David Arioch – Jornalismo Cultural

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Fargo, poesia audiovisual do absurdo

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Uma série de TV sangrenta com requinte satírico de tragédia grega

Billy Bob Thornton interpreta um mercenário enigmático, metódico, idealista e desdenhoso (Foto: Divulgação)

Billy Bob Thornton interpreta um mercenário enigmático, metódico, idealista e desdenhoso (Foto: Divulgação)

Para quem gosta de séries de anti-heróis, e que misturam drama, suspense e humor mórbido, vale a pena conhecer a série Fargo, da FX, que estreou em 2014. Melhor ainda para quem já assistiu ao filme homônimo dos Irmãos Coen, lançado nos Estados Unidos em 1996. Vale a pena investir algumas horas na série e no filme, já que como a storyline é diferente, assim como atores e personagens, um se soma ao outro nas suas mais diversas perspectivas.

Intrigante e envolvente, a primeira temporada da série tem como ponto alto um elenco composto por atores de séries como Sherlock, Breaking Bad e Dexter, além do tarimbado Billy Bob Thornton no papel de um mercenário enigmático, metódico, idealista e desdenhoso. Quem assiste ao primeiro episódio já fica na ânsia de acompanhar os demais.

Na segunda temporada, de 2015, Fargo recomeçou com um novo elenco e sem qualquer associação com o desenvolvimento da primeira temporada. Após um acidente fatal provocado pela esposa Peggy Blumquist (Kirsten Dunst), o incauto assistente de açougueiro Ed Blumquist (Jesse Plemons), o Todd de Breaking Bad, se vê às voltas com a máfia. Sem se dar conta das próprias ações, causa uma guerra entre mafiosos. A situação só não se torna pior do que já é porque tem como atenuante o policial Lou Solverson (Patrick Wilson) e o xerife Hank Larsson (Ted Danson).

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Na segunda temporada, Fargo recomeçou com um novo elenco e sem qualquer associação com o desenvolvimento da primeira (Foto: Divulgação)

Embora as histórias das duas temporadas sejam completamente distintas, alguns padrões são mantidos. Por exemplo, sempre há a moral, o imoral e o amoral, além de personagens que banalizam a vida e se colocam acima da lei para alcançar qualquer objetivo. Outras similaridades entre os personagens incluem prevaricação, comportamento sociopata e negação dos fatos e da realidade, além de anseios eversivos e autodestrutivos.

E o mais curioso é que tudo isso se mistura também à ingenuidade, irreflexão e descomedimento. Excessos de confiança e de profissionalismo também são apresentados como nocivos. São características que cegam os personagens para as falhas e vulnerabilidades percebidas apenas por quem não compõe aquele cenário ou contexto belicoso.

Um exemplo é a cena em que Hanzee Dent (Zahn McClarnon) planeja executar o casal Blumquist, crente de que, por serem pessoas comuns, eles não mostrariam nenhum tipo de resistência. É cômico reconhecer que a experiência também pode levar à tolice e à subestimação, e o que deveria ser uma vantagem se torna uma desvantagem.

Por pior que seja, a ideia da morte em Fargo não chega ao espectador de forma pesarosa, a não ser a de Betsy Solverson (Cristin Miloti), a esposa do oficial Solverson que sofre de câncer. No mais, o passamento parece inevitável e até incentivado como um recurso maior. Ele reforça os desdobramentos meândricos e tresloucados de uma obra cruenta com requinte satírico de tragédia grega.

A desgraça é apresentada em Fargo como uma poesia do absurdo, do tout est possible, mergulhada numa estética carmesim. E nela quase tudo de significante ou insignificante soa mais valoroso que a própria vida – quase relegada a recurso de figuração em meio a um caos de degenerescências.

Francis Ford Coppola revisita Roger Corman

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Filme carrega referências do cinema de Corman e Hitchcock

Demência 13, um thriller que figura entre os grandes filmes B da história

Lançado em 1963, o thriller de horror “Demência 13”, o primeiro longa-metragem do cineasta estadunidense Francis Ford Coppola, revisita o trabalho de Roger Corman, uma das grandes referências dos filmes B de todos os tempos.

“Demência 13”, filme que marcou a estreia oficial de Coppola, é lembrado como um clássico em que a influência de Corman fez o cineasta se aproximar da fórmula hitchcockiana de fazer suspense. Um grande exemplo são as referências à psicologia freudiana. A obra que ganhou status de cult surpreende principalmente pela velocidade dos acontecimentos.

A história apresenta o casal Richard Haloran (William Campbell) e Louise Haloran (Luana Anders) que todos os anos realiza na Irlanda um ritual de celebração da memória da filha Kethleen (Barbara Dowling), morta há 29 anos. Porém, os planos do casal terão a interferência de um assassino que inicia uma carnificina nas imediações do Castelo Haloran. “Demência 13” é um clássico que revela os primeiros indícios da genialidade de Coppola.

O cineasta constrói um misto sólido e intrigante de suspense e horror sem precisar apelar para cenas pesadas de violência, assim como aborda os conflitos psicológicos dos personagens sem necessidade de forçar diálogos a partir de tomadas longas. É um filme com uma linguagem objetiva e clara, assim como as cenas que destoam do artificialismo que mais tarde povoaria os filmes do gênero. Com a obra, Coppola também coloca em prática técnicas em que personagens antagonizam o ambiente. Um exemplo é a cena do casal despontando na noite tenebrosa.