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O fim que não precisa parecer tão fim

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Pintura de Salvador Dali que retrata a velhice

Crepuscular Old Man, pintura de Salvador Dalí que retrata a velhice

Todos os dias observo um senhor alto, com mais de 70 anos, próximo à minha casa caminhando com um olhar melancólico e a cabeça desconfortavelmente afundada entre ombros largos e frágeis. Seu corpo é tão teimoso quanto uma criança travessa. Sei disso porque sempre o percebo titubeante ao se deparar com um meio-fio.

A ele parece um exercício doloroso o ato de se locomover. Sinto que se exaspera um pouco quando atravessa a rua em horário de grande movimento de veículos. Sei que ele não teria destreza para fugir caso um automóvel ameaçasse sua integridade física. E sempre me questiono:

“Ele um dia foi jovem, como terá sido sua juventude?” Não tenho como afirmar, mas suponho que não era um grande adepto de atividades físicas. Se o foi, desistiu muito cedo. Talvez não se preocupasse com a alimentação – o que não posso afirmar.

“Será que tinha vícios?” Também não sei, restando-me inferências, embora aquele senhor seja de uma época em que o consumo de álcool e tabaco simbolizava galhardia. Ademais, suponho que em algum momento da vida gozou de prazeres simples como subir em árvores e correr pelas ruas enquanto o vento lhe acariciava a face.

Penso que o fim da vida não precise parecer tão fim se não o desejarmos, se nos empenharmos para que a mente não se torne alheia ao corpo.

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Written by David Arioch

February 24th, 2016 at 10:40 pm

25 minutos na fila do hipermercado

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Na minha frente um homem jocoso de não mais que 40 anos aproveitava a lentidão

O garotinho apostou em duas mangas Tommy que o pai aceitou com um sorriso maroto

O garotinho apostou em duas mangas Tommy que o pai aceitou com um sorriso maroto

Em uma das minhas idas ao hipermercado, deixei o carro a quase 100 metros de distância da entrada. Tudo bem, afinal eram quase 18h de sábado. Ainda assim o estacionamento cheio já prenunciava uma curiosa exaustão de ânimos. Logo na entrada, um rapaz empurrando um carrinho em minha direção tentou disputar um estreito espaço entre dois carros com um senhor mais à frente. O resultado foi um choque de carrinhos que lançou ao chão pacotes, frascos, potes, sacolas e garrafas.

“Que isso, meu amigo! Pra que essa sangria desatada?”, questionou o homem de meia-idade. Por sorte, nada quebrou, mas nem por isso o jovem escapou de ouvir uma reprimenda daquelas que os pais dão nos filhos mais encapetados. Acuado pela vergonha, o rapaz abaixou a cabeça, levou as mãos ao rosto, se desculpou e ajudou o homem a recolher as compras e colocá-las no porta-malas.

No interior do hipermercado havia tanta gente entre algumas gôndolas que até hoje não sei se as pessoas se acotovelavam sem querer ou se queriam extravasar a raiva por causa dos preços nas etiquetas. Perto da seção de doces, uma criança risonha de não mais que sete anos aproveitou a distração dos pais para esconder um pacote de paçoca embaixo de um pacote de macarrão parafuso.

Depois que comprei tudo que precisava, caminhei até a seção de hortifruti, onde vi uma fila enorme para o caixa rápido à minha direita. Em forma de L, quase encostava na padaria. Ao longe se ouvia resmungos que pareciam zumbidos de abelha. “Isso aqui promete. Mas sem problema, é sábado mesmo”, pensei, mesmo ciente de que eu era uma exceção diante de uma maioria que interpretava aquilo como um desrespeito ao consumidor – e com razão.

Na minha frente um homem jocoso de não mais que 40 anos aproveitava a lentidão da fila e pedia ao filho de nove ou dez anos que buscasse alguns produtos. Numa dessas demandas, falou ao menino para ver o preço do limão-taiti a poucos metros de distância, à nossa esquerda. Perdido, o garoto não notou a placa diante de seus olhos e o pai disse: “Po, menino! Tá na sua frente aí o negócio! Olha pra cima!” Ainda confuso, o garoto de sorriso amarelo rodopiou e nada, atraindo risos abafados dos clientes. Até que se aproximou da placa e visualizou o valor.

“Pode trazer três desse aí”, avisou o pai após saber o preço. Com a demora e a fome, o garoto começou a percorrer as bancas com os olhos. Algumas frutas mais suculentas que outras instigavam sua imaginação. “Que delícia!”, dizia ele lambendo os beiços e admirando uma caixinha que trazia um modesto cachinho de uva niágara. Contente, se aproximou do pai, estendeu as mãos e mostrou o seu achado. “Pelo amor de Deus, você tá louco? 12 reais por um cachinho que dá pra engolir numa bocada? Nãããoooo, pode devolver!”, sentenciou. A reprovação do pai foi tão enfática que desvaneceu até a vontade de comer uva.

Então o garotinho apostou em duas mangas Tommy que o pai aceitou com um sorriso maroto quando soube que era dia de promoção. A criança também recebeu um olhar beneplácito ao depositar na cesta uma bandejinha de morango ao preço de R$ 2,99. “Agora esse menino tá aprendendo a viver e a não ser enganado”, suponho que refletiu o homem quando deu dois tapinhas no ombro do filho. Nos 25 minutos que fiquei na fila do caixa rápido, o pai que antes transportava uma cestinha já estava carregando duas. E assim a gerência do hipermercado agradece.

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A simplicidade como motivação existencial

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A Cor do Paraíso inspira emoção sem decair para o melodrama

Mesmo cego, Mohammad contempla as belezas do mundo (Foto: Reprodução)

Em 1999, o cineasta iraniano Majid Majidi lançou o filme Rang-e Khodã que chegou ao Brasil com o título A Cor do Paraíso. A obra, que inspira emoção sem decair para o melodrama, conta a história de um garoto cego que encontra nas pequenas coisas do cotidiano uma razão para viver.

Filme é protagonizado por Mohsen Ramezani (Foto: Reprodução)

Mohammad (Mohsen Ramezani) contempla as belezas do mundo e se sensibiliza com aquilo que passa despercebido pela maioria. Um exemplo é a sua reação diante da queda de um passarinho. O cineasta Majid Majidi explora o belo por meio de uma esplêndida fotografia. Em muitos momentos a câmera simboliza os sentidos e a idealização existencial de Mohammad. E mais, vai além da beleza física do cenário natural ao amplificar os sons da natureza e transportar o espectador para uma afiguração particular de paraíso.

No mesmo contexto está Hashem (Hossein Mahjoub), um pai tornado infeliz e melancólico que desde a morte da mulher encara o ato de cuidar do filho como uma penitência. A figura paterna, presa a um universo lúgubre e estático – o que é muito bem representado nas tomadas com a câmera parada, é fria e individualista; uma crua metáfora da hipocrisia em uma sociedade arbitrária. Exemplo é a decisão do personagem em se casar com uma jovem mulher e entregar o filho a um carpinteiro cego de quem o garoto deve tornar-se ajudante. Mohammad e o pai vivem realidades distintas que aos poucos se afunilam, tornando-se ainda mais conflitantes.

A princípio, Hashem se limita a assistir a alegria do filho em admirar a natureza. Mais tarde, a satisfação de Mohammad em contemplar o que não vê faz o pai sentir-se perturbado. Na história, uma das cenas mais tocantes, embora com certo caráter teológico, surge quando em um monólogo o pai questiona porque merecera um filho cego. Mais tarde, Mohammad se pergunta por qual razão fora castigado pela cegueira. As duas questões existenciais revelam certa sintonia quando pai e filho estão distantes.