David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for November, 2016

“Ué, mas nem parece!”

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Saindo da academia, notei que o pneu dianteiro esquerdo do carro começou a fazer um barulho estranho. Desci, olhei e não percebi nada. Então decidi passar em um posto para calibrar os quatro. Enquanto calibrava, vi que havia um parafuso gigante cravado no pneu, embora não houvesse nenhum vazamento.

Então dirigi até uma borracharia na Avenida Tancredo Neves. Chegando lá, enquanto o borracheiro separava a roda do pneu, ele perguntou: “Você é fisiculturista?” “Você é lutador?” Você é professor de educação física?” Respondi não para as três inferências.

Cheio de tentar adivinhar, o borracheiro continuou: “O que tu faz afinal? Parcimonioso, contei que sou jornalista. Ele prontamente emendou: “Ué, mas nem parece!” Pois é…

A desinformação a serviço da indústria da carne

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Como achar normal a criação de 70 bilhões de animais terrestres em todo o mundo? (Foto: Reprodução)

Há muito tempo, somos bombardeados com propagandas que vendem a ideia de que somos incapazes de sobreviver sem alimentos de origem animal. Certo! O que dizer de povos que nunca se alimentaram de animais, chegando a viver mais de 100 anos? Entrevistei há alguns anos um senhor vegetariano que à época tinha 95 anos, e ele não morava em nenhuma aldeia. Vivia na minha cidade, mas optou por se tornar vegetariano em 1925, aos oito anos de idade.

O que vemos o tempo todo são criações de ofertas desnecessárias e falsas demandas motivadas pela ganância. Como achar normal a criação de cerca de 70 bilhões de animais terrestres em todo o mundo, sendo que temos uma população mundial de sete bilhões de pessoas? Para que tudo isso? Ainda mais ponderando que em menor ou maior proporção esses animais passarão por privação ou sofrimento.

Ademais, a pecuária contribui com as mudanças climáticas, inclusive sendo apontada como uma das principais causas do desflorestamento da Amazônia. De acordo com a diretora executiva da ONG Food & Watch, Wenonah Hauter, quem se beneficia e faz lobby para esse sistema são os maiores produtores de alimentos, que também são os maiores produtores de carne.

Quando suas empresas crescem e eles enriquecem, normalmente usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos. Ou seja, tudo que as pessoas consomem de origem animal não é consequência de reais necessidades, mas sim de investimentos massivos em propaganda.

Desde o princípio do século 20, isso tem sido feito de forma muito bem elaborada, para que as pessoas acreditem que não há outro caminho, quando na realidade essa mudança depende apenas de um pouco de esforço e de vontade de lutar por um mundo melhor, e não apenas para nós mesmos.

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Barbas e olheiras

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Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, conversando com o artista Henrique Moura

Barbas e olheiras – Os homens que não dormem. Eu e meu brother Henrique Moura. Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, onde o artista e criador do icônico Predo Bandeira (seu alter ego) dedica seu dia e sua noite a produzir vídeos independentes de animação.

Muitas referências, muitas colagens e muita coisa autoral da mais alta qualidade. O encontro rendeu horas de papo sério, bobagens e muito café. Disso aí vai sair uma narrativa veloz, intensa e reveladora.

Para quem quiser conhecer o cinema independente de animação da Oficina Raspa Língua, acesse: http://raspalingua.com/site/

Written by David Arioch

November 23rd, 2016 at 1:29 am

Um dos momentos únicos do Femup

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Altair Cirilo, Eder Rodrigues, Gislaine Pinheiro e eu (Acervo: Eder Rodrigues)

18 de novembro – Um dos momentos únicos do Femup, o festival de música, poesia e contos mais antigo do Brasil, que já passou dos 50 anos.

Mais uma vez, tive o privilégio de reencontrar e conhecer artistas de todas as regiões do Brasil.

Na foto, depois de mediar um bate-papo literário com os autores, eu (à direita) com a atriz e declamadora Gislaine Pinheiro e com os escritores Eder Rodrigues e Altair Cirilo. Ou seja, eu e três feras que fazem da cultura uma bandeira de luta.

Leandro Karnal: “Os vegetarianos são insuportáveis”

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“Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não”

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Karnal compara os direitos dos animais com os direitos das cenouras (Foto: Reprodução)

Está disponível no YouTube uma palestra do professor Leandro Karnal intitulada “Os Novos e os Velhos Pecados”. Em um determinado momento, o historiador diz que “Os vegetarianos são insuportáveis. Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não.” Quando você compara um animal com uma cenoura, você está querendo dizer que um animal sofre tanto quanto uma cenoura, ou seja, há uma banalização do sofrimento e da violência. Agora imagine o que isso pode representar na cabeça de um jovem que já não gosta muito de animais.

Bom, achei uma pena vê-lo fazendo esse tipo de comentário satírico e sem embasamento, ainda mais levando em conta que ele costuma viajar pelo país ministrando palestras sobre moral e ética. Pelo jeito, ele precisa estudar sobre direito animalista, que também versa sobre moral e ética. Karnal costuma citar filósofos gregos em suas palestras, e parece-me que ele não sabe que era comum entre eles uma alimentação isenta de carne, e por uma questão moral – o que contrapõe sua observação mais do que irônica.

Em seus artigos e palestras, também há inúmeras citações a Arthur Schopenhauer. Creio que se ele conhecesse profundamente o trabalho do filósofo alemão jamais teria ignorado o fato de que Schopenhauer escreveu que animais não são artigos fabricados para o nosso uso, de acordo com informações da página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2 .

Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos.

Schopenhauer via isso como um tipo frequente de moralidade de conveniência. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.

“É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.

Seria mais honesto o historiador Leandro Karnal dizer: “Dane-se os animais e os vegetarianos”, que parece ser o que ele pensa, mas não fazer piadas sobre pessoas simplesmente por serem vegetarianas. É curioso reconhecer que já vi ele falando de moralidade e citando Tolstói. Provavelmente ele não sabe que o autor de “Guerra e Paz” e “O Primeiro Passo” era vegetariano.

A segunda obra que citei, publicada pela primeira vez em russo em 1883, fala justamente da nova concepção moral que Tolstói alcançou com o vegetarianismo. Então observo com certo pesar quando alguém discorre sobre moralidade e faz chacota do vegetarianismo, já que a moralidade vegetariana preza pelo bem-estar animal. Ou seja, tenta expandir a compreensão ética e moral para além daquela que abarca somente seres humanos.

Não é a primeira vez que vejo o Karnal cometendo esse tipo de deslize. Uma vez, quando assisti uma de suas palestras, ele confundiu esteroides anabolizantes com vitamina ADE, e usou a imagem de um rapaz para abordar o tema. Ou seja, é importante termos o cuidado de não abordarmos assuntos sobre os quais não temos conhecimento. Também é ético não expor pessoas à situação vexatória, mesmo que por meio de imagens.

Resposta de Leandro Karnal em que ele confunde veganismo com especismo (Imagem: Reprodução)

Resposta de Leandro Karnal em que ele confunde veganismo com especismo (Imagem: Reprodução)

O problema na atualidade é que há pensadores falando sobre assuntos que desconhecem. Seria muito mais interessante e proveitoso para todos se eles se preocupassem basicamente em transmitir informações sobre aquilo que estudaram e sobre o qual desenvolveram um raciocínio valorosamente crítico.

Algumas pessoas me disseram que o Karnal não disse nada de mais ao fazer piada sobre vegetarianos e os direitos animais, já que ele defende, mesmo que sem argumentos, o ponto de vista dele. Bom, se ele tivesse um programa de stand-up, eu não me importaria com o que ele falou. A diferença é que ele é um formador de opinião que viaja pelo país discutindo sobre moral e ética. Ademais, direitos dos animais tem tudo a ver com moral e ética. Logo se ele vai falar alguma coisa sobre isso, é importante sim estudar sobre o assunto.

Além de desconsiderar meu texto e não apresentar argumentos, Karnal continuou debochando de todos que o questionaram sobre o vídeo em que ele satiriza vegetarianos e os direitos animais. Pelo jeito, o historiador não sabe que vegetarianos e veganos, que se recusam a se alimentar de animais por uma questão moral, naturalmente defendem inclusive o direito à vida dos insetos. Parece que houve uma confusão com um entendimento particularista de especismo. Uma pena, mas cada um conhece a sua própria consciência. 

“Se o problema é dor, bastaria dar sonífero para as vacas e matá-las ao som de Mozart, certo? Seria uma carne sem dor.” Muita sensibilidade vinda de alguém que discorre sobre filosofia. Ainda bem que na contemporaneidade tivemos e temos filósofos como Agostinho da Silva, Sônia T. Felipe, Peter Singer e Tom Regan, só para citar alguns, que foram e vão na contramão disso. Outro fato inesperado é que Leandro Karnal deletou os comentários de veganos e vegetarianos o questionando sobre o assunto.

Passagem em que Leandro Karnal ironiza vegetarianos e os direitos dos animais:

https://www.youtube.com/watch?v=ZAjKScwJvVc

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Bandido bom é bandido morto?

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Vocês nunca me verão reproduzindo o discurso “Bandido bom é bandido morto”, até porque penso que toda generalização é equivocada. Acompanho a realidade da periferia de Paranavaí de perto desde 2009. Nesse período, conheci muitas crianças e adolescentes que se afastaram do crime e das drogas graças à intervenção de voluntários, pessoas que decidiram ajudar em vez de criticar. Se ninguém tivesse feito nada, esses jovens teriam morrido, rendidos às drogas ou assassinados por desafetos, já que é mais comum a morte entre eles do que em confrontos com a polícia.

Na periferia de Paranavaí, a polícia costuma atuar de forma bastante consciente e são mais comuns e recorrentes os casos de prisões, não de mortes, o que acredito ser muito positivo. Ademais, falando no geral e baseando-me na minha própria experiência, quero dizer, de alguém que acompanha a realidade da periferia há quase sete anos, inclusive estudando e escrevendo sobre isso, posso dizer que a maioria das crianças e adolescentes que conheci e que se envolveram com o mundo do crime praticavam pequenos delitos. Creio que esse seja o momento mais crucial para fazer um trabalho de recuperação social.

Acredito sim que a mudança ainda é possível. Apostar todas as fichas no exercício máximo da violência, sustentada na premissa de que todo bandido deve ser morto, me parece radical demais, e não contempla todas as variáveis envolvendo a criminalidade no Brasil. Creio que a punição deve ter sempre o respaldo da lei, mesmo que ela ainda seja falha e precise de revisões. Há quem diga que crianças e adolescentes que se tornam bandidos merecem morrer, que entraram nesse caminho porque quiseram, mesmo consciente das implicações.

Bom, eu discordo. Minha contrariedade subsiste no fato de que quase todos os jovens delinquentes que conheci até hoje eram filhos de prostitutas, ladrões, usuários de drogas, traficantes ou foram criados nas ruas, sem família ou qualquer referência moral. Quando converso com jovens em bairros periféricos, percebo que muitas vezes o crime está tão naturalizado no universo deles, que eles têm dificuldade em ver isso como errado, mesmo que o preço a ser pago seja a prisão ou a vida. Eles encaram como uma aventura, um jogo de videogame, e veem suas próprias vidas como tão insignificantes que não se importam em se colocar em situação de alto risco.

“Se eu morrer ou ser preso, provavelmente ninguém vai sentir minha falta, então que assim seja”, já ouvi várias vezes de jovens com idade a partir de dez anos. Há um predomínio amoral, até pela falta de sólidas referências. O que posso dizer sobre isso? Por que não ir até a periferia da sua cidade e tentar contribuir de alguma forma em vez de reproduzir o discurso “bandido bom é bandido morto”? Não tenho dúvida alguma de que a sensação em contribuir para tirar alguém do mundo do crime ou das drogas é muito melhor do que aquela de comemorar a morte de um jovem desconhecido.

Written by David Arioch

November 20th, 2016 at 7:24 pm

Narcos X Escobar, El Patrón Del Mal

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As duas séries estão disponíveis na Netflix (Fotos: Divulgação)

Gostei da série Narcos, mas devo dizer que Escobar, El Patrón Del Mal me surpreendeu. A qualidade técnica e de elenco de Narcos é bem evidente, no entanto, a série colombiana se destaca pela fidedignidade à história de Pablo Escobar. Existe algumas falhas no elenco de Escobar, principalmente quanto à qualidade das interpretações, mas o trabalho de pesquisa dos colombianos é surpreendente.

O que também faz valer a pena assistir as duas séries são as contraposições de versões sobre um mesmo fato, além da dissonância no comportamento de inúmeros personagens. Só para citar um exemplo, a série colombiana, mais fiel à história real, mostra outra versão do relacionamento de Pablo Escobar com os guerrilheiros.

Penso que o que acaba atraindo menos atenção para El Patrón Del Mal é que a série tem estrutura de novela, logo é mais longa e muitos episódios acabam tendo um ritmo muito lento, inclusive decaindo para o melodrama. Se bem que isso não é de se estranhar, já que é uma característica da cultura televisiva latina. No mais, creio que uma série acaba por complementar a outra, embora Narcos tenha um roteiro bem mais ficcional do que Escobar, El Patrón Del Mal.

Written by David Arioch

November 19th, 2016 at 3:15 pm

Cortando o cabelo

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Depois de um bom tempo, fui cortar o cabelo. Sentei na poltrona e o camarada começou o seu trabalho com a maquininha e a tesoura. De repente, senti uma lâmina encostando sutilmente na minha barba. Fui tomado por calafrios e pensei comigo mesmo: “Nossa! Ele encostou a lâmina na minha barba. Por favor, não faça mais isso. Por favor!” Até senti minha barba se encolhendo naquele momento, parecia um tatu-bola na sua forma mais cabeluda. Juro que ela gemeu chorosa. Por um segundo, tive a impressão de ouvi-la me chamando para irmos embora: “Bora, David! Aqui não é lugar pra nós dois! Estão querendo nos separar!”

11 de novembro de 2016.

Written by David Arioch

November 16th, 2016 at 10:42 am

No porto de areia

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Na semana passada, fui até um porto de areia identificar uma área que nas décadas de 1930 e 1940 serviu como rota de fuga de peões e colonos. De repente, um senhor se aproximou e, provavelmente achando que eu tinha alguma relação com o porto de areia, me questionou: “Você que é das arábias, entendido do assunto, pode me dizer se essa areia realmente é de boa qualidade?”

26 de outubro de 2016.

Written by David Arioch

November 16th, 2016 at 10:33 am

A cabeça dura e seus privilégios

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Ter a cabeça bem dura tem seus privilégios. Saí da academia e, como não demoraria para o sinal do semáforo ficar verde, dei uma corrida até o outro lado da rua. O problema é que não vi uma placa na esquina e bati minha cabeça nela. Com o impacto, a placa chegou a envergar antes de voltar ao normal. Quando olharam para a minha barba, ninguém teve coragem de rir. Eu? Segui meu caminho com a cabeça intacta.

31 de outubro de 2016.

Written by David Arioch

November 16th, 2016 at 10:32 am