Archive for November, 2016
“Fazia muito tempo que eu não encontrava nenhum grego ortodoxo”
Andando pelo centro de Paranavaí, agachei para amarrar o cadarço do meu tênis, uma pessoa passou e jogou uma nota de R$ 2 e algumas moedas em minha direção. Vai entender. Mais tarde, quando saí da academia e atravessei a rua, uma senhorinha acompanhada da neta, me parou perto do Rotary. Pensei que ela estava perdida ou queria alguma informação, mas me enganei.
Ela pediu para segurar as minhas duas mãos. Reconhecendo seu olhar de ternura, consenti na hora. No mesmo instante, a senhorinha balançou minhas mãos e disse o seguinte: “Olhe esse moço, minha neta! Fazia muito tempo que eu não encontrava nenhum grego ortodoxo nesta cidade. Não estou nem acreditando! Adonai Echad, meu filho!”
20 de outubro de 2016.
A quitanda e o Barba Azul
Passei na quitanda para comprar brócolis, repolho, alface e couve-flor. Selecionei quatro unidades e fui diretamente ao caixa. Quando os coloquei sobre o balcão, um homem disse: “Você é o Barba Azul?” Respondi: “Sou Sim! Isso mesmo! Como você sabe?” E ele continuou: “Percebi quando sua barba começou a magnetizar a alface.”
Entrei na brincadeira e comentei que ela faz isso só quando está com fome. O cara riu e perguntou: “Faz quanto tempo que você não corta essa barba?” Contei que estou deixando a barba crescer desde janeiro de 2016. “Sua barba cresce bem rápido. Também tenho a barba fechada. Só por causa dessa barba, vou te dar um desconto.” Graças à minha barba, que já merece um nome, o brócolis saiu pela metade do preço.
11 de novembro de 2016.
A barba cor de piche
Em uma clínica, um homem também barbudo fitou-me à distância. Não demorou, ele se aproximou e sentou ao meu lado. Enquanto eu observava uma réplica de um quadro de Marcel Duchamp, o sujeito disse bom dia e perguntou: “Meu rapaz, como você pode ter uma barba tão cor de piche desse jeito? Eu estava olhando ali e…nossa! Sua barba chamou minha atenção! Parecia um ser vivo! Você pinta? Se pinta, me diga aí onde arrumo um pouco dessa tinta cor de piche.”
10 de novembro de 2016.
Eu e o Papai Noel
Me ligaram avisando que o Robson, um garoto de 14 anos da Vila Alta, foi expulso da casa da avó e estava na rua. Então fui até lá procurá-lo. Depois de percorrer algumas ruas do bairro, encontrei alguns garotos jogando bola descalços na rua, com dois golzinhos feitos com tijolos. Perguntei se eles viram o Robson. Um deles me respondeu que ele saiu para buscar gasolina para o seu tio. “Ele está ficando na casa do tio dele”, disse Vitor. Aproveitei e pedi para eles falaram ao Robson para me ligar que quero saber como ficou a situação dele.
Não demorou, e um garotinho sem camiseta se aproximou da janela do meu carro e comentou sorrindo: “Eu te conheço….Sim…eu te conheço. Papai Noel, gente! Papai Noel! O que você vai me trazer de presente? Quero brinquedo, Papai Noel” Então eu expliquei que eu já tinha conversado com ele, mas na época eu não usava barba. Ele só ficava rindo e chamando outras crianças, provavelmente dez, para verem minha barba de perto. Saí de lá já assumindo um compromisso de Natal enquanto eu partia e a molecada gritava: “Tchau, Papai Noel! Volta logo!”
10 de novembro de 2016.
“Aquele rapaz deve ser turco”
Assim que saí da academia, passei no mercado e fui até a seção de frutos secos. Comecei a analisar pacientemente o damasco e as tâmaras secas. De repente, ouvi uma moça conversando com uma amiga. Elas pareciam cheias de dúvidas, a julgar pelo tom de voz, que não era tão baixo. Logo uma delas falou para a outra, como se eu fosse incapaz de ouvi-las: “Aquele rapaz deve ser turco. Pergunte pra ele se aquele figo branco seco é autêntico mesmo.”
9 de novembro de 2016.
Gurus da internet
Tenho receio desses gurus que povoam a internet hoje em dia, fazendo promessas de rápidas transformações estéticas e de saúde. Muitos deles buscam fama e retorno financeiro. Acredito que o ser humano precisa conhecer mais o próprio corpo, seu organismo….tentar entender melhor sua relação com si mesmo e as consequências de seus atos. Tenha disciplina. Não existe caminho fácil, mas seja paciente, persista. Além disso, não vejo como pode ser justo seguir alguém que precisa desprezar algo ou alguém para se promover.
Licença poética
Volta e meia, vejo pessoas “corrigindo” expressões usadas por escritores em crônicas, poemas, contos e outros tipos de textos literários. Existe algo chamado licença poética que permite que o escritor escreva inclusive errado, se ele quiser e isto estiver de acordo com a mensagem que ele quer transmitir. Dias atrás, em um texto que publiquei, uma pessoa entrou no meu blog para “corrigir” uma expressão usada por Saramago. Oi? É preciso entender que a literatura não tem obrigação em ser normativa. Ela pode ser, o que é bem diferente.
No centro e no mercado
Dias atrás, no centro, bem na esquina da Avenida Paraná com a Rua Souza Naves, uma cigana começou a balançar as pulseiras e gritou, me chamando de “wortako”. Olhei receoso, indeciso sobre parar ou não. Quando segui adiante, ela veio em minha direção, ameaçando segurar minha mão.
Fiquei tão surpreso que acabei sem reação, com os pés interrompidos. A cigana olhou bem nos meus olhos duas ou três vezes, alternando toques e esfregões na palma da minha mão direita. De repente, levou a mão à boca e disse: “Você não é filho do Tayrone?” Respondi que não, ela soltou minha mão e gritou: “Che chorrobiya! Che chorrobiya! Seu mentiroso! Mentiroso! Eu conheço a sua família!” Enquanto ela balançava as pulseiras, me afastei a passos rápidos.
Um pouco mais cedo, fui ao mercado. Na seção de grãos, peguei um pacote de farinha de trigo para quibe, de uma marca que até então eu não conhecia, e comecei a ler a lista de ingredientes e outras informações complementares. De repente, uma mulher se aproximou e disse: “Aposto que até você que come muito quibe está estranhando o preço, não?”
6 de novembro de 2016.
Sobre textos que tentam desqualificar o veganismo

Watson via o veganismo como uma forma de reparação moral e ética em relação ao tratamento que os seres humanos dispensam aos animais (Foto: Reprodução)
Acredito que muita gente tem lido e compartilhado dois textos que desmerecem o veganismo. Um deles se chama “Os Veganos e os Vegetarianos acreditam que não matam animais mas isso não é verdade”, publicado pelo Pensador Anônimo, e o outro é intitulado “O Mito do Veganismo”, publicado pelo blog Kataklysma, que se autointitula de ecologia radical e anticivilização. A fonte original do segundo é o blog Matar o Morir Ediciones.
Os dois seguem uma linha de raciocínio que se distanciam no decorrer de cada texto. O primeiro apresenta uma perspectiva obtusa em relação ao veganismo e bem-estarista em relação aos animais. Já o segundo, ao mesmo tempo que desqualifica o veganismo, propõe logo de cara uma transformação extremamente estoica e utópica para o momento atual, que mais parece saída de um filme de ficção científica.
Só para resumir, na minha opinião o maior equívoco desses dois textos é afirmar que o veganismo já começa errado quando fala que é uma filosofia de vida que exclui todas as formas de exploração e crueldade para com o reino animal. Não, não é exatamente isso que fala a Vegan Society.
Ela fala de buscar excluir, se esforçar para evitar todas as formas de exploração. Versa sobre a contribuição de cada um para reduzir cada vez mais a exploração, e tudo dentro das nossas possibilidades. O veganismo em essência nunca foi um movimento radical, muito pelo contrário, é um movimento pró-vida, e movimentos pró-vida nunca são radicais. Quem tem dúvidas disso, é só estudar a vida de Donald Watson, fundador da Vegan Society, o criador do veganismo como conhecemos hoje.
Ele era um sujeito bastante sociável, que simplesmente acreditava que os animais têm o direito de partilhar da mesma justiça dos seres humanos. Sim, ele foi um humanista antes de ser vegano. E quando alguém que discursa sobre isso vem com papo de anticivilização, já é possível perceber que há um nível desconcertante de incoerência conceitual.
Watson via o veganismo como uma forma de reparação moral e ética em relação ao tratamento que os seres humanos dispensam aos animais. Era alguém com um peculiar senso de justiça, não uma pessoa radical que disseminava um discurso totalmente fora da realidade como os detratores do veganismo tentam pincelar.
Como sempre digo, e acho que meu raciocínio vai ao encontro do que preconizava Donald Watson: “Minha prioridade é proporcionar o menor impacto possível aos seres vivos enquanto eu viver, e vou me adaptando às novidades sem problema algum.”
Levando um calango para passear
Sem querer, levei agora um animalzinho, que provavelmente desceu de alguma árvore, para dar uma volta de carro. Tive que sair rapidamente e na primeira esquina notei um calango se movendo sobre o centro do capô. Parecia bem tranquilo. Só mostrava a linguinha.
Quando cheguei ao meu destino, ele encostou a cabeça no capô e assim ficou, até eu ligar o carro novamente. Então retomou a posição anterior. Em momento algum ameaçou descer do carro ou se esconder. Só quando cheguei em casa e coloquei o veículo na garagem que percebi que ele se escondeu. Ainda consegui tirar uma foto para mostrar o calango que gosta de sentir o vento sobre o capô.
