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Coetzee: “É mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer”

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Um vencedor do Nobel de Literatura preocupado em mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais

Coetzee: “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso”

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é conhecido como um homem tímido e recluso, que não gosta de dar entrevistas desde 1974, quando iniciou sua carreira literária. Porém, para veículos que atuam em defesa dos direitos animais, ele sempre se mostrou mais receptivo e disposto a fazer concessões.

Um exemplo é uma rara entrevista, intitulada “Animals, Humans, Cruelty and Literature”, publicada em maio de 2004 na revista Satya, fundada em 1994, no Brooklyn, em Nova York. A matéria, baseada na entrevista que o jornalista Henrik Engström realizou com Coetzee por e-mail, veio a público pela primeira vez no jornal sueco Djurens Rätt. Mesmo após a entrevista, o jornal que aborda os direitos animais conseguiu manter contato com o escritor sul-africano ao longo de um ano.

O que diferencia Coetzee de muitos outros atores que abordam a questão animalista é que ele não qualifica o amor e a compaixão pelos animais como imprescindíveis na causa animal. Para o escritor, o mais importante é que os seres humanos reconheçam que não existe justiça quando matamos animais para transformá-los em comida ou produtos, independente de espécie. Ou seja, a exploração animal é inaceitável do ponto de vista moral e ético.

E foi por causa dessa visão que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A sua indicação veio logo após o lançamento do livro “Elizabeth Costello”, de 2003, em que ele dedica dois capítulos a discutir a relação dos seres humanos com os animais. “Os animais estão na minha ficção ocupando um papel subsidiário, em parte, porque eles realmente ocupam um papel meramente subsidiário em nossas vidas. E em parte, porque não é possível escrever sobre a vida dos animais com a devida complexidade”, justificou.

Questionado se ele acredita que a indicação do seu livro ter sido feita justamente pela abordagem da questão animalista, Coetzee admitiu que um único livro não é capaz de mudar o mundo em relação a isso, mas talvez tenha um pequeno impacto. Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura do sul-africano começou com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, principalmente quando ele decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

E o que decepcionou Coetzee à época foi o fato de que as editoras ignoraram o papel dos animais em seu livro. “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso. Os personagens refletem a forma como os animais são tratados no mundo em que vivemos, como existências insignificantes que só reconhecemos quando suas vidas cruzam as nossas”, lamentou a Engström.

Coetzee é um escritor que não prioriza a conquista de direitos legais para os animais. Sua maior preocupação é mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais. “O mais importante de todos os direitos, é o direito à vida. Não posso prever que um dia os animais terão esse direito em forma de lei. Então o que podemos fazer é mostrar para o maior número de pessoas o custo psíquico e espiritual da forma como tratamos os animais, e assim talvez mudar nossos corações”, enfatizou.

O escritor não qualifica os seres humanos como naturalmente cruéis. Ele exemplifica o fato de que para sermos cruéis teríamos que fechar sempre os nossos corações para o sofrimento do outro. “É inerentemente mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer do que anular nossas simpatias pelo homem que vamos enviar para a cadeira elétrica. […] Evoluímos nossos mecanismos psíquicos, sociais e filosóficos para lidar com a matança de aves. Por razões complexas, usamos os mesmos mecanismos para permitir a matança de seres humanos somente em tempos de guerra”, avaliou.

Segundo J.M. Coetzee, um erro que cometemos com muita frequência é o de não perceber que o modo de consciência das espécies não humanas é bem diferente da consciência humana. Acredita-se que o ser humano é capaz de habitar a consciência de um animal, enquanto que por meio da faculdade da simpatia é possível para o ser humano saber como é ser alguém. “Os escritores são reputados por possuir fortemente esta qualidade particular. Se é de fato, ou pelo menos muito difícil habitar a consciência de um animal, então ao escrever sobre os animais, há uma tentação de projetar sobre eles pensamentos e sentimentos que podem pertencer somente à nossa própria mente humana e coração”, ponderou.

Coetzee crê que somos sempre tentados a procurar nos animais o que desperta com mais facilidade nossa simpatia ou empatia, na tentativa de favorecer espécies animais que, por uma razão ou outra, nos parecem quase humanas em seus processos mentais e emocionais. “Assim os cães são tratados como quase humanos, enquanto os répteis são tratados como completamente estranhos”, citou em referência ao especismo, conduta humana que legitima a exploração animal.

Sem animais de estimação em casa, o escritor se contenta em dizer que “considera” ter uma relação pessoal com pássaros e sapos que visitam sua propriedade. “Mas não creio por um minuto que eles acham que têm relações pessoais comigo. Sim, sou vegetariano. Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”, confidenciou.

Referência

Engström, Henrik. Satya Mag. Animals, Humans, Cruelty and Literature – A Rare Interview with J.M. Coetzee (2004).

http://www.satyamag.com/may04/coetzee.html

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O legado romanesco de Knut Hamsun

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O virtuoso escritor norueguês que morreu na pobreza após declarar sua simpatia pelo nazismo

Knut Hamsun, forfatter. Foto ca. 1890.

Knut Hamsun em 1890 (Foto: Reprodução)

Knut Hamsun, um dos maiores escritores da Escandinávia, nasceu em 4 de agosto de 1859 em Gudbrandsdalen, na Noruega. Cresceu em meio à pobreza da pequena comuna de Hamarøy, em Nordland. Na infância e adolescência, trabalhou como aprendiz de sapateiro e pedreiro, até que mais tarde conseguiu se tornar professor. Insatisfeito com os rumos de sua vida, Hamsun passou alguns anos viajando pelos Estados Unidos, onde atuou como motorista de bonde e publicou as impressões satíricas daquele país sob o título Fra det Moderne Amerikas Aandsliv (A Vida Intelectual da América Moderna) em 1889.

Mas foram os romances Sult (Fome), de 1890, e Pan, de 1894, que chamaram a atenção para o trabalho do escritor, considerado até hoje o precursor da verdadeira literatura moderna norueguesa. O trabalho de Knut Hamsun, independente de época, é determinado por profunda aversão à civilização. Suas obras reafirmam sua crença de que a realização do homem só é possível por meio da sua basilar relação com a terra.

Sem dúvida, um primitivismo que lançou luz sobre sua desconfiança em relação a tudo que é moderno. A máxima expressão dessa filosofia pode ser percebida na obra Markens Grøde (Crescimento do Solo). Os primeiros trabalhos de Hamsun já traziam à tona características fundamentais que marcariam a sua trajetória como escritor. Exemplos são seus personagens baseados em párias. A figura do vagabundo na obra do norueguês é uma constante fundamental porque à época representava a mais agressiva das oposições à civilização.

Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação (Foto: Reprodução)

Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação (Foto: Reprodução)

Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação. Substituiu a hostilidade figurativa pela resignação melancólica em relação à perda da juventude. O envelhecimento então começou a ocupar lugar de destaque em peças como Livets Spil (Jogo da Vida), de 1896, e Aftenrøde (Sol), de 1898, assim como nos romances Under Høststjernen (Sob a Estrela do Outono), de 1906, Benoni, de 1908, e En Vandrer Spiller med Sordin (Um Andarilho Toca com Cordas Silenciosas). Antes, em 1904, ele publicou o livro de poemas Det Vilde Kor (O Coro Selvagem).

Na última fase da carreira como escritor, Knut Hamsun, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1920, já não se preocupava mais com a construção de figuras individuais. Sua atenção se voltou totalmente para os grandes ataques à civilização, um tema que se estende pelos livros Børn av Tiden (A Criança da Era), de 1913; Segelfoss By, de 1915; Landstrykere (Vagabundos), de 1927; August (Agosto), de 1930; Men Livet Lever (A Estrada Leva), de 1933; e Ringen sluttet (O Anel está Fechado), de 1936.

Desde sempre um admirador da Alemanha, principalmente da cultura germânica, quando os nazistas invadiram a Noruega em 1940, Hamsun declarou publicamente sua simpatia por Adolf Hitler, o que surpreendeu muito os noruegueses. Com isso, logo após a guerra, o escritor perdeu a propriedade onde vivia e foi colocado sob observação psiquiátrica. Pouco conhecido no Brasil, mas muito respeitado na Europa e nos Estados Unidos, Knut Hamsun passou os últimos anos de vida na pobreza.

Escritor declarou publicamente sua simpatia por Hitler em 1940 (Foto: Reprodução)

Hamsun declarou publicamente sua simpatia por Hitler em 1940 (Foto: Reprodução)

Em 1945, aos 86 anos, escreveu o obituário de Adolf Hitler no jornal norueguês Aftenposten. A publicação em que ele homenageia o líder nazista se tornou a mais infame de suas obras, inclusive ofuscando o seu respeitado trabalho literário. Em um dos trechos, o escritor afirma que Hitler foi um guerreiro da humanidade, um pregador do evangelho da justiça que serviu de exemplo para todas as nações. “Nós, seus seguidores mais próximos, devemos inclinar nossas cabeças em respeito à sua morte”, escreveu.

Knut Hamsun faleceu em 19 de fevereiro de 1952, aos 92 anos. Em 1954, seus trabalhos voltaram a ser reeditados e publicados. No mesmo ano, uma edição de 15 volumes resgatou toda a trajetória literária do autor.

Referências

Nobel Lectures, Literature 1901-1967, Editor Horst Frenz, Elsevier Publishing Company, Amsterdam, 1969.

Reputação Póstuma de Knut Hamsun

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