos venenosos.

Ainda abalado com a morte de Sophia e Toriba, Saru enterrou os dois no ponto mais elevado da floresta, onde frequentemente os animais menores passavam o dia brincando. A cerimônia atraiu a atenção dos outros descendentes da onça-pintada. Ele também notou a presença de antas, pacas, quatis, veados, tatus, jaguatiricas, lobos-guará, gatos-do-mato, bugios e aves. Coincidentemente ou não, parecia uma reunião.

Embora tenha vivido mais alguns anos sem contato com seres humanos, Calado sabia que isso não duraria para sempre. Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões. “Pra ele, o mais importante era que ninguém interferisse na vida selvagem, não matasse os animais. A floresta ainda era grande e ele reconhecia que era possível viver longe da civilização, mesmo com a chegada dos desbravadores”, assinala Arminda.

Desde a morte de Sophia e Toriba, Saru se colocou na posição de guardião da mata nativa de uma grande área onde surgiriam as cidades de Paranavaí e Alto Paraná. Os remanescentes dos índios caiuá nada poderiam fazer a respeito, já que a maioria vivia a mais de 100 quilômetros de distância, próximos do Rio Paraná e do Rio Paranapanema. Beirando os 50 anos, Calado pouco sofreu com a ação do tempo. Facilmente poderia ser confundido com um homem de pouco mais de 30 anos.

Corria pela floresta com extrema agilidade e se exercitava todos os dias sobre as árvores – tanto que ao longe era facilmente confundido com um animal. Vivia como alguém que nasceu e cresceu em território selvagem. Em contraponto, acreditava que quando uma vida era ceifada por motivo banal cabia a ele fazer justiça. E foi assim que Calado puniu entre as décadas de 1920 e 1950 muitos caçadores que invadiram a mata noroestina com a intenção de matar onças por diversão ou para extrair o couro que seria vendido a algum curtume. “Ele tinha o hábito de se abrigar dentro de tocos de árvores, de onde ele observava a movimentação dos invasores”, assegura a sobrinha-neta.

Evitava circular próximo da área urbana de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Calado evitava se aproximar da área urbana de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Quando uma jovem onça-pintada foi morta às margens de um córrego no início da década de 1930, onde surgiria o Jardim Ouro Branco, em Paranavaí, Calado extraiu-lhe as garras e as fixou em um tipo grosso de luva confeccionada à mão. Antes de usá-la, as deixou por uma noite embebidas no “sono de abaité”. De manhã, Saru se ajoelhou no chão, e diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado. De longe, reconhecia a intenção dos homens, se eram inimigos ou não.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta. “Meu tio-avô matou mais de 20 caçadores. Os corpos eram abandonados nos carreadores para que a família tivesse direito de enterrar o falecido. Ninguém nunca desconfiou que aquelas mortes pudessem ser causadas por um homem. Achavam que era coisa de onça mesmo”, narra Arminda Gervasi.

Guardião da floresta, Calado encarava como um ritual de justiça os matadores de onças sentirem a própria carne sendo penetrada pelas garras dos felinos que mataram. Entretanto, ao contrário do que imaginavam na época, as mortes eram causadas pelo “sono de abaité” e não pelos golpes, mais simbólicos do que fatais. Caçadores temidos em diversas regiões do Brasil sucumbiram diante das artimanhas de Saru.

Em 1937, Sophia, irmã de Maurício, viajou à Fazenda Brasileira com o marido para comprar uma propriedade rural. Enquanto se distraía caminhando por um carreador, ela observou ao longe um homem nadando em uma lagoa de águas cristalinas. Curiosa, se afastou do marido que conversava com um corretor de imóveis e andou em direção ao desconhecido. “Quer que pegue suas roupas? Onde elas estão?”, questionou Sophia. Quando o homem que serpenteava entre os peixes virou o rosto em sua direção, ela caiu de joelhos no chão, com as mãos tapando o nariz e a boca. Sophia chorou como uma criança ao notar nos olhos expressivos daquele homem de 62 anos o olhar vívido do irmão que partiu com 19 anos.

Sem dúvida, Maurício tinha envelhecido, mas ainda parecia mais jovem que Sophia. Calado ou Saru, que abandonou a identidade de Maurício, não conseguiu articular palavra. Ficou imóvel, com as mãos trêmulas enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto já molhado. Ao ver que não havia roupas por perto, Sophia correu até o carro do marido, abriu uma mala e pegou uma calça, uma camisa e um par de sapatos. Então sugeriu que Maurício os vestisse.

Apesar da falta de hábito, ele concordou com o pedido da irmã. Saru, que então mais do que nunca justificava o nome dado pelos índios, passou uma semana com Sophia. Somente no terceiro dia começou a conversar normalmente e contou-lhe tudo que viveu desde que deixou Paranaguá em 1894. Sophia, mais chorosa do que falante, ouviu tudo atentamente. Não cobrou notícias do irmão, pois sabia que ele tinha seus próprios motivos. Maurício foi tomado por uma confusão de sentimentos ao saber que seus pais adoeceram e faleceram em 1931 em decorrência de pneumonia.

Também foi Sophia quem informou que as falsas provas de que ele contribuiu com os maragatos foram plantadas por um antigo amigo chamado Arthur. Apaixonado pela jovem Teodora que sonhava em se casar com Maurício, o rapaz decidiu afastá-lo para sempre de sua amada, mesmo sabendo que Maurício não tinha intenção alguma de ser mais do que amigo da moça, muito menos desposá-la. “Essa informação não teve grande efeito sobre ele, que já não se importava tanto com o mundo civilizado. Somente as memórias familiares o arrebataram de forma surpreendente”, esclarece Arminda.

Sophia e o marido tentaram convencer Maurício a se mudar para Curitiba, onde ela vivia há mais de 20 anos. Ele declinou a oferta, a abraçou e argumentou que nada mais o interessava no mundo dos humanos. Antes de partir, Sophia levou as duas mãos ao rosto do irmão e recitou um trecho de “O Espelho”, de Machado de Assis, um dos contos preferidos de Maurício:

“Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”

Os dois sorriram, se despediram e Maurício correu em direção à floresta, onde, antes de desaparecer completamente, cumpriu um dos seus rituais mais sagrados – se livrou das roupas, o que significava se despir da civilização. Sophia e o marido não compraram nenhuma fazenda em Paranavaí, mas retornaram mais vezes procurando em vão o paradeiro de Maurício tornado Calado.

Entre as décadas de 1960 e 1980, alguns pioneiros e moradores de Paranavaí e Alto Paraná juraram tê-lo visto caminhando pelas estradas da Fazenda Ipiranga e Água do Cedro, além de áreas de mata do Jardim Ouro Branco e Jardim São Jorge. “Uma vez, voltando de viagem, parei no Cemitério de Alto Paraná pra dormir. Tenho certeza de que o vi atravessando tranquilamente por trás das árvores. Isso foi em 1976”, confidencia o pioneiro Júlio Galhardo.

O aposentado Amâncio Bonavero também afirma que viu Calado na área rural de Paranavaí em 1993, com base na descrição que lhe passaram nas décadas anteriores. Se o sujeito correndo pelo campo realmente era Saru, isso significa que ele estava vivo e saudável aos 118 anos. “Tem gente que acredita que o Calado ainda não morreu. Eu sou um desses. Acho que não o vemos mais porque hoje, mesmo de longe, ele ainda evita contato com pessoas. Quem sabe esse seja o motivo da sua longevidade”, deduz Bonavero sorrindo.

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O tesouro da Fazenda Brasileira

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O dia em que um colono encontrou um pote cheio de moedas de ouro na serraria da Braviaco

Paranavaí no ano em que João desenterrou um tesouro em uma velha serraria (Foto: Toshikazu Takahashi)

Paranavaí no ano em que João desenterrou o tesouro em uma velha serraria (Foto: Toshikazu Takahashi)

Em 1958, João Mariano, colono de uma das maiores fazendas de café de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foi convidado por um amigo, também chamado João, para procurar um tesouro enterrado na velha serraria da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco) nos tempos da Fazenda Brasileira.

“Ele estava bem animado em trabalhar na fazenda porque ganhou dinheiro o suficiente para comprar uma potranca e uns porquinhos para criação. Um dia, chegou pra mim e disse: ‘Aqui, Graças a Deus, estou muito bem, João!”, lembra Mariano que visitava o amigo com frequência quando anoitecia.

Em uma noite, o companheiro fez uma sugestão: “Ô, João, vamos arrancar um tesouro ali naquela serraria velha?” Sem entender do que se tratava, Mariano titubeou. “Tesouro?”, interpelou. Com olhar sereno e voz remansosa, o homem respondeu: “Sim, um pote cheio de moedas de ouro que enterraram lá há muito tempo, na época da Brasileira.”

Ainda com dúvidas sobre a proposta do amigo, Mariano questionou se ele recebeu algum aviso, teve um sonho ou visão com o tal tesouro enterrado. Depois de acenar negativamente com a cabeça, e justificar que apenas acreditava na crença de que todo lugar abandonado esconde algo surpreendente, o homem se calou. “Procurar algo à toa, sem base, sem cabimento? Falei que assim eu não iria não!”, argumentou.

Um dia, sem fazer alarde, João reuniu seus pertences e partiu com a família. Antes, sem explicar o motivo, avisou ao amigo que decidiu retornar para São Paulo, seu estado de origem. “Só estranhamos porque ele estava bem aqui. Mas no fim achamos aquilo normal, né? Afinal, era comum um ou outro deixar Paranavaí para tentar a vida em outro lugar”, comenta Mariano.

Mais tarde, caminhando em meio à invernada, o colono João Mariano decidiu dar um passeio pela velha serraria da Braviaco. Quando chegou lá, teve uma surpresa. “Vi um buraco no chão e uma marca ainda brilhante, arredondada e exata de um pote. Lá dentro tinha uma moedinha de ouro. Aí falei: ‘Puta merda! Agora sei porque ele foi embora. Voltei e contei pro meu irmão que me lembrou que quando alguém acha um tesouro tem de deixar uma moedinha pra trás, num sinal de boa fé”, narra.

Quando o proprietário da fazenda soube do acontecido, gritou: “Filho da puta! Esse dinheiro estava na minha fazenda, então era meu. “Mas o senhor não foi arrancar o tesouro, não é mesmo?”, questionou Mariano que nunca mais teve notícias do amigo afortunado.

Saiba Mais   

A fazenda situada entre a estrada para Tamboara e a Vila Operária somava mais de 400 alqueires.

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Written by David Arioch

January 15th, 2016 at 6:15 pm

Livro sobre a história de Paranavaí está à venda na Fundação Cultural

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A obra de autoria do escritor Paulo Marcelo foi publicada pela primeira vez em 1988

Livro sobre a história de Paranavaí está à venda na Fundação Cultural

Obra histórica foi relançada após 27 anos (Arte: Amauri Martineli)

Está à venda na Fundação Cultural de Paranavaí, por R$ 30, a nova versão do livro “História de Paranavaí”, do escritor Paulo Marcelo Soares da Silva, publicado pela primeira vez em 1988.

Relançado após 27 anos com recursos do Fundo Municipal de Cultura, o livro oferece aos leitores entrevistas integrais com pioneiros já falecidos há muito tempo e que fizeram parte das primeiras gerações de moradores de Paranavaí – nos tempos da Vila Montoya e Fazenda Brasileira. Tentando ser o mais imparcial possível, Paulo Marcelo apresenta várias versões de muitos fatos históricos, o que foge da unilateralidade e favorece o debate.

E mais importante, com a reedição do livro “História de Paranavaí”, o autor abre um novo caminho para despertar nos mais jovens a identificação com Paranavaí, o reconhecimento da própria identidade cultural regional e a valorização das histórias de luta e sofrimento que centenas de pioneiros viveram, principalmente nas décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950.

Além de escritor, Paulo Marcelo é bacharel em direito e possui licenciatura em geografia. Participou e foi premiado em muitas edições do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup). Também recebeu prêmios de menção honrosa no 15º e 19º Jogos Florais de Barreiro, Portugal, e no 1º Concurso de Romances Juvenis da Academia Paranaense de Letras.

Tem contos publicados pela Empresa Tipográfica Casa Portuguesa, de Lisboa, em Portugal, e Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal, de Barreiro, também em Portugal. Ademais, é autor dos livros “O Lendário Capitão”, de 2012, e “Xondó e o Furto da Vassoura”, de 2013. “Encantamento”, a sua mais recente obra, contém ilustrações do próprio escritor e traz um conto sobre a história de um casal que se apaixonou em Paranavaí nos tempos da colonização. Para mais informações, ligue para (44) 3902-1128.

Written by David Arioch

January 12th, 2016 at 6:38 pm

Conversando com a filha de Manoel Canjerana

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Dona Nair me presenteou com relatos surpreendentes sobre a vida de seu pai (Foto: Amauri Martineli)

Dona Nair me presenteou com relatos surpreendentes sobre a vida de seu pai (Foto: Amauri Martineli)

No dia 1º de Julho de 2015, entrevistei Nair Alves Silva, filha de Manoel Alves Canjerana, um dos homens mais temidos do Noroeste do Paraná nos anos 1950. Canjerana e Manoel da Rocha, o Macaúba, caíram em uma emboscada em 4 de julho de 1955 e foram assassinados por dois amigos no Bar do Beni, na Rua Marechal Cândido Rondon, no centro de Paranavaí.

O encontro com Dona Nair foi extremamente importante porque contrapõe com provas o fato de que Macaúba não foi morto em Cidade Gaúcha nem teve o corpo abandonado. Na foto, leio a caderneta de trabalho de Canjerana, com anotações de 1954 sobre a sua atuação nas áreas de desmatamento, inclusive dados sobre cada um dos peões por quem se responsabilizava quando trabalhava como fiscal (gato).

Sobre as caçadas na década de 1950

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Quando ainda não existia a conscientização ambiental (Foto: Ordem do Carmo)

Quando ainda não existia conscientização ambiental (Foto: Ordem do Carmo)

Década de 1950 – Anos mais tarde, o padre e pioneiro alemão Ulrico Goevert (foto) reconheceu a falta de consciência ambiental de muitos que se mudaram para o sertão do Noroeste Paranaense. Poucos se preocupavam com a preservação da fauna local, tanto que até aventureiros despreparados se arriscavam na mata virgem para caçar onças. Não foram poucos os homens que acabaram gravemente feridos ou mortos durante as caçadas.

 

Written by David Arioch

January 8th, 2016 at 11:45 pm

Entrevistando Adelchi Ferrari

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Adelchi Ferrari faz parte da primeira geração de bancários de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Adelchi Ferrari faz parte da primeira geração de bancários de Paranavaí (Foto: David Arioch)

No dia 11 de dezembro de 2014, passei a maior parte da manhã conversando com o ex-bancário Adelchi Ferrari, uma grande figura histórica de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que em 1954 escapou de ser assassinado em um bar por intervenção do lendário e controverso Telmo Ribeiro, pioneiro que chegou a Paranavaí em 1936. Naquele episódio, o então capitão surrou o homem que já estava com a arma em punho.

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January 8th, 2016 at 11:41 pm

O princípio de um fim

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As raízes entrelaçadas parecem nutrir um desespero que ofusca a figura da moça (Foto: Autoria Desconhecida)

As raízes entrelaçadas parecem nutrir um desespero que ofusca a figura da moça (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Não posso afirmar que foi intencional, mas o autor conseguiu destacar o princípio de um fim, além de um imenso vazio nesta foto que remete a Paranavaí do final dos anos 1940 e início da década de 1950. As raízes entrelaçadas parecem nutrir um desespero que ofusca a figura da moça mais acima.

Incrível como a última árvore tombada em uma área pode parecer tão frágil e imponente, mesmo depois de sucumbir. Com um traçador, e dependendo da espécie, eram necessários dias para derrubar uma árvore, o que explica também porque algumas eram exibidas como troféus.

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Written by David Arioch

January 7th, 2016 at 10:35 pm

Um papo com Augustinho Borges

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Eu e Augustinho Borges conversando na Fundação Cultural de Paranavaí (Foto: Amauri Martineli)

Eu e Augustinho Borges conversando na Fundação Cultural de Paranavaí (Foto: Amauri Martineli)

Eu e Augustinho Borges conversando na manhã de 15 de dezembro de 2014 na Fundação Cultural. Augustinho é uma figura histórica de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Até hoje guarda um cheque de 68 mil cruzeiros assinado pelo controverso capitão Telmo Ribeiro, homem respeitado e temido em Paranavaí nos tempos da colonização.

Até 1964, o capitão foi um dos maiores clientes de Borges na empresa Reta Táxi Aéreo. “Era muito educado e só andava bem vestido. Tinha um Pontiac automático que chamava atenção por onde passava”, lembra. Augustinho jamais se esqueceu do dia em que recebeu uma ligação do ex-governador Leonel Brizola pedindo que ele buscasse o corpo do seu cunhado Raphael Azambuja, covardemente assassinado na Gleba Areia Branca do Tucum a mando de grileiros. O corpo de Azambuja foi enviado para Porto Alegre em um táxi-aéreo da Reta.