David Arioch – Jornalismo Cultural

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Elsie Shrigley, uma mulher de destaque na história do veganismo na Inglaterra

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Sally ajudou a fundar a Vegan Society e assumiu a presidência da entidade a partir de 1960

Elsie Shrigley ajudou Donald Watson a fundar a Vegan Society (Acervo: Vegan Society)

Elsie Beatrice Shrigley é um nome pouco conhecido entre veganos do mundo todo, embora tenha sido uma das cofundadoras da Vegan Society, na Inglaterra, e desempenhado importante papel na história do movimento vegano, que passou a existir formalmente em 1944, após a idealização dos termos “vegan” e “veganism”.

Normalmente quando se fala na história do veganismo na Inglaterra, o nome que desponta com mais frequência é o do carpinteiro Donald Watson, que passou a ter a sua imagem associada à Vegan Society desde o início. No entanto, Elsie Shrigley, mais conhecida como Sally, uma possível referência ao seu sobrenome de solteira – Salling, não teve um papel de pouca relevância na articulação do movimento vegano inglês que se espalharia pelo mundo.

A pesquisadora Samantha Calvert, coordenadora de comunicação e relações públicas da Vegan Society, que tem contribuído no resgate de aspectos históricos pouco claros da entidade, aponta Elsie Shrigley como uma mulher que em parceria com Donald Watson articulou uma coalizão com os vegetarianos da época que não concordavam com o consumo de laticínios, mel e outros alimentos e produtos de origem animal – ou seja, indo muito além da abstenção do consumo de carne, que fazia parte da típica realidade dos vegetarianos britânicos.

Antes, Donald Watson e Sally tentaram criar um grupo com essa proposta como uma ramificação dentro da tradicional Vegetarian Society, de Londres, fundada em 30 de setembro de 1847, e da qual já faziam parte. Porém o pedido foi declinado pelo conselho consultivo da entidade. Talvez especialmente porque Watson, Sally e outros vegetarianos estritos solicitaram também um espaço no principal veículo de divulgação das ideias da inglesa Sociedade Vegetariana, ou seja, o periódico Vegetarian Messenger, onde imaginavam ter a oportunidade ou abertura de discutir o paradoxo do consumo de outros alimentos de origem animal – e não apenas sobre as implicações do consumo de carne.

A proposta também foi rejeitada, e assim surgiu um grupo dissidente em agosto de 1944, mas que começou a se consolidar após a fundação da Vegan Society no The Attic Club, no distrito londrino de Holborn, em novembro de 1944. Na ocasião, apenas meia dúzia de pessoas participaram da reunião organizada por Donald Watson e Elsie Shrigley, embora a sociedade já somasse 25 membros registrados após a sua fundação.

Segundo Samantha, talvez a Vegan Society não teria sobrevivido se não fosse pelo trabalho duro de Donald Watson nos primeiros anos – inclusive a idealização da revista The Vegan foi uma iniciativa dele. Contudo, Sally já despontava também como uma liderança, inclusive mais tarde assumindo a presidência da Vegan Society.

Uma informação praticamente desconhecida sobre Elsie Beatrice Shrigley é que possivelmente ela foi a primeira pessoa a criar uma lista de produtos livres da exploração animal – isto em 1947. Entre os produtos que ela pesquisou e listou como liberados para veganos estavam biscoitos e chocolates. A lista foi publicada no periódico The Vegan, e contribuiu consideravelmente para facilitar a vida dos veganos da época.

Tendo participado ativamente da Vegan Society desde o princípio, Sally foi eleita para assumir a presidência da Vegan Society a partir de 1960. De acordo com Samantha Calvert, Elsie Shrigley era tão engajada nos ideais do movimento vegano que ocupou todas as posições oficiais da Vegan Society, entidade a qual serviu até 13 de maio de 1978, quando faleceu em Tonbridge, no condado de Kent. “Foram incríveis 33 anos de serviço. Ela também foi delegada da Vegan Society para muitos congressos internacionais da União Vegetariana Internacional”, garante a pesquisadora e coordenadora de comunicação da Vegan Society.

Ainda assim, não há tantas informações disponíveis sobre a vida de Sally. Um artigo publicado no periódico The Vegan, no verão de 1967, revela que ela viveu com os pais em Hampstead, a noroeste de Charing Cross, até casar-se com o dentista Walter Shrigley em 1939, de quem adotou o sobrenome. Embora tenha nascido em Londres, Elsie era de origem escandinava e falava dinamarquês fluentemente. Depois de passar pela Chelsea College of Physical Training, onde estudou educação física com enfoque em ginástica, ela decidiu enveredar pelo caminho da música e passou a dar aulas de piano de 1932 a 1939.

No início da Segunda Guerra Mundial, Sally Shrigley morava em Purley, ao Sul de Londres, onde atuou como bombeira voluntária para a Fire Guard Services. Também trabalhou na unidade móvel de Swiss Cottage, em Hampstead, onde dava suporte às enfermeiras. De 1940 a 1958, ela foi Secretária honorária da Sociedade Vegetariana de Croydon, e mais tarde ocupou o mesmo cargo na Sociedade Vegetariana de Surrey.

“Seus serviços foram solicitados pela Sociedade Vegetariana de Londres [que era uma organização nacional separada na época, comparável à Sociedade Vegetariana do Noroeste] que a convidou para ser a sua secretária-adjunta por três meses antes da nomeação de um novo secretário. Sally foi uma figura importante no início do movimento vegano e acabou relegada à sombra de Donald Watson. Indiscutivelmente, as contribuições de muitas mulheres para os movimentos reformistas sociais são ofuscadas dessa maneira”, avalia Samantha Calvert.

Saiba Mais

Elsie Beatrice Shrigley (Elsie Beatrice Salling) nasceu 30 de outubro de 1899 e faleceu em 13 de maio de 1978.

Referências

Calvert, Samantha. In Search of Sally – The lesser known founder of the Vegan Society with Donald Watson (2016)

Know Your Roots. The Vegan Society (2 de setembro de 2016)

The Vegan. Páginas 2 a 5 (Verão de 1967).

Fox, Sarah W. Elsie Shrigley: The woman behind the word veganism (30 de abril de 2017).





Como surgiu o termo vegan

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Termo foi criado por Donald e Dorothy Watson

O termo vegan é uma versão reduzida da palavra vegetarian, mas tem uma história bem interessante por trás disso. Em 1944, o casal inglês Donald e Dorothy Watson estavam dançando quando decidiram pensar em um nome para a criação de um movimento que não concordava com o fato de que as sociedades vegetarianas da época achavam aceitável um vegetariano não comer carne, mas continuar consumindo laticínios e ovos. Donald e Dorothy entendiam que esse consumo também já representava privação e sofrimento animal. Então durante a dança veio a sugestão:

— Que tal vegan?
— O que significa isso?
— O começo e o fim de VEGetariAN.





Written by David Arioch

July 21st, 2017 at 1:11 am

O veganismo não existia antes da Vegan Society

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A Vegan Society foi a primeira organização a realmente defender os direitos animais

Muitas pessoas falam que o veganismo já existia no Oriente antes dele ter surgido na Inglaterra em 1944. Creio que seja um equívoco, simplesmente porque não havia nenhum movimento bem articulado como aquele que surgiu por proposição da Vegan Society, voltado para a questão dos direitos animais. O que existiu antes foram ações pontuais ou limitadamente específicas, e muitas delas inclusive realizadas de forma independente ou por pequenos grupos. Ou seja, sem objetivos claramente definidos e sem formatação de ativismo nos moldes atuais; ou mesmo um plano contínuo e abrangente de ações.

Tivemos figuras históricas que provavelmente hoje seriam consideradas protoveganas ou veganas, e deram sua valiosa contribuição ao longo dos séculos. No entanto, viviam a vida à sua maneira, sem grande articulação coletiva, e provavelmente por causa das limitações da época e da falta de informações, sem uma compreensão mais valorosa do direito à vida não humana. Antes, o mais próximo que tivemos do veganismo foi o vegetarianismo ético encabeçado por escritores como o britânico Percy Shelley e outros pensadores, que viam falhas na consciência vegetariana da época. Esses personagens foram influenciados pelos pensadores da Grécia Antiga, como Plutarco, Pitágoras, Empedócles, Teofrasto, Plotino e Porfírio, entre outros.

Ou seja, eles usaram como referência as ideias dos gregos, que traziam uma forte influência de uma forma inominada de vegetarianismo místico, a absorveram e a transformaram em um modelo de vegetarianismo mais pragmático, ou seja, ético. Sendo assim, ouso dizer que mais tarde o veganismo surgiu para cobrir as lacunas do vegetarianismo ético na década de 1940, como uma reação ao comodismo das sociedades vegetarianas que em sua maioria eram bem-estaristas, indo inclusive contra o que defendiam os vegetarianos do Período Romântico.

Outro fato a se considerar é que o vegetarianismo ético surgiu no Ocidente. O vegetarianismo oriental é o vegetarianismo místico e religioso, e por isso há disparidades substanciais quando falamos em direitos animais. A princípio, o vegetarianismo místico teve influência sobre o vegetarianismo ético. Porém, se voltava mais para a individualidade, não para a coletividade, além de colocar o ser humano como protagonista e principal beneficiado. Sendo assim, é um equívoco dizer que o veganismo existiu em outras partes do mundo antes do Ocidente, já que a defesa maior do veganismo são os direitos animais, e sem qualquer vinculação com misticismo ou religiosidade. Logo, não houve de fato veganismo antes da Vegan Society.

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Written by David Arioch

July 16th, 2017 at 1:34 am

O que a Vegan Society diz sobre o veganismo

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A Vegan Society é a entidade que criou o veganismo como filosofia de vida em 1944

A definição do veganismo foi proposta por Leslie J. Cross em 1949 (Arte: Vegan Society

A Vegan Society é a entidade que, por iniciativa do marceneiro inglês Donald Watson, criou o termo “vegan” em 1944 e definiu o veganismo como filosofia de vida. Atualmente há muitas controvérsias envolvendo o que faz parte ou não do veganismo, mas algumas delas surgem normalmente por interpretações equivocadas ou pessoais do que é ser vegano, e também pela tentativa ou interesse de vincular bandeiras ideológicas com as quais nem todos os veganos concordam.

Sendo assim, acho importante considerar o que a Vegan Society, pioneira e fundadora do veganismo como conhecemos hoje, diz sobre o que é ser vegano e o que é preciso ter em mente para adotar essa filosofia de vida. De acordo com a entidade, o veganismo é um estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais. Ou seja, veganos não são pessoas perfeitas, mas sim pessoas se empenhando em fazer alguma diferença.

A definição vai ao encontro da proposição feita por Leslie J. Cross em 1949. Ele sugeriu que a bandeira da Vegan Society deveria ser o princípio da emancipação dos animais subjugados pelos seres humanos. Ou seja, defender o fim do uso de animais como alimentos, commodities, atividades laborais, caça, vivissecção e as demais atividades que envolvem exploração animal.

Em 1979, a Vegan Society divulgou uma atualização dos objetivos do veganismo, citando que, além da alimentação e do vestuário livre da exploração animal, e da oposição aos produtos testados em animais, o veganismo também visa a promoção do desenvolvimento de alternativas que beneficiem humanos, animais e o meio ambiente – como vemos tantos veganos fazendo hoje em dia. A compaixão é apontada pela entidade como uma das principais razões pela escolha dessa filosofia de vida com viés moral e ético.

Outra informação a se considerar é que para a Vegan Society ninguém é mais ou menos vegano pelas suas preferências alimentares – seja “junk food” ou crudivorismo. O mais importante é não consumir alimentos de origem animal – todos os tipos de carnes (inclusive peixes, mariscos e insetos), além de laticínios, ovos e mel.

A compaixão é apontada pela entidade como uma das principais razões pela escolha dessa filosofia de vida (Foto: Animal Fair)

“Há uma versão de veganismo para todos os gostos”, declara a entidade. Além disso, a Vegan Society reconhece a alimentação vegana como dieta vegana, logo não é errado quando alguém fala em dieta vegana em vez de dieta vegetariana. O diferencial está no fato de que ser vegano não se resume à dieta. “Em termos dietéticos, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados, total ou parcialmente, de animais”, registrou a entidade na seção de Memorandos e Artigos em 1979.

E embora alguém possa ver a exclusão de ingredientes de origem animal como um sacrifício, é importante ter mente que o veganismo abre um mundo de possibilidades alimentares. “Uma dieta vegana é rica em diversidade, e compreende todos os tipos de frutas, vegetais, castanhas, grãos, sementes, feijões e legumes – que podem ser preparados em infinitas combinações que assegurarão que você nunca fique entediado. Todos os seus alimentos, pizzas, bolos, podem ser adaptados para uma dieta vegana”, explica a Vegan Society.

Muitos acessórios, maquiagens e itens de limpeza e higiene pessoal costumam ser testados em animais, então a recomendação é que os veganos não comprem esses produtos. “Felizmente, hoje em dia existem alternativas acessíveis”, enfatiza a Vegan Society. Também é importante não dar suporte à exploração de animais em zoológicos, aquários e em corridas. Ou seja, não visite locais que usem animais como entretenimento. “Uma ótima alternativa é visitar e apoiar santuários que fornecem abrigo seguro e amoroso para animais resgatados”, sugere a entidade.

Outro assunto bastante discutido entre veganos diz respeito ao consumo de medicamentos. A Vegan Society não recomenda que ninguém evite remédios prescritos por médicos, argumentando que um vegano morto não é bom para ninguém: “O que você pode fazer é pedir ao seu médico ou farmacêutico para fornecer, se possível, um medicamento que não contenha produtos de origem animal como gelatina e lactose.”

Saiba Mais

A Vegan Society foi fundada em Birmingham, na Inglaterra, em novembro de 1944.

Considerações

Há quem diga que o veganismo já existia antes da Vegan Society, mas nisso creio que existe um equívoco. Há centenas, e até milhares de anos, tivemos pessoas e grupos que realmente eram contrários à exploração animal e contribuíram bastante para a discussão em torno do vegetarianismo e do que viria a ser o veganismo. Porém, os direitos animais como conhecemos hoje só começou a ser defendido nos moldes atuais com a Vegan Society.

Referências

https://www.vegansociety.com/go-vegan/definition-veganism
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Written by David Arioch

April 6th, 2017 at 2:49 pm

Donald Watson: “Podemos ver claramente que a nossa civilização atual foi construída sobre a exploração animal”

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“O maior erro do homem é tentar transformar-se em carnívoro, contrariando a lei natural”

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Donald Watson tornou-se vegetariano aos 14 anos, em 1924 (Foto: Vegan Society)

Não é possível dizer até que ponto o carpinteiro britânico Donald Watson é conhecido no mundo todo. Na realidade, nem ele tinha ideia se muitas pessoas sabiam ou não quem ele realmente era, até porque nunca se importou tanto em receber qualquer crédito. No entanto, verdade seja dita, Watson foi o responsável pela criação do termo “vegan” e pela fundação da Vegan Society, entidade que definiria os objetivos do veganismo a partir da década de 1940.

Donald Watson nasceu em Mexborough, South Yorkshire, em 2 de setembro de 1910. Sempre que concedia alguma entrevista, ele fazia questão de dizer que as primeiras lembranças de sua infância remetiam às férias na fazenda do seu tio George. “Todos ‘davam’ algo: o cavalo puxava o arado, as vacas ‘davam’ leite, as galinhas ‘davam’ ovos e o galo era um útil ‘despertador’.  As ovelhas ‘davam’ lã, mas elas pareciam criaturas tão amigáveis – sempre contentes em me ver. Então chegou o dia em que um dos porcos foi morto. Ainda tenho lembranças vívidas de todo o processo – incluindo os gritos, é claro”, relatou a George D. Rodger, autor do livro “Vegan Passport”, em 15 de dezembro de 2002.

Watson ficou chocado quando viu que seu tio George, a quem tinha em alta estima, fazia parte da equipe de abate. Aquele cenário bucólico que marcou sua infância passou a ser visto por ele como um corredor da morte, onde criaturas inocentes eram executadas quando suas vidas já não tinham valor para os seres humanos. E diante desse sentimento, Donald sentiu-se sozinho porque seus pais, avós, 22 tios e tias, seus 16 primos, professoras e até o vigário reconheciam aquela prática como “natural”.

“Eu tinha 14 anos [quando me tornei vegetariano]. Fiz uma resolução de Ano Novo de não comer carne ou peixe novamente [em 1924]. Eu não conhecia outro vegetariano na cidade onde eu vivia. Em pouco tempo, meu irmão e minha irmã tornaram-se vegetarianos. Eu me sentia bem. Nós não fumávamos nem consumíamos álcool também”, disse em entrevista a Joe Connelly, da Veg News, em 1995.

Quando saiu da escola aos 15 anos, se tornou aprendiz de carpinteiro de um de seus tios, até que aos 21 anos viu a Inglaterra amargar as consequências da Grande Depressão, considerada a maior recessão econômica do século 20. À época, Watson descobriu que ele poderia atuar como professor de carpintaria, bastando apenas ser aprovado em um exame de qualificação da City and Guilds, sediada em Londres. “Gostei tanto do trabalho que nunca tentei obter qualquer tipo de promoção”, informou.

Depois de tornar-se professor aos 20 anos, ele deu aulas em Leicester e ingressou na Leicester Vegetarian Society. Um amigo permitiu que Watson usasse um de seus terrenos para fazer uma horta, até que conseguiu um emprego em Keswick, além de uma casa com um acre de jardim – um sonho tornado realidade. “[Como já fazia naquela época] Meus baldes de compostos estão [sempre] cheios de todos os tipos de ervas daninhas, mudas de relva, resíduos vegetais de jardim e folhas mortas – não há estrume animal. A propósito, toda minha escavação é feita com garfo, não uma pá, porque quero preservar as minhocas”, declarou a George D. Rodger em 2002.

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Donald e Dorothy Watson, pioneiros do veganismo (Foto: Vegan Society)

Depois de lecionar carpintaria por três anos, fixou residência em Cúmbria, no Norte da Inglaterra. Donald Watson se casou com Dorothy, uma jovem gaulesa que o ensinou um ditado que faria toda a diferença em sua vida: “Quando todo mundo estiver correndo, fique parado.” E foi o que ele fez. “Há tantas pessoas correndo para o que eu vejo como um suicídio, seguindo hábitos perigosos. Sempre acreditei que o maior erro do homem é tentar transformar-se em carnívoro, contrariando a lei natural”, criticou.

Em agosto de 1944, Watson reuniu cinco vegetarianos estritos, incluindo sua esposa Dorothy, no Attic Club, em High Holborn, Londres, para discutir sobre a criação da Vegan Society, uma entidade fundada em novembro do mesmo ano e que teria como objetivo defender e divulgar uma filosofia de vida totalmente contrária à exploração animal. Watson se incomodava com o fato de que muitos vegetarianos da época se alimentavam de ovos e laticínios.

A sua iniciativa gerou controvérsias. Inclusive algumas pessoas declararam à época que não acreditavam que ele sobreviveria seguindo o que eles consideravam uma “dieta tão restrita”. No editorial da primeira edição do boletim informativo “Vegan News”, editado pela Vegan Society, ele escreveu:

“Podemos ver claramente que a nossa civilização atual foi construída sobre a exploração animal, assim como as civilizações passadas foram construídas sobre a exploração de escravos, e acreditamos que o destino espiritual do homem é tal que, com o tempo, ele verá com horror a ideia de que homens foram alimentados com produtos baseados nos corpos dos animais.”

Watson dizia que caso ele não tivesse fundado a Vegan Society, provavelmente outra pessoa teria feito isso, embora talvez com um nome diferente. Mesmo tendo boas expectativas em relação ao veganismo, o professor de carpintaria não chegou a imaginar que um dia quase todos os dicionários do mundo incluiriam a palavra “vegan”, uma versão reduzida de “vegetarian”. “Ela tornou-se parte da nossa linguagem”, comemorou em entrevista a George D. Rodger em 2002.

Questionado em 1995 pelo editor Joe Connelly, da Veg News, sobre a inspiração para o termo “vegan”, Donald Watson sorriu e brincou que foi um “fio de inspiração que veio do ar e se chocou contra ele”. “Pensei bem, VEE-gan, isso é uma palavra forte. A única crítica que recebi foi de um sujeito proeminente no movimento vegetariano – Jon Wynne-Tyson [escritor e ativista]. Ele dizia que não gostava porque soava como se fosse [uma referência à] habitantes de outro planeta”, relatou.

Para Watson, a sua maior realização foi ter o privilégio de ter servido como um instrumento no início de um grande movimento que, segundo ele, deu mostras de que tem condições de mudar o curso das coisas para a humanidade, permitindo que os seres humanos tenham maiores chances de sobrevivência e possam viver por muito mais tempo.

“Watson expandiu sua filosofia de se opor a qualquer dano às criaturas vivas. Um pacifista comprometido ao longo de sua vida, Watson registrou sua objeção consciente à Segunda Guerra Mundial”, escreveu Jenny Booth no TheTimes, de Londres, em 8 de dezembro de 2005. Seu irmão e sua irmã também tornaram-se veganos e se manifestaram contra a guerra.

Embora nunca tivesse sido profundamente religioso, o fundador da Vegan Society se considerava agnóstico, e defendia que se Jesus Cristo era um essênio, como afirmam alguns teólogos, ele era vegano. “Se ele estivesse vivo hoje, seria um propagandista vegano, espalhando a mensagem da compaixão”, declarou a George D. Rodger.

Donald Watson, viveu os seus últimos anos de vida em Cúmbria, atuando como guia turístico e dedicando-se à produção de vegetais orgânicos, segundo informações do artigo “Donald Watson – Founder of veganism and the Vegan Society”, de Phil Davison, publicado em 24 de novembro de 2005. “Inevitavelmente, suponho que, nos próximos dez anos, não poderei acordar. E então? Haverá um funeral, um punhado de pessoas e, como [George Bernard] Shaw previu para o seu próprio funeral, haverá os espíritos de todos os animais que nunca comi. Nesse caso, será um grande funeral”, inferiu. Donald Watson faleceu aos 95 anos em 16 de novembro de 2005.

Referências

https://www.vegansociety.com/sites/default/files/DW_Interview_2002_Unabridged_Transcript.pdf

http://vegnews.com/articles/page.do?pageId=866&catId=5

http://ukveggie.com/vegan_news

Davison, Phil. Donald Watson – Founder of veganism and the Vegan Society. The Independent. Londres (24 de novembro de 2005).

Booth, Jenny. Donald Watson. The Times. Londres (8 de dezembro de 2005).

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Written by David Arioch

March 8th, 2017 at 8:53 pm

Sobre textos que tentam desqualificar o veganismo

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Watson via o veganismo como uma forma de reparação moral e ética em relação ao tratamento que os seres humanos dispensam aos animais (Foto: Reprodução)

Acredito que muita gente tem lido e compartilhado dois textos que desmerecem o veganismo. Um deles se chama “Os Veganos e os Vegetarianos acreditam que não matam animais mas isso não é verdade”, publicado pelo Pensador Anônimo, e o outro é intitulado “O Mito do Veganismo”, publicado pelo blog Kataklysma, que se autointitula de ecologia radical e anticivilização. A fonte original do segundo é o blog Matar o Morir Ediciones.

Os dois seguem uma linha de raciocínio que se distanciam no decorrer de cada texto. O primeiro apresenta uma perspectiva obtusa em relação ao veganismo e bem-estarista em relação aos animais. Já o segundo, ao mesmo tempo que desqualifica o veganismo, propõe logo de cara uma transformação extremamente estoica e utópica para o momento atual, que mais parece saída de um filme de ficção científica.

Só para resumir, na minha opinião o maior equívoco desses dois textos é afirmar que o veganismo já começa errado quando fala que é uma filosofia de vida que exclui todas as formas de exploração e crueldade para com o reino animal. Não, não é exatamente isso que fala a Vegan Society.

Ela fala de buscar excluir, se esforçar para evitar todas as formas de exploração. Versa sobre a contribuição de cada um para reduzir cada vez mais a exploração, e tudo dentro das nossas possibilidades. O veganismo em essência nunca foi um movimento radical, muito pelo contrário, é um movimento pró-vida, e movimentos pró-vida nunca são radicais. Quem tem dúvidas disso, é só estudar a vida de Donald Watson, fundador da Vegan Society, o criador do veganismo como conhecemos hoje.

Ele era um sujeito bastante sociável, que simplesmente acreditava que os animais têm o direito de partilhar da mesma justiça dos seres humanos. Sim, ele foi um humanista antes de ser vegano. E quando alguém que discursa sobre isso vem com papo de anticivilização, já é possível perceber que há um nível desconcertante de incoerência conceitual.

Watson via o veganismo como uma forma de reparação moral e ética em relação ao tratamento que os seres humanos dispensam aos animais. Era alguém com um peculiar senso de justiça, não uma pessoa radical que disseminava um discurso totalmente fora da realidade como os detratores do veganismo tentam pincelar.

Como sempre digo, e acho que meu raciocínio vai ao encontro do que preconizava Donald Watson: “Minha prioridade é proporcionar o menor impacto possível aos seres vivos enquanto eu viver, e vou me adaptando às novidades sem problema algum.”